quinta-feira, 16 de maio de 2013

Estou comovida. Pedi ajuda há tão pouco e já tenho um batalhão de voluntários para a minha causa. Flávia, Hugo, Bzuu, Rita, Luís, Pedro, Paula M., Cat, Teresa, Rui, Ana Paula, Tânia, Ivânia, Oliveirinha, Maria João: Sabem lá o quanto me aquecem a alma. O B R I G A D A. Quando me for abaixo das canetas, venho aqui ler isto e faço-me ao caminho de novo. 







Aquele abraço.

Necessitada do espaço e do tempo em que só a mim pertenço.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

«ACONTECER»


Até ao último fôlego reservou os primeiros momentos do acordar do dia, quieta, perscrutando a penumbra, envolvida num calor que não vinha dos cobertores, àquele que acontecera não lhe ter acontecido. 

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Junho de 2010.

OBRIGADA POR ME LERES. 

Alguém me ajuda a distribuir?


Muda o discurso, graças à boa amiga Maria João.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

LEITORES PROCURAM-SE.

A semana #10 está aí. - Não escrevo para a gaveta. Quero ser lida. (Em papel.) Todas as semanas distribuo um texto diferente por onde passo, na esperança que tu Leitor mo encontres. Nesta página vou deixando o rasto dos sítios onde os semeei. Aguardo resposta, qual náufrago lançando mensagem em garrafa ao oceano. Obrigada a todos quantos respondam ao apelo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Estive numa festa das palavras.



Foi bom demais...

«Depois, já aos quinze, mas com muita timidez Fiquei muito sem graça com o que a professora fez Ela pegou meu texto e leu pra turma inteira ouvir Até fiquei feliz mas com vontade de fugir Então eu descobri que já nasci com esse problema Eu gosto de escrever, eu gosto de escrever, crer, ver VER, CRER, eu gosto de ESCREVER e escrevo até poema.»


GABRIEL O PENSADOR (07/05/2013 no Tivoli)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Texto #9 «A Funcionária Pública»


«A funcionária pública»


Apresentava-se ao serviço às 9h31. Havia o real para digitar. Carecia de tempo e de espaço para a ficção. A dela, imaginada deveras, era mal sucedida. A pilhagem à vida alheia agradava e afigurava-se inverosímil. Quando a liam duvidavam dos factos, aplaudindo-os, desconsiderando o que lhe custara as entranhas a criar. Relevava a injustiça. Havia em si cansaço; dentro das meninges uma voz imperativa, qual matilha de cães latindo, quando não escrevia. Precisava de dinheiro: filhos para criar; necessidades elementares; - Noutras latitudes supérfluas. - Encargos. A certeza de não poder agredir outrem, com as omoplatas, sem que o peito lhe escurecesse. Cria na luz para criar. Uns apreciam a treva. Ela almejava escrevê-la, sem habitá-la. A angústia andava a alimentar-se da alegria de outrora. Consolava-se:

«É por agora. Terei tempo.»

Nunca tinha tempo. Despachava-se tarde dos miúdos, da louça, da roupa; da vida vivida apressada. A matilha enfurecia-se se ela se enrodilhava na fadiga, adiando.

«Amanhã…»

O porvir chegava a hoje e a mesma indolência a afagá-la. Tudo mais importante. Uma birra. Um colo. Gargalhadas bonitas. A limpeza. A arrumação. O aprumo. Os almoços confeccionados de véspera.

«Amanhã.»

O tormento crescia.

«Ladram tão alto estes cães.»

Ainda que acreditasse que haveria de ter tempo, a dúvida:

«Se morro? Que fiz por essa que também sou?»

«Que interessas, tu? Morre descansada. Fizeste o que te competia.»

«A voz? Estes cães? Lobos? Feras que investem garras e presas que me comem o fígado, os pulmões, o coração.»

«Que voz? Que feras? Enlouqueceste?»

«Esta que me ensurdece. Porque não se calam os cães? Não enlouqueci. Sou sã. Ainda. Acabarei louca?»

«Morrerás doente. Não há cura para o mal que te aflige.»

«Há.»

«Pouco importa. Ouve o relógio. Estás sem tempo.»

«Tê-lo-ia, não dormisse.»

«Tens de descansar.»

«Usasse a noite em meu proveito e talvez o silêncio, a paz. Não aguento mais.»

«Definharias.»

«Três, quatro horas de sono. Quanto baste.»

«Não sejas ridícula. Acorda.»

Ti ri ri ri ri. Ti ri ri ri ri.

8h37. Azáfama. 9h31 e o cartão de picar o ponto na mão. A morte às prestações registada, num aparelhinho pregado à parede. Continuou até ao intolerável. A voz: Incomplacente.

«Onde é que guardaste a caneta bordeaux? As folhas brancas onde estão?»

(Os tímpanos da alma a romper-se.)

Principiou trémula, o documento n.º 50 de 2011. Ousou furtar-se ao costumeiro “Vimos pelo presente ofício…”

«Era o dia primeiro do mês em que a decisão fora tomada. Inexorável. Havia tentado preveni-lo do que sucederia, contudo, ele fizera-se massa indefectível para que não o enchessem de desesperança. Era irremediável a situação em que se colocara. Falhara o prazo. Falta imperdoável que se lhe colara à epiderme das mãos. Devolveria o indevidamente recebido. Tê-lo-ia ajudado, estivesse ao seu alcance. Regras eram, todavia, torrentes contra as quais se sentia impotente para nadar, ou sequer manter o fôlego. Creia que há sempre quem se encontre a seu lado e o fim é, não raras vezes, recomeço. Perdoe o lugar-comum. Sem mais para lhe transmitir permita-me que o deixe a pensar onde errou, para que possa, em situação hipotética futura, errar melhor.»

Escolheu manter «Com os meus melhores cumprimentos» como se fora possível disfarçar o desvario. Chamaram-na ao oitavo andar. Ergueram a folha ao nível do seu nariz. Vociferaram. Devolveram a missiva. Limpou a ira alheia do sobrolho e regressou ao 7.º. Ordenaram-lhe que reescrevesse a missiva. Fê-lo com gana que desconhecia encerrar. Impregnou-o de melodia, limpou-o das banalidades. Remeteu-o à revelia da hierarquia superior. Chegara a casa, nessa tarde, leve. Considerava-se capaz de correr, tamanha a alegria. O peso que a gravidez lhe acrescentara refreou o impulso. Correspondeu ao que esperavam de si, no lar, com ânimo reforçado e os seus notaram que o seu sorriso reverberava. Não lho disseram. Não partilhavam o que se passava dentro. Persistiu, por tempo indeterminado, na desobediência e o seu Curriculum vitae permanecia incólume. Trabalhadora exemplar. Despedimento nenhum. A escrita cresceu-lhe. O trabalho diário permitia a evolução. A voz tornara-se meiga. Um cachorro amoroso. Afagava-lhe a consciência. Ela cumpria-se. «Morrerei pacificada.» Acreditava estar mais próxima de escrever Literatura. Não seria lida pelas massas, mas tal não a moía. Tinha um leitor de cada vez que redigia uma participação transformada, com enlevo, em arte. Chegou o dia em que a decisão foi tomada. Apareciam, em catadupa, as respostas ao empreendimento daquela funcionária pública. Não se tratava de cartas de reclamação, antes palavras de incredulidade e reconhecimento. Se por um lado se encontravam devastados pela culpa que lhes fora imputada e que os prejudicava. Por outro, a forma como lhes havia sido comunicado desprovia as respectivas sentenças de crueldade. Revelavam-se inábeis para contestar o que era, no mínimo, estranho. Vinham felicitar os serviços pela façanha e solicitar que, em situações de incumprimentos futuros, fossem notificados por aquela mulher, que se recusava a ser tratada por qualquer título. De nada lhe serviram os louvores. Tão-pouco o facto de ter inúmeros leitores entusiásticos. Foi despedida. Precisava de nova fonte de rendimento. Filhos para alimentar; necessidades primárias. - Noutras latitudes: luxos. - Comprometimentos. A crise instalara-se no País, uns anos antes daquele em que redigira o ofício cinquenta. Foi parar à Rua. Estendia a mão todos os dias úteis, das 9h31 às 17h32. Jamais ficou a dever horas.

A sua mendicidade soava a poesia.

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Maio de 2011. Revisão Maio de 2013. 


OBRIGADA POR ME LERES.


 9.º Texto a sair para a Rua.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

«Partiu-se»



Isabela ia na Rua, apressada. Distraída. Numa mão o saco com os livros que acabara de comprar na Livraria do Bairro. No braço oposto um casaco dependurado. Estugava o passo para contrariar o atraso. Tropeçou e caiu desamparada. Esfolou os joelhos com gravidade. Sangrava. As mãos também ficaram em mau estado. Os livros espalharam-se à sua volta. O casaco, então imundo, jazia na calçada. Não era a desordem exterior que a perturbava. O problema é que, ao cair, qualquer coisa dentro de si se quebrara. Sararam as mãos. Os joelhos. As articulações recompuseram-se. Aconteceu que nem tudo tivesse conserto. Desde aquela hora havia uma dor indefinível a comê-la por dentro. Lembrava-se de ouvir aos mais velhos, quando miúda: "Não morres da doença, há-de ser da cura." Habituou-se ao facto de que há coisas incuráveis e inoperáveis. Estão em locais inacessíveis ao bisturi. Resignou-se a viver com a mazela. Nunca mais usou saltos altos e caminha muito devagar, como quem não...

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Junho de 2009. Saiu pela primeira vez à Rua em 29 de Abril de 2013.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

«ESPERANÇA»


Todos os dias os espero no topo do parque. Tenho 49 anos. Estou velha. Não é por fora que o estou. É dentro. Velha. Ainda os espero. Eles vêm. Vêm velhos. Como eu. Dentro. Velhos por fora. Quase incapazes. Coxeiam entre arbustos. Outros novos. Alguns, quase crianças, podiam ser meus filhos. No início arranjava-me muito bem, como se fosse ao encontro do meu amor. Já não me esforço. Tenho o cabelo pintado de loiro. As raízes pretas indisfarçáveis. Se o deixasse da cor natural não seria branco, antes castanho muito escuro. Velha. Dentro. Não me importo de ter o cabelo mal pintado. Não me importo, é tudo. Quando comecei fantasiava o homem da minha vida ansioso de mim, dos meus beijos, no topo do parque, para passearmos de mãos dadas, ladeira abaixo. Corríamos felizes por essa, para em seguida subirmos pelo lado oposto. Atravessávamos os buxos simétricos, jogando um com o outro, esquivando-nos divertidos. Então, ele deixar-me-ia na paragem do autocarro e eu apanharia a carreira de volta a casa. Ainda cheirosa, cuidada, enlevada pelo nosso bem-querer. Ora isto era mesmo, mesmo no princípio. Antes da primeira vez que entrei num carro anónimo; antes do primeiro odor agoniante; do primeiro acto mecânico; muito antes da primeira violência que sofri. Não havia experimentado o desrespeito, o desprezo alheio, nem as frustrações feitas manipulação. Desleixei-me. De nada me serve fingir. Preciso do dinheiro. Poderia arranjá-lo de outras formas? Sim. Por que estou aqui? Não me lembro. Sei que não há tempo para namoros. Desiludi-me. Quis ser resgatada? Muitas vezes. Não aconteceu. Talvez não quisesse o suficiente. Acredito que aconteça a outras. Será possível, certamente. Comigo não. Perdi-me e ao brio, também. Fui bonita. Fui bonita. Fui bonita. Repito-o e nada diz de mim. Fui. Hoje vejo-me feia e velha. Deixei-me engordar e, se me apetecer, venho de chinelos de praia para o topo do parque. Visto-me muitas vezes, talvez todos os dias, como quem vai à praça, de aparência descuidada, num saltinho, ainda sem o banho tomado, para ganhar tempo ao dia que é curto. Para eles, tanto faz. Procuram-me mas a busca não é por mim. Mulher. Pessoa. Sou apenas um corpo qualquer. Um bem móvel. Um serviço. Se ausente, não esperam. Descem um pouco e encontram mais novas, bonitas, de outro género. O cheiro já não lhes sinto, nem me enojam os seus corpos demasiadas vezes imundos. Desleixados também eles. Não reparo que não tentem a conversa. Aqui trabalha-se. Tenho tempo para sonhar, longe. Onde moro e não suspeitam o que faço. Sabem de outra que também sou. A que vai, de facto, à praça. A que cuida dos filhos. Sozinha. A que sobrevive a custo. Um dia alguém me há-de ver, me há-de procurar e dir-me-á: “Vá, é tempo de deixares isto. Descansa.” Sonho. Alguém me mostre com carícias e ternura que não sou apenas a profissão. Não. Sou uma boa mulher. Corajosa. As mulheres que ganham a vida de outras formas passam por mim. Encaro-as. Elas fazem por não me ver. Disfarço o inegável. Ando uns passinhos para a frente, ou para trás, consoante a direcção de onde me aparecem. Como se houvesse outro rumo a seguir. Passam por mim aceleradas. Algumas pena. Outras desprezo. Dissimulam não perceber e passam rente, como se eu fosse uma aragem. Ignoram-me. Talvez os seus homens também se venham aqui. E eu mais velha, feia. Nada a dizer-lhes, mas disponível. Faço o que muitas recusam. Condenam-me porque posso ser a perdição. Nem todos querem usar preservativo. Faço-lhes a vontade. Receio? Tenho-o, mas o dinheiro faz falta. Se me nego eles descem e encontram quem não se importe com a saúde, ou com as vidas em que tocam. Só existo na minha morada. Aqui, neste bocado de passeio, onde se ouvem galos, não. Não existo para eles, para mim, antes não existisse para elas. Encostada ao alumínio do poste, sou uma mistura de expectativas. Minhas e dos que param para eu trabalhar.

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Abril de 2009, saiu pela primeira vez à Rua em Abril de 2013.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Letras de Canções

PROCUREM NO YOUTUBE. LEIAM A LETRA. «DRUNKEN SOLDIER. - Dave Matthews Band» É para todos que foi escrita.

«Fill up your head, fill up your heart and take your shot.»

«Fill up your head, fill up your heart, cause that's all we got, don't waste your time trying to be something you're not.»

«Shine your light while you got one.»

quarta-feira, 17 de abril de 2013

https://www.youtube.com/watch?v=zCFyYYTSOR4

Olhem que giro. (Tb hei-de mandar um texto numa garrafa - que não prejudique o ambiente - ao mar.) Agora, em vez de dizer "please don't waist your time on me" quero o oposto. Waist your time on my words please! Se encontrarem um papelinho - INSTRUÇÕES: a) desdobrar b) LER. Gostaram? Metem no bolso e seguem caminho. (a assobiar de preferência.) Não gostaram? Fazem aquele gesto com os dedos indicador e médio enfiados na boca, limpam a baba, voltam a dobrar e deixam noutro local, que não temos todos de gostar do amarelo. Boa?! Boa! OBRIGADA! Aquele abraço.
 
Youtube surripiado ao programa Canções de Auto-ajuda, na Vodafone FM.
Ontem o Francisco Melo disse-me, via mensagem, que encontrou um dos papelinhos. Fiquei muito contente. Pensei que não ia ter "feedback" da Rua. Que as pessoas não iam ligar. Que pegariam nos papelinhos e deitariam fora sem LER. Enganei-me. Aos poucos começo a ter o eco de quem não passa assim tão apressado pela vida e tem tempo para reparar nos pormenores. Obrigada aos que já responderam ao meu apelo de náufraga. Ontem recebi um e-mail que me deixou, igualmente, feliz. Partilho parte.

«Olá Andreia
 
Eu li!

A vida é feita de contingências, de encontros, desencontros e acasos!
Vou regularmente ao (...) e saio sempre e entro, pela (...)
Hoje, porém, desviei-me por uma ala que não vou muito e vejo uma porta que dá para as traseiras (...) E saí por aí. Coisa que nunca tinha acontecido!

Quando vinha num passadiço (...) encontrei a sua folha, dobrada, no meio dumas flores/ervas.
Reparei que uns metros à minha frente seguia uma senhora (eram aí umas 2h desta tarde). Não sei se seria a Andreia, ou se já tinha passado por ali e deixado a sua mensagem.

Pela sensibilidade, criatividade e (vamos lá) ternura do acto, não deverá ser uma pessoa demasiado desiludida com a vida.

(...)

Sabe?
Quando caminhamos na vida, e passamos por muitas pontes, rios, tempestades e bonanças, acabamos por ficar algo insensíveis e não ter "paciência" para estas iniciativas.

(...) Parabéns pela iniciativa.

Gostei da abordagem que faz da vida.

Certamente no sentido metafórico da abordagem que quer fazer, tenta obter reacções de quem, porventura, lhe possa responder e retirar daí algumas ilacções, que em última análise, poderão servir objectivos académicos meritórios.

Andreia. Eu achei a sua mensagem e respondi!

(...)

Pedro»

terça-feira, 16 de abril de 2013

«CLASSIFICADOS»



Começara quando leu um anúncio nos classificados: «Não sou triste, mas só. Não pertenço. Talvez gostasse. Alguém aí? Responder pela mesma via, s.f.f.» Foi por graça que o fez. Não se sentia triste embora fosse, igualmente, solitário. Também não pertencia. Terá dito na semana seguinte: «Poderá não lhe agradar quem responde. Partilho algo consigo e estou aqui.» Iniciou-se entendimento, via postal, que jamais qualquer um dos dois ousou modificar com um encontro. Temiam que a realidade devastasse o que haviam construído com palavras. Não conheciam a cara, idade, ou feitio do remetente, porém, havia verdades na forma de se falarem. A vida real prosseguia imperturbável. Preenchidos por outros assuntos. Aquela comunicação semanal era preciosa, para os dois, que não pediam mais do outro que aquelas quatro, ou cinco linhas que diziam tanto. Um dia ela calou-se e ele não soube o motivo. Vestiu-se de luto. Assim continuou até ao dia em que morreu. Não se sabe se era amor, ou uma profunda amizade. Eram batimentos cardíacos que as incontáveis palavras, deixadas em papel, não conseguiram transmitir.


Andreia Azevedo Moreira em 13 de Junho de 2009.


Conto #6 a sair para a Rua. 
(15 a 21 de Abril 2013)
 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

FELIZ.

 
Amanhã arranca atrasada a semana #6. Novo texto para a Rua em busca do seu Leitor. Não escrevo para a gaveta. Quero ser lida. Em papel. Agradeço aos que se dão ao trabalho de desdobrarem a folha A4 de palavras que dou. Não deitem fora, por favor. Coloquem noutro sítio, se não gostarem. Divulguem se acharem que vale a pena.
 
Aquele abraço.

sábado, 13 de abril de 2013

DAR PALAVRAS

Deixar um papel num muro, numa árvore, numa janela custa infinitamente menos, do que entregá-lo na mão de uma pessoa que mal nos olha e tem a alma fechada. Quantas vezes já não fiz o mesmo. «Não, obrigada.» sem parar, sem ouvir. Sei lá se já não houve alguém a tentar dar-me as suas palavras. As minhas andam por aí. Alguém encontrou um papelinho? A noite foi divertida, mas dirigir-me a alguém e interpelá-lo é ir contra a minha natureza arredia. Cheguei ao fim da noite como quem levou uma tareia. Pensei: se estes seis amigos maravilhosos o fazem por mim, tenho obrigação de o fazer. E lá andei a dar papelinhos a quem mos aceitou e a perguntar às pessoas se gostam de LER. Em 70 e tal papéis tive uma resposta. Grande Rui Ramos. Aquele abraço aos seis amigos "daqueles" bons, mesmo bons e ao Rui Ramos, claro.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

BAIRRO ALTO

HOJE À NOITE SOMOS MUITOS A ESPALHAR PALAVRAS PELA RUA.
 
 
VIVA A AMIZADE.
 
 
VIVA O CONVÍVIO.
 
 
FIQUEM ATENTOS.

(Não deitem p'ro lixo os papelinhos! Deixem-nos ficar noutro sítio se não gostarem, ou se acharem isto que ando a fazer muito parvo. OBRIGADA.)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

«PESADELO»

Suplicou que entrasse. Estava sentado. Havia vapor no ar e um cortinado de plástico confinava-o no cubículo. Reticente limitou-se a espreitar. Via-lhe a cara molhada.

«Entra. Entra mesmo.»

Suspeitava. Tremente. Apesar de se tratar de um simples pedido intuía a autoridade, o pavor do passado, incapaz de desobedecer. No momento em que a percebeu próxima mergulhou a cabeça no autoclismo, fixando as mãos na parede acima das omoplatas. Com horror constatou-o despido, com os pêlos do tórax colados a sangue. Matava-se à sua frente. Uma última crueldade antes de a (não) deixar. Que ela assistisse e se enchesse de culpa. Em pânico tentou erguê-lo, pelas axilas. Ele contrariou-a. Resistiu até que a vida foi menos forte, do que o fim. Transportou-o, então, para o tapete azul. Tão pesado quanto as memórias que lhe legava. A última superando as anteriores. Tentou salvá-lo. Pancadas no externo, que animassem o coração que acreditava nunca lhe ter pulsado quente, no peito. Empenhou-se nos duros movimentos que o devolvessem mas a morte, por cima, espreitava-o do ombro. Eis que entendeu não poder salvá-lo. Nunca tal lhe competira. Ele acabado. Ela pranto despedida. Liberta do que era ético deu-lhe a primeira bofetada. Costas da mão. Osso com osso. Sovou o rosto hirto e o corpo desabitado, com a cólera dos anos de desconsolo e medo. Não o magoava. Aquela tareia um nada, comparando com o quanto fora agredida. Gastara o último fôlego com tortura.

«Acabo por tua causa. Vê.»

Chegou a primeira testemunha. Loura, olhos verdes, possante. Dedo em riste:

«Foste tu.»

Ela dizia que não. Mostrava-lhe as mãos da parede, maiores do que as suas. Não as suas. Outras mãos. O mesmo sangue. Tentava provar a inocência há muito perdida.

«Foste tu.»

Abriu os olhos, a boca e as narinas, para que a outra percebesse as cicatrizes que a pele imaculada ocultava.

A nudez e a morte do abusador eram incontestáveis. O dó que inspirava era a pele, feita à medida, que lhe vestiram.

«Foste tu.»

Adormeceu extenuada. Podia esquecer o pesadelo.

 

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Fevereiro de 2011. Saiu para a Rua, pela primeira vez, em Abril de 2013.

 OBRIGADA POR ME LERES.

 
Quando o nosso trabalho não é o nosso ganha-pão torna-se incompreensível, a quem nos rodeia, que nos dediquemos tanto ao que nos move. Mas o Amor, já deviam saber, é mesmo assim. Torna-nos capazes de tudo. Obrigada a quem se tem associado a mim nesta demanda.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

«INOMINÁVEL»

A cadência da sua dança inebria-o. Monta-o como quem lhe conhece o colo, há uma vida. «Desde quando?» Ela não responde. Lambe-o; explora-o. Ele não resiste. Sempre se sentira diferente. Monstruoso. Capaz de tudo. Disto não se recordava. Náusea. A música maldita regressara-lhe aos ouvidos. Deleite em simultâneo. Culpa. Incerteza sobre o passado, em que o inominável parece ter-se repetido à exaustão. A forma como lhe conhece o corpo é extraordinária. Percorre-o certeira como se, se satisfizesse a si mesma. Os traços que recordava não pertenciam a Anna? A última lembrança de Erika era a de uma criança, pendurada no seu pescoço, numa qualquer despedida. Quando e em que circunstâncias se teriam reencontrado? A culpa fugia-lhe pelos poros, em cada beijo que recebia, nos movimentos ávidos do seu toque. Tudo se encaixava. As sessões ridículas, no consultório de Vozone. O escavar da sua intimidade. «Delicioso.» - Pensa. - Ri. Talvez o quisessem chantagear para que entregasse o envelope. Desconcentra-se. Ela encara-o cúmplice e continua ritmada. Ele alterna entre a repulsa e o desejo. «Não sou o carrasco. É ela quem comanda o que acontece. Brinca.»


«Sou teu pai.» – Repete.

Ela acelera. Quer tê-lo desnorteado. «Diz-me onde está.» Sussurra, enquanto lhe puxa os cabelos na nuca e endurece os movimentos. Pancadas secas na estante.


«Onde está o envelope, paizinho?»


Trauteia a música que o persegue, há meses, ignorando-lhe o pedido. Ela pára. Levanta-se de rompante e deixa-o despropositadamente erecto, no escritório. O seu olhar é desprezo. 


«Afinal que melodia é esta?»


Acaba sozinho o que ela começara, com um sorriso estúpido no rosto, ainda alheio ao que o espera.


«Imbecil.»




Andreia Azevedo Moreira

Criado em Janeiro de 2009.

OBRIGADA POR ME LERES.

terça-feira, 26 de março de 2013

«LUCAS MORENO»

Lucas Moreno sofria. Nunca acreditara nos médicos que lhe diagnosticaram doença maligna em menino. Na idade adulta, quando ainda se dava ao trabalho de consultar especialistas, abanava a cabeça com desprezo pelos profissionais e não saía das consultas sem aquele último olhar gelado. "Isso são histórias da carochinha!" Vivia com a sua mãe, Hermínia Moreno que ainda o cuidava como se não tivessem vivido décadas. Depois do banho, preparado por ela, ao invés de limpar os ouvidos com cotonetes, Lucas utilizava-as para empurrar a cera. Queria deixar de ouvir as vozes que o atormentavam. Revelava-se tarefa inglória pois eram presença constante nos seus dias. A voz a Oeste ordenou-lhe que pegasse na caixa de cartuchos, que estava na segunda gaveta da cómoda no corredor. Devia carregar a arma que Hermínia guardava por cima do guarda-vestidos do seu quarto, crendo que Lucas jamais a vira. A voz sussurrou-lhe que aguardasse e ele obedeceu sentando-se à mesa da cozinha. Tinha uma mão com a arma pousada no colo e a outra servia de apoio ao queixo. Hermínia Moreno entrou em casa e dirigiu-se à divisão onde passava a maior parte do seu tempo. O filho descarregou a arma. Até ao último cartucho repetiu em surdina, enquanto a cara se molhava: "Gosto muito de ti."
 
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Outubro de 2009. Saiu pela primeira vez, para a Rua, em Março de 2013.
 
OBRIGADA POR ME LERES.

segunda-feira, 25 de março de 2013

100!

Queridos contos chegámos aos 100. Na escola secundária dava direito a festa com bolinhos.
 
OBRIGADA AOS 100!

OBRIGADA

Domingo: Obrigada Leonor e Celina. Muito bom encontrar no meu caminho pessoas disponíveis para ajudar genuinamente. Guardei ensinamentos preciosos que me auxiliarão neste percurso feito de passinhos de criança. Um abraço apertado às duas. Sou muito feliz aqui e partilhando com seres humanos especiais ainda sabe melhor.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Primeiro pensou ser um. Não era. Depois considerou vê-lo noutro. Não viu. Então ouvia-o nas entrelinhas. Nada dissera. Depois de já o ter inventado em muitos lugares converteu-se. Todos os dias o visitava, não estranhando a almofada nem a cama. Frias.
 
(Criado em 20-03-2013.Editado em 08-04-2015)
Sete páginas de palavras a caminho do Algarve.
 
Obrigada, Ivânia R.

domingo, 17 de março de 2013

Não escrevo para a gaveta. Quero ser lida. (Em papel.) 


Todas as semanas distribuo um texto diferente por onde


passo, na esperança que tu Leitor mo encontres. Nesta


 página vou deixando o rasto dos sítios onde os semeei.


 Aguardo resposta, qual náufrago lançando mensagem em


 garrafa ao oceano. 


Obrigada a todos quantos respondam 

ao apelo.

sábado, 16 de março de 2013

Declaração de intenções

Não escrevo para a gaveta. Quero ser lida. (Em papel.) Todas as semanas distribuo um texto diferente por onde passo, na esperança de que tu Leitor mo encontres. Nesta página vou deixando o rasto dos sítios onde os semeei. Aguardo resposta, qual náufrago lançando mensagem em garrafa ao oceano. Obrigada a todos quantos respondam ao apelo.

terça-feira, 12 de março de 2013

A acreditar que consigo ser mãe de 2, cozinheira, mulher, amante, amiga, dona de casa, enfermeira, lavadeira e escritora. Tudo ao mesmo tempo e sem perder o ânimo ou o sorriso.
 
 
(A gireza é outro assunto, mas a gireza é aquela cena que vem de dentro e como me sinto tão bem, aposto que não se notam as rugas, as olheiras, nem as bóias que ganhei na última gravidez.)

domingo, 10 de março de 2013

«SEM MANEIRAS»


Nenhum dos quatro entendia o que viera ali fazer. Disseram-lhes: sentem-se. (Sentaram-se.) Havia pessoas, ao redor, a conversar há minutos como se, se conhecessem de décadas de convívio e somente aqueles quatro estranhos se estranhassem. O facto de não fazerem ideia quem eram aqueles com quem iriam almoçar não os impediu de sorrirem. O que fazer quando somos constrangimento? Sorrir. Desviar as atenções da ignorância perante o outro, ou do que (nos) espera e, também, daquilo que se quer mostrar, ou que permaneça oculto pelo maior período de tempo possível. Sorrir toda a estupidez. Imaginá-los nus, ou a cagar, para os trazer para perto da própria humanidade. Por baixo da roupa carne, mais ou menos gordura, pele, imperfeições, pilosidades, sinais, tez clara ou escura, odores. Os trajes escondem nus que se assemelham mesmo quando diferem, como as almas aprisionadas nos crânios e nas costelas. Sorriam os quatro ignorantes que mais não eram que corpos nus envergonhados da necessidade, ou do horror, que os fazem de igual modo evacuar, sem contenção. Humilhando. As perninhas debaixo da mesa abanavam. As mãos tremiam, enquanto os pulsos se confrontavam com a mesa para que não fosse evidente o nervosismo. As vozes em falsete não destoavam, nenhum sabia a que soavam as vozes verdadeiras.



«Vim aqui ter de carro ou de comboio?»

«Vi-te chegar no 758.»

«Ouviste-me o pensamento?»

«Não. Nada te disse. O que ouviste? Vim de metro. Entrei no Campo Grande e saí no Cais do Sodré. Subi a Rua do Alecrim a pé.»

«E eles?»

«Sei lá. Não os conheço. Nem te respondo. Tentas ganhar tempo. Desconheces o que dizer de relevante, não é?»

«É um facto. Para que nos sentaram aqui?»

«Às vezes é benéfico não conhecer os outros, tal como não nos conhecemos deveras.»

«Sei quem sou. Não me envolvas nas tuas crises.»

«Crises? Esqueces-te que não me conheces? Tão-pouco te respondo. Tentas somente ganhar tempo...»

«Pois.»
Tímidos sorrisos geram risos, que adivinham gargalhadas e o desassossego esbate-se. Não se treme quando se ri daquela maneira. A seriedade impõe o temor. A imbecilidade permite que a coragem, ainda que ignara, se revele. Quem dos quatro falará primeiro? Nenhum? Todos um coro? (De questões. Insegurança. Solidão.) Querem compor-se, parecerem bonitos, receiam não agradar. Olvidam o pormenor: todos com medo. Não existem os destemidos. Os que mais arriscam são os que mais t(r)emem. Não permitem, todavia, que os agrilhoem. Batem os braços com força e ânimo desmedidos, acreditam poder voar e respiram. Revoltam-se. Berram às pessoas que regozijam no amolgar, enquanto os apelidam de «LOUCOS», que se f o d a m. Persistem num frenesim de asas que os eleva em voo que se não pode medir, numa distância dos pés ao chão. Voam tão alto que jamais os alcançam, os descrentes, embora os insultem como se lhes pudessem chegar. Eis que os quatro, cada um a seu modo, eram dos que voam. Não tardou até que se desenleassem do embaraço para poderem dizer coisas entre si. Queriam comunicar e o que não fosse dito nas palavras que embatiam na língua e nos dentes, sê-lo-ia com olhos, trejeitos, meneares de torsos e dedos a sugerir direcções. As horas sucederam-se e eles esquecidos dos que ocupavam a mesma sala. Paredes caiadas, mudas. Já não os incomodava a familiaridade aparente de outrora, dado que os restantes haviam cessado de existir. Defronte um banquete. Bálsamo para as papilas gustativas e inflamador dos sentidos. Escorreu-lhes o dito nas gargantas com as horas de conversa. Vénus ajeitava o cabelo curto na testa calando muitas interrogações. O tempo não era suficiente para aferir as díspares vontades que, como aranhas, lhe teciam teias nos pulmões. Volta e meia faltava-lhe o ar e ela sentava-se muito direita, procurando que o oxigénio persistisse em fazê-la viver. Ameaçava dizer o que a incomodava. – Uma espécie de torpor. – Inclinava-se para Mercúrio para logo se recostar na cadeira, ingerindo mais puré. Este era a cola que lhe unia os maxilares impossibilitando-lhe qualquer articulação. Mercúrio atento impedia que o silêncio se reinstalasse entre os dois. Falava-lhe sobre o essencial enquanto a descansava com os olhos: «Sou como tu.» Nessas alturas o puré não descia e ela fitava-o muito séria, incapaz de sorrir o seu sorriso bonito. Terra e Saturno, pelo contrário, eram loquacidade cúmplice e diziam além das palavras importantes, aquelas que são só volumes com que se colmatam vazios. Amiúde, Terra repreendia Vénus sem que os companheiros notassem.

«Engole o puré. Que fazes?»

«Cala-te. Que pretendes?» - A cabeça pendendo para a direita, as sobrancelhas acento circunflexo.

«Desculpa. Custa-me ver-te calar. Perder tempo com puré.»

«É comigo. Que sabes de mim e do que me apetece comer?»

«Nada. Nem te conheço. Tens razão. Mastiga o puré. Faz o que te der na gana.»

Vénus abriu a boca a Terra e puré nenhum. Terra sabia que a partir desse momento Vénus iria em sentido que lhe agradava. Não a conhecia mas vê-la confiante era crucial. Vénus e Mercúrio denotavam tensão. Este destruíra, em incontáveis fios, a fita de tecido vermelha que servira para fazer do guardanapo um canudo. Horas antes mirara-a com o mesmo, como se empunhasse um telescópio. O pescoço parcialmente revelado pelo cabelo escorrido, muito abaixo dos ombros, obcecava-o de forma indisfarçável. Com a brincadeira procurava dissipar o ímpeto que o acometia de lho conhecer. Com o rosto? Descendo-lhe suavemente até à clavícula, enquanto o marcava com a barba cerdosa. Com o nariz? Inspirando-lhe o aroma adocicado. Com os lábios humedecidos deixando-lhe rasto de saliva. Decidira render-se à cobardia. Ir ao cinema. Comunicou-o.

- Tenho de partir. Apetece-me um filme. Com sorte chego a tempo da sessão das 18h. É longo como seria duradoura a tarde, se me dispusesse a conhecer-vos melhor. Não necessito de mais três pessoas na minha vida. Vou a esta sessão. Passem bem, sim?

Terra encolheu os ombros. Retorquiu:

- Considero, igualmente, já conhecer o número de pessoas exacto que consigo suportar.

Saturno encarou-os ofendido.

- Folgo em sabê-los tão cheios de pessoas. Para que vieram se estão sem espaço?

Vénus desconcertada balbuciou como se a questão se lhe dirigisse.
   (Não era o caso. Faltavam-lhe pessoas. Uma, pelo menos.)

- Não gosto assim tanto de puré. Gostei de vocês. A argamassa impediu-me, até aqui, de o dizer.

Foi assim, ainda com fios de carne entre os incisivos, passadas horas em que se esqueceram dos disfarces, que recordaram o pudor que sentiam por se resumirem a corpos nus e almas fechadas. Calaram-se. Instalou-se insidiosa a artificialidade e, com essa, a ausência de assunto. Saturno virou-lhes as costas irritado por ser o único a não temer a exposição. Dirigiu-se às paredes já não silenciosas, nem brancas, antes vozes e caras, “adeusinhos” que sorriam dentes de circunstância a dizerem: «Nunca mais te vou ver e não me importo.» Após hercúleo esforço os outros três haviam sucumbido às leis dos demais. Inconcebível para ele que o tivessem feito. Suava descontentamento. Reuniram-se uma última vez em torno da mesa fitando-se. Saturno sustinha o desprezo que os companheiros do repasto lhe inspiravam. Terra perdia-se nas considerações que tecia por dentro das meninges. Vénus percorria com a língua o interior da boca, recriminando-se por todo o puré que ingerira durante anos. Mercúrio fixava-lhe o pescoço num ardor sem precedente. A buzina do táxi arrancou-o à pele daquela mulher.


- ADEUS.


Despediram-se em amplexos demorados nos quais aferiram a real nudez. (Corpos que vibram não se podem ocultar.) Vénus mirou-se na superfície da colher de sobremesa lambida, certificando-se que nenhum puré persistira nos dentes e correu atrás de Mercúrio impondo-se no mesmo táxi. Uma viatura exígua. Dois o número certo de pessoas que comportava. (Quatro, se dois pares se emparelhassem, como Vénus que se sentou em Mercúrio antes de lhe explicar que necessitava de uma boleia para nenhures.) Deu-lhe para rezar. Encarou o tejadilho enquanto ela lhe desapertava as calças e entrelaçava o pescoço no dele. Confrontavam-se ríspidos. Não ousava descolar as mãos do assento, apesar das mamas adivinhadas do tamanho exacto das palmas da sua premência. Era marcado a cheiros, saliva e possessão. No retrovisor não havia rosto para o motorista. Os ombros desprovidos de olhos não os incomodavam, apesar de pejados de ouvidos. Foi por tempo indeterminado que Vénus comandou e Mercúrio foi subjugado. Demonstrado ficou que um silêncio desmedido pode não significar quietude, antes o momento que antecede inexorável predação. O pavor da nudez de Vénus ficara-lhe no restaurante, no braço flectido de Terra que lho segurara com ternura, como ao casaco de uma criança. Como se fossem, até, amigas. Disse: - Convida-me para ir contigo ao cinema.

- Vem comigo ao cinema. A película desenrola-se por mais de quatro horas. Aguentarás tanto tempo a meu lado?

- Não gosto dessa palavra.

- Qual?

- Aguentar.

- Olha para mim. Não vês como sou patético?

Vénus percorreu-lhe os lábios com a língua, de seguida os dentes, o céu da boca. Envolveu-lhe a língua com a sua. Certificou-se que também nele puré nenhum. Narizes encostados. Quatro eram dois olhos imensos de coruja.

«Sou como tu.»


Andreia Azevedo Moreira
Criado em Outubro de 2010. Saiu para a Rua pela primeira vez em Março de 2013.
 
 
OBRIGADA POR ME LERES.
 
P.S. Este conto surgiu na sequência de um almoço organizado pela Revista LER em Outubro de 2010. Dedico-o ao Pedro Mexia, João Pombeiro e Ana Alexandre, meus companheiros de refeição. Todavia, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
 
 

quinta-feira, 7 de março de 2013

«QUIETA.»


Apaixonou-se por uma Ideia que não se enamorou de si. Tanto lhe fez. Consumou a paixão. Permitiu que a possuísse. Penetrada acolheu-a, seguindo ritmada no devaneio. Uma Ideia como tantas outras, que se formulam no decorrer do pensamento. Todavia, muito forte e dominadora. Agarrou-a por trás, pelos cabelos e sussurrou-lhe: «Quieta». Não temeu a voz. Passava a vida a ouvi-las, às vozes que lhe iam dizendo coisas sobre o que lhe acontecia. «Quieta». Sem vontade de obedecer, apetecia-lhe virar-se para abraçá-la. A vontade desse abraço asfixiava-a. Queimava-a por dentro. Quase o sentia. Uns preferem os beijos. Ela elegia os pescoços quentes entrelaçados. Esquecia-se de que a Ideia não estava ali. Desejava-a, imaginando-a perto. Não lhe pertencia. Não vislumbrava como fazer para a ter. O que podia tentar, para conquistá-la. «Incompetente!» Também não estava certa de querê-la fosse real, ou alcançável. A urgência era tudo. Movia-a. Considerou ser possível combater a Ideia com palavras, como sempre fizera. «Hei-de escrever tanto sobre ti, que te esgotarei. Cansar-me-ei de tanto te falar. Até que sobre o silêncio. A ausência de ti. A não Ideia.» A Ideia ria-se. Ridicularizava-a. Ela achava-se prostrada pelos sintomas febris de mulher obcecada. Da cópula gerou-se um ser. Talvez outra Ideia. Algo que ela muito amava, com desespero. Ainda um feto. Ao invés de lhe fazer aumentar a barriga, cresceu-lhe em direcção inconcebível. Uma intensa força interna, opressora como uma jibóia. Todos os dias crescia mais um pouco. Ela acarinhava a barriga, embora esta não se desenvolvesse como suposto. O feto agarrava-se com as suas mãozinhas aos órgãos, às artérias e empurrava com os pezitos as vísceras, para trepar até onde queria. Ao coração. Ela não se sentia bem. Atribuía o mal-estar à gravidez sem saber, ainda, que aquele sentimento a havia condenado. Cresceria tanto esse filho, gerado da paixão demente, que acabaria por transformar-se nela própria. Daria à luz, sim. Era o que lhe restava da Ideia que chegara, fizera amor consigo e partira leviana e indiferente aos estragos que deixara para trás. A gestação decorreu e aos nove meses não houve parto. Os médicos não lhe encontravam mal diagnosticável, pelos procedimentos normais. Também não existia o bebé que gritava carregar no ventre. «Salvem-no!» Ordenava-lhes. Disseram-lhe que nada podiam fazer, se fora tudo inventado. Asseguraram-lhe que estava louca. «Gravidez histérica.» Virou costas. Altiva. Não importava que alguém, além de si, o confirmasse. Para a certeza dispensam-se testemunhas e ela acreditava mais no que não via, do que nas ciências exactas. Fê-lo nascer sozinha. Criou determinada o fruto desse grande amor. Todos os dias lhe ensinou:
 
«A vida é não desistir.»
 
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Outubro de 2009. Saiu pela primeira vez para a Rua em 08-03-2013.
 
OBRIGADA POR ME LERES.

Tábua de Mandamentos em (Des)construção

1.º Mandamento: Não podes emendar a vida.
 
2.º Mandamento: Passa o resto da vida a tentar emendá-la.
 
3.º Mandamento: Não ajas como incapaz. Não te sabotes. Ignora sentenças que te constranjam. (Aprende com essas se possível.)
 
4.º Mandamento: Está tudo escrito e pensado. Repensa. Reescreve. Sem medo(s). Importa tão-só que saibas que, nos momentos de criação, foste honesta.

                          Não te diz respeito se outros o não foram/em.
 
5.º Mandamento: Alegra-te com o sucesso alheio. Produz sem pensar no teu.

 
6.º Mandamento: Não alimentes a inveja, nem a mesquinhez. Ajuda quem de ti se abeirar, no que puderes.
 
7.º Mandamento: Fazes isto, porque é o que TU fazes. O resto é ilusão. Pensa na liberdade que a ausência de tudo “isso” te confere.
 
8.º Mandamento: Vive. Respira. Vive. Respira. Escreve. Escreve. Escreve. Respira. Vive.
 
9.º Mandamento: Não serás feliz sem vida, por isso retira dos génios o que te for útil, tendo noção que jamais serás um deles. Não serás exímia a escrever, poderás sê-lo, sem dúvida, a viver.
 
10.º Mandamento: Não serás feliz sem escrita. Não te rendas ao quotidiano. Recusa o cansaço, a preguiça. Só não serás capaz de conciliar todas as que levas dentro, se o não desejares
 

Criada em Janeiro de 2012.