quarta-feira, 10 de julho de 2013

«CARAPAQUECLÉ»



- Hey. Não vás! Pelo menos, não já. Tenho perguntas, ainda.

Carapaqueclé pára. Vira-se com uma expressão benévola no rosto, sem intenção de me dizer mais. Tem aquele olhar doce, a boca numa meia-lua optimista. Feições belíssimas, impenetráveis. Retira o chapéu sagrado da cabeça e segura-o com ambas as mãos. Olha para o chão, autorizando-me a prosseguir.
- Não vi tudo. Mostraste-me a paisagem, o horizonte distante, a roupa que me servirá. Deste-me perspectiva. Aceito-a, sinto-me grato, mas não vejo a chegada. A vegetação impede-mo. Achas que consigo? Continua o silêncio. O olhar diz-me o que preciso mas os meus ouvidos pedem, narcisistas, uma qualquer vibração que os conforte. Encontramo-nos numa floresta. É escura, embora nada assustadora. De tal maneira é densa que me dará muito trabalho sair. Ele ensinara-me o essencial. Crê que cada um terá de se evadir pelos próprios meios. É sábio o meu amigo. Fui seu discípulo atento, apreendi ávido e comprometido o que me quis transmitir. O problema é que, demasiadas vezes, a preguiça, um bicho que na selva gostamos de chamar “vagarinho”, encarna. Cruzo os braços, sento-me prostrado e mandrião. Carapaqueclé não tolera esse tipo de comportamento. Olha-me tão-só e nada diz. Nada dirá. Espera que a birra me passe.
«Faz-te ao caminho.»  


Criado em Dezembro de 2009 . Revisto em Julho de 2013.)

Obrigada por me leres.

Foi o 18.º Texto a sair para a Rua.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

«Anna e Boris»


Rasgos de lucidez e Boris devastado. Olha para Anna, a seu lado, no jardim da residência francesa e apetece-lhe chorar. Todo desconsolo. Não pode fazê-lo. Por ela que há muito se ausentou, há que manter a farsa. Anna cujo corpo vagueia perto, roçando-lhe a roupa e a alma, parece nunca esquecer o amor que os enleou na primeira troca muda de olhares. Ignora a realidade. Há anos que ela vive apenas a “outra vida”. Boris sabe que a demência haverá de o levar também. Mantêm-se unidos pela memória de um amor teimoso, insensível à passagem do tempo, ou ao avanço da loucura. Não quer continuar sem ela. Perdeu a graça. É cada vez mais difícil distinguir entre o que lhe acontece de facto e o que é fruto da imaginação de ambos.  

Recorda com doçura magoada a sua vida, com Anna, outrora normal. Não Anna, porra. Isabel. Anna já é dos tempos de alienação. Anna, Boris e todas as outras personagens que forjaram para mascararem a rotina. Começara por brincadeira. Casaram jovens e fartos que estavam da existência morna que se instalara, decidiram reinventar-se. Juntos. Cada um seguir o seu caminho não era hipótese. Depressa perceberam que as brincadeiras e os fetiches não eram suficientes. Os chicotes e as flagelações não os excitavam por aí além. As trocas de nome massacravam-nos de ciúme. As viagens revelavam-se insuficientes. Desvanecera-se a comoção nos terminais dos aeroportos. Queriam mais. Outras vidas. Ao pormenor. Essas pessoas transpuseram as fronteiras das suas mentes e começaram a povoar-lhes os dias. Davam-se ao trabalho de organizarem jantares para convidados fictícios. A mesa era posta a rigor, as melhores garrafas de vinho respiravam em cima da mesa para serem saboreadas. Música selecionada tocava na aparelhagem. Dançavam a dança da insanidade. Enlouqueceram António e Isabel. Boris e Anna. Pablo e Cuca.

Os amigos afastaram-se. Encaravam-nos incrédulos. Os mais leais tentaram, durante algum tempo, fazê-los ver o que lhes acontecia. De nada serviu. Alegavam legitimidade para fazerem o que entendessem. Saíram, pois, de mansinho daquelas duas vidas incompreensíveis que seguiam cada vez mais sós. Viveram aventuras envolvendo envelopes pardos e soros da verdade. Frequentaram sessões de psicoterapia, que ao invés de os fazer regressar ainda lhes estimularam mais o devaneio. Andaram por Paris e por Lisboa, em carros de alta cilindrada. Foram pai e filha, amantes, assassinos, espiões armados até aos dentes. Foram inimigos, amigos, duas mulheres e dois homens, partilharam e fugiram da realidade "dos outros". Cúmplices. 

No dia em que tudo começara rodava no prato do gira-discos o vinil com Clair de Lune de Debussy. Melodia com que Oddville se lhes apresentou. (Homem que mais ninguém conheceu.) Era a partitura que António mais gostava de interpretar, quando tocava piano. Música maldita que de quando em vez o obriga, ainda, a regressar à realidade para onde já não é possível resgatar Isabel. Responsável, também, pela sua desgraça. Pela sua morte. Pela morte e desgraça de ambos.

Olha para o líquido onde diluiu a dosagem fatal com que planeou o seu suicídio e o homicídio dela. Contempla desolado a sua bela mulher, alheia ao plano, ingénua na sua ausência irremediável. Agita a garrafa acima da cabeça diante dos olhos. Pensa:

É chegado o fim?


(Criado em Fevereiro de 2009. Revisto em Julho de 2013.)

andreia azevedo moreira

OBRIGADA POR ME LERES!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

SINOPSE

De cada vez que caía nela, arranjava 

desculpas para as nódoas negras que se lhe 

iam acumulando na alma.

«ANIVERSÁRIO(S)»


Vagueio na memória pela casa que, na infância, também foi minha. A quietude actual agride-me. A penumbra em que se buscava o fresco nos dias mais quentes é, hoje, a afirmação do que não torna. Abate-se sobre mim a saudade desses instantes. Desanimo nesta carência das certezas de vocês em mim. De quem era, aí convosco. Em cada Verão feito vosso. Ao cheiro da árvore do jardim, intenso em noites abafadas e que nos chegava às narinas enquanto apreciávamos a brisa no alpendre, recordo-o enternecido numa semelhante, quando regresso pela estação ferroviária. Arrancaram-na há muitos anos. O odor era enjoativo. Sinto falta dos serões adocicados, da árvore e de todos nós nos respectivos lugares. Não nos deviam mover dos sítios para que fomos feitos. Fomo-lo uns para os outros. Apesar das falhas. Graças às virtudes. Às escadas em que nos sentávamos rindo, talvez não volte. Se lá me sentasse aguardaria, pelo vosso regresso. Incansável, dorido, saudoso do que são cá dentro e não podem ser, fora. A todos quantos crescemos nesses metros quadrados magoa a casa tão vazia. A saudade a sovar-nos e nós a fingirmos que não fere a pancada. Há que continuar. A vida empurra. Continuamos, pois, mas a espreitar para trás. Sabemos que não se apagam as pessoas nossas, mesmo quando o presente se reduz a uma centelha da força de outrora, num olhar apagado e a uma ausência irremediável. Mudamos. Existimos, ainda. Porém, não são destruídas as fundações. Sólidas? Perigosas? Pouco importa. São história. A nossa. São memória. Amor. Vagueio na obscuridade e no sossego definitivos. Atento, escuto gargalhadas, ralhetes, gritos, manias, conversas, mágoas, perdões que não se pediram. Ouço-nos reunidos. Instantâneos do meu tempo de vida. Vejo-nos. Foi ontem. Não foi? Talvez tenham decorrido 24 horas, apenas. A gata listada, macia, perseverante num quotidiano pretérito agora sem gente, risos, ou choros. A nossa casa desabitada e ela enchendo teimosa as escadas do alpendre, o corredor empedrado que dá para a garagem, deitando-se no relvado, lá atrás. Impassível, preenche-nos o abismo, não nos consentindo esquecer-vos.


(Pouco tempo depois do aniversário a gata morreu.)

Andreia Azevedo Moreira

OBRIGADA POR ME LERES

16º Texto - Saiu, pela primeira vez, à Rua em 25-06-2013

«Aniversário(s)»

Vagueio na memória pela casa que, na infância, também foi minha. A quietude e o silêncio actuais agridem-me. A penumbra em que se buscava o fresco, nos dias mais quentes é, hoje, a afirmação do que não torna. Abate-se sobre mim a saudade desses instantes. Desanimo nesta carência das certezas de vocês em mim. De quem era, aí convosco. Em cada Verão feito vosso. Ao cheiro da árvore do jardim, muito intenso em noites abafadas e que nos chegava às narinas enquanto apreciávamos a brisa no alpendre, recordo-o enternecido numa semelhante, quando regresso pela estação ferroviária. Arrancaram-na há muitos anos, por causa do odor enjoativo. Sinto falta dos serões adocicados, da árvore e de todos nós nos respectivos lugares. Não nos deviam mover dos sítios para que fomos feitos. Fomo-lo uns para os outros. Apesar das falhas. Graças às virtudes. Às escadas em que nos sentávamos rindo, talvez não torne. Se lá me sentasse aguardaria pelo vosso regresso. Incansável, dorido, saudoso do tanto que são cá dentro e não podem ser fora. A todos quantos crescemos nesses metros quadrados magoa a casa tão vazia. A saudade a sovar-nos e nós a fingirmos que não fere a pancada. Há que continuar. A vida empurra. Continuamos a espreitar para trás. Sabemos que não se apagam as pessoas nossas, mesmo que o presente se reduza a uma centelha, da força de outrora, num olhar apagado e a uma ausência irremediável. Mudamos. Existimos. Porém, não são destruídas as fundações. Sólidas? Periclitantes? Pouco importa. São história. A nossa. São memória. Amor. Vagueio na obscuridade e no sossego definitivos. Atento escuto gargalhadas, ralhetes, gritos, manias, conversas, mágoas, perdões que não se pediram. Ouço-nos reunidos. Instantâneos do meu tempo de vida. Vejo-nos. Foi ontem. Não foi? Talvez tenham decorrido 24 horas. A gata listada, macia, perseverante num quotidiano pretérito agora sem gente, risos, ou choros. A nossa casa desabitada e a gata enchendo teimosa as escadas do alpendre, o corredor empedrado que dá para a garagem, deitando-se no relvado, lá atrás. Impassível, preenche-nos o abismo, não nos consentindo esquecer-vos.


(Pouco tempo depois do aniversário a gata morreu.)

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Outubro de 2010. Saiu, pela primeira vez, à Rua em Junho de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

sábado, 15 de junho de 2013

https://www.facebook.com/events/346211092173949/ 

SEMANA #14

Mais uma semana em que lanço o meu apelo de náufraga. Distribuo os meus textos aleatoriamente, por onde passo, na esperança que um Leitor encontre a minha mensagem não numa garrafa, antes numa folha A4 dobrada em palavras que dou. Obrigada a todos quantos respondem. Esta semana andei a SW e tive mãos amigas (Huguinho! e Luís!) na Zambujeira. Agradeço, ainda, à Paulinha que me levou as palavras ao autocarro 753. E a Genesis Santos em Braga. Da incansável Susana Costa também rezará a minha história. E agora o textinho desta semana...
Hoje um bocadinho de mim vai estar às 23h no espaço Criamar, no Funchal. Errância Literária assim se chama o encontro de amantes da palavra escrita e dita. Errante que sou nesta vida de escreleitora chego aos poucos onde pertenço. Muito devo à Susana Costa e à sua entrega desmesurada à minha causa. Espero em breve dar-lhe este grande abraço em carne e osso.
Das curtas a desenvolver (ou não): 

Chamava-lhe puta quando ela jamais lhe cobraria, qualquer hora, por amá-lo com F.
DAR PALAVRAS
www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira

«Na mão esquerda um violino.» (Semana #14 / 10 a 16 de Junho de 2013)


Era uma velha? Nem magra, nem gorda. Nem alta, nem baixa. Nem bonita, nem feia. Tive dificuldade em perceber, até, se seria uma velha, ou um velho. O robe era de um rosa muito vivo. Na mão esquerda um violino. Rodopiava em torno de um sinal de trânsito. Girava. Girava. Girava. Com a outra mão agarrava o sinal soltando-o e prendendo-o, soltando-o e prendendo-o, soltando-o e prendendo-o conforme a necessidade do rodopiar. Olhava-me, mas não me via. Sorria, mas não para mim. Ali, numa velha, pensara eu, sem nada que esperar da vida, vi genuína fortuna. Que dirão muitos dos que por ela passaram? "Maluca. Coitada." Reponho o que vi. Nem gordura, nem magreza. Nem altura, nem nanismo. Nem mulher, nem homem. Naquele momento achei-me ante uma pessoa.

(Criado em Junho de 2008. Revisto em Junho de 2013.)






Obrigada por me leres.

PROCURO LEITOR. ÉS TU?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

VALADA, SANTARÉM




Semana #13 – DAR PALAVRAS – Junho 2013

«Interpretação»


Agarro-te o cabelo junto à nuca. Sentes? A dor que, embora sofrimento, agrada. Gostas? Que to puxe com força, como se o quisera tanto, como te quero. Respiro-te. Inspiro e sustenho o ar para te reter num desespero. Repara. Como te conheço e te percorro onde precisas. É disto que careces, não é? A minha língua, o teu pescoço e a linha fictícia que me precipita para o cume da nossa imaginação. Esse delírio que engulo sentindo cócegas na barriga, por causa das vertigens que este nosso desassossego provoca. Concordas com o que digo? Admites que quando te sussurro “aquilo”, ao ouvido, é para que só tu possas saber o significado do meu calor no teu. Compreendes que se te agarro com tamanha firmeza, numa cadência obstinada é porque sou egoísta e quero ter sucesso nisso de te fazer rir, quando chegas? «Não é bom?» Questiono-te. «Responde.» Ordeno-te. É muito bom. O que pensas? Ah. Remetes-te ao silêncio. Falo demais? Palavras a tropeçarem no suor. Pensamentos que se interpõem aos corpos e esses a desligarem-se. Que é do ardor? Por que me olhas de fora? Por que paraste com os beijos? Fiz com que arrefecêssemos. Perdoa. Recomeçamos a dança? Anseia-lo tanto como eu? Arranjamos uma régua que meça o desejo. Perdemo-nos por quantos centímetros? Não queres saber? Não seria importante termos isto em pratos limpos? Tudo medido. Quantificado. Cheiras muito bem. Gosto das tuas mãos. Onde é que vais com elas? Pode ser. Sim, sim. Aí sim. É bom. É teu, agora, o mergulho. Fico à tona, a ofegar, à tua espera, teimando sobreviver a este afogamento conjunto. Regressas, estamos molhados e dizes-me coisas. Falas-me disso porque queres que sinta aqueloutro? Está bem. Sinto-o. Percebo. Espera. Agora sou quem tem frio. Perdi-me. Explicavas-me detalhadamente o que fazíamos e acabei por me esquecer por que começámos. Não sei quem és. Quem somos. Éramos? Vou andando. Não me apetece o que tens aí e não é saciedade. É tédio. A vontade esmoreceu. Dissemos demais.

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Abril de 2010. 

Saiu, pela primeira vez, para a Rua em 05 de Junho de 2013.



OBRIGADA POR ME LERES.

terça-feira, 28 de maio de 2013

«Os dias iguais»


Todos os dias, pela manhã, escolhe em pijama a mesma caneca, o mesmo prato, a mesma colher. Todos os dias os dispõe de forma milimétrica, em cima da toalha que um dia estendeu sobre a mesa da cozinha. Acerta o prato pelos padrões do tecido. A colher ao lado do prato, abaixo da flor cor de laranja. Tem de ficar certo. Aquele prato tem de estar, todos os dias pela manhã, no mesmo lugar. Todos os dias, pela manhã, coça a cabeça confuso, depois da nádega esquerda. Olha de forma vaga os azulejos por cima do lava-louça, enquanto bebe um copo de água morna meio cheio. Todos os dias prepara o que há-de comer. É, sempre, o mesmo. Constata que fede. Omitirá o banho, da rotina, em dias alternados. Todos os dias, pela manhã, mastiga de forma calculada. Trinta vezes nos dias pares, trinta e quatro nos dias ímpares. Um gole de café. Conta os azulejos defronte. Todos os dias, pela manhã, se observa ao espelho e percebe estar um pouco mais gordo. Não tem saído de casa. É sempre manhã e ele vê-se, todas as manhãs em casa, numa repetição de acontecimentos desprovidos de importância. Todos os dias se veste sabendo o que há-de ser. A roupa é semelhante. Distingue-a encontrar-se no armário ou no cesto. A roupa é lavada ao fim-de-semana. De preferência ao Domingo. Todos os dias, pela manhã, se interroga quem lhe terá apagado as tardes e as noites. Olhar perdido nos mosaicos. Todos os dias são, para ele, dias pela manhã. Todavia, não se sente a amanhecer.

A escuridão avança.


Anoitece nele.

Andreia Azevedo Moreira

Texto 12 - Saiu pela primeira vez, para a Rua, em Maio de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES

Semana #12 - 12º Texto a sair para a Rua - Maio de 2013


Semana #11 - 11.º Texto a sair para a Rua - Maio de 2013


Eh pá. Já somos 277. Obrigada a todos quantos me têm ajudado. Mas a Susana Costa é o viagra do DAR PALAVRAS. 

ehehehehehehhehe. 

:)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Ainda da semana #11. Arranca a #12 não tarda. Procuro Leitor, para navegação séria. Sem amarras. Obrigada.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

«Não era cego, mas tinha um cão guia.»


Era um tipo normal. Mediano em tudo. Sabia-o e a sua auto-estima não lucrava com a lucidez. Não é que se depreciasse. Gostava de si, não obstante a banalidade. Ela também gostava dele. Passava todas as manhãs à frente da sua casa, antes de ir correr para a marginal e por vezes sorria-lhe, depois de dar uma festa no cão – o Pescas. Luís dera-lhe esse nome porque o resgatara na margem de um rio, num dia de pescaria. O cachorro estava prestes a afogar-se, quando ele o salvou do destino que alguém lhe traçara. Sofia há muito que se encantara pela figura daquele homem solitário, mas ainda gostava mais do cão. O único, entre os dois, que reparara nela. De cada vez que se encontravam o bicho ficava frenético. Abanava-se enlouquecido de alegria e corria em círculos à volta de Sofia. Só não se empoleirava na transeunte porque as três semanas de aulas de etiqueta canina o haviam treinado a coibir-se desses impulsos. Luís alheio à felicidade do seu companheiro, resmungava um bom dia sem se dignar encará-la. Ela não ligava. As manifestações amorosas do Pescas eram o bastante. Pode dizer-se, inclusive, que começavam a sobrepor-se à vontade que havia tido um dia de conversar, um pouco mais, com Luís. Cansava-a aquela completa falta de interesse. “Quem não dá uma oportunidade, também não a merece.” Consolava-se. Sofia sabia o nome do cão e desconhecia o nome do taciturno rapaz. Os dias sucediam-se iguais, para um e para o outro. Talvez Sofia fosse menos amargurada, se é que se podem medir as amarguras das pessoas. Luís não se envolvia. Sonhava com uma colega. Pessoa que não lhe retribuía o sentimento e que o usava para se divertir. Ele permitia-lho. Enredado numa paixão avassaladora. Sofia vivia simples. Não era dada a grandes reflexões. Gostava de correr na marginal, do Pescas, do pão quente pela manhã, que comia com doce de tomate feito pela avó de noventa anos e gostava muito de respirar fundo, enquanto olhava o céu e esticava os braços, como quem quer abraçar as nuvens. Tinha algumas amizades, gostava do seu trabalho, sentia-se bem consigo. Luís acreditava que a única posse era aquele ardor por Mariana. Que fazer da vida, quando a paixão se consumisse? Sentia-se muito sozinho. Era o cão que o impedia de se matar. A vida a escrever-se escorreita. Acaso? Não existe. À noite, em casa dançava, amiúde, a dança da solidão. Masturbava-se, enquanto pensava na outra. De dia, na rua, ignorava Sofia que se entretinha estudando-lhe o modo de ser. Começou pelo visível: olhos tristes, expressivos; boca contida; sorriso tímido com alguma notícia no jornal, que compra todos os dias; cabelo revolto, encaracolando junto ao pescoço; ombros caídos; mãos de unhas roídas; roupa escura. Andar desajeitado. Voz apagada. Apelos meigos ao cão. Nervoso com os atropelos do Pescas. Ar de abandono. Lentidão nos gestos. Desistência tácita. Dava-lhe vontade de o consolar. De o amar, até. Queria dizer-lhe que ele estava enganado com a vida, mas não sabia como. Pois se tão pouco a olhara algum dia. O ritual do cão repetia-se. A cegueira de Luís subsistia. Sofia ria-se. Perdoava a indelicadeza ao rapaz.

(Criado em Outubro de 2009. Saiu, pela primeira vez para a Rua em 26 de Maio de 2013.)

OBRIGADA POR ME LERES.

Andreia Azevedo Moreira

terça-feira, 21 de maio de 2013

VOTEM NA MINHA PRATELEIRA PARA EU GANHAR UM LIVRINHO DE VIAGENS. 

:)





AQUI: Passatempo GRANTA

Joana Mil-Homens em grande. És a 200 comadre. :)

«Não era cego mas tinha um cão guia»

Semana #11 – DAR PALAVRAS – Maio de 2013

Era um tipo normal. Mediano em tudo. Tinha noção e a sua auto-estima não lucrava com a lucidez. Não é que se depreciasse. Gostava de si, não obstante a banalidade. Ela também gostava dele. Passava todas as manhãs à frente da sua casa, antes de ir correr para a marginal e por vezes sorria-lhe, depois de dar uma festa no cão – o Pescas. Luís dera-lhe esse nome porque o resgatara na margem de um rio, num dia de pescaria. O cachorro estava prestes a afogar-se, quando ele o salvou do destino que alguém lhe traçara. Sofia há muito que se encantara pela figura daquele homem solitário, mas ainda gostava mais do cão. O único, entre os dois, que reparara nela. De cada vez que se encontravam o bicho ficava frenético. Abanava-se doido de alegria e corria em círculos ao redor de Sofia. Só não se empoleirava na transeunte graças às três semanas de aulas de etiqueta, que o haviam treinado a coibir-se dos impulsos. Luís alheio à felicidade do seu companheiro resmungava um bom dia, sem se dignar encará-la. Ela não ligava. As manifestações amorosas do Pescas eram o bastante. Pode dizer-se que começavam a sobrepor-se à vontade que havia tido, um dia, de conversar com Luís. Cansava-a aquela completa falta de interesse. “Quem não dá uma oportunidade, também não a merece.” Consolava-se. Sofia sabia o nome do cão e desconhecia o nome do taciturno rapaz. Os dias sucediam-se iguais, para um e para o outro. Talvez Sofia fosse menos amargurada, se é que se podem medir as amarguras das pessoas. Luís não se envolvia. Sonhava com uma colega. Pessoa que não lhe retribuía o sentimento e que o usava, para se divertir. Ele permitia-lho. Enredado numa paixão avassaladora. Sofia não era dada a grandes reflexões. Gostava de correr na marginal, do Pescas, do pão quente, pela manhã, que comia com doce de tomate feito pela avó de noventa anos e gostava de respirar fundo, enquanto olhava o céu e esticava os braços em V, como quem vai abraçar as nuvens. Tinha algumas amizades, gostava do seu trabalho, sentia-se bem consigo. Luís acreditava que a única posse era aquele ardor por Mariana. Que fazer da vida, quando a paixão se consumisse? Sentia-se muito sozinho. Era o cão que o impedia de se matar. A vida a escrever-se escorreita. Acaso? Não existe. À noite em casa entregava-se à dança da solidão. Masturbava-se a pensar na outra. De dia, na Rua, ignorava Sofia que se entretinha estudando-lhe o modo de ser. Começou pelo visível: olhos tristes, expressivos; boca contida; sorriso tímido com alguma notícia no jornal comprado diariamente; cabelo revolto, encaracolando junto ao pescoço; ombros caídos; unhas roídas; roupa escura. Andar desajeitado. Voz apagada. Apelos meigos ao cão; nervoso com os atropelos do Pescas. Ar de abandono. Lentidão nos gestos. Desistência da cabeça aos pés. Dava-lhe vontade de o consolar. De o amar, até. Queria dizer-lhe que ele estava enganado com a vida, mas não sabia como. Pois se tão-pouco a olhara. O ritual do cão repetia-se. A cegueira de Luís subsistia. Sofia ria-se e perdoava a indelicadeza ao rapaz.

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Outubro de 2009. Saiu pela primeira vez para a Rua em Maio de 2013.


OBRIGADA POR ME LERES.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Inicia-se hoje a semana #11 de DAR PALAVRAS. Até já.

Nem sei como agradecer, como merecem, o movimento que criaram pelas minhas palavras. Têm chegado a esta páginas inúmeros leitores. Obrigada a todos. Espero, numa linha ou noutra conseguir falar-vos por dentro. Obrigada a todos os meus amigos do coração que se juntaram desde o primeiro papelinho (um especial para ti hoje, Teresa Escudeiro. :)) e à Susana Costa que conseguiu criar um abanão nisto, no qual ainda me custa a crer. É nestas alturas que sinto não ser assim tão estúpida, por não deixar o desalento vencer. (E se ele me espreita tantas vezes.) Contem comigo quando e se precisarem. Digam coisas e lá estarei.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

«COMUNICAÇÃO»

Ia mais do que uma vez por dia à caixa do correio, na expectativa de receber a mensagem escrita que ele não enviara. Apenas se permitia escrever e-mails, facto que ela desconhecia. Entristecia-se, amiúde, por não saber ler. Fechava a porta da rua atrás de si, subia até ao apartamento e chorava lágrimas de ignorância, enquanto ele premia botões que lhe não estavam destinados.

Criado em Junho de 2011. Saiu à Rua, pela primeira vez, em Maio de 2013.

«Tubarão»


A pensar num meteu-se com o outro errado. 

Apareceu a boiar no Tejo um dia depois. 

Consta que levava um sorriso.

«Julieta e Romeu, uma estátua.»

Era proibido. Ocultavam-no das outras pessoas. Escondiam-no, ainda, um do outro. De si mesmos, também.

Era desmedido e sublimado o não-Amor.

Criado em Março de 2010. Saiu para a Rua, pela primeira vez, em Maio de 2013.
Mais uma voluntária. Na Madeira! Outro coração grande. OBRIGADA Susana Costa.



«Julieta e Romeu, uma estátua.»

Era proibido. Ocultavam-no das outras pessoas. 

Escondiam-no, ainda, um do outro. 

De si mesmos também. 

Era desmedido e sublimado o não-Amor.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

«Dioptrias»

Naquele momento encarava-o graças à miopia e ao astigmatismo. Não era com coragem que lhe sustentava o avassalador olhar. Antes com dioptrias e alguma irresponsabilidade.

Textos aos enamorados.



Naquele momento encarava-o graças à miopia e ao astigmatismo. Não era com coragem que lhe sustentava o avassalador olhar. Antes com dioptrias e alguma irresponsabilidade.

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Novembro de 2010. 
Dedicado a ASA, PM e NS.



OBRIGADA POR ME LERES.
Estou comovida. Pedi ajuda há tão pouco e já tenho um batalhão de voluntários para a minha causa. Flávia, Hugo, Bzuu, Rita, Luís, Pedro, Paula M., Cat, Teresa, Rui, Ana Paula, Tânia, Ivânia, Oliveirinha, Maria João: Sabem lá o quanto me aquecem a alma. O B R I G A D A. Quando me for abaixo das canetas, venho aqui ler isto e faço-me ao caminho de novo. 







Aquele abraço.

Necessitada do espaço e do tempo em que só a mim pertenço.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

«ACONTECER»


Até ao último fôlego reservou os primeiros momentos do acordar do dia, quieta, perscrutando a penumbra, envolvida num calor que não vinha dos cobertores, àquele que acontecera não lhe ter acontecido. 

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Junho de 2010.

OBRIGADA POR ME LERES. 

Alguém me ajuda a distribuir?


Muda o discurso, graças à boa amiga Maria João.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

LEITORES PROCURAM-SE.

A semana #10 está aí. - Não escrevo para a gaveta. Quero ser lida. (Em papel.) Todas as semanas distribuo um texto diferente por onde passo, na esperança que tu Leitor mo encontres. Nesta página vou deixando o rasto dos sítios onde os semeei. Aguardo resposta, qual náufrago lançando mensagem em garrafa ao oceano. Obrigada a todos quantos respondam ao apelo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Estive numa festa das palavras.



Foi bom demais...

«Depois, já aos quinze, mas com muita timidez Fiquei muito sem graça com o que a professora fez Ela pegou meu texto e leu pra turma inteira ouvir Até fiquei feliz mas com vontade de fugir Então eu descobri que já nasci com esse problema Eu gosto de escrever, eu gosto de escrever, crer, ver VER, CRER, eu gosto de ESCREVER e escrevo até poema.»


GABRIEL O PENSADOR (07/05/2013 no Tivoli)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Texto #9 «A Funcionária Pública»


«A funcionária pública»


Apresentava-se ao serviço às 9h31. Havia o real para digitar. Carecia de tempo e de espaço para a ficção. A dela, imaginada deveras, era mal sucedida. A pilhagem à vida alheia agradava e afigurava-se inverosímil. Quando a liam duvidavam dos factos, aplaudindo-os, desconsiderando o que lhe custara as entranhas a criar. Relevava a injustiça. Havia em si cansaço; dentro das meninges uma voz imperativa, qual matilha de cães latindo, quando não escrevia. Precisava de dinheiro: filhos para criar; necessidades elementares; - Noutras latitudes supérfluas. - Encargos. A certeza de não poder agredir outrem, com as omoplatas, sem que o peito lhe escurecesse. Cria na luz para criar. Uns apreciam a treva. Ela almejava escrevê-la, sem habitá-la. A angústia andava a alimentar-se da alegria de outrora. Consolava-se:

«É por agora. Terei tempo.»

Nunca tinha tempo. Despachava-se tarde dos miúdos, da louça, da roupa; da vida vivida apressada. A matilha enfurecia-se se ela se enrodilhava na fadiga, adiando.

«Amanhã…»

O porvir chegava a hoje e a mesma indolência a afagá-la. Tudo mais importante. Uma birra. Um colo. Gargalhadas bonitas. A limpeza. A arrumação. O aprumo. Os almoços confeccionados de véspera.

«Amanhã.»

O tormento crescia.

«Ladram tão alto estes cães.»

Ainda que acreditasse que haveria de ter tempo, a dúvida:

«Se morro? Que fiz por essa que também sou?»

«Que interessas, tu? Morre descansada. Fizeste o que te competia.»

«A voz? Estes cães? Lobos? Feras que investem garras e presas que me comem o fígado, os pulmões, o coração.»

«Que voz? Que feras? Enlouqueceste?»

«Esta que me ensurdece. Porque não se calam os cães? Não enlouqueci. Sou sã. Ainda. Acabarei louca?»

«Morrerás doente. Não há cura para o mal que te aflige.»

«Há.»

«Pouco importa. Ouve o relógio. Estás sem tempo.»

«Tê-lo-ia, não dormisse.»

«Tens de descansar.»

«Usasse a noite em meu proveito e talvez o silêncio, a paz. Não aguento mais.»

«Definharias.»

«Três, quatro horas de sono. Quanto baste.»

«Não sejas ridícula. Acorda.»

Ti ri ri ri ri. Ti ri ri ri ri.

8h37. Azáfama. 9h31 e o cartão de picar o ponto na mão. A morte às prestações registada, num aparelhinho pregado à parede. Continuou até ao intolerável. A voz: Incomplacente.

«Onde é que guardaste a caneta bordeaux? As folhas brancas onde estão?»

(Os tímpanos da alma a romper-se.)

Principiou trémula, o documento n.º 50 de 2011. Ousou furtar-se ao costumeiro “Vimos pelo presente ofício…”

«Era o dia primeiro do mês em que a decisão fora tomada. Inexorável. Havia tentado preveni-lo do que sucederia, contudo, ele fizera-se massa indefectível para que não o enchessem de desesperança. Era irremediável a situação em que se colocara. Falhara o prazo. Falta imperdoável que se lhe colara à epiderme das mãos. Devolveria o indevidamente recebido. Tê-lo-ia ajudado, estivesse ao seu alcance. Regras eram, todavia, torrentes contra as quais se sentia impotente para nadar, ou sequer manter o fôlego. Creia que há sempre quem se encontre a seu lado e o fim é, não raras vezes, recomeço. Perdoe o lugar-comum. Sem mais para lhe transmitir permita-me que o deixe a pensar onde errou, para que possa, em situação hipotética futura, errar melhor.»

Escolheu manter «Com os meus melhores cumprimentos» como se fora possível disfarçar o desvario. Chamaram-na ao oitavo andar. Ergueram a folha ao nível do seu nariz. Vociferaram. Devolveram a missiva. Limpou a ira alheia do sobrolho e regressou ao 7.º. Ordenaram-lhe que reescrevesse a missiva. Fê-lo com gana que desconhecia encerrar. Impregnou-o de melodia, limpou-o das banalidades. Remeteu-o à revelia da hierarquia superior. Chegara a casa, nessa tarde, leve. Considerava-se capaz de correr, tamanha a alegria. O peso que a gravidez lhe acrescentara refreou o impulso. Correspondeu ao que esperavam de si, no lar, com ânimo reforçado e os seus notaram que o seu sorriso reverberava. Não lho disseram. Não partilhavam o que se passava dentro. Persistiu, por tempo indeterminado, na desobediência e o seu Curriculum vitae permanecia incólume. Trabalhadora exemplar. Despedimento nenhum. A escrita cresceu-lhe. O trabalho diário permitia a evolução. A voz tornara-se meiga. Um cachorro amoroso. Afagava-lhe a consciência. Ela cumpria-se. «Morrerei pacificada.» Acreditava estar mais próxima de escrever Literatura. Não seria lida pelas massas, mas tal não a moía. Tinha um leitor de cada vez que redigia uma participação transformada, com enlevo, em arte. Chegou o dia em que a decisão foi tomada. Apareciam, em catadupa, as respostas ao empreendimento daquela funcionária pública. Não se tratava de cartas de reclamação, antes palavras de incredulidade e reconhecimento. Se por um lado se encontravam devastados pela culpa que lhes fora imputada e que os prejudicava. Por outro, a forma como lhes havia sido comunicado desprovia as respectivas sentenças de crueldade. Revelavam-se inábeis para contestar o que era, no mínimo, estranho. Vinham felicitar os serviços pela façanha e solicitar que, em situações de incumprimentos futuros, fossem notificados por aquela mulher, que se recusava a ser tratada por qualquer título. De nada lhe serviram os louvores. Tão-pouco o facto de ter inúmeros leitores entusiásticos. Foi despedida. Precisava de nova fonte de rendimento. Filhos para alimentar; necessidades primárias. - Noutras latitudes: luxos. - Comprometimentos. A crise instalara-se no País, uns anos antes daquele em que redigira o ofício cinquenta. Foi parar à Rua. Estendia a mão todos os dias úteis, das 9h31 às 17h32. Jamais ficou a dever horas.

A sua mendicidade soava a poesia.

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Maio de 2011. Revisão Maio de 2013. 


OBRIGADA POR ME LERES.


 9.º Texto a sair para a Rua.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

«Partiu-se»



Isabela ia na Rua, apressada. Distraída. Numa mão o saco com os livros que acabara de comprar na Livraria do Bairro. No braço oposto um casaco dependurado. Estugava o passo para contrariar o atraso. Tropeçou e caiu desamparada. Esfolou os joelhos com gravidade. Sangrava. As mãos também ficaram em mau estado. Os livros espalharam-se à sua volta. O casaco, então imundo, jazia na calçada. Não era a desordem exterior que a perturbava. O problema é que, ao cair, qualquer coisa dentro de si se quebrara. Sararam as mãos. Os joelhos. As articulações recompuseram-se. Aconteceu que nem tudo tivesse conserto. Desde aquela hora havia uma dor indefinível a comê-la por dentro. Lembrava-se de ouvir aos mais velhos, quando miúda: "Não morres da doença, há-de ser da cura." Habituou-se ao facto de que há coisas incuráveis e inoperáveis. Estão em locais inacessíveis ao bisturi. Resignou-se a viver com a mazela. Nunca mais usou saltos altos e caminha muito devagar, como quem não...

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Junho de 2009. Saiu pela primeira vez à Rua em 29 de Abril de 2013.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

«ESPERANÇA»


Todos os dias os espero no topo do parque. Tenho 49 anos. Estou velha. Não é por fora que o estou. É dentro. Velha. Ainda os espero. Eles vêm. Vêm velhos. Como eu. Dentro. Velhos por fora. Quase incapazes. Coxeiam entre arbustos. Outros novos. Alguns, quase crianças, podiam ser meus filhos. No início arranjava-me muito bem, como se fosse ao encontro do meu amor. Já não me esforço. Tenho o cabelo pintado de loiro. As raízes pretas indisfarçáveis. Se o deixasse da cor natural não seria branco, antes castanho muito escuro. Velha. Dentro. Não me importo de ter o cabelo mal pintado. Não me importo, é tudo. Quando comecei fantasiava o homem da minha vida ansioso de mim, dos meus beijos, no topo do parque, para passearmos de mãos dadas, ladeira abaixo. Corríamos felizes por essa, para em seguida subirmos pelo lado oposto. Atravessávamos os buxos simétricos, jogando um com o outro, esquivando-nos divertidos. Então, ele deixar-me-ia na paragem do autocarro e eu apanharia a carreira de volta a casa. Ainda cheirosa, cuidada, enlevada pelo nosso bem-querer. Ora isto era mesmo, mesmo no princípio. Antes da primeira vez que entrei num carro anónimo; antes do primeiro odor agoniante; do primeiro acto mecânico; muito antes da primeira violência que sofri. Não havia experimentado o desrespeito, o desprezo alheio, nem as frustrações feitas manipulação. Desleixei-me. De nada me serve fingir. Preciso do dinheiro. Poderia arranjá-lo de outras formas? Sim. Por que estou aqui? Não me lembro. Sei que não há tempo para namoros. Desiludi-me. Quis ser resgatada? Muitas vezes. Não aconteceu. Talvez não quisesse o suficiente. Acredito que aconteça a outras. Será possível, certamente. Comigo não. Perdi-me e ao brio, também. Fui bonita. Fui bonita. Fui bonita. Repito-o e nada diz de mim. Fui. Hoje vejo-me feia e velha. Deixei-me engordar e, se me apetecer, venho de chinelos de praia para o topo do parque. Visto-me muitas vezes, talvez todos os dias, como quem vai à praça, de aparência descuidada, num saltinho, ainda sem o banho tomado, para ganhar tempo ao dia que é curto. Para eles, tanto faz. Procuram-me mas a busca não é por mim. Mulher. Pessoa. Sou apenas um corpo qualquer. Um bem móvel. Um serviço. Se ausente, não esperam. Descem um pouco e encontram mais novas, bonitas, de outro género. O cheiro já não lhes sinto, nem me enojam os seus corpos demasiadas vezes imundos. Desleixados também eles. Não reparo que não tentem a conversa. Aqui trabalha-se. Tenho tempo para sonhar, longe. Onde moro e não suspeitam o que faço. Sabem de outra que também sou. A que vai, de facto, à praça. A que cuida dos filhos. Sozinha. A que sobrevive a custo. Um dia alguém me há-de ver, me há-de procurar e dir-me-á: “Vá, é tempo de deixares isto. Descansa.” Sonho. Alguém me mostre com carícias e ternura que não sou apenas a profissão. Não. Sou uma boa mulher. Corajosa. As mulheres que ganham a vida de outras formas passam por mim. Encaro-as. Elas fazem por não me ver. Disfarço o inegável. Ando uns passinhos para a frente, ou para trás, consoante a direcção de onde me aparecem. Como se houvesse outro rumo a seguir. Passam por mim aceleradas. Algumas pena. Outras desprezo. Dissimulam não perceber e passam rente, como se eu fosse uma aragem. Ignoram-me. Talvez os seus homens também se venham aqui. E eu mais velha, feia. Nada a dizer-lhes, mas disponível. Faço o que muitas recusam. Condenam-me porque posso ser a perdição. Nem todos querem usar preservativo. Faço-lhes a vontade. Receio? Tenho-o, mas o dinheiro faz falta. Se me nego eles descem e encontram quem não se importe com a saúde, ou com as vidas em que tocam. Só existo na minha morada. Aqui, neste bocado de passeio, onde se ouvem galos, não. Não existo para eles, para mim, antes não existisse para elas. Encostada ao alumínio do poste, sou uma mistura de expectativas. Minhas e dos que param para eu trabalhar.

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Abril de 2009, saiu pela primeira vez à Rua em Abril de 2013.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Letras de Canções

PROCUREM NO YOUTUBE. LEIAM A LETRA. «DRUNKEN SOLDIER. - Dave Matthews Band» É para todos que foi escrita.

«Fill up your head, fill up your heart and take your shot.»

«Fill up your head, fill up your heart, cause that's all we got, don't waste your time trying to be something you're not.»

«Shine your light while you got one.»

quarta-feira, 17 de abril de 2013

https://www.youtube.com/watch?v=zCFyYYTSOR4

Olhem que giro. (Tb hei-de mandar um texto numa garrafa - que não prejudique o ambiente - ao mar.) Agora, em vez de dizer "please don't waist your time on me" quero o oposto. Waist your time on my words please! Se encontrarem um papelinho - INSTRUÇÕES: a) desdobrar b) LER. Gostaram? Metem no bolso e seguem caminho. (a assobiar de preferência.) Não gostaram? Fazem aquele gesto com os dedos indicador e médio enfiados na boca, limpam a baba, voltam a dobrar e deixam noutro local, que não temos todos de gostar do amarelo. Boa?! Boa! OBRIGADA! Aquele abraço.
 
Youtube surripiado ao programa Canções de Auto-ajuda, na Vodafone FM.
Ontem o Francisco Melo disse-me, via mensagem, que encontrou um dos papelinhos. Fiquei muito contente. Pensei que não ia ter "feedback" da Rua. Que as pessoas não iam ligar. Que pegariam nos papelinhos e deitariam fora sem LER. Enganei-me. Aos poucos começo a ter o eco de quem não passa assim tão apressado pela vida e tem tempo para reparar nos pormenores. Obrigada aos que já responderam ao meu apelo de náufraga. Ontem recebi um e-mail que me deixou, igualmente, feliz. Partilho parte.

«Olá Andreia
 
Eu li!

A vida é feita de contingências, de encontros, desencontros e acasos!
Vou regularmente ao (...) e saio sempre e entro, pela (...)
Hoje, porém, desviei-me por uma ala que não vou muito e vejo uma porta que dá para as traseiras (...) E saí por aí. Coisa que nunca tinha acontecido!

Quando vinha num passadiço (...) encontrei a sua folha, dobrada, no meio dumas flores/ervas.
Reparei que uns metros à minha frente seguia uma senhora (eram aí umas 2h desta tarde). Não sei se seria a Andreia, ou se já tinha passado por ali e deixado a sua mensagem.

Pela sensibilidade, criatividade e (vamos lá) ternura do acto, não deverá ser uma pessoa demasiado desiludida com a vida.

(...)

Sabe?
Quando caminhamos na vida, e passamos por muitas pontes, rios, tempestades e bonanças, acabamos por ficar algo insensíveis e não ter "paciência" para estas iniciativas.

(...) Parabéns pela iniciativa.

Gostei da abordagem que faz da vida.

Certamente no sentido metafórico da abordagem que quer fazer, tenta obter reacções de quem, porventura, lhe possa responder e retirar daí algumas ilacções, que em última análise, poderão servir objectivos académicos meritórios.

Andreia. Eu achei a sua mensagem e respondi!

(...)

Pedro»

terça-feira, 16 de abril de 2013

«CLASSIFICADOS»



Começara quando leu um anúncio nos classificados: «Não sou triste, mas só. Não pertenço. Talvez gostasse. Alguém aí? Responder pela mesma via, s.f.f.» Foi por graça que o fez. Não se sentia triste embora fosse, igualmente, solitário. Também não pertencia. Terá dito na semana seguinte: «Poderá não lhe agradar quem responde. Partilho algo consigo e estou aqui.» Iniciou-se entendimento, via postal, que jamais qualquer um dos dois ousou modificar com um encontro. Temiam que a realidade devastasse o que haviam construído com palavras. Não conheciam a cara, idade, ou feitio do remetente, porém, havia verdades na forma de se falarem. A vida real prosseguia imperturbável. Preenchidos por outros assuntos. Aquela comunicação semanal era preciosa, para os dois, que não pediam mais do outro que aquelas quatro, ou cinco linhas que diziam tanto. Um dia ela calou-se e ele não soube o motivo. Vestiu-se de luto. Assim continuou até ao dia em que morreu. Não se sabe se era amor, ou uma profunda amizade. Eram batimentos cardíacos que as incontáveis palavras, deixadas em papel, não conseguiram transmitir.


Andreia Azevedo Moreira em 13 de Junho de 2009.


Conto #6 a sair para a Rua. 
(15 a 21 de Abril 2013)