sexta-feira, 6 de setembro de 2013

PROCURO LEITOR


PRETÉRITO (Perfeito)



Deixa-me passar. 
Não venhas para o meu lado, 
sussurrar-me ao ouvido. 

Não acertes o passo com o meu, 
finge que não nos vimos um dia. 
Antes de te encontrar vivia 
sem saber que Deus havia 
criado, para mim, um par. 
Deixa-me passar.
Abranda, fica p’ra trás.
Não entendo esse buliço.
É tão triste o teu olhar.
Mal mereço a tua dor, 
não é em mim o teu lugar.
Antes de ti não sorria, 
mas não posso em ti ficar.
Deixa-me passar.
Magoa ver-te partir, é certo que fico a perder.
Resta a dor de não te ver.
Queria-te eterno abraço, mas tenho apenas dois braços,
que acolhem já outros dois.
Não os hei-de desprezar.
Antes de ti não sentia, mas não posso em ti morar.
Deixaste-me passar.
E eu não consigo esquecer os beijos que não te dei.
Como calo a vontade e a força com que te amei?
Vesti a alma de luto por esta paixão não vivida,
que antes de começar já soava a despedida.
Sonho-te da cama feita, com cobertores de saudade. 
Num encontro numa esquina, roubaste-me a liberdade.
Não choraste por mim amor.
Nem me barraste o caminho, ou imploraste «Fica.»
Não era eu, eu era engano.
Ardi num ciúme insano, com o que te aconteceu.
Encontraste amor verdadeiro.
O do passo certo com o teu.

Andreia Azevedo Moreira
Junho 2009 – 1ª Versão
Março, Abril de 2013 - Adaptação para Fado.

Este trabalho que me deu um gozo desgraçado surgiu na sequência de um desafio do Povo Lisboa - Rua Nova do Carvalho. Categoria: FADO MUSICADO

OBRIGADA POR ME LERES.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Qual é coisa, qual é ela?

"Arde a pele às costas subjugadas, 


arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s); 


cheira ao carvão das frases sublinhadas, 


sabe ao sal do médio a virar as folhas 


com ruído; 


eis o vício avassalador e irreprimível que, 


ao aprisionar, liberta." 



Andreia AM em Fevereiro de 2012, para passatempo da Revista Ler.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

«É LÁ DENTRO A MINHA MORADA.»

                                                                                                                    
Disseram-me que não podia entrar. Sento-me do lado de fora, descrente. Choro. Não tenho força para erguer a cabeça, que me tomba nas mãos. Não de vergonha, cansaço. «Não entre, por favor.» Quando só eu devo estar ali. Eles parecem não perceber, ou não querer. «São as regras.» Regras que também ditaram que não comprássemos casa. «Não». Aceitámos. Tantas recusas. Comunicaram-nos que era proibido amarmos uma criança. Ela que ficasse esquecida, de ninguém. Resignámo-nos. Tentaram varrer-nos. Como se o que os olhos não vissem, nós, não existisse. Vivemos inteiros apenas entre as nossas paredes arrendadas. Aquela pessoa tem qualidades, os seus defeitos também. A conversa habitual. Desejo-a, ainda. O meu corpo entendeu-se com o dela. Lembro-me bem da primeira vez que os nossos olhos se prenderam. Soube que ali iria morar algum tempo. Fui correspondido. Custa-me não lho conseguir demonstrar na rua. «Não pode ser.» Pretendem que afirme tratar-se de amizade; convencer-me de um bem-querer menor. Exigem que não afrontemos os demais, com esta maneira anormal de ser. Procurei empenhado e nunca encontrei qualquer anomalia. Todavia, o nosso amor insulta e por isso nos coibimos dele. Desconheço se para não ferir, ou para que não nos agredissem, fartos que estamos que nos maltratem. Extenuado que vejam feio o que, para mim, é belo. Perfeito. Tenho perdido muito tempo a esconder-me. Agora mesmo, ele está ali dentro e não consentem que fique perto. Deveria ter-lhe dado mais festas e tê-lo apertado mais vezes nos braços. Deveria ter-lhe procurado a boca, com a minha, sempre que quis. Abdicámos em prol de terceiros que mais não têm feito senão tentar matar-nos. «Esse elo não tem validade.» O que trago em mim é para ocultar. Afirmam. Quero gritar-lhes da injustiça que cometem. Desisto. A luta afigura-se inglória. Despirei, algum dia, a vergonha que me vestiram ainda criança? Sobretudo pesado. Escuro. Bafiento. Uma festa no rosto ou darmos as mãos, trocarmos beijos, ou aquelas carícias nos cabelos. Gestos abolidos. Tornei-me furtivo. Exímio na arte de amar sem o toque. Ainda que uma vontade imensa no peito, não houve o lugar devido para o nosso calor. Isto provocou-me vazio que corrói. Têm-me dito por meias palavras, olhares reprovadores e trocistas que não é digna a minha história. Não entendo. É igual ao que observo noutros casais. Estudo os modos dos apaixonados. Os meus em nada diferem. Quero-lhe bem, daria a minha vida para salvar a sua e faço o que posso para o proteger. Cumplicidade que me é devolvida. Impõem-me uma parede. Sou assim e minto, para que não me chateiem, nem me tentem formatar. Hoje barram-me o caminho, o que me é inaceitável. Está ali dentro toda a minha vida partilhada com outra pessoa. Dizem-me que vá para casa; só a família chegada; eu não. Como? Eu, sim. Sou a sua companhia. Tenho sido o amor, o sexo, também a amizade. Tenho sido as discussões, a ternura, a saúde, as doenças (esta também), as viagens, a convivência, as traições, as mágoas, os desabafos, as flatulências, o desespero, as gargalhadas, os abraços, os beijos, as dificuldades, as vitórias. Tenho sido. Sou, ainda. Mandem-me para casa, pouco importa. Ali acaba parte de mim. Já não tenho como lhes explicar que não se explica o amor. Sou o João. Morre o meu Francisco. Não me deixam entrar, mas eu nunca de lá saí.

Andreia Azevedo MoreiraCriado em Maio de 2009. 

Obrigada por me leres.



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Texto #24 a sair para a Rua

Chegou o dia em que o homem, cuja rectidão sempre fora inquestionável, se sentiu perdido.
Vive-se.
O dia-a-dia vive-se.
Feliz.
Impensado.
Até ao dia.
Hoje, amanhã, um dia qualquer.
A vida interroga-nos. Questiona insolente:
- É isso?
(Assinto)
Pergunta insistente:
- É isto?
- Sim.
(Porque perguntas?)
É o que desejo. Com senãos. Aceito. É tudo.
(Isto eu.)
O meu pensamento, outra história.
Vida contida nele.
Vidas que não vivi (Que não escolhi.) pressentidas.
- Cala-te!
Ignora-me brincalhão.
Ocupa-se de melodias alheias às que escolhi.
Desinquieta-me matreiro.
- Cala-te!
Enfrenta-me. Gargalhadas desobedientes. Diz-me:
- Estou aqui.
Eu já enervado, desorientado:
- Shiu.
Ele manso, dengoso, feito lobo vestido de lã:
- Não me consegues calar.
- Vamos ver.
(Vamos ver.)
Ri-se sobranceiro.
Aflijo-me.

- Enlouqueceste?

Andreia Azevedo Moreira - Criado em Março de 2009. Revisto em Agosto de 2013. 

OBRIGADA POR ME LERES.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013



Viveria 100 anos na solidão do papel e da caneta. Mas diz que tenho o colesterol elevado. Deve dar-me um fanico muito antes...
A partir de amanhã inicia-se a semana #24. Últimos cartuchos da #23. Já leram? Hum?

https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/204170756410892

MARATONA DE DISTRIBUIÇÃO. LOCAL: ALCOCHETE


UM ENCONTRO


Um encontro e as minhas palavras a aproximar-lhes as cabeças. Ui...

O pendura pode ir a ler pois é?


VERDE ESPERANÇA