sábado, 3 de agosto de 2013

Pelo-me por desafios. Há dias respondi a um da "Associação de Palavras". Sou uma preguiçosa desgraçada. Preciso de prazos para (me) cumprir.

Consistia em escrever uma carta, contrariando a tendência actual das abreviações (sms, tweets e afins.) Aí vai alho...

andreia am <…> 

Jul 29 (6 days ago)

to associacaodepalavras2013@gmail.com 

Olá! Olá. Nunca sei se será melhor parecer-se feliz, ou contido. Ando há muito tempo para te escrever. É hoje. Preferiria fazê-lo à mão, com a minha parker bordeaux da vida toda, mas depois teria de digitalizar a carta para enviar para o e-mail da Associação de Palavras e não seria certa a legibilidade da minha letra. Pelo menos, não na totalidade da missiva, que terá notas de rodapé e rasuras. Tinha saudades de te escrever. (Sim, eu sei, ainda ontem o fiz, mas tu não sabes. E por isso não faz mal escrever-te à exaustão. Não te canso.) Uma pessoa anda pela vida esquecendo-se das pessoas que lhe fazem falta e eu passo os dias a dizer que a culpa é do tempo, da rotina, das escolhas que ignorante fiz. Que é que tens feito? Gostava de te conhecer melhor as noites, os sonhos, principalmente os pesadelos. Não quero saber tudo, apenas mais do que sei, que é nada. Imagino-te apenas. E dessa idealização nasceu uma pessoa que não existe a não ser na minha cabeça. É para ti que não és que escrevo. Tento chegar-te e a resposta não vem porque não há destinatários na Terra do Nunca. O carteiro repreendeu-me muitas vezes antes de desistir e começar a guardar-me as cartas. Penso que se apiedou de mim. Entendeu que tenho de as enviar para algum lado. Agradeço-lhe o gesto fingindo que acredito que as minhas palavras chegam sãs e salvas ao destino. A ti. Que mal tem se me iludir um pouco? Uma vez a minha tia-avó disse-me o seguinte: «A vida é uma mentira e as verdades que tem são muito duras.» Na altura não a entendi. Ainda não te tinha criado. Vivia apartada desta loucura, de tamanha asfixia. Era tudo muito simples. Branco, ou preto. Havia uma deficiência visual nos olhos da minha alma que me impedia os cinzentos e as cores do arco-íris. Sei que se me ouvisses ficarias com pena deste vazio. Não é caso para tanto. Sou tão-só uma pessoa perdida. Observo os que me parecem conhecer os seus caminhos e afiguram-se-me igualmente desnorteados. Queremos mesmo ter mapas? Nunca tive jeito para a lógica, tão-pouco sentido de orientação. Habituei-me. Vivo às apalpadelas e é por isso que bato tanto com a cabeça. Quando tal me acontece por vezes acordo, outras entro em coma. Nesses períodos de desligamento sonho. Foi num sonho que te encontrei? Pareces-me tão real. Visualizo-te de forma tão clara. Conheço-te inclusivé o jeito de dizeres mal algumas palavras. Tens dito mal o meu nome. Estou à tua frente, olho-te nos olhos e tu pimbas, soletras-me ao contrário. Onde há uma vogal pões uma consoante. Onde deveria haver uma consoante eis a vogal. O que deveria rimar com sedimento, rima com escrita. Houvesse cura para o desacerto e já a teria encontrado. Ando há anos a tentá-lo. A fronteira entre a sanidade e o purgatório é ténue. Um momento tinha apenas um pé dentro da água fria do Oceano (Único denominador que nos é comum.), no seguinte afogava-me. Tenho água nos pulmões. Falo-te e só te chega glugue glugue glugue. Talvez por isso nunca me tenhas respondido. Aquilo de não haver destinatários numa Terra que é Nunca é desculpa tua para me fugires. Espero um dia destes dar de caras com outro peixe, que me leve para águas mais calmas. Sinto-me extenuada nesta corrente. As mãos que me deram deixaram de saber nadar. Ando aflita para me manter à tona. Se isto te chegasse às mãos e te compadecesses de mim, respondias-me numa garrafa? Andava eu ao sabor da corrente, já desistida de ti e levava com ela na tola. Agarrava-a, sacava-lhe a rolha, retirava o canudo de material indestrutível que desenrolava no meu estertor e lia: O2. Então nadaria como quem voa e chegaria à tona como quem já tocou nas nuvens e viu que elas são mesmo algodão. Por ora cessarei de escrever-te. Tento esta vez, que desejo derradeira, deixar-te no fundo do mar. Dou à costa. Renasço. Subo àquela árvore, onde me rodeio do chilreio dos pássaros para que me alegrem na tua ausência definitiva. Vejo o carteiro a passar lá em baixo. Viro-me. Deito-me neste galho robusto. Pendem-me as mãos e as pernas mas a coluna sustenta-me. Fecho os olhos. Adormeço. Acordo a cair.

Que te cheguem nesta carta todos os beijos e abraços que nunca te dei.

Uma Pessoa Perdida(mente).

21 Semanas a DAR PALAVRAS na Rua.

Escrevia-lhe cartas que lhe falavam aos olhos. 

Era, todavia, mais abaixo que as escutava quando as repetia em voz alta

AAM, 3/4/2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

«Carta»



Lisboa, 23 de Novembro de 1950

Querida mãe, não me levarás a peito se te disser que preferiria ter nascido homem. É violenta a vida para todos. Para uma mulher  na sociedade deste ano em que te escrevo – O da tua morte. – mais do que agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo não se compadece das regras que inventaram para nós. Não me sinto o que pretendem que seja. Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Eis que aquele contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros esperam de mim:

- Comporta-te. – Dizia-me a água.

- És uma senhora. – Sussurrava o ruído.

Lembrei-me de ti quando me dizias com os olhos: «Que desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?»

Foi demais. Dei cinco murros na parede e um pontapé na torneira. Calou-se, sabes? Pumba. Bastou querer. Que culpa tenho se o meu pensamento não se adequa? Antes a morte, por me alistar num exército. A guerra com os combates, o sangue, as mutilações. Que é isto que me fazem à alma, senão a vontade de amputá-la? Sofrias. Vi as lágrimas que derramaste por eu ser diferente. Às que não observei provei-as no sal que te temperava a face, quando te beijava. Perdoa-me se me não posso desculpar pela minha natureza. Toda a vida me apressei subindo as escadas que me elevariam ao teu coração. Perdia o fôlego. Quanto mais corria, menos te alcançava. Sempre soube que, mesmo que lá chegasse um dia, não teria o que te oferecer, além deste imenso amor.

(E tu sem o aceitares.)


Anna Maria

Papelinho - Semana 21 - 21º Texto a sair para a Rua

DAR PALAVRAS
www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira

 


«Carta.» (Semana #21/ 29  de Julho a 4 de Agosto de 2013)


Lisboa, 23 de Novembro de 1950

Querida mãe, não me levarás a peito se te disser que preferiria ter nascido homem. É violenta a vida para todos. Para uma mulher  na sociedade deste ano em que te escrevo – O da tua morte. – mais do que agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo não se compadece das regras que inventaram para nós. Não me sinto o que pretendem que seja. Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Eis que aquele contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros esperam de mim:
- Comporta-te. – Dizia-me a água.
- És uma senhora. – Sussurrava o ruído.
Lembrei-me de ti quando me dizias com os olhos: «Que desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?»

 

(Criado Dezembro de 2009. Revisto em Julho de 2013. TEXTO COMPLETO NA PÁGINA DO FB)

Obrigada por me leres.
PROCURO LEITOR. ÉS TU?
andreia.azevedo.moreira@gmail.com

quarta-feira, 24 de julho de 2013

«Nunca te esqueci»



Pus-me a pensar em ti, enquanto passava a ferro o vestido verde para amanhã. Tentei lembrar-me da tua cor. Penderias para algum tom? Azul? Pensei em música. Aquela que dançaste. A que mais ouviste, em tempos de desespero? Responder, não consegui. O livro da tua vida? Um das prateleiras com ficção científica. Qual? Prato preferido. Que iguaria te deleitava, como se não houvera outra capaz de te alimentar? Franzi a testa e os olhos num esforço de recordação. Resultado semelhante. À altura ignorava-o, hoje menos saberei. Eras de esquerda, ou direita? Havia Deus, deuses, ninguém? Culparias de quê tua mãe? Por quem darias a vida? Ódios de estimação? Venerarias alguém? De quem ligeiro fugiste? Que palavra jamais disseste? E o animal: O cão? O tigre? O macaco? Entristeço-me quando constato que a pouco darei resposta. Fico-me pelo "Penso..." desconhecendo se o pondero, porque me soa bem que assim fosse, ou porque o seria(s), de facto. Tenho certo: gostavas de nadar nu. Também eu. Houvesse onde me agarrar melhor. Não é suficiente. Bem sei. O filme da tua vida? Um vício? O prazer secreto que a mim tivesses confiado. Temores? Creio que tremias na cadeira do dentista. O grande amor que perdeste? E o teu mais querido amigo? O que tem nome de utensílio, que serve para cortar madeira? Ah! Gostavas dos gelados do Italiano. Pouco, não é? Para alguém a quem amei, tão desesperada. Enquanto pude amei-te muito. Quero que saibas disso. Sobre ti resta a convicção do que julgavas ocultar, enquanto omitias os pormenores que me eram (en)tão fundamentais.
Nunca te conheci.


Andreia Azevedo Moreira
Criado em Abril de 2010. Revisto em Julho de 2013 e Outubro de 2014.

OBRIGADA POR ME LERES.


terça-feira, 23 de julho de 2013

"I Want You"


(National Geographic – Começou por ser uma história sobre leões.)

Observo-te do outro lado da Rua. Mantemo-nos à distância, uns instantes. Não desviamos os olhos presos. Serei capaz de atravessar? Sou. Estou a meio metro de ti, na dúvida se cumprimento, ou passo como se não te houvesse encontrado. Gostas de dificultar e não avanças, nem recuas. Ficamos a medir-nos como duas janelas por abrir. Por que me olhas tão sério. Queres que me vá. Há muito prescindiste das respostas. Ainda não me cansei de te questionar. Colocaram cimento nas nossas articulações. Impede-nos de prosseguir ou de qualquer tentativa de fuga. Minto-te. «Só um abraço. Depois vou.» Não dás sinal de o autorizar e já me agarrei a ti com força. Colo-me ao teu corpo. Quero saber se os nossos perfis encaixam. Interessa-me, por exemplo, a compatibilidade dos nossos pescoços. Vou atrás da tua orelha. Perco a vergonha, desenho-a com a língua. Desço-te até à clavícula. Acumulo os cheiros teus para te mapear na memória. Permaneces sem dizer uma palavra. Escondo-me no teu peito. Recuarei. Vou fingir que não te vi e que não te tentei seduzir. Nego tudo, humilhada pela tua indiferença. Desisto. Estava preparada para a derrota. Coloco o pé para o passo atrás. Correrei muito depressa na direcção oposta. Talvez nada disto aconteça. Eis que me agarras e reténs sem te rires para mim que me perco na ausência de sorrisos. Estás a magoar-me. Queres que fique. É isso. As nódoas negras que me desenhas nos braços são tu a quereres-me. Quase tanto desejo quanto o meu. O silêncio a tua forma de me despir. Mordes-me porque não me sabes beijar. Desaprendemos a ternura na espera. Demasiado longa para arranjarmos tempo, agora, para nos escondermos. A Rua ficou deserta, por respeito ao nosso inadiável. Bebo o meu sangue e o teu. (Também te mordo.) Esqueço o medo de me achar nua à tua frente. Empurro-te, bruta. Bates com a cabeça no prédio onde nos fomos apoiar. Não sentes dor. Dizes:

«Não sinto dor.» (Estás aqui.)

Agrido-te implacável, com a minha vontade. Não te defendes.

«És a seguir.»

Toco-te para te revelar. Cega é com as mãos que te vejo. Quero conhecer-te inteiro. Puxo-te. Avanço por ti para te matar em mim. Não é saudável viver-se com uma pulsão destas a comer-nos a alma. Tenho os tímpanos a zunir porque me chegaste ao coração pelos ouvidos. O prazer comanda. Passivo ao meu ataque, aguardas que mate a sede. Impossível. Lambo-te o sal da pele. Tenho o sexo quente de tanto sangue. Pulsa ao ritmo do músculo na expectativa de te acolher. Duro. Viras-me.

«Temos tempo.»

Rosnas no meu cachaço. Tens duas mãos para pousar onde preciso. Uma boca da qual espero o indizível. Narinas que me respiram. Apertas-me contra ti. Sinto-te. Dentro.

«Não chega.»

Apoio os braços na parede que me sorri, cúmplice. Empurro-a ritmada. Uma e outra vez. Estás onde te quero.

«Espera.»

Não sou paciente. Precipito-me para a construção e para ti numa vertigem. És desnorte e, ao contrário de mim, tolerante. Aguardas a vez de me assassinar em ti.

«Depois de uma paixão destas, só a morte.»

Voltas-me. Sou leve nas tuas mãos. Manipulas-me bem, apesar da obesidade que não te incomoda. A tua aceitação do meu corpo comove. A coreografia da nossa dança é inconstante, na pista escorregadia. Somos suor. Os meus pés deixaram o chão muito antes do teu colo. Quebrar-me-ei na queda. (Não tenho hipótese.) Não é nisso que penso, quando constato que continuas calado. És tão silencioso. Há em ti segredos ou só vazio? Quero dizer-te coisas indecentes ao ouvido. Digo-tas simulando que o não faço. Creio que não mas queres ouvir, porque me empurraste de novo e esfregas-me o rosto na superfície irregular, enquanto me seguras pelo cabelo. Não sei de ti. Só de mim. Enfraquecida, letárgica, depois da corrente que me atravessou. Afastas-me para o lado. Nojo?

«Ele do outro lado da Rua. Viu-me?»

«Ela do outro lado da Rua. Não me apeteceu.»

Encontraram-na morta um século depois. O cadáver tinha epiderme, músculos, unhas, cabelo. A face reconhecível, porém, do lado esquerdo mutilada. Despida sorria. Na Rua testemunha nenhuma do acontecido. A autópsia declararia órgãos. Um milagre. Foi trabalhoso removerem-lhe o coração para se aferir as causas da morte.

(Estava amarrado.)

Andreia Azevedo Moreira

Criado de 9 a 13 de Julho de 2013. Saiu para a Rua, pela primeira vez, em 15 de Julho de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.


domingo, 21 de julho de 2013


AH! Bem-vindo. Obrigada por "ouvires" o apelo. 317 Weeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!


Obrigada Ana Rita Lopes! 318 assim enquanto esfrego um olho. :) beijinhos.

Obrigada Ana Rita Lopes! 318 assim enquanto esfrego um olho. smile emoticon beijinhos.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

National Geographic – Começou por ser uma história sobre leões.


I WANT YOU

Observo-te do outro lado da Rua. Mantemo-nos à distância, uns instantes. Não desviamos os olhos presos. Serei capaz de atravessar? Sou. Estou a meio metro de ti, na dúvida se cumprimento, ou passo como se não te houvesse encontrado. Gostas de dificultar e não avanças, nem recuas. Ficamos a medir-nos como duas janelas por abrir. Porque me olhas tão sério? Queres que me vá? Há muito prescindiste das respostas. Ainda não me cansei de te questionar. Colocaram cimento nas nossas articulações. Impede-nos de prosseguir, ou de qualquer tentativa de fuga. Minto-te. «Só um abraço. Depois vou.» Não dás sinal de o autorizar e já me agarrei a ti, com força. Colo-me ao teu corpo. Quero saber se os nossos perfis encaixam. Interessa-me, por exemplo, a compatibilidade dos nossos pescoços. Vou atrás da tua orelha. Perco a vergonha, desenho-a com a língua. Desço-te até à clavícula. Acumulo os cheiros teus, para te mapear na memória. Permaneces sem dizer uma palavra. Escondo-me no teu peito. Recuarei. Vou fingir que não te vi e que não te tentei seduzir. Nego tudo, humilhada pela tua indiferença. Desisto. Estava preparada para esta derrota. Coloco o pé para o passo atrás. Correrei muito depressa, na direcção oposta. Talvez nada disto aconteça. Eis que me agarras e reténs sem te rires para mim, que me perco na ausência de sorrisos. Estás a magoar-me. Queres que fique. É isso. As nódoas negras que me desenhas nos braços são tu a quereres-me. Quase tanto desejo quanto o meu. O silêncio a tua forma de me despir. Mordes-me porque não me sabes beijar. Desaprendemos a ternura na espera. Demasiado longa para arranjarmos tempo, agora, para nos escondermos. A Rua ficou deserta, por respeito ao nosso inadiável. Bebo o meu sangue e o teu. (Também te mordo.) Esqueço o medo de me achar nua à tua frente. Empurro-te, bruta. Bates com a cabeça no prédio onde nos fomos apoiar. Não sentes dor. Dizes:

«Não sinto dor.» (Estás aqui.)

Agrido-te implacável, com a minha vontade. Não te defendes.

«És a seguir.»

Toco-te para te revelar. Cega é com as mãos que te vejo. Quero conhecer-te inteiro. Puxo-te. Avanço por ti, para te matar em mim. Não é saudável viver-se com uma pulsão destas a comer-nos a alma. Tenho os tímpanos a zunir, porque me chegaste ao coração pelos ouvidos. O prazer comanda. Passivo ao meu ataque, aguardas que mate a sede. Impossível. Lambo-te o sal da pele. Tenho o sexo quente, de tanto sangue. Pulsa ao ritmo do músculo na expectativa de te acolher. Duro. Viras-me.

«Temos tempo.»

Rosnas no meu cachaço. Tens duas mãos para pousar onde preciso. Uma boca da qual espero o indizível. Narinas que me respiram. Apertas-me contra ti. Sinto-te. Dentro.

«Não chega.»

Apoio os braços na parede que me sorri, cúmplice. Empurro-a ritmada. Uma e outra vez. Estás onde te quero.

«Espera.»

Não sou paciente. Precipito-me para a construção e para ti numa vertigem. És desnorte e, ao contrário de mim, tolerante. Aguardas a vez de me assassinar em ti.

«Depois de uma paixão destas, só a morte.»

Voltas-me. Sou leve nas tuas mãos. Manipulas-me bem, apesar da obesidade que não te incomoda. A tua aceitação do meu corpo comove. A coreografia da nossa dança é inconstante, na pista escorregadia. Somos suor. Os meus pés deixaram o chão muito antes do teu colo. Quebrar-me-ei na queda. Não tenho hipótese. Não é nisso que penso, quando constato que continuas calado. És tão silencioso. Há em ti segredos, ou só vazio? Quero dizer-te coisas indecentes ao ouvido. Digo-tas simulando que o não faço. Creio que não mas queres ouvir, porque me empurraste de novo e esfregas-me o rosto na superfície irregular, enquanto me seguras pelo cabelo. Não sei de ti. Só de mim. Enfraquecida, letárgica, depois da corrente que me atravessou. Afastas-me para o lado. Nojo?

«Ele do outro lado da Rua. Viu-me?»

«Ela do outro lado da Rua. Não me apeteceu.»

Encontraram-na morta um século depois. O cadáver tinha epiderme, músculos, unhas, cabelo. A face reconhecível, porém, do lado esquerdo mutilada. Despida sorria. Na Rua testemunha nenhuma do acontecido. A autópsia declararia órgãos. Um milagre. Foi trabalhoso removerem-lhe o coração para se aferir as causas da morte.

(Estava amarrado.)

Andreia Azevedo Moreira
Criado de 9 a 13 de Julho de 2013. Saiu para a Rua, pela primeira vez em 15 de Julho de 2013.

Última revisão a 17 de Dezembro de 2014.

OBRIGADA POR ME LERES

quarta-feira, 10 de julho de 2013

«CARAPAQUECLÉ»



- Hey. Não vás! Pelo menos, não já. Tenho perguntas, ainda.

Carapaqueclé pára. Vira-se com uma expressão benévola no rosto, sem intenção de me dizer mais. Tem aquele olhar doce, a boca numa meia-lua optimista. Feições belíssimas, impenetráveis. Retira o chapéu sagrado da cabeça e segura-o com ambas as mãos. Olha para o chão, autorizando-me a prosseguir.
- Não vi tudo. Mostraste-me a paisagem, o horizonte distante, a roupa que me servirá. Deste-me perspectiva. Aceito-a, sinto-me grato, mas não vejo a chegada. A vegetação impede-mo. Achas que consigo? Continua o silêncio. O olhar diz-me o que preciso mas os meus ouvidos pedem, narcisistas, uma qualquer vibração que os conforte. Encontramo-nos numa floresta. É escura, embora nada assustadora. De tal maneira é densa que me dará muito trabalho sair. Ele ensinara-me o essencial. Crê que cada um terá de se evadir pelos próprios meios. É sábio o meu amigo. Fui seu discípulo atento, apreendi ávido e comprometido o que me quis transmitir. O problema é que, demasiadas vezes, a preguiça, um bicho que na selva gostamos de chamar “vagarinho”, encarna. Cruzo os braços, sento-me prostrado e mandrião. Carapaqueclé não tolera esse tipo de comportamento. Olha-me tão-só e nada diz. Nada dirá. Espera que a birra me passe.
«Faz-te ao caminho.»  


Criado em Dezembro de 2009 . Revisto em Julho de 2013.)

Obrigada por me leres.

Foi o 18.º Texto a sair para a Rua.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

«Anna e Boris»


Rasgos de lucidez e Boris devastado. Olha para Anna, a seu lado, no jardim da residência francesa e apetece-lhe chorar. Todo desconsolo. Não pode fazê-lo. Por ela que há muito se ausentou, há que manter a farsa. Anna cujo corpo vagueia perto, roçando-lhe a roupa e a alma, parece nunca esquecer o amor que os enleou na primeira troca muda de olhares. Ignora a realidade. Há anos que ela vive apenas a “outra vida”. Boris sabe que a demência haverá de o levar também. Mantêm-se unidos pela memória de um amor teimoso, insensível à passagem do tempo, ou ao avanço da loucura. Não quer continuar sem ela. Perdeu a graça. É cada vez mais difícil distinguir entre o que lhe acontece de facto e o que é fruto da imaginação de ambos.  

Recorda com doçura magoada a sua vida, com Anna, outrora normal. Não Anna, porra. Isabel. Anna já é dos tempos de alienação. Anna, Boris e todas as outras personagens que forjaram para mascararem a rotina. Começara por brincadeira. Casaram jovens e fartos que estavam da existência morna que se instalara, decidiram reinventar-se. Juntos. Cada um seguir o seu caminho não era hipótese. Depressa perceberam que as brincadeiras e os fetiches não eram suficientes. Os chicotes e as flagelações não os excitavam por aí além. As trocas de nome massacravam-nos de ciúme. As viagens revelavam-se insuficientes. Desvanecera-se a comoção nos terminais dos aeroportos. Queriam mais. Outras vidas. Ao pormenor. Essas pessoas transpuseram as fronteiras das suas mentes e começaram a povoar-lhes os dias. Davam-se ao trabalho de organizarem jantares para convidados fictícios. A mesa era posta a rigor, as melhores garrafas de vinho respiravam em cima da mesa para serem saboreadas. Música selecionada tocava na aparelhagem. Dançavam a dança da insanidade. Enlouqueceram António e Isabel. Boris e Anna. Pablo e Cuca.

Os amigos afastaram-se. Encaravam-nos incrédulos. Os mais leais tentaram, durante algum tempo, fazê-los ver o que lhes acontecia. De nada serviu. Alegavam legitimidade para fazerem o que entendessem. Saíram, pois, de mansinho daquelas duas vidas incompreensíveis que seguiam cada vez mais sós. Viveram aventuras envolvendo envelopes pardos e soros da verdade. Frequentaram sessões de psicoterapia, que ao invés de os fazer regressar ainda lhes estimularam mais o devaneio. Andaram por Paris e por Lisboa, em carros de alta cilindrada. Foram pai e filha, amantes, assassinos, espiões armados até aos dentes. Foram inimigos, amigos, duas mulheres e dois homens, partilharam e fugiram da realidade "dos outros". Cúmplices. 

No dia em que tudo começara rodava no prato do gira-discos o vinil com Clair de Lune de Debussy. Melodia com que Oddville se lhes apresentou. (Homem que mais ninguém conheceu.) Era a partitura que António mais gostava de interpretar, quando tocava piano. Música maldita que de quando em vez o obriga, ainda, a regressar à realidade para onde já não é possível resgatar Isabel. Responsável, também, pela sua desgraça. Pela sua morte. Pela morte e desgraça de ambos.

Olha para o líquido onde diluiu a dosagem fatal com que planeou o seu suicídio e o homicídio dela. Contempla desolado a sua bela mulher, alheia ao plano, ingénua na sua ausência irremediável. Agita a garrafa acima da cabeça diante dos olhos. Pensa:

É chegado o fim?


(Criado em Fevereiro de 2009. Revisto em Julho de 2013.)

andreia azevedo moreira

OBRIGADA POR ME LERES!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

SINOPSE

De cada vez que caía nela, arranjava 

desculpas para as nódoas negras que se lhe 

iam acumulando na alma.

«ANIVERSÁRIO(S)»


Vagueio na memória pela casa que, na infância, também foi minha. A quietude actual agride-me. A penumbra em que se buscava o fresco nos dias mais quentes é, hoje, a afirmação do que não torna. Abate-se sobre mim a saudade desses instantes. Desanimo nesta carência das certezas de vocês em mim. De quem era, aí convosco. Em cada Verão feito vosso. Ao cheiro da árvore do jardim, intenso em noites abafadas e que nos chegava às narinas enquanto apreciávamos a brisa no alpendre, recordo-o enternecido numa semelhante, quando regresso pela estação ferroviária. Arrancaram-na há muitos anos. O odor era enjoativo. Sinto falta dos serões adocicados, da árvore e de todos nós nos respectivos lugares. Não nos deviam mover dos sítios para que fomos feitos. Fomo-lo uns para os outros. Apesar das falhas. Graças às virtudes. Às escadas em que nos sentávamos rindo, talvez não volte. Se lá me sentasse aguardaria, pelo vosso regresso. Incansável, dorido, saudoso do que são cá dentro e não podem ser, fora. A todos quantos crescemos nesses metros quadrados magoa a casa tão vazia. A saudade a sovar-nos e nós a fingirmos que não fere a pancada. Há que continuar. A vida empurra. Continuamos, pois, mas a espreitar para trás. Sabemos que não se apagam as pessoas nossas, mesmo quando o presente se reduz a uma centelha da força de outrora, num olhar apagado e a uma ausência irremediável. Mudamos. Existimos, ainda. Porém, não são destruídas as fundações. Sólidas? Perigosas? Pouco importa. São história. A nossa. São memória. Amor. Vagueio na obscuridade e no sossego definitivos. Atento, escuto gargalhadas, ralhetes, gritos, manias, conversas, mágoas, perdões que não se pediram. Ouço-nos reunidos. Instantâneos do meu tempo de vida. Vejo-nos. Foi ontem. Não foi? Talvez tenham decorrido 24 horas, apenas. A gata listada, macia, perseverante num quotidiano pretérito agora sem gente, risos, ou choros. A nossa casa desabitada e ela enchendo teimosa as escadas do alpendre, o corredor empedrado que dá para a garagem, deitando-se no relvado, lá atrás. Impassível, preenche-nos o abismo, não nos consentindo esquecer-vos.


(Pouco tempo depois do aniversário a gata morreu.)

Andreia Azevedo Moreira

OBRIGADA POR ME LERES

16º Texto - Saiu, pela primeira vez, à Rua em 25-06-2013

«Aniversário(s)»

Vagueio na memória pela casa que, na infância, também foi minha. A quietude e o silêncio actuais agridem-me. A penumbra em que se buscava o fresco, nos dias mais quentes é, hoje, a afirmação do que não torna. Abate-se sobre mim a saudade desses instantes. Desanimo nesta carência das certezas de vocês em mim. De quem era, aí convosco. Em cada Verão feito vosso. Ao cheiro da árvore do jardim, muito intenso em noites abafadas e que nos chegava às narinas enquanto apreciávamos a brisa no alpendre, recordo-o enternecido numa semelhante, quando regresso pela estação ferroviária. Arrancaram-na há muitos anos, por causa do odor enjoativo. Sinto falta dos serões adocicados, da árvore e de todos nós nos respectivos lugares. Não nos deviam mover dos sítios para que fomos feitos. Fomo-lo uns para os outros. Apesar das falhas. Graças às virtudes. Às escadas em que nos sentávamos rindo, talvez não torne. Se lá me sentasse aguardaria pelo vosso regresso. Incansável, dorido, saudoso do tanto que são cá dentro e não podem ser fora. A todos quantos crescemos nesses metros quadrados magoa a casa tão vazia. A saudade a sovar-nos e nós a fingirmos que não fere a pancada. Há que continuar. A vida empurra. Continuamos a espreitar para trás. Sabemos que não se apagam as pessoas nossas, mesmo que o presente se reduza a uma centelha, da força de outrora, num olhar apagado e a uma ausência irremediável. Mudamos. Existimos. Porém, não são destruídas as fundações. Sólidas? Periclitantes? Pouco importa. São história. A nossa. São memória. Amor. Vagueio na obscuridade e no sossego definitivos. Atento escuto gargalhadas, ralhetes, gritos, manias, conversas, mágoas, perdões que não se pediram. Ouço-nos reunidos. Instantâneos do meu tempo de vida. Vejo-nos. Foi ontem. Não foi? Talvez tenham decorrido 24 horas. A gata listada, macia, perseverante num quotidiano pretérito agora sem gente, risos, ou choros. A nossa casa desabitada e a gata enchendo teimosa as escadas do alpendre, o corredor empedrado que dá para a garagem, deitando-se no relvado, lá atrás. Impassível, preenche-nos o abismo, não nos consentindo esquecer-vos.


(Pouco tempo depois do aniversário a gata morreu.)

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Outubro de 2010. Saiu, pela primeira vez, à Rua em Junho de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

sábado, 15 de junho de 2013

https://www.facebook.com/events/346211092173949/ 

SEMANA #14

Mais uma semana em que lanço o meu apelo de náufraga. Distribuo os meus textos aleatoriamente, por onde passo, na esperança que um Leitor encontre a minha mensagem não numa garrafa, antes numa folha A4 dobrada em palavras que dou. Obrigada a todos quantos respondem. Esta semana andei a SW e tive mãos amigas (Huguinho! e Luís!) na Zambujeira. Agradeço, ainda, à Paulinha que me levou as palavras ao autocarro 753. E a Genesis Santos em Braga. Da incansável Susana Costa também rezará a minha história. E agora o textinho desta semana...
Hoje um bocadinho de mim vai estar às 23h no espaço Criamar, no Funchal. Errância Literária assim se chama o encontro de amantes da palavra escrita e dita. Errante que sou nesta vida de escreleitora chego aos poucos onde pertenço. Muito devo à Susana Costa e à sua entrega desmesurada à minha causa. Espero em breve dar-lhe este grande abraço em carne e osso.
Das curtas a desenvolver (ou não): 

Chamava-lhe puta quando ela jamais lhe cobraria, qualquer hora, por amá-lo com F.
DAR PALAVRAS
www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira

«Na mão esquerda um violino.» (Semana #14 / 10 a 16 de Junho de 2013)


Era uma velha? Nem magra, nem gorda. Nem alta, nem baixa. Nem bonita, nem feia. Tive dificuldade em perceber, até, se seria uma velha, ou um velho. O robe era de um rosa muito vivo. Na mão esquerda um violino. Rodopiava em torno de um sinal de trânsito. Girava. Girava. Girava. Com a outra mão agarrava o sinal soltando-o e prendendo-o, soltando-o e prendendo-o, soltando-o e prendendo-o conforme a necessidade do rodopiar. Olhava-me, mas não me via. Sorria, mas não para mim. Ali, numa velha, pensara eu, sem nada que esperar da vida, vi genuína fortuna. Que dirão muitos dos que por ela passaram? "Maluca. Coitada." Reponho o que vi. Nem gordura, nem magreza. Nem altura, nem nanismo. Nem mulher, nem homem. Naquele momento achei-me ante uma pessoa.

(Criado em Junho de 2008. Revisto em Junho de 2013.)






Obrigada por me leres.

PROCURO LEITOR. ÉS TU?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

VALADA, SANTARÉM




Semana #13 – DAR PALAVRAS – Junho 2013

«Interpretação»


Agarro-te o cabelo junto à nuca. Sentes? A dor que, embora sofrimento, agrada. Gostas? Que to puxe com força, como se o quisera tanto, como te quero. Respiro-te. Inspiro e sustenho o ar para te reter num desespero. Repara. Como te conheço e te percorro onde precisas. É disto que careces, não é? A minha língua, o teu pescoço e a linha fictícia que me precipita para o cume da nossa imaginação. Esse delírio que engulo sentindo cócegas na barriga, por causa das vertigens que este nosso desassossego provoca. Concordas com o que digo? Admites que quando te sussurro “aquilo”, ao ouvido, é para que só tu possas saber o significado do meu calor no teu. Compreendes que se te agarro com tamanha firmeza, numa cadência obstinada é porque sou egoísta e quero ter sucesso nisso de te fazer rir, quando chegas? «Não é bom?» Questiono-te. «Responde.» Ordeno-te. É muito bom. O que pensas? Ah. Remetes-te ao silêncio. Falo demais? Palavras a tropeçarem no suor. Pensamentos que se interpõem aos corpos e esses a desligarem-se. Que é do ardor? Por que me olhas de fora? Por que paraste com os beijos? Fiz com que arrefecêssemos. Perdoa. Recomeçamos a dança? Anseia-lo tanto como eu? Arranjamos uma régua que meça o desejo. Perdemo-nos por quantos centímetros? Não queres saber? Não seria importante termos isto em pratos limpos? Tudo medido. Quantificado. Cheiras muito bem. Gosto das tuas mãos. Onde é que vais com elas? Pode ser. Sim, sim. Aí sim. É bom. É teu, agora, o mergulho. Fico à tona, a ofegar, à tua espera, teimando sobreviver a este afogamento conjunto. Regressas, estamos molhados e dizes-me coisas. Falas-me disso porque queres que sinta aqueloutro? Está bem. Sinto-o. Percebo. Espera. Agora sou quem tem frio. Perdi-me. Explicavas-me detalhadamente o que fazíamos e acabei por me esquecer por que começámos. Não sei quem és. Quem somos. Éramos? Vou andando. Não me apetece o que tens aí e não é saciedade. É tédio. A vontade esmoreceu. Dissemos demais.

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Abril de 2010. 

Saiu, pela primeira vez, para a Rua em 05 de Junho de 2013.



OBRIGADA POR ME LERES.

terça-feira, 28 de maio de 2013

«Os dias iguais»


Todos os dias, pela manhã, escolhe em pijama a mesma caneca, o mesmo prato, a mesma colher. Todos os dias os dispõe de forma milimétrica, em cima da toalha que um dia estendeu sobre a mesa da cozinha. Acerta o prato pelos padrões do tecido. A colher ao lado do prato, abaixo da flor cor de laranja. Tem de ficar certo. Aquele prato tem de estar, todos os dias pela manhã, no mesmo lugar. Todos os dias, pela manhã, coça a cabeça confuso, depois da nádega esquerda. Olha de forma vaga os azulejos por cima do lava-louça, enquanto bebe um copo de água morna meio cheio. Todos os dias prepara o que há-de comer. É, sempre, o mesmo. Constata que fede. Omitirá o banho, da rotina, em dias alternados. Todos os dias, pela manhã, mastiga de forma calculada. Trinta vezes nos dias pares, trinta e quatro nos dias ímpares. Um gole de café. Conta os azulejos defronte. Todos os dias, pela manhã, se observa ao espelho e percebe estar um pouco mais gordo. Não tem saído de casa. É sempre manhã e ele vê-se, todas as manhãs em casa, numa repetição de acontecimentos desprovidos de importância. Todos os dias se veste sabendo o que há-de ser. A roupa é semelhante. Distingue-a encontrar-se no armário ou no cesto. A roupa é lavada ao fim-de-semana. De preferência ao Domingo. Todos os dias, pela manhã, se interroga quem lhe terá apagado as tardes e as noites. Olhar perdido nos mosaicos. Todos os dias são, para ele, dias pela manhã. Todavia, não se sente a amanhecer.

A escuridão avança.


Anoitece nele.

Andreia Azevedo Moreira

Texto 12 - Saiu pela primeira vez, para a Rua, em Maio de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES

Semana #12 - 12º Texto a sair para a Rua - Maio de 2013


Semana #11 - 11.º Texto a sair para a Rua - Maio de 2013


Eh pá. Já somos 277. Obrigada a todos quantos me têm ajudado. Mas a Susana Costa é o viagra do DAR PALAVRAS. 

ehehehehehehhehe. 

:)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Ainda da semana #11. Arranca a #12 não tarda. Procuro Leitor, para navegação séria. Sem amarras. Obrigada.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

«Não era cego, mas tinha um cão guia.»


Era um tipo normal. Mediano em tudo. Sabia-o e a sua auto-estima não lucrava com a lucidez. Não é que se depreciasse. Gostava de si, não obstante a banalidade. Ela também gostava dele. Passava todas as manhãs à frente da sua casa, antes de ir correr para a marginal e por vezes sorria-lhe, depois de dar uma festa no cão – o Pescas. Luís dera-lhe esse nome porque o resgatara na margem de um rio, num dia de pescaria. O cachorro estava prestes a afogar-se, quando ele o salvou do destino que alguém lhe traçara. Sofia há muito que se encantara pela figura daquele homem solitário, mas ainda gostava mais do cão. O único, entre os dois, que reparara nela. De cada vez que se encontravam o bicho ficava frenético. Abanava-se enlouquecido de alegria e corria em círculos à volta de Sofia. Só não se empoleirava na transeunte porque as três semanas de aulas de etiqueta canina o haviam treinado a coibir-se desses impulsos. Luís alheio à felicidade do seu companheiro, resmungava um bom dia sem se dignar encará-la. Ela não ligava. As manifestações amorosas do Pescas eram o bastante. Pode dizer-se, inclusive, que começavam a sobrepor-se à vontade que havia tido um dia de conversar, um pouco mais, com Luís. Cansava-a aquela completa falta de interesse. “Quem não dá uma oportunidade, também não a merece.” Consolava-se. Sofia sabia o nome do cão e desconhecia o nome do taciturno rapaz. Os dias sucediam-se iguais, para um e para o outro. Talvez Sofia fosse menos amargurada, se é que se podem medir as amarguras das pessoas. Luís não se envolvia. Sonhava com uma colega. Pessoa que não lhe retribuía o sentimento e que o usava para se divertir. Ele permitia-lho. Enredado numa paixão avassaladora. Sofia vivia simples. Não era dada a grandes reflexões. Gostava de correr na marginal, do Pescas, do pão quente pela manhã, que comia com doce de tomate feito pela avó de noventa anos e gostava muito de respirar fundo, enquanto olhava o céu e esticava os braços, como quem quer abraçar as nuvens. Tinha algumas amizades, gostava do seu trabalho, sentia-se bem consigo. Luís acreditava que a única posse era aquele ardor por Mariana. Que fazer da vida, quando a paixão se consumisse? Sentia-se muito sozinho. Era o cão que o impedia de se matar. A vida a escrever-se escorreita. Acaso? Não existe. À noite, em casa dançava, amiúde, a dança da solidão. Masturbava-se, enquanto pensava na outra. De dia, na rua, ignorava Sofia que se entretinha estudando-lhe o modo de ser. Começou pelo visível: olhos tristes, expressivos; boca contida; sorriso tímido com alguma notícia no jornal, que compra todos os dias; cabelo revolto, encaracolando junto ao pescoço; ombros caídos; mãos de unhas roídas; roupa escura. Andar desajeitado. Voz apagada. Apelos meigos ao cão. Nervoso com os atropelos do Pescas. Ar de abandono. Lentidão nos gestos. Desistência tácita. Dava-lhe vontade de o consolar. De o amar, até. Queria dizer-lhe que ele estava enganado com a vida, mas não sabia como. Pois se tão pouco a olhara algum dia. O ritual do cão repetia-se. A cegueira de Luís subsistia. Sofia ria-se. Perdoava a indelicadeza ao rapaz.

(Criado em Outubro de 2009. Saiu, pela primeira vez para a Rua em 26 de Maio de 2013.)

OBRIGADA POR ME LERES.

Andreia Azevedo Moreira

terça-feira, 21 de maio de 2013

VOTEM NA MINHA PRATELEIRA PARA EU GANHAR UM LIVRINHO DE VIAGENS. 

:)





AQUI: Passatempo GRANTA

Joana Mil-Homens em grande. És a 200 comadre. :)

«Não era cego mas tinha um cão guia»

Semana #11 – DAR PALAVRAS – Maio de 2013

Era um tipo normal. Mediano em tudo. Tinha noção e a sua auto-estima não lucrava com a lucidez. Não é que se depreciasse. Gostava de si, não obstante a banalidade. Ela também gostava dele. Passava todas as manhãs à frente da sua casa, antes de ir correr para a marginal e por vezes sorria-lhe, depois de dar uma festa no cão – o Pescas. Luís dera-lhe esse nome porque o resgatara na margem de um rio, num dia de pescaria. O cachorro estava prestes a afogar-se, quando ele o salvou do destino que alguém lhe traçara. Sofia há muito que se encantara pela figura daquele homem solitário, mas ainda gostava mais do cão. O único, entre os dois, que reparara nela. De cada vez que se encontravam o bicho ficava frenético. Abanava-se doido de alegria e corria em círculos ao redor de Sofia. Só não se empoleirava na transeunte graças às três semanas de aulas de etiqueta, que o haviam treinado a coibir-se dos impulsos. Luís alheio à felicidade do seu companheiro resmungava um bom dia, sem se dignar encará-la. Ela não ligava. As manifestações amorosas do Pescas eram o bastante. Pode dizer-se que começavam a sobrepor-se à vontade que havia tido, um dia, de conversar com Luís. Cansava-a aquela completa falta de interesse. “Quem não dá uma oportunidade, também não a merece.” Consolava-se. Sofia sabia o nome do cão e desconhecia o nome do taciturno rapaz. Os dias sucediam-se iguais, para um e para o outro. Talvez Sofia fosse menos amargurada, se é que se podem medir as amarguras das pessoas. Luís não se envolvia. Sonhava com uma colega. Pessoa que não lhe retribuía o sentimento e que o usava, para se divertir. Ele permitia-lho. Enredado numa paixão avassaladora. Sofia não era dada a grandes reflexões. Gostava de correr na marginal, do Pescas, do pão quente, pela manhã, que comia com doce de tomate feito pela avó de noventa anos e gostava de respirar fundo, enquanto olhava o céu e esticava os braços em V, como quem vai abraçar as nuvens. Tinha algumas amizades, gostava do seu trabalho, sentia-se bem consigo. Luís acreditava que a única posse era aquele ardor por Mariana. Que fazer da vida, quando a paixão se consumisse? Sentia-se muito sozinho. Era o cão que o impedia de se matar. A vida a escrever-se escorreita. Acaso? Não existe. À noite em casa entregava-se à dança da solidão. Masturbava-se a pensar na outra. De dia, na Rua, ignorava Sofia que se entretinha estudando-lhe o modo de ser. Começou pelo visível: olhos tristes, expressivos; boca contida; sorriso tímido com alguma notícia no jornal comprado diariamente; cabelo revolto, encaracolando junto ao pescoço; ombros caídos; unhas roídas; roupa escura. Andar desajeitado. Voz apagada. Apelos meigos ao cão; nervoso com os atropelos do Pescas. Ar de abandono. Lentidão nos gestos. Desistência da cabeça aos pés. Dava-lhe vontade de o consolar. De o amar, até. Queria dizer-lhe que ele estava enganado com a vida, mas não sabia como. Pois se tão-pouco a olhara. O ritual do cão repetia-se. A cegueira de Luís subsistia. Sofia ria-se e perdoava a indelicadeza ao rapaz.

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Outubro de 2009. Saiu pela primeira vez para a Rua em Maio de 2013.


OBRIGADA POR ME LERES.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Inicia-se hoje a semana #11 de DAR PALAVRAS. Até já.

Nem sei como agradecer, como merecem, o movimento que criaram pelas minhas palavras. Têm chegado a esta páginas inúmeros leitores. Obrigada a todos. Espero, numa linha ou noutra conseguir falar-vos por dentro. Obrigada a todos os meus amigos do coração que se juntaram desde o primeiro papelinho (um especial para ti hoje, Teresa Escudeiro. :)) e à Susana Costa que conseguiu criar um abanão nisto, no qual ainda me custa a crer. É nestas alturas que sinto não ser assim tão estúpida, por não deixar o desalento vencer. (E se ele me espreita tantas vezes.) Contem comigo quando e se precisarem. Digam coisas e lá estarei.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

«COMUNICAÇÃO»

Ia mais do que uma vez por dia à caixa do correio, na expectativa de receber a mensagem escrita que ele não enviara. Apenas se permitia escrever e-mails, facto que ela desconhecia. Entristecia-se, amiúde, por não saber ler. Fechava a porta da rua atrás de si, subia até ao apartamento e chorava lágrimas de ignorância, enquanto ele premia botões que lhe não estavam destinados.

Criado em Junho de 2011. Saiu à Rua, pela primeira vez, em Maio de 2013.