Procuro Leitor para navegação séria. (Sem amarras.) Dei Palavras na Rua de 8/03/2013 a 10/01/2017. Hoje respiro. Só. Andreia Azevedo Moreira
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
OBRIGADA
Catarina Azevedo, Hugo Catanho, Ângela Viegas e Ana Rute, graças à vossa partilha esta página ganhou 18 leitores. Muito obrigada por me ajudarem a levar as minhas palavras a mais olhos atentos. Aquele abraço.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
«MATIZES»
Tenho frieiras, não pinto. O sangue nota-se
na tela. O óleo fende-se como as mãos. Tomo banho, agora. O necessário:
sabonete, champô, roupa limpa. Importante não descuidar o asseio. Quando deixa
de ser relevante é porque estou perdido. Quando não posso pintar, o tempo
empastela. As horas esticam, o sol demora a pôr-se. Respirar. Dormir. Comer.
Dias há em que o dinheiro é curto e não compro material, nem Pancas. Os pincéis
apropriados e as tintas certas roubam-me à boca. Alterno entre o alimento de
que o corpo precisa e o outro, que nutre o espírito. Equilíbrio precário. As
vontades colidem; já roí cabos aos pincéis e provei diluente. Magoa que não me
olhem para os quadros. Passam acelerados, desprezando as cores. Há dias,
inventei uma. Nunca a vi antes e conheço bem os matizes. Dei-lhe um nome:
«Ver». Entre o verde e o vermelho, todavia, nem um nem outro, tão-pouco outra
cor qualquer. O meu legado. Divertido pensar que a deixo ao mundo, quando o
mundo me despreza. Dava-me jeito vender alguns quadros. Viver da arte. O que me
convém, pouco interessa aos demais. Maldito frio. O sangue mais espesso nas
veias, cada articulação dói ao mexer. O que me apaixona é retratar a minha Rua.
Monocromática. Derramou-se o balde divino de tinta cinzenta. Todos os dias
encontro novo detalhe. Acrescento cores. Há diferenças entre o que as coisas
são e como as percepciono. Acho que ninguém sabe o que é a verdade. O que nos
chega não é o que foi emitido. Interferências minúsculas, inevitáveis. O que me
encanta na Rua? Prédios com andares sobejando; veículos mal estacionados;
calçada portuguesa coberta de dejectos de cão; escarros humanos; transeuntes
que não me encaram e é a Rua mais bonita que conheço. Cheira a tubos de escape,
a plátanos, a velocidade. A minha tosse deve ser alérgica. Desconheço se aos
pólenes, ao monóxido de carbono, ou à humidade. Pintei o “Alergia”. Ninguém o
comprou. Como ninguém me compra os restantes em filas que são expectativa. É um
nariz com muco de pulmões infectados. Nojento, admito. Ficou para a minha
colecção particular que se compõe de tudo o que já criei. Quando se demoram,
observam pelo canto do olho para que não os interpele. O que me permite
sobreviver não me dá gozo. Sou especialista em inutilidades. Quem me contrata
não necessitaria de mim, fossem outras as circunstâncias.
A primeira vez que o vi, estava debruçado
sobre um muro baixo. Não identifiquei o que fazia, apenas as costas curvadas e
o corrupio dos movimentos. O autocarro avançou revelando-me pincéis, tubos de
tinta, telas, paletas e sacos de onde retirava mais objectos. Interrompia-se
para olhar o céu. Ajustava a posição do corpo de acordo com o ângulo em que a
luz incidia no plano. A paleta era uma misturada horrorosa. Afigurava-se
impossível sair dali tom que prestasse. Encantou-me o despudor. Quando
trabalho, envergonho-me dos olhares de terceiros. O Pedro era generoso na forma
como se expunha. Constrangia-me vê-lo nu, no meio da Rua. A pintura não me
arrebata. Os quadros pendurados nas paredes de nossa casa foram impulsos da
Madalena em exposições. Habituei-me a que me espreitassem das paredes, mas a
relação nunca deixou de ser estranheza. Os dele falam comigo e é como se, se
pintassem a cada passagem. Flor que de véspera não achei. Mancha no piso que se
fez ao cair da noite; candeeiro apagado que se acendeu. Pensava muito nele e um
dia interpelei-o. Fez pouco caso da minha presença. Nessa hora de
desconsideração observei-o minuciosa. Muito mais do que aos quadros, os quais
encarei com a ignorância habitual. Homem de porte altivo, cabelo pelos ombros,
risco ao lado. Os olhos castanhos pareciam desfocados. Barba mal aparada, o
nariz grande. As roupas eram adequadas à altura do ano, embora parecessem
saídas de um baú de roupa dos anos sessenta. A voz maravilhosa, qual locutor de
rádio. Seria ouvinte a vida toda daquele timbre. Misturava tintas para usar no
quadro com carrinhos coloridos que subiam uma rua de cidade, embora parecessem
carros de Fórmula-um. Alguma coisa o distinguia. Perdi-me naquelas peças de
lata fictícias, como a personagem da Travers. «A senhora o que deseja?»
Arrancou-me à criança de outros tempos. «Estou a ver.» «É o que todos dizem.»
Retorquiu. Passou-me um quadro de moldura dourada, com uma flor. Senti-lhe o
peso, avaliei os relevos e devolvi-lho. Questionei-o sobre o preço. «35».
Continuou as pinceladas, como se não lhe tivesse falado. Estava incrédula.
Pagara dez vezes mais, por um de uma finalista de Belas Artes. Como se
considerava tão mal? Havia mestria no trabalho. «Não tenho dinheiro comigo.» «A
Senhora passe quando quiser.» Intui-lhe o descrédito. Peguei no sobretudo
branco que ia deixar à lavandaria com a convicção, que ele não tinha, de
regressar.
As pessoas que caminham inspiram-me. Se as
não retrato é por vingança. Há os que vão de cara fechada vendo sempre, nos
outros, dívida irrecuperável; os que sorriem de auscultadores postos; alguns
envergam óculos escuros que cortam lágrimas. O brilho a descer denuncia-os; há
crianças a ocultarem o que as assola, com gargalhadas que se sobrepõem; velhos
passeiam cães-pessoa que lhes fazem companhia; carteiristas contam dinheiro
alheio em esgares que são malícia e ingenuidade; vejo pares de mãos dadas que
me irritam, de tão colados levam os lábios; há quem fale consigo, maxilar
fundido, longe de mim e do mundo; hoje falei com uma mulher de casaco pendurado
nos braços desistentes. Fingiu estar interessada no meu trabalho. Capto-lhes o
ânimo e verto-o nos automóveis, nas ervas, nas árvores, nos candeeiros.
Instantes da Rua. Cores para o pavimento, para o céu, o betão e as folhas. As
janelas abrem-se, ou fecham, consoante o que lhes pressinto. Não é honesta a
pilhagem. Sento-me durante horas. Contemplo. Estudo as naturezas díspares.
Passou uma mulher, corria aflita. Batiam-lhe os sacos nas pernas. Ela tropeçava
e abrandava a marcha, mas não a interrompia. Eram pernas longas e bonitas, as
quais desejaria seguir e outro verbo que rima com este. Nessa tarde esbocei o
primeiro carro. Rascunho a grafite. As tintas vêm depois. Imaginei pneu largo,
borracha grosseira, câmara-de-ar possante para aguentar velocidades. Nasceram
jantes luzentes, como imagino que devem ser as dos bons carros. À estrutura
qui-la robusta, aspecto de rasgar o ar. Não me furtei ao banal: pintei-o de
vermelho, desenhei-lhe o número quatro na porta. O primeiro de dez que criei.
Todos trepando para o céu, a desdenharem do asfalto rotineiro, por não gostarem
de estradas. Renegam caminhos projectados por terceiros. Popós. Pom! Pom! Entre
o quarto e o quinto, descobri a minha cor. Acaso feliz. Não dormi nessa noite
com dores no corpo. Ouvia o barulho nocturno do trânsito; dos semáforos que vão
do verde ao vermelho; dos bêbados que riem alto e cantam mal. Poderia acabar e
legava recordação aos que não tenho. Tive uma mulher-paixão que me esqueceu. Se
me esqueceu não existo. Não existo não sou e amante não é palavra. É dor.
Agulha de crochet na aorta.
Pedregulho que emerge em todos os quadros que pinto. Repare-se: dez viaturas, o
céu e o calhau no canto inferior à esquerda. Sinto-lhe a falta. Mesmo do
verdete de pedra escorregadia e das arestas em que abri os lanhos que trago na
alma. No quadro da flor era cascalho em fundo. Pequenitas pedras pretas a
suportá-la. No do plátano carregado de pardais que falam não se vê, de tão
enterrado entre raízes. Há rochedos nos olhos do cão gigante que tombou. A
dureza está no que faço. Nos sonhos, até, que deviam ser de algodão. Ligo-lhe.
Atende e fico a ouvi-la respirar. Assente: inspira, expira. Um “ ‘Tou ” que não
é descuido. Dois minutos, o suficiente. O tilintar. Depois o silêncio. Uma
porta em fole chia atrás de mim.
«Quantos vendeu?»
«Nenhum.»
«Nenhum?»
«Isso.»
«Fico-lhe com um. Lembra-se no outro dia,
disse-lhe que voltava? Quando regressei, não o vi.»
«Devo ter ido tomar banho. Sabe como é… As
tintas… Os cheiros…»
«Estou contente por reencontrá-lo. Quero
levar um quadro.»
«Porquê?»
«Agrada-me que se transformem. Já não me
parecem os mesmos do outro dia. E mesmo então, enquanto os observava,
animados!»
«São os mesmos. Estão aqui os que pintei nos
últimos meses. Tinha mais. Roubaram-mos.»
Voltou a pegar no quadro da flor tosca e
passou-mo, como se não houvesse opções. O dos carros, por exemplo. Poderia
oferecê-lo ao meu sobrinho. Não foi assunto passível de debate. Fosse a flor, o
objectivo não era decorar paredes.
«São 35.»
«Porque leva tão pouco?»
«Quer pagar mais?»
«Seria justo. Paguei muito mais, por um de
inferior qualidade.»
«Disse-lhe o preço que me parece justo.»
«O que pede mal dá para cobrir as despesas
com os materiais...»
Respondeu que não era da minha conta, que
pagasse e lhe concedesse a calma necessária. Não foi rude. Comprei-lhe o
primeiro quadro. A minha relação tinha começado a morrer e achei curioso que a
flor tivesse murchado, depois de pendurada no escritório. Passávamos horas em silêncio.
Se havia conversação era sobre logística e quotidiano. Nada sobre o nosso
moribundo caso de amor. O sexo era despeito. No final cada uma seguia dormindo,
como se o interregno não passasse de fome, ou vontade de urinar. Era
devastadora a existência sem beijos de língua. Conseguia quantificar o frio de
que o Pedro me falara, éramos já bons amigos: «É o frio não meteorológico.»,
dizia-me no seu modo de conversar radiofónico.
Alguém me levou um dos sacos. Distraí-me
quando comprava uma tosta de queijo e um sumo de pêra, aqui no café ao lado.
Tempo bastante para este prejuízo... Se apanho o responsável... Que
deslealdade. Desconfio quem possa ter sido. Não vou acusá-lo, sem certezas. Não
faço telas que se assemelhem. Trata-se, portanto, de ausência definitiva. Se
apanho o ladrão, desfaço-o.
Ah
ah ah ah. Luzes não há e fecham-se as portas. Ninguém me acode. A merda do
tinóni dá-me cabo da cabeça! Porra. Já não consigo ouvir o caralho das sirenes.
Azul. Branco. Azul. Branco. Os pincéis? Tão macios. Hi hi hi. Amarelos. Ah ah
ah ah. Estás a olhar? Queres que te mostre os pincéis menina? Vem cá dar
festinhas. Vem… Ai, esticadinhas. As minhas preferidas. Arfa cadela. Arfa! Vais
aí toda lavadinha e eu sou um monte de merda, não é? Porque é que atendes Ana?
Hã? Atendes porquê, minha puta? Que é que foi? Seus idiotas. Idiotas, ouvem?
Estão olhar para onde, caralho? Ai a minha vidinha é tão importante com estes
saquinhos, vou para lado nenhum, cheio de pressa, mas tão vazio. Vão ver! Ver?
Ah ah ah. Não sabem. Vão mas é todos para um sítio que eu cá sei. Eh eh eh eh.
Cala-te Pedro… Isso é só teu. Ninguém descobre. Só tu é que sabes como é que se
faz. Como é que misturas as cenas. Chiu… Ó Hélder vou-te à tromba. Ficas sem o
dentinho. Vais ver… Ah ah ah. Descansa aí velho. Os sacos? O preto, o de pano,
o de supermercado. Sete, oito, treze, vinte, nove e o número suplementar o
catorze…
Quando passava perto da Rua espreitava, com
esperança de o encontrar a trabalhar. Nunca me esquecia daquele lugar e
procurei-o, durante as três semanas em que tardou revê-lo. A flor era húmus.
Desaparecera. O que me atormentava porque a relacionava comigo e com o presente
sem vontades.
«Porque é que me escolheu o da flor?»
«Desculpe? Conheço-a?»
«Está a brincar? Comprei-lhe um quadro, há um
mês. A sua primeira venda, segundo me disse. Já o esqueceu?»
«Ah. Sim. Perdoe-me. Claro que me lembro de
si. Não me recordo é dos dias a seguir…»
«Pode dizer-me?»
«O quê?»
«Porquê aquele? Sabe que entretanto
desapareceu? Está tudo preto em baixo e avermelhado, onde havia pétalas.»
«Não sei o que lhe dizer. Peguei nesse por
gentileza, por ser a primeira a dispor-se a pagar pela minha arte e por ser uma
senhora.»
«Como explica a alteração na tela?»
«Na minha memória o quadro permanece como lho
entreguei.»
«Não me lixe. Vai dizer-me que não sabe que
as suas pinturas se alteram? Essa… Os carros já não parecem na mesma posição. O
do número na porta estava mais abaixo, na sequência.»
«Garanto-lhe que uso os melhores materiais. É
impressão sua. Tem medido a tensão? Anda a tomar alguma coisa que lhe altere os
sentidos?»
«Era o que mais faltava. Não sei qual é o
truque, mas está a pôr-me maluca.»
«Acalme-se. O que é que tenho a ver com o que
me conta? A senhora armou-se em boazinha apreciadora de pintura e comprou-me um
quadro, tendo aceitado, sem argumentar, aquele que lhe passei.»
«Teve intenção de me transmitir alguma
coisa.»
«Ser gentil. Uma flor para uma flor. O lugar-comum, não conhece? Não me chateie.
Tenho muito que fazer. Vai mudar o tempo e serão horas, se não mesmo dias, sem
poder criar. Desapareça.»
«Desculpe. Ando enervada. Deixe-me voltar
outro dia, por favor, para conversarmos.»
«Sou pouco amigo de conversas.»
«Toda a gente gosta de conversar.»
«Quem é que se julga para falar por “toda a
gente”? Eu não aprecio. Aviso-a que não volte para isso, a não ser que queira
comprar.»
«Volto outro dia para conversarmos.»
O Pedro bufou e não respondeu. Deitou-se
sobre o cotovelo direito, enquanto a outra mão se concentrava na paisagem
urbana.
O estômago não se compadece. Grita-me que vá
comer. Não penso noutro assunto. Carrego os sacos enquanto vagueio. Posso
querer dar um retoque, ou alterar algum pormenor. Como não lhes dou tempo, nem
espaço suficientes para secarem, alguns colam-se ao da frente e o resultado
tanto me pode arrebatar, como ser desastroso. Inconcebível é deixá-los para
trás. Inclusive aos que não prestam. Não sei como começou. Não encontrava rumo,
debrucei-me para carris em inúmeras gares, até que uma tela que me custou 1,5
numa loja de bagatelas, adquirida sem motivo aparente, me devolveu determinação
ao acordar. No dia seguinte tinha um objectivo: arranjar os restantes
materiais. Não sabia o que usar na tela. A primeira papelaria que encontrei
tinha uma caixa de madeira na montra, revelando-me uns Van Gogh coloridos. Para os pincéis solicitei a ajuda do empregado
que, não tendo sido simpático, soube ser profissional. Deu-me as dicas
essenciais. Recomendou-me bibliografia que nunca adquiri. Quando tinha tudo o
que precisava para pintar, deparei-me com novas dificuldades: como e o que
pintar? O “como” era aterrador. Iria desperdiçar material e saber-me incapaz
para criar algo que prestasse. Passei a primeira manhã imóvel, com o material
espalhado à minha frente, encandeado de medo. Olhava para as mãos desconhecendo
a qual recorrer. Avaliei os pincéis, acariciei-os, inspirei o óleo de linho…
Como estaria aquela paleta intocada horas mais tarde? Ensaiei pinceladas. Nada
demovia o pavor. A noite caiu e não produzi um risco. Deitei-me frustrado,
enraivecido com a cobardia. Haveria de conseguir passar as ideias que tinha
para aquelas superfícies, que me aguardavam intocadas. Havia que correr riscos.
Para chegar a qualquer resultado tinha de me aventurar a fazer asneiras, mesmo
que significasse não poder alimentar-me, não tomar banho, nem arranjar Pancas.
Estava disposto a passar por essas dificuldades. A pintura desviara-me da
queda. Conservei a primeira tela. Acompanhar-me-á como troféu da evolução. Era
grosseiro, inexperiente, ingénuo. Ridículo. Amálgama de cores sem sentido. Não
me envergonha. Quando somos pequenos não sabemos ler, nem escrever. Ensinam-nos
as vogais, as consoantes e a juntá-las. Orientam-nos pelos sons, pelos
significados e eis que um dia há um mundo novo que se nos oferece pelas
palavras. Foi o que vivi com a pintura, Universo ao qual aprendi sozinho a
juntar cor, símbolos, movimento. Lugares em que me perco. Quando trabalho,
evado-me. Gosto de lhe chamar liberdade.
«Olá. Como está? Tem pintado?»
Não obtive resposta. Tentei a conversa mas
não me deu saída. Sentei-me perto dele a observá-lo. Estava a ser intrusiva.
Fosse comigo e já teria ripostado, ou virado costas, mas o tratamento que ele
me aplicava era pior. Agia como se eu não estivesse ali. Era a sua única
cliente, como se dava ao luxo de me destratar? Assim estivemos mais de um par
de horas. Dedicava-se a um desenho indefinido. Não arredei pé. Estava
encantada. Não tinha vontade de voltar para casa e também por isso me demorava,
como podia. Muito infeliz. O Pedro juntava tinta, escurecia o que me pareciam
pedras, enquanto eu chorava, lamentando o que não dizia à Madalena. Partilhava
com aquele estranho o que não confidenciava aos meus amigos mais queridos. Dei
por mim, um fim de tarde, com vontade de o agarrar. Há anos que não estava com
um homem. À medida que desabafava, maior a vontade de lhe tirar a roupa,
encostá-lo à porta daquele prédio e usá-lo. Antes da Mada mudava de namorado
todos os meses. Desacerto que não estava relacionado com a maneira de ser
deles, ou de me amarem. Ao conhecê-la melhor entendi, que até então me escapara
o Amor. O presente era outro, sentia desnorte inenarrável e aquela pessoa tinha
vindo reavivar todas as dúvidas que me atormentavam nos últimos meses. «Maldita
flor.» Ao entrar em casa vi que a Madalena estava a ler. Não ergueu a cabeça.
Uns tempos antes não só se teria levantado, como me teria enchido de beijos.
Foi uma sorte o esforço com que ergueu o sobrolho e disse: «Então?»
«Então. Ao que chegámos.»
Contei-lhe a origem do quadro apesar do
desinteresse, que me agrediu. Falei-lhe do artista e da vontade que tive,
depois de passar tanto tempo com ele. Limitou-se a encolher os ombros e a
esclarecer que éramos livres. Não estava preocupada. Ou porque me achasse
incapaz do desvario, ou porque se tratava de assunto que já não queria seu. A
angústia alimentava-se-me da garganta. A almofada não me serenava. A situação tornava-se
incomportável. Não conseguia agir. Parecia-me injusto que ela não o fizesse já
que partira dela o afastamento. Dia 13 de Fevereiro, Sexta-feira, chegou a casa
diferente. Não me deu explicações, não mentiu, recusou-se a dizer-me o que se
passava apesar das súplicas que multipliquei pelos dias e permanecemos
estranhas, enquanto o permiti. Era doloroso. Menos, no entanto, que um
afastamento físico definitivo. Talvez se lhe desse espaço e tempo voltasse a
si. A nós. Não aconteceu. A minha auto-estima envenenava-se de questões, ciúme
e temores. A voz nunca firme. Interpelava-a com medo, como se qualquer atitude
pudesse despoletar a sua partida, a qual me julgava incapaz para suportar. Qual
das duas pior. Ela no seu silêncio egoísta, eu vitimizando-me inerte. Fiz nada,
para tentar esclarecer a questão. A maioria busca o motivo. Revista bolsos, lê
mensagens, fareja essências. Não fui maioria. Propunha-me sobreviver à crueza
daquela indiferença, esperando que o pesadelo acabasse por si. Saía para o
emprego, ao fim do dia procurava o Pedro, adiando o regresso para cada vez mais
tarde. Impunha limite ao masoquismo, enquanto tentava curar o desamor em que
voluntariamente me enterrara. Inúmeros solilóquios depois, já perdida a
esperança no retorno, o Pedro interveio.
«Não sou exemplo. Também vivo das migalhas da
atenção alheia. Mas ouvindo-a percebo que isso que vive é solidão maior do que
a minha. Porque não vira costas?»
«Não consigo. Amo-a. Não concebo estar
longe.»
«Não sente falta de ar? A angústia mata. Um
momento apenas e esse nó na garganta passa-lhe para o coração, depois para as
mãos, ou para os pés e quando der por si está a bater com um cano frio no
céu-da-boca, ou a atravessar fora da passadeira numa rua movimentada. Ninguém
lhe merece isso. Embora não seja exemplo, tenho descoberto mais em mim, só, que
nos anos todos em que me alimentei dos outros. Eis o que faz. Põe nos ombros da
sua companheira a responsabilidade pelo seu bem-estar. Não há fardo maior, ou injustiça,
para alguém que afirmamos amar. Ela já não lhe pode dar amor. O que pretende?
Piedade? Conseguirá viver disso? Não desista do sentimento maior. Tenha juízo.
Pegue nos seus haveres e faça-se à vida.»
A sua entoação desobscureceu-me as ilusões e
o facto de estar a apagar dias do calendário. Quis comprar-lhe outra obra, em
jeito de agradecimento. Não consentiu.
«Volte noutro dia. Hoje não vendo. Fique-se
com o que lhe disse se lhe servir, ou livre-se das minhas palavras, se
conseguir. Noutro dia traga 35. Não alterarei o valor.»
Nessa noite não aguardei que levantasse os
olhos do que estava a fazer, pois não era importante que participasse do meu
acto. Ela que se envergonhasse da hipocrisia que lhe servia de pele. Para mim
chegara ao fim o domínio. O amor não pode saber a grades, nem a pânico. Há
muito que o que sentia por ela, era de índole diferente. A segurança com que me
atacava, há meses, deu lugar a desconcertante pranto. Outrora seria a reacção
desejada. Naquela hora constrangia-me a falta de carácter. Destratara-me;
irritava-a a carência com que a abordava; o meu odor nauseava-a; o sexo comigo
dava-lhe sono e à data:
«Meu amor para aqui. Não nos precipitemos
para ali. Tens outra pessoa?»
Vontade de rir.
«Não, estúpida. Tens tu.» Quis dizer.
«Percebi que não é relevante que não gostes
de mim, desde que eu goste.»
Ela:
«Não te contei para não te magoar. Quis
evitar precipitações.»
Agradeci-lhe, irónica, o altruísmo e os dias
estupendos passados sob a sua clemência.
«Vai-te foder. Acabamos aqui.»
Arrumei o pouco que tinha levado para aquela
casa e no próprio dia parti.
«Vais para onde? Não leves tudo. Acalma-te.»
Não estava nervosa.
O cheiro nas mãos massacra. Todas as noites
me limpo, como consigo, da criação do dia. Seria difícil a alguém privar
comigo. Aquela mulher não se importa. A cada encontro se afoita mais.
Incomoda-me tanta proximidade. Há uns dias tocou-me no cabelo. Gesto desagradável.
Repeli-a com brusquidão e não o repetiu.
Pousei-lhe a mão no pescoço. Colocou a sua
por cima, agarrou-me o indicador acariciando-o e devolveu-ma cuidadosamente ao
colo. Prosseguiu pintando, como que ignorante quanto ao que sucedera. Era-me benéfica
a sua presença. Perto dele o silêncio não era vazio que tivesse de preencher.
Dava-me um grande gozo pensar, que as pessoas da minha vida desconheciam a
importância daquele homem em mim. Aluguei uma casa pequena, por mobilar, na
cidade. Afastei-me dos arredores e das recordações. Todos os quinze dias
comprava um quadro e rapidamente as paredes brancas deram lugar a mosaico
criativo por Pedro H.L. Períodos de tempo houve em que desapareceu. Não havia
maneira de o localizar. Quando o reencontrava alegava, amiúde, não se recordar
dos dias anteriores e que tinha andado a colorir outras paragens. Falso. A cada
desaparecimento a colecção mantinha-se inalterada. Apenas nos tempos em que o
seu paradeiro me era conhecido novos quadros se revelavam. Não fazia questão
que ele percebesse que não acreditava nas suas mentiras. Não temos de saber
tudo sobre quem gostamos. Aprendera-o com ele.
«Porque não usas o dinheiro também em roupa?»
«A que tenho cumpre a função.»
«Tens-te alimentado?»
«Pareço-te magro?»
Preocupações destas iam minando o meu pensamento,
não tão descomprometido quanto antes. Não era retribuída na domesticidade.
«Queres ficar lá em casa?»
«Não.»
A posse. Quando se dá por ela já deu cabo da
relação mais sólida, quanto mais uma construída de encontros fortuitos no meio
da Rua. Nunca embarcou no entusiasmo.
Paralelepípedos. Justos na sua
irregularidade. Partículas que brilham. Uma formiga segue entre beatas, com
migalhas nas tenazes. Perco-a perto do olho. Passo a mão pelo frio da calçada.
Encosto mais o ouvido e sinto o tremor que o trânsito causa. A perna esquerda
ergue-se para seguir caminho sozinha. Não gosta do frio. Do desconsolo. A cara
colou-se à pedra que a morde. A saliva não é minha, extravasa em poça de fuga
ao que sou. O fôlego esparso mas teimoso. Não desisti. Imponderável fê-lo por
mim. Lamento. Havia, ainda,
O que o afastou. Dedicava-me a tentar
resolver a sua situação profissional. Persegui várias pessoas para que me
concedessem reuniões e quando consegui uma exposição com destaque e direito a
vendas pelo preço justo, desapareceu. Fez cinco anos. Procuro-o, ainda. O
talento dele foi reconhecido, porque o levei aos entendidos, sem o levar de
facto. Tivessem-no visto e jamais teriam credibilizado o meu pedido. Entendo-o,
não sem revolta. A minha vida melhorou depois dele. Os meus sentimentos ficaram
como as paredes alegres lá de casa e os olhos, com que me dou ao mundo, vêem
melhor. Recordo um homem agreste, ressentido, mentiroso, que fedia e me ensinou
a ver a beleza, mesmo quando a paisagem é negrume. Tenho saudades dele. Lamento
nunca ter tido o desprendimento de lhe beijar os olhos desfocados.
- Que cheiro.
- ‘Bora. Estamos atrasados.
- Espera. Está aqui alguém.
- São sacos. Depois da hora não nos deixam entrar.
- Cala-te. Não estás a ver? Pés. Cabelo. Boa
noite. O senhor está bem? Caiu?
- Deixa-o estar, pá. Deve estar com a bezana…
- Ena… Tantos quadros. Repara. Aqueles olhos…
«À Isabel»…
- A peça começa daqui a cinco minutos. Vamos.
- Não será melhor chamarmos a polícia? Se
está morto?
- Oh. Pancas, mas é. Olha.
- Ok. Vamos mas não corras! Os saltos
enfiam-se no passeio.
(Gargalhadas.)
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Abril de 2012.
OBRIGADA POR ME LERES.
Criado em Abril de 2012.
OBRIGADA POR ME LERES.
Foi o 33º texto a sair para a rua, em 04-11-2013 com o título "Cada homem é o que quer" entretanto alterado.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
«A rampa» (Semana #32 / 28 de Outubro a 3 de Novembro de 2013)
Desceu a rampa. Era o fim de um dia longo de trabalho. Distraída não percebeu, logo, quem a esperava. Alguém há muito ido. Estacou. Sorriu. Esqueceu-se de tudo, correu-lhe para os braços. A palavra perdão não fazia sentido. Já não havia dor. Aninhou-se-lhe no peito. Repetiu: «Que saudade.» Os braços acolheram-na protectores, quentes, firmes. Deixou-se estar. Sentia-se tão cansada. Era bom aquele conforto. Depois estremeceu, sentiu uma mão a puxar-lhe o braço e ouviu, longe, uma voz anónima. Adormecera no comboio. (Criado em Março de 2009. Revisto em Outubro de 2013.) Andreia Azevedo Moreira OBRIGADA POR ME LERES. |
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
sábado, 19 de outubro de 2013
«NATHANIEL»
Nathaniel
nasceu com uma enfermidade. A sua coluna apresentava curvatura acentuada. O
queixo fundiu-se com o externo. Nunca fitou alguém. Os pais tocavam-lhe
receosos. Não ousavam erguê-lo para lhe conhecer o rosto. Se Deus o criara
assim, fora a forma que encontrara de os proteger da fealdade. Não havia,
neles, repulsa. Amavam o filho. Sofriam por terem feito nascer, quem nunca
seria feliz. Como existir com a cara escondida? Eram os anos quarenta do século
vinte e os médicos quando o observavam – Os diversos especialistas que os pais
procuraram, antes de desistirem. – Colocavam o mesmo ar grave e meneando a
cabeça, preparavam-nos para o irremediável. Resignaram-se. Não tiveram mais
filhos dedicando-se, exclusivamente, ao filho informe. Ele era uma criança alegre.
Percebia-se pelas gargalhadas; pela expansividade dos gestos; pelos saltos de
contentamento; pela voz doce e optimista. Não tinha tempo para birras. Dócil,
solícito e curioso. Embora nunca tenham tido certezas quanto aos pensamentos
daquele rapazinho caracol, apaziguavam-se com a serenidade que lhes transmitia.
A mãe chorava assumindo a derrota, enquanto espreitava o filho, de longe.
Richard aproximava-se, abraçava-a com força e terno dizia-lhe – Inspirando o
perfume do seu cabelo, junto à orelha. – Não sofras Sylvia. Ele desconhece a
desgraça do próprio corpo. O coração é grande e a cabeça livre. Somos mais do
que o físico. O nosso menino é belo e feliz. Sylvia encolhia os ombros,
mastigava o desgosto que lhe subira pela garganta e engolia-o de novo. O
quotidiano não se compadecia. Optaram por não o inscrever na escola. Queriam
poupá-lo à crueldade alheia. Inventaram jogos e brincadeiras com que o
ensinaram a ler e a escrever. A instrução de ambos era bastante para que Nathan
aprendesse a somar, subtrair, dividir e multiplicar. Aprendeu, também, a
resolver equações. Richard e Sylvia eram pessoas cultas e de posses. Nada lhe
faltou, enquanto crescia. O passatempo preferido dos dois era quando ele levava
o pai, pela mão, até à biblioteca que possuíam em casa e lhe pedia um livro,
para essa semana. O que melhor descrevesse determinado sentimento.
“O que é a amizade paizinho?”
“Só
a dor nos faz chorar?”
“Que
quer dizer solidão?”
“Quando
poderei afirmar que sou livre?”
“Pai,
quero ler o amor.”
Cada livro uma possibilidade, para as questões que colocara. A leitura era o seu modo de chegar aos sentimentos e cura para o peito oprimido. Decorreram duas décadas em que o passar do tempo foi uma carícia. Não se rebelava com a condição de homem enrolado sobre si. Um dia caiu-lhe o céu, quando os pais, ao regressarem a casa, vindos da mercearia do fundo da rua, foram atingidos por uma placa de mármore que se soltou de um prédio. A polícia informou-o: «Ardeu-te a vida rapaz». Veio-lhe à memória o livro que lera, ainda menino, sobre a morte; os que lhe denunciaram o que era a revolta, ou a dor e compreendeu de que lhe haviam falado os livros medo e solidão. Sentiu-se, pela primeira vez, deformado. Aquela efemeridade dava-lhe falta de ar. Fechou os olhos e deixou-se ficar na escuridão. Não tardou até que aparecessem, como as baratas das fendas das construções, os familiares. Pessoas que lhe chamavam entre dentes “o monstro”, ou “a coisa”, nas reuniões de família. Gente que se ria quando passava e que na presença dos pais: «Anda bem o menino?» Nathan conhecia as pessoas pela voz e adivinhava-lhes, sem dificuldade, a natureza no timbre, fossem quais fossem as palavras proferidas. As pessoas esqueciam-se que Nathan não era surdo, nem estúpido. Invejavam o amor dos pais e o nascimento dele era o presente envenenado que os excitava. Castigo por fintarem a vida que se esperava miserável, para todos, ao terem encontrado nos braços um do outro, um amor verdadeiro. Nunca tinham auxiliado Richard e Sylvia. Apareciam agora.
-
Nojentos! - Abafava o grito no estômago.
Chorava,
silencioso, para que não lhe adivinhassem o desânimo. Recordou a história sobre
o “Perdão”. Pensou no que os pais quereriam, mas deixou-lhes, sem luta, a
moradia imprestável. O corpo nascera dobrado. O espírito era recto, como o
atestaria um prumo para aferir almas, existisse um. Passou a viver na rua. Quem
o avistava revelava-se incapaz de ultrapassar a compaixão que aquela posição de
presumida infelicidade impunha. Eram mais as pessoas que desviavam o olhar incomodadas,
enquanto lhe estendiam um dólar, do que as que o encaravam no mesmo gesto. Como
se o ser incapaz de as olhar, se reflectisse. Confesso que me aconteceu o
mesmo. Era dolorosa a sua presença. Sintomas físicos da repulsa.
Envergonhava-me desses sentimentos, culpado de me achar perfeito. Considerava
que a minha compleição era uma injustiça para com aquele desgraçado.
Alegrava-me que ele não nos pudesse observar. Aos normais. Era um consolo que
não pudesse conceber a que sabe a inveja. O que desconhecia, à data, é que ele
era abençoado. Poupado aos nossos olhares, podia manter-se puro. Não se enchia
de rancor. A beleza conheceu-a pelos livros, que não só lhe descreveram, em
pormenor, o que não podia admirar, – O mar, as montanhas, ou o céu rendilhado de
luz. – como lhe permitiram experimentar inúmeras realidades. Recordo o dia em
que, pela primeira vez, lhe falei. Nathan nunca se sentou aguardando a esmola
alheia. Vagueava, pelos quarteirões, com um saco de plástico em cada mão.
Andrajoso, sujo, mal-cheiroso, guiava-se pelos passos das pessoas, a seu lado,
para atravessar em segurança. Nunca se afastava demasiado daquela que elegera a
sua casa: a Biblioteca Pública de Nova Iorque. Não o deixavam permanecer
durante muito tempo. O segurança convidava-o a sair, após as inúmeras queixas
das pessoas que não toleravam o confrontado com a sua imagem. O odor
desagradável não era o que mais as incomodava. Era como se temessem que o mal
de que Nathan padecia, as atingisse, qual doença contagiosa. Puro instinto. As
pessoas não o faziam com malícia. Uma vez expulso, dirigia-se ao Parque Bryant
onde se entretinha com os pardais que saltitavam, disputando migalhas. No dia
em que o abordei, estava a dobrar a esquina da Rua 40, com a Sexta Avenida.
Falei-lhe incerto que me ouvisse, ou compreendesse. Receava obter resposta que
correspondesse à sua terrível aparência. Sentia-me incapaz de continuar a
ignorá-lo. Já não era suficiente o dinheiro que lhe estendera em dias que
precederam esse, para me calar a consciência. Não era para que se alimentasse,
que lhe dava alguns dólares. Tentava, sim, saciar a minha voz de dentro. Que
poderia fazer por aquele homem? A que propósito me sentia responsável por ele?
Naquele dia todas as perguntas foram gritos a atormentar-me. Sem que pudesse,
ou quisesse evitá-lo, pousei-lhe a mão no ombro, naquela esquina da cidade,
impedindo-o de prosseguir e disse-lhe:
-
Chamo-me Sammuel.
Estacou,
rodou sobre os calcanhares e pousando os sacos no chão, respondeu-me numa voz
bela, como quem está acostumado com a amabilidade das pessoas:
-
Olá Sammuel. Prazer. Sou o Nathaniel. Podes tratar-me por Nathan. Aproveito que
me falaste para te pedir um favor. Pode ser?
Surpreendido
com a familiaridade com que me tratou disse-lhe que sim agitando a cabeça, esquecendo
que ele não me podia ver o gesto. Respondi depois, numa voz sumida:
-
Diz Nathan. É um prazer conhecer-te. Farei o que puder.
-
Preciso que me tragas um livro que fale sobre o desprezo. Tentei pedi-lo ali
dentro. – Levantou o braço para a biblioteca. – Mandaram-me sair antes de ter
oportunidade de explicar ao que ia.
Disse-me
que se entretinha a ler os mais variados documentos de que as pessoas se
esqueciam nas mesas, ou no relvado, do Parque Bryant. Era muito raro
esquecerem-se de livros. Sentia-lhes a falta. Trouxera um da casa dos pais.
Transportava-o junto ao peito. O frio não lhe chegaria aos pulmões.
Comprometi-me a comparecer no dia seguinte, pelas seis da tarde, na primeira
mesa do parque, ou junto dela, quando se entra pela Rua 42.
Nathan não me incumbira de tarefa fácil. Era um leitor inconstante e não culto, quanto bastasse, para descortinar o melhor título para lhe falar sobre “desprezo”. Graças a ele travei amizade com Conrad, um bibliotecário carrancudo, que simpatizou com a minha causa. Foram anos em que a nossa amizade se consolidou. Três improváveis e leais amigos. Aprendemos muito uns com os outros. Trazíamos o melhor de nós para essa relação incorruptível. Do pedido inicial de Nathan nasciam interpretações surpreendentes e díspares, para um mesmo livro. Cada um dos três o lia e o mote inicial desencadeava debates de muitas horas numa das mesas de latão ou, se fazia calor, no relvado do parque. Cada um explanava o seu modo de o perceber, sentir e o que havia aprendido. A polémica instalava-se sempre, por sermos os três tão diferentes. Aconteceu, por exemplo, quando Nathan nos pediu um livro “vingança”. A minha família, bem como a de Conrad, não ousava questionar a amizade. Viram Nathan algumas vezes. Encolhiam os ombros. Enojadas e contrafeitas. Não o verbalizavam o que me deixava satisfeito. Não fazia tenção de deixar de o ver. Enfrentaria quem me tentasse dissuadir desta relação. Conrad também não toleraria a intromissão. Não nos questionávamos como seria a vida de Nathan longe de nós, ou do parque Bryant, porque ele assim nos exigira. Aprendemos a calar o “Onde dorme?”; “O que terá para comer?”; “O que será dele esta noite?”; que nos atemorizavam em cada despedida.
Um
dia em que Conrad não pôde comparecer, ousei pedir que me deixasse
espreitar-lhe o rosto. Nathan soltou uma gargalhada e indagou irónico:
-
Para que queres semelhante privilégio? Nem eu alguma vez o vi e olha que não é
por isso que me conheço pior, do que te conheces.
- Tens razão, mas gostava de te encarar. É nos olhos que nos mora a alma. Dizem. Um olhar recíproco. Que me dizes?
-
Não me oponho ao pedido de um amigo. Confio que tenha a minha cara o aspecto
que tiver, serás capaz de ver o que os meus olhos te dirão. Tenho medo de te
perder; a tua reacção poderá afastar-nos. Força, diz-me lá como é que sou.
Flecti
as pernas, apoiei-me nos seus joelhos e espreitei. Arrependo-me de lho ter
pedido. Depois desse dia desapareceu. Procurei-o pelas ruas da cidade, durante
meses, sem que houvesse rasto da sua passagem. Ninguém sabia dele. Lamentei,
durante muito tempo, a minha atitude. Chorei outro tanto, até que se me
acabaram as lágrimas. Não o encontrei. Nathan era belo. Feições perfeitas,
olhos iluminados, inocentes e o seu sorriso terno e envolvente. Ri-me. Abracei-o.
Contei-lhe com pormenor a cor dos olhos, como se delineavam os lábios, a cor da
sua boca e dos dentes. Falei-lhe do seu nariz perfeito. Enterneci-me com as
covinhas que lhe pontuavam as bochechas e com as rugas de expressão que
ladeavam o seu olhar compreensão. Entusiasmado desenhei oralmente o seu
arrebatador retrato. Quando me calei extenuado de tamanha comoção ele ajudou-me
a levantar, deu-me outro abraço demorado e disse-me “Obrigado”. Partiu de
seguida e foi a última vez que o vi. Conrad não me perdoou a imprudência.
Acusou-me de egoísmo e futilidade. Perdi a amizade que tínhamos. Agi mal. Não
me perdoo. Sinto-lhes a falta todos os dias. Recordo-os cada vez que pego num
livro.
Andreia Azevedo Moreira
Saiu pela primeira vez à Rua em 19 de Outubro de 2013
OBRIGADA POR ME LERES.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/222986127862688
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES
Não escrevo para a gaveta.
Quero ser lida. (Em papel.)
Todas as semanas distribuo um texto diferente por onde passo,
na esperança que tu Leitor mo encontres.
Nesta página vou deixando o rasto dos sítios onde os semeei.
Aguardo resposta, qual náufrago lançando mensagem em garrafa ao oceano.
Obrigada a todos quantos respondam ao apelo.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/220675854760382
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
«Dança(s) da solidão.»
Crer é querer. Ver o que se consegue, não o que é. A emancipação dos vícios amarga. Sonhava? Mentiras. Ao pequeno-almoço, ao jantar, aquele copo de leite antes do sono. Tinha sede, desconhecendo de quê. Sou sede, ainda. A mão firme, ao centro. Banhei-me em ilusões e dessas não escapei limpa. Tenho uma alma pesada. Bacia e cadência. O coração lesto, descompassado e aldrabão. Ócio, agora. O que fiz com tanto tempo? Que olhos são estes que me mentem? Ouvidos que entregam discursos deturpados. Mente que não engana. É sujeito e verbo. Eu ignara, crédula. Saboreio o doce das ficções, da loucura. Luto com as superfícies. Cegueira boa e perniciosa. Dança da solidão. É tarde? Nunca o é, quando se trata da Liberdade.
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Junho de 2012. Revisto em Outubro de 2013.
OBRIGADA POR ME LERES.
Texto 30 a sair para a Rua.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
domingo, 29 de setembro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
«NÃO SOU A INÊS PEDROSA.»
Faço o quê, agora? Alguém me diz? Sou uma optimista, espalho sorrisos, alegria
e o que é que a vida me faz? Põe-me estas bestas no caminho. De que me serviram
os últimos meses nas aulas de yoga e aprender a vibrar em frequências de
energia positiva? Estou metida neste filme e o Universo nickles para os meus esforços em
me transformar numa pessoa boa. São quatro. Três deles saíram de um carro
preto, muito velho, para me agarrar. O quarto ficou ao volante. Foi o que vi
antes de me amarrarem as mãos com uma fita-cola parda resistente e me vendarem.
Encheram-me a boca com um lenço que me ataram à nuca e me dificulta a
respiração. Fizeram bem, ou já teriam ouvido um, ou outro palavrão. Que merda,
pá! Dei um salto à livraria, da rua onde moro, para comprar um livro que me
tinham emprestado há uns anos e do qual me lembrei há bocado. Fiquei com aquela
vontade inadiável de o reler. Ironia das ironias pela conversa percebi que me
raptaram pensando que sou a Inês Pedrosa. Será possível? Mas por que raio
haveria a autora de se dirigir a uma livraria, no Rato, às oito da noite de um
dia de semana, para comprar um livro seu saído há tanto tempo? Estes senhores
têm cabeças de insecto é o que é. Que me tivessem carregado, pelo menos, em
grande estilo. Quero dizer em braços, como uma diva. Não… Vim aos empurrões. Os
brutos… Mas o que é que lhes passou pelas antenas? Tenho o cabelo e os olhos
claros, mas acabam por aí as parecenças com a Inês. Nem sequer temos a mesma
idade. Ai, ai, ai, ai, ai. O que hei-de fazer, para que eles entendam que
cometeram um erro? Receio que me façam mal uma vez desfeito o equívoco. O
cheiro a bafio do automóvel, em que me raptaram, é desagradável de tão intenso.
Para uma pessoa de olfacto apurado, como eu, é uma tortura. Imagino que tenha
estado fechado em alguma garagem, ou armazém. Os assentos colam-se à roupa o
que me enoja, embora o asseio seja o menor dos meus problemas. Eles falam pouco
entre si. Ordens e monossílabos. É tudo. O suficiente, no entanto, para
perceber que todos, sem excepção, têm mau hálito e que, pelo menos, dois deles
fumam. O que conduz fá-lo a grande velocidade e nenhum dos restantes se deu ao
trabalho de me pôr o cinto de segurança. Já bati três vezes com a cabeça no
vidro da janela em curvas mais apertadas. O que me vale é o mau génio, ou
estaria a chorar como um bebé. Sou dada às reivindicações. Por sinal, estou
desejosa de o fazer. À cautela, por agora, fico de bico fechado. A única frase
que um deles me dirigiu foi proferida em tom sarcástico: “A vida de uma certa
pessoa, minha menina, está nas tuas mãos.” Enquanto me tirava o livro. Não sou
capaz de os identificar. Estão encapuzados. Dos olhos azuis glaciares do que me
falou hei-de lembrar-me, sempre. O olho direito tem uma espécie de sinal em
forma de lua. Inconfundível. «Por que há-de alguém querer raptar uma
escritora?» Não
tenho noção das horas. Sou despassarada. Como me encontro de venda e em
andamento é irremediável que me sinta perdida. Seguimos a esta velocidade louca
há horas, julgo. Não há meio de chegarmos a algum lado. Não suporto esta
angústia. Que alguma coisa aconteça para que possa entender o que se passa,
rapidamente, ou morro de síncope cardíaca, não tarda. Paramos. O silêncio ao
redor é opressor. «Bem-feito para não seres ansiosa.» Estou apavorada.
- Vamos. – Diz-me o da íris esquisita, enquanto me puxa pelo braço, bruscamente, para fora da viatura. Sei ser esse, porque a sua voz na ocasião em que me agarrou se tornou inesquecível. Uma voz cavernosa. Retirou-me a mordaça.
- Onde? Posso saber? – Armando-me em esperta com o intuito de disfarçar o nervosismo.
- Calada. À minha frente. – O bafo quente na minha nuca provoca-me um arrepio que me lambe, desagradavelmente, a coluna. Uma porta abriu-se antes da minha e só essa se fechou. Deduzo que apenas este me acompanhará.
Começa a empurrar-me. Vou tropeçando e quase caio algumas vezes. Pela irregularidade do terreno e total ausência de ruído, só interrompida pelo cantar esporádico dos grilos, calculo estar longe da cidade. Estacamos subitamente. Ouço pancadas secas numa porta, que adivinho ser de madeira. Abre-se vagarosamente à minha frente e range.
- Entra.
- Sozinha? Quem me espera ali? Onde me deixam?
- Cala-te. Entra.
- Não vejo. Tire-me a venda, por favor. – Enfim, submissa.
- Entra, já te disse!
Tacteio a parede à minha direita. O raptor ordenou-me que, uma vez no interior, seguisse sempre encostada. Ouço um mecanismo que ora avança, ora se detém. No intervalo, um apito sonoro. Três toques e prossegue. Avanço pelo corredor, cautelosa. Tropeço num degrau e logo depois esbarro numa qualquer peça de mobiliário.
- Continua. – Diz uma voz diferente.
Estar cega é aterrador. Prossigo. Detecto degraus. São demasiado curtos. Opto por subi-los aos pares. Estão revestidos por um material que abafa os passos. Talvez alcatifa. A pessoa que me aguarda terá um bom ouvido, ou é demasiado impaciente, pois de cada vez que paro me incita de imediato e em tom ríspido, a continuar. Subi dois lances de escadas. Em cada um desses havia uma porta que me parecia de madeira em quadriculado, à qual me agarrava em busca de uma saída.
- Não é aí. Avança. – Diz-me a voz.
Atinjo o topo. Pressinto alguém muito perto e ouço uma chave rodar. Cinco voltas, numa pesada fechadura manuseada com aparente dificuldade. Um ligeiro safanão precipita-me para o interior. Sou orientada até um ponto em que uma pressão no ombro me faz sentar. O carcereiro retira-me a venda.
- Mas você é...
- Sou.
- Como? Está com cem
anos, ou mais?
- Quem faz as
perguntas sou eu. Por que é que foste comprar o livro, precisamente hoje?
Porquê? – Está a falar-me tão perto que a saliva, com que me salpica, ainda
está quente. Porém, a sua voz não se eleva.
- Apeteceu-me.
Palavra. Lembrei-me dele e fui comprá-lo. Uma coincidência dos diabos.
- Não me faças rir.
Não sou para brincadeiras. Ouves? Diz-me a verdade.
- É o que digo! Tive
vontade. Recordei a primeira vez que o li e decidi adquiri-lo. Não tinha um
exemplar em casa. Foi isto.
- Não acredito. Pensa
bem no que fazes. Já te disseram que há uma vida em jogo?
- Que vida? O que é
que eu lhe fiz? Diga-me? Sou inocente, ouve?! Seja lá o que for de que me acusa.
Tenho dito. – Recupero alguma da insolência que me caracteriza e deito-lhe a
língua de fora, qual traquinas. Ele ensaia uma bofetada, contudo, suspende o
gesto mesmo junto à minha cara apertando-a com a mão direita. Faz-me sentir
humilhada e impotente, com a fisionomia deformada entre as suas manápulas.
- Fica aí um
bocadinho a pensar no que queres fazer à tua vida, que eu já venho. Fá-lo com
cuidado pequena, que a minha paciência está a esgotar-se. Aguentarias a culpa?
- Sou inocente! –
Grito-lhe uma vez mais.
O Senhor Almada. Quem
diria? Ainda mais velho, embora semelhante ao que tinha guardado na memória:
barba grisalha, bem aparada, corpo roliço, bengala na mão esquerda e aqueles
dois grandes sinais escuros por debaixo dos olhos. Marcas de uma pele idosa. O
cachecol vermelho, acessório do qual jamais se separava e que mantém, enrolado
no pescoço da esquerda para a direita. Dois grandes anéis no anelar e no
mindinho rematam a aparição. “Velhos hábitos morrem dificilmente.” Como se ouve
nos filmes. Este senhor manteve-se fiel ao estilo que criou para si. Gosto
disso. O que não aprecio é o modo como me trata. Conheci-o há uns anos, mas a
relação que estabelecemos não justifica as cobranças que me faz. São
descabidas. Absolutamente desconcertantes.
Consigo vê-lo daqui. Retirou-se para trás de um biombo que o oculta parcialmente. Percebo que se sentou ao que me parece ser uma secretária. Pela luz que lhe ilumina o rosto e pelo dedilhar, depreendo que se encontre ao computador. Resta-me estudar esta sumptuosa divisão. A profusão de objectos, achados arqueológicos de diferentes civilizações, mobiliário e obras de arte que me rodeiam, é intimidatória. Nestas alturas amaldiçoo a ignorância com que me tenho vestido ao longo da vida. Aqui estou, decerto, numa câmara de tesouros sem a conseguir avaliar. Apenas posso intuir o seu valor. Um quadro majestoso chama-me a atenção. Ocupa metade de uma das paredes. Trata-se de uma ilustração de uma queda de água, de grandes proporções, à frente da qual um homem insignificante, perante a força com que a natureza se lhe apresenta, monta um cavalo e empunha uma espécie de lança. Pondero: um indígena despido num remoto lugar do planeta. É como me sinto, qual homenzinho nu, empunhando uma azagaia quebradiça e ridícula, quando comparada à força indomável das águas de uma catarata. Ao lado há uma estante que se ergue até ao tecto. Contém dezenas de livros, todos do mesmo tamanho, com a mesma cor e de lombada igual. Sei que devia procurar as respostas que ele me intimou a dar, mas desconheço-as e esta sala é apaixonante demais para não me dedicar a observá-la. Três cores me invadem os sentidos: o vermelho, o azul e o verde água. Uma quarta cor neutra, consiste na luz emitida pelos candeeiros de formatos variados que se encontram dispersos pela assoalhada alumiando o que, sem esses, seria um local obscuro. Não fosse este o meu cativeiro e considerá-la-ia acolhedora. Sal digna de um lar de família. Sê-lo-á por ventura. As molduras proliferam em todas as superfícies: em cima de arcas de madeira, nas diferentes mesas, em cómodas. Revelam ternura, momentos de partilha, conquistas. O vermelho em excesso, pelo contrário, faz-me pensar no inferno. O meu. Até os estores são rubros. Fechou-os para me impedir de ver o que há para lá das duas janelas que tenho defronte. Ao meu lado esquerdo está um santo que fica à altura da minha cabeça, e à direita uma cruz de ferro. Fé agora? Não consigo. Com a cagufa até me esqueci das orações que costumo murmurar, todas as noites. Ui. Aí vem ele...
- Então? Como estamos
de memória?
- Continuo sem saber
o que fiz para merecer isto.
- Não te faças de
vítima! Comigo essa ladainha não pega. Diz-me o que quero ouvir. Sem demora!
Exalta-se de tal
maneira que se engasga e começa a tossir. Dada a velhice, senta-se num cadeirão
de pele com rodinhas, que se encontra no lado oposto ao da minha localização,
para recuperar o fôlego. Limpa com um lenço verde de pano, retirado do bolso, o
suor que lhe invadira a fronte. Fecha os olhos, combalido. Para minha surpresa
a sua respiração torna-se mais pesada, até se transformar num ronco. Dorme. A
esperança que este acontecimento inesperado me suscita, injecta-me o ânimo que
me faltava para procurar uma saída de emergência. Busco ao meu redor uma forma
de me soltar. Constato que a cruz ao meu lado tem arestas afiadas. Rodo o corpo
na cadeira e esfrego na antiguidade a fita-cola que me unia as mãos. O espelho
à minha frente com linhas de um mapa-mundo, em duplicado, desenhadas,
devolve-me a imagem de uma expressão que desconhecia, até então, em mim.
Mistura de determinação e audácia sem, contudo, me encontrar corada como
acontece, amiúde, quando me enervo. Este factor joga a meu favor. Ainda que ele
acorde, não dará, no imediato, pela minha euforia. Levanto-me cuidadosamente
para não fazer barulho e dirijo-me à lareira onde vira, há pouco, um telefone.
Verifico se tem linha. Não tem. Muito prazer, Miss Azar 2009... Toco numa jarra
chinesa que cai com grande estardalhaço. O Almada acorda e eu dou-lhe com o par
da primeira, em cheio, no cocuruto. Cai atordoado, embora não inanimado e
começa a levantar-se novamente. Precipito-me para a porta não sem antes
guardar, dentro da camisola que entalo nas calças, o que me ficou ao alcance da
mão. Mais tarde espero que me sirva de prova desta aventura e quem sabe, me
permita incriminar o sujeito. Não tendo havido oportunidade para reflexões o
que trouxe resume-se a uma cassete áudio Basf; uma cassete VHS e um desenho a
carvão com diferentes caras, que arranquei da parede ao lado da porta da rua.
- Não tens
escapatória! Mato-te se insistires na fuga. Mato-te! – Tenta dissuadir-me com
palavras, já que não consegue mover-se rápido, quanto baste, para me alcançar
sem o auxílio da bengala que, antes de o acordar, havia atirado para longe de
si.
- Adeus! – Desafio a
sua ira, com um último sorriso que manifesta mais temor do que coragem, embora
esteja certa que ele não o interpretou assim.
A precipitação é
tanta ao descer as escadas que me estatelo no chão. Bato com a cabeça na cómoda
da entrada. O sangue quente rola-me cara abaixo. Não há azo a pieguices e abro
a porta do prédio, espavorida. Verifico que os quatro que me abduziram não se
encontram nas imediações e desato a correr, sem saber para onde. “Longe” é a
palavra. Trouxeram-me para o meio de uma floresta. A noite está fria e paira
uma neblina junto ao solo. A corrida ajuda a manter-me quente. Ouço os meus
passos ritmados a partirem ramos e a chutarem pedras. As árvores falam-me com
as folhas agitadas: Cuidado! Pela primeira vez desde que isto começou, percebo
que talvez não me safe. A tenacidade vira desistência. Choro, as lágrimas
misturam-se com o sangue. O vento seca-os deixando-me com uma sensação
desagradável, como se tivesse uma máscara de argila colada à pele,
endurecendo-me a expressão. Invoco a minha avó Fernanda: «Amélia, dos fracos
não reza a história!» Mantenho a correria acelerada rumo ao incerto. Sei lá se
não estarei a fazê-lo em círculo, no sentido da casa de onde fugi? Ouço o piar
das corujas e o restolhar constante da vegetação. Apavoram-me. Volta e meia,
ramos mais baixos prendem-se ao cabelo atrasando-me a marcha. O meu estado é
deplorável. Apercebo-me, entretanto, que não são só os meus passos a rasgar a
escuridão. Paro e escuto atenta. Há alguém no meu encalço. Não consigo pensar em
mais. São eles! São eles! Rodo sobre mim desesperada em busca de um
esconderijo. É no tronco oco de um eucalipto colossal que o acho. Entro rápida
e discreta na cavidade e perscruto o bosque com o ouvido apurado. Quieta,
sustenho a respiração diversas vezes. Quieta! Aparecem dois dos encapuzados.
- Inês é bom que
apareças. Não dês muito trabalho a procurar-te. É pior para ti querida. – A voz
medonha, não engana. É o tal, o do olho com a lua.
Anjo da guarda minha
companhia guarda a minha alma de noite e de dia... – Ocorre-me rezar e
acorrem-me, então, em catadupa à memória, todas as orações que aprendi, na
infância, com a minha avó materna: Maximina.
O pânico é tanto que me urino. Sinto o quente encharcar-me a roupa e passados poucos minutos, instala-se o frio, chegando-me aos ossos.
- AAAAATCHOOOO. –
Agora é que me lixei.
Consigo vê-los a
correrem nesta direcção. Morrerei sem glória. Quando se encontram a cerca de
dez metros da árvore em que me escondi, ouve-se um estrondo e um deles cai
redondo no chão. Um tiro? Por segundos, foi como se o meu coração parasse. O
outro bandido ajoelha-se ao lado do que foi atingido, pega-lhe no pulso e
verifica se está vivo. Sem proferir palavra, dirige-se a passo cadenciado para
cá. Outro estrondo. É ferido no ombro e corre para o meio das árvores
embrenhando-se no bosque.
- Psst. – Ouço.
Continuo no mesmo sítio quando uma mão estendida me aparece à altura dos olhos
e me convida a agarrá-la e a sair. Que remédio. Alcanço-a tremendo e ergo-me.
- Inês? Inês
Pedrosa? Como me descobriu?
- Não te
descobri. Pergunta antes como te encontraste. Não julgam eles que és quem sou?
- Pois... –
Digo baixo, baralhada.
- Temos de
nos apressar, o outro anda perto.
-
Acertaste-lhe.
- Sim,
porém, apenas o atrasei. Seria preciso muito mais que uma simples bala para o
demover.
- Quem são
eles?
- Doentes.
- Como?
- Entes que
acreditam ser, quando não o são de facto.
- A Inês
desculpe. Sou uma pessoa simples, de ideias elementares e apesar de apreciar
muito a sua escrita, não percebi patavina do que aqui se passa. Com todo o
respeito que me merece, a realidade é que estou borrada de medo. O que fazemos?
- Vem
comigo. Vou mostrar-te uma coisa.
Avançamos
pela penumbra. Não faço ideia para onde a Inês me leva. Tenho de conter
inúmeras vezes os espirros que ameaçam irromper, cada vez mais frequentes, dado
o meu estado.
- Não
receies. Sei o que faço.
Sigo-a em
silêncio apertando o nariz e a boca com a mão direita, enquanto que com a
esquerda esfrego rapidamente o corpo na tentativa vã de fazer o que a caminhada
por si só, não está a conseguir.
Eis que me
deparo com a fachada da casa que quis, há tão pouco, esquecer.
- A senhora
enlouqueceu?
- Calada. Já
te disse: Sei o que faço.
Encolho os
ombros e faço novamente o aterrador percurso, desta feita, sem venda, sem
mordaça, sem raptores. Pelo menos à primeira vista não os vejo. Tirito de frio,
de horror, quem sabe de gripe A. Tremo qual gelatina, porém, sigo-a sem
escolha. Entramos na casa e nem sinal do Almada.
-
Reconheceste-o?
- Assim que
o vi.
- E não estranhaste?
- Não!
Sempre fui dada a crer no absurdo.
- Ok.
Conheces a personagem de um livro em carne e osso e não temes, por um segundo,
estar louca?
- Já vi
acontecerem coisas mais improváveis. Intimamente, todas as personagens dos
livros que leio são pessoas. Comovo-me, rio-me com e delas, amo-as e odeio-as,
tal e qual como com às pessoas da minha vida.
- Tretas pá!
Estás a brincar? O homem que te rapta é igual a um que só existe num livro que
leste e não achas insólito?
- Cá para
mim a Inês acaba de resvalar um bocadinho na linguagem.
- Ironias a esta hora não! Olha para a estante por favor.
- Ironias a esta hora não! Olha para a estante por favor.
- Ena,
tantos livros!
- Olha de
novo. Repara.
- Todos os
livros são iguais. Mesmo tamanho. Mesma cor. Lombada idêntica. Já tinha
percebido. O Almada é metódico e então?
- Vê o
título...
- Ora, “Nas
tuas mãos.”; “Nas tuas mãos.”; “Nas tuas mãos.”... Constato que todos os livros
da estante são o mesmo. O tal que fora comprar à livraria antes disto tudo ter
começado.
- Dá-me a K7
que tens contigo.
- Como é que
sabe? – Soergo a sobrancelha direita, cumprindo um trejeito que aprendera a
fazer em miúda.
- Coloca-a
nesse gravador. – Indica-me um antigo, em cima de uma das muitas mesinhas que a
divisão tem.
Iniciamos a
audição da fita em conjunto. Trata-se de uma entrevista de Inês acerca do livro
recém-lançado. Data de 1997.
- Ah.
Compreendo agora porque nos confundiram. Julgam-me a Inês com menos doze
anos...
- Começas a
entender...
- Os outros?
Também se julgam personagens dos seus textos?
- São-no, de
facto...
- Como?
- Mostra-me
o desenho. – Estendo-lho e ela vira-o para mim.
- São-te
familiares, estas caras? Os diagramas estabelecendo relações? Os nomes?
Percorro
rapidamente as diferentes feições retratadas. António, Jenny, Camila, Pedro,
Anacleta, entre outros secundários no enredo. Todos os que conheci naquele
livro se encontram definidos.
- Mas? –
Incrédula. – O que pretendem?
- Outros
destinos. Querem que os reescreva.
- Estão
loucos. Como poderia?
- Estarão?
A porta
range. Estivesse aflita e descuidava-me outra vez. Vejo-os entrar. Um por um,
acomodam-se na divisão. Olho para Inês em pânico e observo-a serena.
- Ando a segui-los há meses. Hoje é o aniversário da data de casamento de Jenny com António. Manuel Almada tem tentado matá-lo todos os anos, por esta altura. Sem António fico sem história. Perco o triângulo António, Jenny e Pedro.
- Ando a segui-los há meses. Hoje é o aniversário da data de casamento de Jenny com António. Manuel Almada tem tentado matá-lo todos os anos, por esta altura. Sem António fico sem história. Perco o triângulo António, Jenny e Pedro.
Ouço um
objecto a cair que me distrai. Esfrego os olhos. O coração bate descompassado.
Giro a cabeça. Livros. Livros. Livros. Já não os de lombada igual. Outros.
Coloridos. Diversos. Olho para as calças. Estão molhadas, sim, de café. No
chão, perto dos pés, o livro que me arrancara à realidade nos últimos minutos.
Não saíra do andar de cima da livraria.
EPÍLOGO
Envergonhada
olho em redor. Ninguém. Antes assim. Pego no livro com a capa marcada pela sola
da minha bota e dirijo-me ao andar inferior para o pagar. Sorrio a Catarina,
agradeço-lhe a amabilidade com que invariavelmente me recebem. - Ela e Ricardo.
- Aperto o casaco que vesti entretanto, para me prevenir do frio no exterior. À
porta esbarro com um sujeito que me fita intensamente. "Boa Noite."
num timbre que se me cola ao corpo. Há uma meia-lua desenhada no seu olho.
Arrepio-me. Sorrio-lhe lívida e saio da Trama. Sinto o livro a pulsar nas
minhas mãos.
Dedicado a
Raquel Ochoa que me ajudou a produzir alguns dos meus textos e a Manuel
Vicente, o gentil arquitecto entretanto falecido, que nos recebeu no seu
apaixonante apartamento com um grande sorriso e boa vontade.
Semana #29 – 27 de Setembro a 4 de Outubro de 2013 - Criado em Janeiro de 2010.
Andreia Azevedo Moreira
OBRIGADA POR ME LERES
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