Procuro Leitor para navegação séria. (Sem amarras.) Dei Palavras na Rua de 8/03/2013 a 10/01/2017. Hoje respiro. Só. Andreia Azevedo Moreira
quinta-feira, 19 de março de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
SINOPSE
- Diz que me queres.
- Quero-te.
- Pensas em mim.
- Penso em ti.
- O teu coração é capaz de um vestígio de sentimento?
- Sim.
- Ensina-me.
https://www.facebook.com/AndreiaAM/posts/10203512998056283
quinta-feira, 26 de junho de 2014
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Pá a gente assim chega aos 600 antes da meia noite. Muito, muito obrigada! Aquele abraço.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/244011455760155
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
domingo, 29 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
37º texto a sair para a rua. A Pele I e II
«A pele.» - I - 16 a 22 de Dezembro de 2013
«Quase consigo, então embato na pele.»
Visualizo-me a despir o meu corpo. A correr livre, por aí. Quase o sinto deveras. Coloco as mãos no peito, cravo as unhas fundo na pele, os dedos rasgam carne e músculos. Abro o manto que me cobre. Deixo-o cair-me ao redor. Depois levanto um pé, o outro e corro sem matéria. Somente vontade(s), pensamento(s) e Vida.
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Setembro de 2009. Revisto em Dezembro de 2013.
OBRIGADA POR ME LERES.
Semana #37 - «A pele.» - II - 16 a 22 de Dezembro de 2013
«A Pele» Vivo arredada da Pele. Não custa. Respiro sem ela. Como sem ela, embora comer não seja o mesmo que alimentar-me. É mastigar sem sentido. Caminho. A Pele não me faz falta. Esqueço-me dela e de mim. Eis que ao passar-me pelas mãos na sua temperatura, na sua tonalidade inconfundível, na textura que os dedos insistem ler, alguma coisa se altera. Uma espécie de alvorada. Quando conheço a Pele, começa a doer-me qualquer toque, de tanto me ter faltado. Dores em cada centímetro. «Faltei-te?» «Sim. Mas eu não sabia e tu não podias adivinhá-lo.» A Pele apertou-me o pescoço, que se arrepiou surpreendido com a visita. Os pulmões deixaram-na entrar, num beijo de exército que triunfa e encheram-se de um fôlego, até então adormecido. Desceu-me ao peito e o coração parou. Não estava preparado para tanto calor. Desceu mais e sorrimo-nos, na redescoberta. Há muito que vivia de noite e de luar. (De frio.) «Já não me conhecias...» «Não. Recorda-me o teu nome.» «Pele.» Cheiro a Pele em ruídos animais. O odor tem força. Inscreve a sua marca no território interior. Provo-a. Rio-me perdido, numa revoltada saudade, de ter consentido que me ficasse distante todo aquele tempo. Não há retorno para a Pele que me falta. Tanta fome. Vontade de a morder sôfrego, contudo, apenas lhe provo o sal. Com a língua. Primeiro leve, delicado, depois com violência. Tacteio cego a Pele, que me ensina que se morre todos os dias, um bom bocado. Cada despertar é um passo que dou para a ausência dela. Ela sabe disso e por isso me deseja, com veemência. O amanhã não existe. A liberdade partiu. Respondo-lhe ao apelo com cabelos entre os dedos, que puxo para o mais perto de mim. Também não existe isso de recuperar tempos perdidos. Há compassos. O tempo. A falta dele. Contratempos. Desacertos. O meu é tão grande, que não cabe na Pele. Em nenhuma Pele. Na minha, menos ainda. Hoje há o vício de querê-la sempre aqui. A cobrir-me. A ser posse, ainda que os momentos sejam doces impostores. Falta-me e tremo, contorço-me esperando pela remissão que me devolva o oxigénio ao cérebro, a acção aos músculos, a cadência à bomba vital. Tenho a boca aberta numa falta de ar que me grita «Morre». Não pereço. Acho-me fraco, pequeno, despido. Estou farto das lágrimas, dos olhos pesados, da angústia, de me trazer humilhado. Penso «Calma. Isto passa.» A Pele passa. (Facto: 13,8 horas até que o sangue se limpe. Questão: O que são umas horas na existência?) Pois… Foi a passar que me deixou neste estado. Cilindrado. Entregue. Aconchegou-me de uma maneira torta, cruel, distante. Aconchego que recuso, desconhecendo como regressar ao desalento justo. Ao não precisar da Pele. Como não carecer do que nos faz bem ao tacto, a todos os sentidos? Devo acudir o corpo doente, ou a alma que luta aspirando sobreviver escorreita? Crente que opto, aproxima-se da minha nuca o sussurro quente de um hálito, que reconheço e adoro. Trago uma voz nos tímpanos: «Faz-se tarde. Para ti.» Andreia Azevedo Moreira Criado em Dezembro de 2013. Revisão em andamento. |
sábado, 7 de dezembro de 2013
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Semana #36 - «Quando a alma nos morre, interrogamo-nos muitas vezes.» - 02 a 08 de Dezembro de 2013
«Quando a alma nos morre interrogamo-nos muitas vezes.»
Acordo todos os dias depois de dormir uma ou duas horas com este pensamento na cabeça: Sou cansada de viver. Olho para o meu corpo cadavérico enrugado, crente que o meu prazo expirou. Tenho a sensação que viverei, para sempre, nesta infelicidade. Neste vazio dos dias a sucederem-se às noites, impiedosos. Não os distingo. Limito-me a aguardar, vontade nenhuma. Ler entedia-me – os olhos são fracos e é difícil distinguir os vultos esfumados, que para os outros são letras. – o croché não me entretém; ouvir rádio impacienta-me; a televisão não dá programa que preste; dormir todo o dia? Não consigo. Desejo não voltar a acordar. Quero adormecer definitivamente. Quero morrer. - Pronto já disse! - A educação católica não mo permite. Vivo uma “sobrevida”. Sobrevivo. Uma “subvida”. Isto não chega a ser o que considero uma existência. Que desígnios serão os d’Ele? Convicta que me esqueceu. Abro os olhos pela manhã, ainda nem os passarinhos chilreiam lá fora e uma vez acordada, há dor por ainda respirar. Antes apreciava os animais, a natureza. O meu presente é não gostar. Se me perguntassem, como nas entrevistas, Qual a palavra que melhor a define? Responderia: “Nada”. Mas se “nada” fosse, não viria aquela mocinha visitar-me. Às vezes, por maldade, não lhe dirijo palavra. Faço-o à única pessoa que me dedica algum tempo. Não tenho como explicá-lo. Uma urgência em maltratá-la e é tudo. Porquê mais um dia, meu Deus? Não o quero. Dá-o a outro. Escutas-me? Leva-me. Que castigo. Se todos os que amo estão aí e levaram com eles o meu ânimo. Quando era nova tinha as minhas teorias: “Tudo o que nos faz falta está dentro.” Sabia-me forte. A felicidade dependia do meu querer. Arrogante, considerava-me auto-suficiente encarando os outros como a quem está de passagem. Deveria contar comigo. Guiava-me pelos meus instintos. Passou, desde então, tanto tempo. À data não tinha filhos, nem havia conhecido o amor que se pode ter a um parceiro. Talvez diga isto porque cedo o perdi. É possível que o desgaste dos anos nos destruísse. Não sei. Não o pude viver. Extirparam-mos. Abriram-me o peito sem anestesia, puxaram-me o coração e gritaram-lhe: “Acabou tudo! Podes deixar de bater, não tens qualquer utilidade!”
- Boa tarde, estou a falar com a D. Cidália Martins?
- Sim sou eu. Quem fala?
- Está sozinha?
- Sim, o que se passa?
- Minha senhora estou a ligar-lhe do Hospital de Santa Maria. É importante que cá venha. Peço-lhe que não venha só.
- Está a assustar-me. Vou esperar pelo meu marido e vou para aí. Ele foi buscar os meus filhos à escola…
- É sobre eles que lhe quero falar. Não venha sozinha.
Deixei cair o telefone, caí a seguir. Não concebia cenário aterrador. Quis crer que tudo ficaria bem. Falaria com o senhor da voz angustiada e as coisas acabavam por se compor. Pedi a uma vizinha amiga que me acompanhasse.
- É a D. Cidália Martins?
- Sou. Diga-me o que aconteceu.
- Houve um acidente com o seu marido e os seus filhos.
Pausa curta. O ar acabou-se-me ali.
- Onde é que eles estão? - Berrei o mais alto que pude, para lhes chegar aos ouvidos. Para que me encontrassem.
- Onde é que estão? João! Ana! Luís! Onde estão?
- Tem de ser corajosa D.Cidália. Faleceram. Ninguém sobreviveu ao acidente. Os ocupantes da outra viatura também tiveram morte imediata.
- Eu...
Sobrevivi. Não sei se o disse, se o pensei. Caí de joelhos num pranto que cessou meses depois. Depois não voltei a chorar, ou a rir, a cantar ou a ter prazer, a sentir o que quer que fosse. Morri sem que o meu corpo me acompanhasse. Tratei do meu internamento neste lar. Não quis ser fardo, ciosa do meu orgulho. Quando fiz setenta anos decidi-o e aqui estou, a definhar. Maldito corpo que não esmorece. Se este organismo estivesse ligado à minha alma defunta, há muito que desistira. Infelizmente não há mal físico de maior, embora dentro irreconhecível. Há uma pessoa com quem costumo conversar: a Teresa. Passou-o também. Percebo-lhe a amargura, o desespero de ter de continuar a viver com uma perda insuportável. A ela permito um vislumbre; consinto que me cheire as entranhas, compreenda quem fui e quem deixei de ser. Aos restantes dura couraça. Antipatia no olhar. Voz ríspida. Aquela miúda ignora o esforço que empreendo para ser repelente e volta. Não lhe passo cartão e lá vem ela teimosa. Enche-me de atenção, doçura na voz. Não desarma. Mesmo nos dias em que sequer lhe dirijo um olhar, fica. Afável. Fala como se me conhecesse, como se eu fosse, até, sua avó. Eu que não cheguei a sê-lo. Que nem pude ver os meus filhos crescerem. Arre! Porque não desistes de mim?
Desaparece!
(Dedicado a MJ que cito:
“A vida é uma mentira e as verdades que tem são muito duras.”
Saudades.)
Andreia Azevedo Moreira
Criado em 2007. Revisto em Dezembro de 2013.
OBRIGADA POR ME LERES.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Semana #35 - «Da(s) escolha(s).» - 25 de Novembro a 1 de Dezembro de 2013
Queres morrer? Morre. De uma vez. Não às prestações. Não evidenciando cada pequena morte. Estou indiferente, agora. Vive, morre. Escolhe. Nada sou à decisão. Duas pessoas. Não uma. Duas vontades. Pára de me arrastar para a tristeza. Sou melancolia que chegue. Não quero a tua. A alegria dá-me trabalho. Todos os dias luto. Por ela também. Por vezes, custa-me tanto e ainda assim a escolho. Se a não queres, não me diz respeito. Uma vida inteira de palhaço, não foi suficiente. Pouco te fiz sorrir. Tenho muito que fazer, hoje. Dedico-me a outras artes. Perdoa-me a desistência. Nota que o fiz muito depois de ti.
(Nada te devo.)
Se quiseres tenho ternura. Atenção. Cuidados, sim. Se escolheres a vida. Demasiado preciosos, para que os reserve para a morte. Se é o fim que procuras, descansa em paz. Não me deito numa lápide prematura, para arrefecer contigo.
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Junho de 2012. Revisto em Novembro de 2013.
OBRIGADA POR ME LERES.
domingo, 17 de novembro de 2013
Semana #34 - «Uma história sobre migalhas.» - 17 a 24 de Novembro de 2013.
Um homem ia todos os dias ao parque da Vila, depois do trabalho. Levava consigo um saquinho com migalhas que despejava ao seu redor. Sentia prazer que os passarinhos, quando o viam, se agitassem voando para perto dele, para comer os restos de pão. Um dos passarinhos aparecia sempre. Tinha o bico cor de laranja e as penas muito pretas, raiadas aqui e ali de azul-marinho. Certo dia o homem cansou-se de levar o saco, por nenhum motivo em especial. Continuava a sentar-se, diariamente, no mesmo banco, sem nada oferecer. Aquele passarinho já não comia, todavia, alegrava-se quando ele chegava. Fazia-lhe voos rentes aos pés e ali permanecia saltitando trinados. Se quisesse, o homem poderia continuar a mimá-lo, sem perturbação dos seus dias. Escolhia não o fazer. Envaidecia-se com a presença do pássaro. O bicho, que nada entendia dos propósitos dos homens, continuava a cantar para ele, refém da própria liberdade. Criado por Andreia Azevedo Moreira em 12 e 13 de Novembro de 2013. Revisto em 17/11/2013. OBRIGADA POR ME LERES. |
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Micro-conto
Numa esquina se perdeu, numa carruagem se encontrou.
Não se achou feliz para sempre, mas viveu. A memória permitia-lhe reinventar muitos destinos onde poderia, sem dificuldade, chegar a pé. Todos lhe agradavam. Permanecia na linha de partida. Pernas flectidas, pontas dos dedos no chão. Olhos fixos defronte. Para sonhar não necessitava de se mover. Era o atleta mais veloz.
Andreia Azevedo Moreira
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
OBRIGADA
Catarina Azevedo, Hugo Catanho, Ângela Viegas e Ana Rute, graças à vossa partilha esta página ganhou 18 leitores. Muito obrigada por me ajudarem a levar as minhas palavras a mais olhos atentos. Aquele abraço.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
«MATIZES»
Tenho frieiras, não pinto. O sangue nota-se
na tela. O óleo fende-se como as mãos. Tomo banho, agora. O necessário:
sabonete, champô, roupa limpa. Importante não descuidar o asseio. Quando deixa
de ser relevante é porque estou perdido. Quando não posso pintar, o tempo
empastela. As horas esticam, o sol demora a pôr-se. Respirar. Dormir. Comer.
Dias há em que o dinheiro é curto e não compro material, nem Pancas. Os pincéis
apropriados e as tintas certas roubam-me à boca. Alterno entre o alimento de
que o corpo precisa e o outro, que nutre o espírito. Equilíbrio precário. As
vontades colidem; já roí cabos aos pincéis e provei diluente. Magoa que não me
olhem para os quadros. Passam acelerados, desprezando as cores. Há dias,
inventei uma. Nunca a vi antes e conheço bem os matizes. Dei-lhe um nome:
«Ver». Entre o verde e o vermelho, todavia, nem um nem outro, tão-pouco outra
cor qualquer. O meu legado. Divertido pensar que a deixo ao mundo, quando o
mundo me despreza. Dava-me jeito vender alguns quadros. Viver da arte. O que me
convém, pouco interessa aos demais. Maldito frio. O sangue mais espesso nas
veias, cada articulação dói ao mexer. O que me apaixona é retratar a minha Rua.
Monocromática. Derramou-se o balde divino de tinta cinzenta. Todos os dias
encontro novo detalhe. Acrescento cores. Há diferenças entre o que as coisas
são e como as percepciono. Acho que ninguém sabe o que é a verdade. O que nos
chega não é o que foi emitido. Interferências minúsculas, inevitáveis. O que me
encanta na Rua? Prédios com andares sobejando; veículos mal estacionados;
calçada portuguesa coberta de dejectos de cão; escarros humanos; transeuntes
que não me encaram e é a Rua mais bonita que conheço. Cheira a tubos de escape,
a plátanos, a velocidade. A minha tosse deve ser alérgica. Desconheço se aos
pólenes, ao monóxido de carbono, ou à humidade. Pintei o “Alergia”. Ninguém o
comprou. Como ninguém me compra os restantes em filas que são expectativa. É um
nariz com muco de pulmões infectados. Nojento, admito. Ficou para a minha
colecção particular que se compõe de tudo o que já criei. Quando se demoram,
observam pelo canto do olho para que não os interpele. O que me permite
sobreviver não me dá gozo. Sou especialista em inutilidades. Quem me contrata
não necessitaria de mim, fossem outras as circunstâncias.
A primeira vez que o vi, estava debruçado
sobre um muro baixo. Não identifiquei o que fazia, apenas as costas curvadas e
o corrupio dos movimentos. O autocarro avançou revelando-me pincéis, tubos de
tinta, telas, paletas e sacos de onde retirava mais objectos. Interrompia-se
para olhar o céu. Ajustava a posição do corpo de acordo com o ângulo em que a
luz incidia no plano. A paleta era uma misturada horrorosa. Afigurava-se
impossível sair dali tom que prestasse. Encantou-me o despudor. Quando
trabalho, envergonho-me dos olhares de terceiros. O Pedro era generoso na forma
como se expunha. Constrangia-me vê-lo nu, no meio da Rua. A pintura não me
arrebata. Os quadros pendurados nas paredes de nossa casa foram impulsos da
Madalena em exposições. Habituei-me a que me espreitassem das paredes, mas a
relação nunca deixou de ser estranheza. Os dele falam comigo e é como se, se
pintassem a cada passagem. Flor que de véspera não achei. Mancha no piso que se
fez ao cair da noite; candeeiro apagado que se acendeu. Pensava muito nele e um
dia interpelei-o. Fez pouco caso da minha presença. Nessa hora de
desconsideração observei-o minuciosa. Muito mais do que aos quadros, os quais
encarei com a ignorância habitual. Homem de porte altivo, cabelo pelos ombros,
risco ao lado. Os olhos castanhos pareciam desfocados. Barba mal aparada, o
nariz grande. As roupas eram adequadas à altura do ano, embora parecessem
saídas de um baú de roupa dos anos sessenta. A voz maravilhosa, qual locutor de
rádio. Seria ouvinte a vida toda daquele timbre. Misturava tintas para usar no
quadro com carrinhos coloridos que subiam uma rua de cidade, embora parecessem
carros de Fórmula-um. Alguma coisa o distinguia. Perdi-me naquelas peças de
lata fictícias, como a personagem da Travers. «A senhora o que deseja?»
Arrancou-me à criança de outros tempos. «Estou a ver.» «É o que todos dizem.»
Retorquiu. Passou-me um quadro de moldura dourada, com uma flor. Senti-lhe o
peso, avaliei os relevos e devolvi-lho. Questionei-o sobre o preço. «35».
Continuou as pinceladas, como se não lhe tivesse falado. Estava incrédula.
Pagara dez vezes mais, por um de uma finalista de Belas Artes. Como se
considerava tão mal? Havia mestria no trabalho. «Não tenho dinheiro comigo.» «A
Senhora passe quando quiser.» Intui-lhe o descrédito. Peguei no sobretudo
branco que ia deixar à lavandaria com a convicção, que ele não tinha, de
regressar.
As pessoas que caminham inspiram-me. Se as
não retrato é por vingança. Há os que vão de cara fechada vendo sempre, nos
outros, dívida irrecuperável; os que sorriem de auscultadores postos; alguns
envergam óculos escuros que cortam lágrimas. O brilho a descer denuncia-os; há
crianças a ocultarem o que as assola, com gargalhadas que se sobrepõem; velhos
passeiam cães-pessoa que lhes fazem companhia; carteiristas contam dinheiro
alheio em esgares que são malícia e ingenuidade; vejo pares de mãos dadas que
me irritam, de tão colados levam os lábios; há quem fale consigo, maxilar
fundido, longe de mim e do mundo; hoje falei com uma mulher de casaco pendurado
nos braços desistentes. Fingiu estar interessada no meu trabalho. Capto-lhes o
ânimo e verto-o nos automóveis, nas ervas, nas árvores, nos candeeiros.
Instantes da Rua. Cores para o pavimento, para o céu, o betão e as folhas. As
janelas abrem-se, ou fecham, consoante o que lhes pressinto. Não é honesta a
pilhagem. Sento-me durante horas. Contemplo. Estudo as naturezas díspares.
Passou uma mulher, corria aflita. Batiam-lhe os sacos nas pernas. Ela tropeçava
e abrandava a marcha, mas não a interrompia. Eram pernas longas e bonitas, as
quais desejaria seguir e outro verbo que rima com este. Nessa tarde esbocei o
primeiro carro. Rascunho a grafite. As tintas vêm depois. Imaginei pneu largo,
borracha grosseira, câmara-de-ar possante para aguentar velocidades. Nasceram
jantes luzentes, como imagino que devem ser as dos bons carros. À estrutura
qui-la robusta, aspecto de rasgar o ar. Não me furtei ao banal: pintei-o de
vermelho, desenhei-lhe o número quatro na porta. O primeiro de dez que criei.
Todos trepando para o céu, a desdenharem do asfalto rotineiro, por não gostarem
de estradas. Renegam caminhos projectados por terceiros. Popós. Pom! Pom! Entre
o quarto e o quinto, descobri a minha cor. Acaso feliz. Não dormi nessa noite
com dores no corpo. Ouvia o barulho nocturno do trânsito; dos semáforos que vão
do verde ao vermelho; dos bêbados que riem alto e cantam mal. Poderia acabar e
legava recordação aos que não tenho. Tive uma mulher-paixão que me esqueceu. Se
me esqueceu não existo. Não existo não sou e amante não é palavra. É dor.
Agulha de crochet na aorta.
Pedregulho que emerge em todos os quadros que pinto. Repare-se: dez viaturas, o
céu e o calhau no canto inferior à esquerda. Sinto-lhe a falta. Mesmo do
verdete de pedra escorregadia e das arestas em que abri os lanhos que trago na
alma. No quadro da flor era cascalho em fundo. Pequenitas pedras pretas a
suportá-la. No do plátano carregado de pardais que falam não se vê, de tão
enterrado entre raízes. Há rochedos nos olhos do cão gigante que tombou. A
dureza está no que faço. Nos sonhos, até, que deviam ser de algodão. Ligo-lhe.
Atende e fico a ouvi-la respirar. Assente: inspira, expira. Um “ ‘Tou ” que não
é descuido. Dois minutos, o suficiente. O tilintar. Depois o silêncio. Uma
porta em fole chia atrás de mim.
«Quantos vendeu?»
«Nenhum.»
«Nenhum?»
«Isso.»
«Fico-lhe com um. Lembra-se no outro dia,
disse-lhe que voltava? Quando regressei, não o vi.»
«Devo ter ido tomar banho. Sabe como é… As
tintas… Os cheiros…»
«Estou contente por reencontrá-lo. Quero
levar um quadro.»
«Porquê?»
«Agrada-me que se transformem. Já não me
parecem os mesmos do outro dia. E mesmo então, enquanto os observava,
animados!»
«São os mesmos. Estão aqui os que pintei nos
últimos meses. Tinha mais. Roubaram-mos.»
Voltou a pegar no quadro da flor tosca e
passou-mo, como se não houvesse opções. O dos carros, por exemplo. Poderia
oferecê-lo ao meu sobrinho. Não foi assunto passível de debate. Fosse a flor, o
objectivo não era decorar paredes.
«São 35.»
«Porque leva tão pouco?»
«Quer pagar mais?»
«Seria justo. Paguei muito mais, por um de
inferior qualidade.»
«Disse-lhe o preço que me parece justo.»
«O que pede mal dá para cobrir as despesas
com os materiais...»
Respondeu que não era da minha conta, que
pagasse e lhe concedesse a calma necessária. Não foi rude. Comprei-lhe o
primeiro quadro. A minha relação tinha começado a morrer e achei curioso que a
flor tivesse murchado, depois de pendurada no escritório. Passávamos horas em silêncio.
Se havia conversação era sobre logística e quotidiano. Nada sobre o nosso
moribundo caso de amor. O sexo era despeito. No final cada uma seguia dormindo,
como se o interregno não passasse de fome, ou vontade de urinar. Era
devastadora a existência sem beijos de língua. Conseguia quantificar o frio de
que o Pedro me falara, éramos já bons amigos: «É o frio não meteorológico.»,
dizia-me no seu modo de conversar radiofónico.
Alguém me levou um dos sacos. Distraí-me
quando comprava uma tosta de queijo e um sumo de pêra, aqui no café ao lado.
Tempo bastante para este prejuízo... Se apanho o responsável... Que
deslealdade. Desconfio quem possa ter sido. Não vou acusá-lo, sem certezas. Não
faço telas que se assemelhem. Trata-se, portanto, de ausência definitiva. Se
apanho o ladrão, desfaço-o.
Ah
ah ah ah. Luzes não há e fecham-se as portas. Ninguém me acode. A merda do
tinóni dá-me cabo da cabeça! Porra. Já não consigo ouvir o caralho das sirenes.
Azul. Branco. Azul. Branco. Os pincéis? Tão macios. Hi hi hi. Amarelos. Ah ah
ah ah. Estás a olhar? Queres que te mostre os pincéis menina? Vem cá dar
festinhas. Vem… Ai, esticadinhas. As minhas preferidas. Arfa cadela. Arfa! Vais
aí toda lavadinha e eu sou um monte de merda, não é? Porque é que atendes Ana?
Hã? Atendes porquê, minha puta? Que é que foi? Seus idiotas. Idiotas, ouvem?
Estão olhar para onde, caralho? Ai a minha vidinha é tão importante com estes
saquinhos, vou para lado nenhum, cheio de pressa, mas tão vazio. Vão ver! Ver?
Ah ah ah. Não sabem. Vão mas é todos para um sítio que eu cá sei. Eh eh eh eh.
Cala-te Pedro… Isso é só teu. Ninguém descobre. Só tu é que sabes como é que se
faz. Como é que misturas as cenas. Chiu… Ó Hélder vou-te à tromba. Ficas sem o
dentinho. Vais ver… Ah ah ah. Descansa aí velho. Os sacos? O preto, o de pano,
o de supermercado. Sete, oito, treze, vinte, nove e o número suplementar o
catorze…
Quando passava perto da Rua espreitava, com
esperança de o encontrar a trabalhar. Nunca me esquecia daquele lugar e
procurei-o, durante as três semanas em que tardou revê-lo. A flor era húmus.
Desaparecera. O que me atormentava porque a relacionava comigo e com o presente
sem vontades.
«Porque é que me escolheu o da flor?»
«Desculpe? Conheço-a?»
«Está a brincar? Comprei-lhe um quadro, há um
mês. A sua primeira venda, segundo me disse. Já o esqueceu?»
«Ah. Sim. Perdoe-me. Claro que me lembro de
si. Não me recordo é dos dias a seguir…»
«Pode dizer-me?»
«O quê?»
«Porquê aquele? Sabe que entretanto
desapareceu? Está tudo preto em baixo e avermelhado, onde havia pétalas.»
«Não sei o que lhe dizer. Peguei nesse por
gentileza, por ser a primeira a dispor-se a pagar pela minha arte e por ser uma
senhora.»
«Como explica a alteração na tela?»
«Na minha memória o quadro permanece como lho
entreguei.»
«Não me lixe. Vai dizer-me que não sabe que
as suas pinturas se alteram? Essa… Os carros já não parecem na mesma posição. O
do número na porta estava mais abaixo, na sequência.»
«Garanto-lhe que uso os melhores materiais. É
impressão sua. Tem medido a tensão? Anda a tomar alguma coisa que lhe altere os
sentidos?»
«Era o que mais faltava. Não sei qual é o
truque, mas está a pôr-me maluca.»
«Acalme-se. O que é que tenho a ver com o que
me conta? A senhora armou-se em boazinha apreciadora de pintura e comprou-me um
quadro, tendo aceitado, sem argumentar, aquele que lhe passei.»
«Teve intenção de me transmitir alguma
coisa.»
«Ser gentil. Uma flor para uma flor. O lugar-comum, não conhece? Não me chateie.
Tenho muito que fazer. Vai mudar o tempo e serão horas, se não mesmo dias, sem
poder criar. Desapareça.»
«Desculpe. Ando enervada. Deixe-me voltar
outro dia, por favor, para conversarmos.»
«Sou pouco amigo de conversas.»
«Toda a gente gosta de conversar.»
«Quem é que se julga para falar por “toda a
gente”? Eu não aprecio. Aviso-a que não volte para isso, a não ser que queira
comprar.»
«Volto outro dia para conversarmos.»
O Pedro bufou e não respondeu. Deitou-se
sobre o cotovelo direito, enquanto a outra mão se concentrava na paisagem
urbana.
O estômago não se compadece. Grita-me que vá
comer. Não penso noutro assunto. Carrego os sacos enquanto vagueio. Posso
querer dar um retoque, ou alterar algum pormenor. Como não lhes dou tempo, nem
espaço suficientes para secarem, alguns colam-se ao da frente e o resultado
tanto me pode arrebatar, como ser desastroso. Inconcebível é deixá-los para
trás. Inclusive aos que não prestam. Não sei como começou. Não encontrava rumo,
debrucei-me para carris em inúmeras gares, até que uma tela que me custou 1,5
numa loja de bagatelas, adquirida sem motivo aparente, me devolveu determinação
ao acordar. No dia seguinte tinha um objectivo: arranjar os restantes
materiais. Não sabia o que usar na tela. A primeira papelaria que encontrei
tinha uma caixa de madeira na montra, revelando-me uns Van Gogh coloridos. Para os pincéis solicitei a ajuda do empregado
que, não tendo sido simpático, soube ser profissional. Deu-me as dicas
essenciais. Recomendou-me bibliografia que nunca adquiri. Quando tinha tudo o
que precisava para pintar, deparei-me com novas dificuldades: como e o que
pintar? O “como” era aterrador. Iria desperdiçar material e saber-me incapaz
para criar algo que prestasse. Passei a primeira manhã imóvel, com o material
espalhado à minha frente, encandeado de medo. Olhava para as mãos desconhecendo
a qual recorrer. Avaliei os pincéis, acariciei-os, inspirei o óleo de linho…
Como estaria aquela paleta intocada horas mais tarde? Ensaiei pinceladas. Nada
demovia o pavor. A noite caiu e não produzi um risco. Deitei-me frustrado,
enraivecido com a cobardia. Haveria de conseguir passar as ideias que tinha
para aquelas superfícies, que me aguardavam intocadas. Havia que correr riscos.
Para chegar a qualquer resultado tinha de me aventurar a fazer asneiras, mesmo
que significasse não poder alimentar-me, não tomar banho, nem arranjar Pancas.
Estava disposto a passar por essas dificuldades. A pintura desviara-me da
queda. Conservei a primeira tela. Acompanhar-me-á como troféu da evolução. Era
grosseiro, inexperiente, ingénuo. Ridículo. Amálgama de cores sem sentido. Não
me envergonha. Quando somos pequenos não sabemos ler, nem escrever. Ensinam-nos
as vogais, as consoantes e a juntá-las. Orientam-nos pelos sons, pelos
significados e eis que um dia há um mundo novo que se nos oferece pelas
palavras. Foi o que vivi com a pintura, Universo ao qual aprendi sozinho a
juntar cor, símbolos, movimento. Lugares em que me perco. Quando trabalho,
evado-me. Gosto de lhe chamar liberdade.
«Olá. Como está? Tem pintado?»
Não obtive resposta. Tentei a conversa mas
não me deu saída. Sentei-me perto dele a observá-lo. Estava a ser intrusiva.
Fosse comigo e já teria ripostado, ou virado costas, mas o tratamento que ele
me aplicava era pior. Agia como se eu não estivesse ali. Era a sua única
cliente, como se dava ao luxo de me destratar? Assim estivemos mais de um par
de horas. Dedicava-se a um desenho indefinido. Não arredei pé. Estava
encantada. Não tinha vontade de voltar para casa e também por isso me demorava,
como podia. Muito infeliz. O Pedro juntava tinta, escurecia o que me pareciam
pedras, enquanto eu chorava, lamentando o que não dizia à Madalena. Partilhava
com aquele estranho o que não confidenciava aos meus amigos mais queridos. Dei
por mim, um fim de tarde, com vontade de o agarrar. Há anos que não estava com
um homem. À medida que desabafava, maior a vontade de lhe tirar a roupa,
encostá-lo à porta daquele prédio e usá-lo. Antes da Mada mudava de namorado
todos os meses. Desacerto que não estava relacionado com a maneira de ser
deles, ou de me amarem. Ao conhecê-la melhor entendi, que até então me escapara
o Amor. O presente era outro, sentia desnorte inenarrável e aquela pessoa tinha
vindo reavivar todas as dúvidas que me atormentavam nos últimos meses. «Maldita
flor.» Ao entrar em casa vi que a Madalena estava a ler. Não ergueu a cabeça.
Uns tempos antes não só se teria levantado, como me teria enchido de beijos.
Foi uma sorte o esforço com que ergueu o sobrolho e disse: «Então?»
«Então. Ao que chegámos.»
Contei-lhe a origem do quadro apesar do
desinteresse, que me agrediu. Falei-lhe do artista e da vontade que tive,
depois de passar tanto tempo com ele. Limitou-se a encolher os ombros e a
esclarecer que éramos livres. Não estava preocupada. Ou porque me achasse
incapaz do desvario, ou porque se tratava de assunto que já não queria seu. A
angústia alimentava-se-me da garganta. A almofada não me serenava. A situação tornava-se
incomportável. Não conseguia agir. Parecia-me injusto que ela não o fizesse já
que partira dela o afastamento. Dia 13 de Fevereiro, Sexta-feira, chegou a casa
diferente. Não me deu explicações, não mentiu, recusou-se a dizer-me o que se
passava apesar das súplicas que multipliquei pelos dias e permanecemos
estranhas, enquanto o permiti. Era doloroso. Menos, no entanto, que um
afastamento físico definitivo. Talvez se lhe desse espaço e tempo voltasse a
si. A nós. Não aconteceu. A minha auto-estima envenenava-se de questões, ciúme
e temores. A voz nunca firme. Interpelava-a com medo, como se qualquer atitude
pudesse despoletar a sua partida, a qual me julgava incapaz para suportar. Qual
das duas pior. Ela no seu silêncio egoísta, eu vitimizando-me inerte. Fiz nada,
para tentar esclarecer a questão. A maioria busca o motivo. Revista bolsos, lê
mensagens, fareja essências. Não fui maioria. Propunha-me sobreviver à crueza
daquela indiferença, esperando que o pesadelo acabasse por si. Saía para o
emprego, ao fim do dia procurava o Pedro, adiando o regresso para cada vez mais
tarde. Impunha limite ao masoquismo, enquanto tentava curar o desamor em que
voluntariamente me enterrara. Inúmeros solilóquios depois, já perdida a
esperança no retorno, o Pedro interveio.
«Não sou exemplo. Também vivo das migalhas da
atenção alheia. Mas ouvindo-a percebo que isso que vive é solidão maior do que
a minha. Porque não vira costas?»
«Não consigo. Amo-a. Não concebo estar
longe.»
«Não sente falta de ar? A angústia mata. Um
momento apenas e esse nó na garganta passa-lhe para o coração, depois para as
mãos, ou para os pés e quando der por si está a bater com um cano frio no
céu-da-boca, ou a atravessar fora da passadeira numa rua movimentada. Ninguém
lhe merece isso. Embora não seja exemplo, tenho descoberto mais em mim, só, que
nos anos todos em que me alimentei dos outros. Eis o que faz. Põe nos ombros da
sua companheira a responsabilidade pelo seu bem-estar. Não há fardo maior, ou injustiça,
para alguém que afirmamos amar. Ela já não lhe pode dar amor. O que pretende?
Piedade? Conseguirá viver disso? Não desista do sentimento maior. Tenha juízo.
Pegue nos seus haveres e faça-se à vida.»
A sua entoação desobscureceu-me as ilusões e
o facto de estar a apagar dias do calendário. Quis comprar-lhe outra obra, em
jeito de agradecimento. Não consentiu.
«Volte noutro dia. Hoje não vendo. Fique-se
com o que lhe disse se lhe servir, ou livre-se das minhas palavras, se
conseguir. Noutro dia traga 35. Não alterarei o valor.»
Nessa noite não aguardei que levantasse os
olhos do que estava a fazer, pois não era importante que participasse do meu
acto. Ela que se envergonhasse da hipocrisia que lhe servia de pele. Para mim
chegara ao fim o domínio. O amor não pode saber a grades, nem a pânico. Há
muito que o que sentia por ela, era de índole diferente. A segurança com que me
atacava, há meses, deu lugar a desconcertante pranto. Outrora seria a reacção
desejada. Naquela hora constrangia-me a falta de carácter. Destratara-me;
irritava-a a carência com que a abordava; o meu odor nauseava-a; o sexo comigo
dava-lhe sono e à data:
«Meu amor para aqui. Não nos precipitemos
para ali. Tens outra pessoa?»
Vontade de rir.
«Não, estúpida. Tens tu.» Quis dizer.
«Percebi que não é relevante que não gostes
de mim, desde que eu goste.»
Ela:
«Não te contei para não te magoar. Quis
evitar precipitações.»
Agradeci-lhe, irónica, o altruísmo e os dias
estupendos passados sob a sua clemência.
«Vai-te foder. Acabamos aqui.»
Arrumei o pouco que tinha levado para aquela
casa e no próprio dia parti.
«Vais para onde? Não leves tudo. Acalma-te.»
Não estava nervosa.
O cheiro nas mãos massacra. Todas as noites
me limpo, como consigo, da criação do dia. Seria difícil a alguém privar
comigo. Aquela mulher não se importa. A cada encontro se afoita mais.
Incomoda-me tanta proximidade. Há uns dias tocou-me no cabelo. Gesto desagradável.
Repeli-a com brusquidão e não o repetiu.
Pousei-lhe a mão no pescoço. Colocou a sua
por cima, agarrou-me o indicador acariciando-o e devolveu-ma cuidadosamente ao
colo. Prosseguiu pintando, como que ignorante quanto ao que sucedera. Era-me benéfica
a sua presença. Perto dele o silêncio não era vazio que tivesse de preencher.
Dava-me um grande gozo pensar, que as pessoas da minha vida desconheciam a
importância daquele homem em mim. Aluguei uma casa pequena, por mobilar, na
cidade. Afastei-me dos arredores e das recordações. Todos os quinze dias
comprava um quadro e rapidamente as paredes brancas deram lugar a mosaico
criativo por Pedro H.L. Períodos de tempo houve em que desapareceu. Não havia
maneira de o localizar. Quando o reencontrava alegava, amiúde, não se recordar
dos dias anteriores e que tinha andado a colorir outras paragens. Falso. A cada
desaparecimento a colecção mantinha-se inalterada. Apenas nos tempos em que o
seu paradeiro me era conhecido novos quadros se revelavam. Não fazia questão
que ele percebesse que não acreditava nas suas mentiras. Não temos de saber
tudo sobre quem gostamos. Aprendera-o com ele.
«Porque não usas o dinheiro também em roupa?»
«A que tenho cumpre a função.»
«Tens-te alimentado?»
«Pareço-te magro?»
Preocupações destas iam minando o meu pensamento,
não tão descomprometido quanto antes. Não era retribuída na domesticidade.
«Queres ficar lá em casa?»
«Não.»
A posse. Quando se dá por ela já deu cabo da
relação mais sólida, quanto mais uma construída de encontros fortuitos no meio
da Rua. Nunca embarcou no entusiasmo.
Paralelepípedos. Justos na sua
irregularidade. Partículas que brilham. Uma formiga segue entre beatas, com
migalhas nas tenazes. Perco-a perto do olho. Passo a mão pelo frio da calçada.
Encosto mais o ouvido e sinto o tremor que o trânsito causa. A perna esquerda
ergue-se para seguir caminho sozinha. Não gosta do frio. Do desconsolo. A cara
colou-se à pedra que a morde. A saliva não é minha, extravasa em poça de fuga
ao que sou. O fôlego esparso mas teimoso. Não desisti. Imponderável fê-lo por
mim. Lamento. Havia, ainda,
O que o afastou. Dedicava-me a tentar
resolver a sua situação profissional. Persegui várias pessoas para que me
concedessem reuniões e quando consegui uma exposição com destaque e direito a
vendas pelo preço justo, desapareceu. Fez cinco anos. Procuro-o, ainda. O
talento dele foi reconhecido, porque o levei aos entendidos, sem o levar de
facto. Tivessem-no visto e jamais teriam credibilizado o meu pedido. Entendo-o,
não sem revolta. A minha vida melhorou depois dele. Os meus sentimentos ficaram
como as paredes alegres lá de casa e os olhos, com que me dou ao mundo, vêem
melhor. Recordo um homem agreste, ressentido, mentiroso, que fedia e me ensinou
a ver a beleza, mesmo quando a paisagem é negrume. Tenho saudades dele. Lamento
nunca ter tido o desprendimento de lhe beijar os olhos desfocados.
- Que cheiro.
- ‘Bora. Estamos atrasados.
- Espera. Está aqui alguém.
- São sacos. Depois da hora não nos deixam entrar.
- Cala-te. Não estás a ver? Pés. Cabelo. Boa
noite. O senhor está bem? Caiu?
- Deixa-o estar, pá. Deve estar com a bezana…
- Ena… Tantos quadros. Repara. Aqueles olhos…
«À Isabel»…
- A peça começa daqui a cinco minutos. Vamos.
- Não será melhor chamarmos a polícia? Se
está morto?
- Oh. Pancas, mas é. Olha.
- Ok. Vamos mas não corras! Os saltos
enfiam-se no passeio.
(Gargalhadas.)
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Abril de 2012.
OBRIGADA POR ME LERES.
Criado em Abril de 2012.
OBRIGADA POR ME LERES.
Foi o 33º texto a sair para a rua, em 04-11-2013 com o título "Cada homem é o que quer" entretanto alterado.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
«A rampa» (Semana #32 / 28 de Outubro a 3 de Novembro de 2013)
Desceu a rampa. Era o fim de um dia longo de trabalho. Distraída não percebeu, logo, quem a esperava. Alguém há muito ido. Estacou. Sorriu. Esqueceu-se de tudo, correu-lhe para os braços. A palavra perdão não fazia sentido. Já não havia dor. Aninhou-se-lhe no peito. Repetiu: «Que saudade.» Os braços acolheram-na protectores, quentes, firmes. Deixou-se estar. Sentia-se tão cansada. Era bom aquele conforto. Depois estremeceu, sentiu uma mão a puxar-lhe o braço e ouviu, longe, uma voz anónima. Adormecera no comboio. (Criado em Março de 2009. Revisto em Outubro de 2013.) Andreia Azevedo Moreira OBRIGADA POR ME LERES. |
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
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