segunda-feira, 21 de setembro de 2015

«JULGAMENTO»



Chove lá fora. Ouço as gotas baterem no plástico dos estores. Toc. Toc. Toc. Pic. Puc. O despertador falhou. O sol não encontrou caminho nas frestas, nem ouço os passos apressados dos saltos altos da vizinha. Acordei com frio. Há quantas horas me destapei? O robe «bordeaux» caiu da cama para lado nenhum. Procuro os chinelos com os pés gelados. Espreito para debaixo da mesa-de-cabeceira, de mim. Não estão. Tremo. Dirijo-me ao quarto de banho e meto-me na banheira. A água tarda em aquecer. O morno nunca consola. Limpo-me a uma toalha branca que esqueci. Todos os atoalhados desta casa são de cor garrida. Pelo menos, pensava serem. Sou desconforto. Regresso ao quarto para escolher o que vestir. É o possível. A roupa escondida. O mundo não acordou, como alguém que me gritasse: «Estás só.» Tento situar-me. É fim-de-semana. Foram quatro os telefonemas sem resposta. Onde me apetece ir? Agarro, instintivamente, na trela e deixo-a cair. O tic tic tic das unhas, no soalho de madeira, cessou há muito. «Só.» Quanto peso numa palavra tão pequena. Duas letras, um acento estridente a empurrar-me a cabeça para os joelhos. A coluna arqueada. As pernas encolhidas. O estômago sem lugar. Para onde foi a ilusão dos que me povoavam?

Aquele dia?
O instante?
Uma confidência?

Condenação. Creio que houvesse confiança na sua justiça, porém, surpreendeu-me a unanimidade. Guardava fé na empatia. No ser possível colocarem-se no meu lugar, ainda que no final não déssemos os mesmos passos. Claro que nunca a pratiquei. Acontecesse com Sofia ou com Marcelo, os intocáveis? Até o Lopes desistiu de me visitar e era dos que não podia falar descontraído. De que vale mover-me, fazer o que quer que seja, não tendo para quem? Que legitimidade atribuir aos movimentos involuntários dos pulmões e do coração? Apenas eu assisto ao seu milagre. Não tenho respostas nem ânimo para me matar. Como me defino? Pelo que fiz? Dou razão aos que se afastaram numa obediência de exército? É importante o que penso, se todos se recusam a ouvir-me? Imagino que habitava um daqueles lugares em que as questões se resolvem com uma massa indiferenciada de gente a massacrar uma amálgama de tecidos, outrora organismo humano. Teria sido melhor para mim ou para eles? Temia este abandono. Constato neste frio, que visto como casaco justo, que não é aterrador o medo ao ganhar corpo. Só. Todos os que subornei com ternura, para que não me deixassem, estão ausentes. Para quê o empenho? Acabarei sem pares. Coisa pequena. Comparo-o com o braço direito que levanto e ainda há uma mão, com cinco dedos, na extremidade. O mesmo constato com o esquerdo. O sexo permanece central e pulsa quente, capaz de amar. Seria um último aceno assim o desejasse? Montava-lhes uma cilada, no Trindade ali ao Largo e, antes que conseguissem negar-ma, concretizava a despedida.

«ADEUS!»

Reparem como as minhas mãos se movem não obstante o vosso repúdio. Que digo? Necessito que tomem conhecimento. Mover-se-iam estes membros? Noto que vejo cada vez pior. Ao espelho confirmo uma espécie de névoa. Embacia-me as córneas. Diagnostico-me: «Cataratas». Não as da anatomia patológica, antes o que optei por não chorar. Décadas a estancar emoções. Acreditei-me capaz de me proteger. Agi como se a existência pudesse ser traduzida em gargalhadas e nada, a não ser secura. Tudo é angústia. Apresentar-me bem, a todas as horas, foi uma farsa. Não mo perdoaram. Não há pachorra para os alegres constantes. Teimam em desconsiderar conscientes ou ignorantes o incontornável. Todo o esforço é inglório. Façamos o que fizermos: correcto, incorrecto, horrendo, belo, altruísta, avaro, seja o que for… Morreremos. Andei no passo certo, marchei ao ritmo que me instigaram, guardei o corpo como pertencendo a outrem. Num advento desencadeado por circunstâncias que não sei precisar, baralhei-me dentro. Resolvi que era ao contrário. As decisões tomadas como certas afiguraram-se ao lado. Identifiquei as atitudes benignas como subserviência. O que julguei para meu bem, afinal, havia-me prejudicado. Não era tarde. Detinha gana para me pôr de pantanas. Fi-lo sem contemplações. A voz da consciência colectiva calara-se. Não tinha o propósito de trazer desgosto aos meus, mas não podia persistir nas mentiras que me contava para poder viver a vida dos normais. Repus o que, à data, considerava a verdade. Quem mais me estranhou foram os que se acreditavam íntimos. Puseram o ar «compreendo-te» mais competente, enquanto se afastavam. Desagradava. Era pela impostura que nutriam sentimentos. Não cedi. É terrível o momento em que concebemos a condição de sermos isolados. Tinha ido ao cinema ver um filme do pós-guerra. Saí da sala com o filme sobre os ombros. Abracei a minha amiga Rita, pela última vez. Conduzia até casa e verguei à orfandade. As mãos salgadas e húmidas escorregavam no volante.

«Não há quem me salve?»
«Não há quem me salve!»
«Não há quem me salve.»

Saio para adquirir uma bengala. O sol nunca ilumina os meus passos. A sombra é o caminho. A ilusão de ter gente era melhor do que isto. Para quê a insistência em obter a verdade? Sou incapaz de a sustentar. Não há memória pior do que a dos olhos que amamos aturdidos de desconsolo. Uma vez feita a descoberta, não há retorno. São olhos espancados. Devolvia esta constatação de merda, pudesse confortar aqueles olhos de mágoa postos em mim. Não me compete a clemência.

«Como foste capaz? Por que quiseste agarrar tudo? Qual é o teu limite? Não sabes parar?»

Desculpa. Não sei. Desconheço como fui capaz ou de onde vem esta ansiedade de sentir o mundo em falta comigo. Esta consciência de que não há fronteiras para a ambição que alimento sobre a minha passagem pelo planeta. Descobri-o tarde e é incontestável. A dor que me derruba? Procurei-a. Sonhei com ela. Desejei-a em oposição à dormência, ao contentamento que não consigo destrinçar da resignação. Temo-a. Recuso a serenidade incompetente para me provocar, para me demonstrar que dentro de mim há vida. Ninguém no-la ensina fora das restrições impostas pela culpa, pelo medo, pelo conforto. Gostava que ma tivessem dado pura e que as escolhas fossem, de facto, minhas. Pensei em mim, pois. Havia de pensar em quem?

«Abdico por ti. Não me deixes.»

Soa tão mal a cobrança. Concordam? Ão…Ão…Ão… Hey?! Hey?! Hey?! Eco. Enlouqueço. A solidão dá-nos para falarmos sozinhos e para escutarmos o abismo. Dessem-me a possibilidade de me redimir e não o faria.

«Eis um botão mágico que anula as tuas acções classificadas, pelos demais, como perniciosas.»

Não seria premido. Olhá-lo-ia com curiosidade, ante o que poderia ser-me devolvido. Haveria de me deixar estar a mirá-lo. Não pretendo perdão para o pecado. Busco, incansável, a origem da palavra. Quem ma semeou no cérebro? Quem ma coseu aos músculos submetendo o instinto animal? Quem a costurou nos olhos e nos tímpanos dos semelhantes? Que justificação há para lhe causar dor tamanha? Vivemo-la e à humilhação, mais o ciúme. De quê? Porquê?

«Aceitas beber um café? A minha amizade. Esta partilha de conhecimentos, gostos ou de indomáveis vontades?»

Um café. Metáfora simples para o nosso encontro. Sim. Tomar um café, ferir quem amamos, deitar fora o que é sólido, contudo, brando. Vamos a isso. Um café já nos instiga esta adrenalina, imagina o resto. Um almoço. Uma tarde. Um pretexto qualquer. Dá-nos mais do que tira? Insistamos nisto até que um se farte ou alguém denuncie. Há sempre quem esteja disposto a expor, para não ser exposto. É certo que não de dará em simultâneo. Um há-de se saber coisa. Objecto gasto, amortizado. O picante dará lugar ao amargo. Conjectura-se o quanto terá valido o desvio. Poderíamos passar sem aquele café? Sem os risos-malícia, o toque primordial? Por que não se recusou? Tantos podem ser os motivos para dizer «não» como os que nos impelem ao «sim». Quem mede o impacto das consequências? A que profundidade nos atingem? «Aceito tomar café.» O que tinha dava-me tanto, mas não tudo. Nada lhe faltava. A carência era minha. No primeiro «sim» ignorava o poder da matéria. Aprendi a calar, não a dizer, o que quero. Ser capaz de me olhar, sem vergonha, é a conquista. Inábil para me acolher qual ser imperfeito. O avanço da idade trouxe-me a capacidade de apreciar o deleite. A maturidade, também. O entendimento de que a urgência apaga inseguranças e de que todos andamos à deriva. O prazer sobreveio. Por que não fui capaz de aliar o preceito à transgressão? Há os que mentem. Os que omitem. Imaculados não há. Há quem vá beber a bica e quem a recuse. Suspeito que não seja o carácter o que as demove. Há vencedores? Haverá condecorações suficientes para os dignos do céu? Por que fere a busca de emoção? Como alcançá-la quando nos desconhecemos de cor? Por que se adivinha apelativa uma pessoa estranha? Pode matar-me. Pode convidar-me para um café, de sabor intenso, em chávena que queima. Podia dizer «sim». Podia dizer «não». Podia provar-te tão-só com os lábios e aguardar que arrefecesses. Podíamos ter fingido que não nos vimos. A inocência não torna. O quotidiano mata e, no entanto, foi a ausência de uma rotina comum, a causa do óbito redigida na certidão dos acasos. A determinada altura falha alguma coisa. Falha-se sempre. O amor constrói-se no conforto da repetição. No nada também nascem exigências, não haja ilusões neste aspecto. É a expectativa do colo falho. Daí não nos termos amado? O desalento instalara-se. Era do nosso conhecimento. Prosseguíamos obstinados, programados numa absoluta sincronia de infelicidade. Adoecemos. Implodir soa aterrador e é mais fácil do que se supõe. No início, os próximos simularam aceitar. A situação degradou-se ao notarem a minha falta de arrependimento e que continuava a viver o que os dias me apresentassem. Lançaram-me acusações rectas: Necessidade. Aguentar. Confiança. Lealdade. Correcção. Verticalidade. Testemunhas. Integridade. Ética. Compromisso. Dever. Respeito. Doença. Em todos os dias da vossa. Alegria. Tristeza. Votos.

«Não era feliz.»
«Que disparate! Alguém o é?»
Não havendo quem o seja, qual a legitimidade para a tentativa?
«Não podes ter tudo.»
Não se tratava de ter. Naquele momento não queria possuir. Tratava-se, sim, de experienciar. De ser.
«Não te matei.»
«Teria sido melhor.»
«A tua vida não é minha.»
«Depositei-ta nas mãos. No coração. Era tua.»
«E tu? Que responsabilidade te resta sobre a tua própria vida?»
«Qual vida?»

Tornara-se claro que o diálogo se desenrolaria entre duas personagens principais, uma vítima e uma culpada e as secundárias, os auto-proclamados júri. Não tinha vontade de o prolongar. Não me definia como a primeira nem a segunda, tão-pouco tinha talento para insistir na representação. Viu que se encontrava sem contracena. Enraiveceu. Virou bicho ferido a dar coices na morte. Não o terá feito com maldade mas foi hábil na persuasão daqueles que nos ligavam.

«E tu? Como estás? Como chegaste a este ponto?»

Silêncio. Afastamento. Não me perguntaram o que quer que fosse. Procedera mal.

«Não existes.»

No início pareceu-me adequado que pagasse pelos meus actos. Depois deu-me para pensar pela minha cabeça e percebi que me culpavam, sobretudo, por arriscar. Por me pôr em causa e aos meus padrões então refutados. Deixava-os inseguros e a questionarem-se sobre si mesmos. O que os impedia? A vontade própria ou a do grupo? Era miserável e o coro não se reunia. Ninguém para se preocupar com as minhas opções. Quando o sorriso se instalou no meu rosto, apareceram os valorosos inquietos com o restabelecimento da paz e da ordem. A norma já não me interessa. Os afectos, sim. Recuso o rótulo da leviandade. Capricho? Pode a espontaneidade sê-lo?

«Antes de desapareceres, quero que saibas o quanto gostei do que pude conhecer-te. Não apenas do teu corpo e da novidade que me trouxeste aos dias. Naquela noite em que te desembaraçaste do meu abraço, com uma rapidez desconcertante, não o interpretei como desprezo. Apiedei-me de ti e do teu constrangimento. Deve ser triste não saberes o que fazer de um gesto puro.»

A liberdade tem um preço. Paga-se em anos de solidão. Aceitar é a palavra mais enganadora. O que se costuma fazer é aprovar enquanto se nos assemelha. O que escapa ao nosso entendimento merece-nos primeiro a estranheza, depois a repulsa veemente, mais tarde descartamos as supostas diferenças, como quem recicla o lixo. Que nos venham parar às mãos as embalagens apelativas, porque as amachucadas não aguentamos. Parecem-se demasiado connosco.
O perdão há-de chegar, com a actuação do esquecimento próprio das mentes humanas. Não darei por isso. Não tenho como regressar.
Na Rua, as pessoas assustam-me. Vislumbro vultos acelerados que me ultrapassam ou se cruzam comigo, deslocando o ar ao meu redor. Desequilibram-me sem me tocarem. É ameaçador o vaivém. Acredito que não me vêem. Pressentem, talvez, um incómodo. Uma chamada de atenção que dispensam. Será unânime a noção de que não presto? Comprei a bengala. Entorta-me o andar. Coxeio como se o problema fosse nos ossos ao invés de o ser na visão. Não me vêem. Não vejo. Chove, ainda.

Toc. Toc. Toc. Pic. Puc.

Tremo. Quantos minutos de desamparo me restam? Dezenas. Centenas. Milhares. Consigo viver desta maneira, é evidente. A questão é: «Quero?» O que faço desta total autonomia? A revelação transformou-se em banalidade. A aventura já cheira a rotina. Não há como escapar. O proibido desvaneceu-se nas próprias regras. A impressão de existir esbate-se.

Quase não vejo.
Quase não ouço.
Quase não falo.

Converso comigo, poucas vezes, como agora. Ando por cá sem intervenção no meio. Comovem-me as saudades de certas pessoas. Sinto falta da percepção do que é exterior a mim, proporcionada pelos outros. Apesar das obrigações, das fronteiras e das morais impositivas. Falta-me um encaixe. Poderia ser ilusório. Não há calor neste estado. Os sentidos perderam-se neste espaço imenso que criei ao meu redor. Tacteio, na penumbra, o regresso à cama. O robe estava pendurado no corrimão do prédio. A vizinha tem esse costume, com a roupa alheia caída no seu estendal. Evita incomodar com campainhas. Voou enquanto estendia a máquina de cores escuras. Em que dia? Tropecei nos chinelos a caminho do quarto. Sento-me na cama. Apalpo a textura da colcha. Recordo-a azul-marinho, com quadrados. Chego-me para o meio. É o ponto certo para erguer os pés e me deitar equidistante da cabeceira e do fundo. O telefone toca com susto. Atendo. Ouço, primeiro, alguém suspirar. É o tom da preocupação. 

- Onde tens andado? Andamos doidos à tua procura.

Tenho a cabeça na direcção do espelho do guarda-fatos. O vulto defronte torna-se nítido. Sorri. Há afecto na imagem.

- Eu também.

De 14/01/2015 a 13/09/2015. Última revisão em 21/09/2015.

OBRIGADA POR ME LERES.

Andreia Azevedo Moreira

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Sinopse

Se morreres não há quem para mo dizer. 

Se por coincidência o souber, não poderei chorar-te.


(https://youtu.be/wTmRKc4c_aI)

sábado, 16 de maio de 2015

Tanto trabalho...

...Para tudo.


E(s)t(ou) feliz.


Já não é angustiante, para mim, não publicar.


Todavia, ver um conto meu seleccionado para integrar uma colectânea do Centro de Estudos Mário Cláudio é o reconhecimento com sabor a gelado de chocolate, que me refresca a alma tantas vezes cansada.


Trabalho cheia de amor sem esperar mais do que sentir-me inteira. Não recebo vencimento, mas faço-o como se disso dependesse a minha sobrevivência (e depende).


A alegria é imensa.


Obrigada aos que me leram e escolheram as palavras que escrevi.


«Os cães ladram.»


Não me esquecerei deste 15-05-2015 em que esta notícia me fintou o pessimismo.


http://cemarioclaudio.blogspot.pt/2015/05/contos-seleccionados-centro-mario.html



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

SINOPSE


- Diz que me queres.

- Quero-te.

- Pensas em mim.


- Penso em ti.


- O teu coração é capaz de um vestígio de sentimento?


- Sim. 


- Ensina-me.



https://www.facebook.com/AndreiaAM/posts/10203512998056283

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Obrigada aos 502 Leitores que se juntaram a mim, nesta demanda. Continuarei a espalhar papelinhos nos próximos dias. Em 2014 mais contos aqui chegarão. Até lá fiquem com "A Pele". A minha pele feita de sonhos e palavras. A todos os "Tu" que me responderam "Sou" aquele abraço sentido.

domingo, 29 de dezembro de 2013


2013 fecha assim. Em 2014 continuarei a DAR PALAVRAS na Rua. Obrigada a todos os Leitores que ajudam a que me cumpra. Uma pessoa quando escreve é para ser lida.

Obrigada Susana Costa. Grande companheira nesta demanda.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

37º texto a sair para a rua. A Pele I e II


«A pele.» - I - 16 a 22 de Dezembro de 2013

«Quase consigo, então embato na pele.»

Visualizo-me a despir o meu corpo. A correr livre, por aí. Quase o sinto deveras. Coloco as mãos no peito, cravo as unhas fundo na pele, os dedos rasgam carne e músculos. Abro o manto que me cobre. Deixo-o cair-me ao redor. Depois levanto um pé, o outro e corro sem matéria. Somente vontade(s), pensamento(s) e Vida.

Andreia Azevedo Moreira 



Criado em Setembro de 2009. Revisto em Dezembro de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.




Semana #37 - «A pele.» - II - 16 a 22 de Dezembro de 2013

«A Pele»

Vivo arredada da Pele. Não custa. Respiro sem ela. Como sem ela, embora comer não seja o mesmo que alimentar-me. É mastigar sem sentido. Caminho. A Pele não me faz falta. Esqueço-me dela e de mim. Eis que ao passar-me pelas mãos na sua temperatura, na sua tonalidade inconfundível, na textura que os dedos insistem ler, alguma coisa se altera. Uma espécie de alvorada. Quando conheço a Pele, começa a doer-me qualquer toque, de tanto me ter faltado. Dores em cada centímetro.

«Faltei-te?»

«Sim. Mas eu não sabia e tu não podias adivinhá-lo.»

A Pele apertou-me o pescoço, que se arrepiou surpreendido com a visita. Os pulmões deixaram-na entrar, num beijo de exército que triunfa e encheram-se de um fôlego, até então adormecido. Desceu-me ao peito e o coração parou. Não estava preparado para tanto calor. Desceu mais e sorrimo-nos, na redescoberta. Há muito que vivia de noite e de luar.

(De frio.)

«Já não me conhecias...»

«Não. Recorda-me o teu nome.»

«Pele.»

Cheiro a Pele em ruídos animais. O odor tem força. Inscreve a sua marca no território interior. Provo-a. Rio-me perdido, numa revoltada saudade, de ter consentido que me ficasse distante todo aquele tempo. Não há retorno para a Pele que me falta. Tanta fome. Vontade de a morder sôfrego, contudo, apenas lhe provo o sal. Com a língua. Primeiro leve, delicado, depois com violência. Tacteio cego a Pele, que me ensina que se morre todos os dias, um bom bocado. Cada despertar é um passo que dou para a ausência dela. Ela sabe disso e por isso me deseja, com veemência. O amanhã não existe. A liberdade partiu. Respondo-lhe ao apelo com cabelos entre os dedos, que puxo para o mais perto de mim. Também não existe isso de recuperar tempos perdidos. Há compassos. O tempo. A falta dele. Contratempos. Desacertos. O meu é tão grande, que não cabe na Pele. Em nenhuma Pele. Na minha, menos ainda. Hoje há o vício de querê-la sempre aqui. A cobrir-me. A ser posse, ainda que os momentos sejam doces impostores. Falta-me e tremo, contorço-me esperando pela remissão que me devolva o oxigénio ao cérebro, a acção aos músculos, a cadência à bomba vital. Tenho a boca aberta numa falta de ar que me grita «Morre». Não pereço. Acho-me fraco, pequeno, despido. Estou farto das lágrimas, dos olhos pesados, da angústia, de me trazer humilhado. Penso «Calma. Isto passa.» A Pele passa.

(Facto: 13,8 horas até que o sangue se limpe.

Questão: O que são umas horas na existência?)

Pois… Foi a passar que me deixou neste estado. Cilindrado. Entregue. Aconchegou-me de uma maneira torta, cruel, distante. Aconchego que recuso, desconhecendo como regressar ao desalento justo. Ao não precisar da Pele. Como não carecer do que nos faz bem ao tacto, a todos os sentidos? Devo acudir o corpo doente, ou a alma que luta aspirando sobreviver escorreita?

Crente que opto, aproxima-se da minha nuca o sussurro quente de um hálito, que reconheço e adoro. Trago uma voz nos tímpanos:

«Faz-se tarde.

Para ti.»

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Dezembro de 2013. Revisão em andamento.

sábado, 7 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sinopse:

A história da miúda que ao invés de bater às portas para entrar, batia para sair.

Semana #36 - «Quando a alma nos morre, interrogamo-nos muitas vezes.» - 02 a 08 de Dezembro de 2013


«Quando a alma nos morre interrogamo-nos muitas vezes.»

Acordo todos os dias depois de dormir uma ou duas horas com este pensamento na cabeça: Sou cansada de viver. Olho para o meu corpo cadavérico enrugado, crente que o meu prazo expirou. Tenho a sensação que viverei, para sempre, nesta infelicidade. Neste vazio dos dias a sucederem-se às noites, impiedosos. Não os distingo. Limito-me a aguardar, vontade nenhuma. Ler entedia-me – os olhos são fracos e é difícil distinguir os vultos esfumados, que para os outros são letras. – o croché não me entretém; ouvir rádio impacienta-me; a televisão não dá programa que preste; dormir todo o dia? Não consigo. Desejo não voltar a acordar. Quero adormecer definitivamente. Quero morrer. - Pronto já disse! - A educação católica não mo permite. Vivo uma “sobrevida”. Sobrevivo. Uma “subvida”. Isto não chega a ser o que considero uma existência. Que desígnios serão os d’Ele? Convicta que me esqueceu. Abro os olhos pela manhã, ainda nem os passarinhos chilreiam lá fora e uma vez acordada, há dor por ainda respirar. Antes apreciava os animais, a natureza. O meu presente é não gostar. Se me perguntassem, como nas entrevistas, Qual a palavra que melhor a define? Responderia: “Nada”. Mas se “nada” fosse, não viria aquela mocinha visitar-me. Às vezes, por maldade, não lhe dirijo palavra. Faço-o à única pessoa que me dedica algum tempo. Não tenho como explicá-lo. Uma urgência em maltratá-la e é tudo. Porquê mais um dia, meu Deus? Não o quero. Dá-o a outro. Escutas-me? Leva-me. Que castigo. Se todos os que amo estão aí e levaram com eles o meu ânimo. Quando era nova tinha as minhas teorias: “Tudo o que nos faz falta está dentro.” Sabia-me forte. A felicidade dependia do meu querer. Arrogante, considerava-me auto-suficiente encarando os outros como a quem está de passagem. Deveria contar comigo. Guiava-me pelos meus instintos. Passou, desde então, tanto tempo. À data não tinha filhos, nem havia conhecido o amor que se pode ter a um parceiro. Talvez diga isto porque cedo o perdi. É possível que o desgaste dos anos nos destruísse. Não sei. Não o pude viver. Extirparam-mos. Abriram-me o peito sem anestesia, puxaram-me o coração e gritaram-lhe: “Acabou tudo! Podes deixar de bater, não tens qualquer utilidade!”

- Boa tarde, estou a falar com a D. Cidália Martins?
- Sim sou eu. Quem fala?
- Está sozinha?
- Sim, o que se passa? 
- Minha senhora estou a ligar-lhe do Hospital de Santa Maria. É importante que cá venha. Peço-lhe que não venha só.
- Está a assustar-me. Vou esperar pelo meu marido e vou para aí. Ele foi buscar os meus filhos à escola…
- É sobre eles que lhe quero falar. Não venha sozinha.

Deixei cair o telefone, caí a seguir. Não concebia cenário aterrador. Quis crer que tudo ficaria bem. Falaria com o senhor da voz angustiada e as coisas acabavam por se compor. Pedi a uma vizinha amiga que me acompanhasse.
- É a D. Cidália Martins?
- Sou. Diga-me o que aconteceu.
- Houve um acidente com o seu marido e os seus filhos.

Pausa curta. O ar acabou-se-me ali. 

- Onde é que eles estão? - Berrei o mais alto que pude, para lhes chegar aos ouvidos. Para que me encontrassem.

- Onde é que estão? João! Ana! Luís! Onde estão?
- Tem de ser corajosa D.Cidália. Faleceram. Ninguém sobreviveu ao acidente. Os ocupantes da outra viatura também tiveram morte imediata.
- Eu...

Sobrevivi. Não sei se o disse, se o pensei. Caí de joelhos num pranto que cessou meses depois. Depois não voltei a chorar, ou a rir, a cantar ou a ter prazer, a sentir o que quer que fosse. Morri sem que o meu corpo me acompanhasse. Tratei do meu internamento neste lar. Não quis ser fardo, ciosa do meu orgulho. Quando fiz setenta anos decidi-o e aqui estou, a definhar. Maldito corpo que não esmorece. Se este organismo estivesse ligado à minha alma defunta, há muito que desistira. Infelizmente não há mal físico de maior, embora dentro irreconhecível. Há uma pessoa com quem costumo conversar: a Teresa. Passou-o também. Percebo-lhe a amargura, o desespero de ter de continuar a viver com uma perda insuportável. A ela permito um vislumbre; consinto que me cheire as entranhas, compreenda quem fui e quem deixei de ser. Aos restantes dura couraça. Antipatia no olhar. Voz ríspida. Aquela miúda ignora o esforço que empreendo para ser repelente e volta. Não lhe passo cartão e lá vem ela teimosa. Enche-me de atenção, doçura na voz. Não desarma. Mesmo nos dias em que sequer lhe dirijo um olhar, fica. Afável. Fala como se me conhecesse, como se eu fosse, até, sua avó. Eu que não cheguei a sê-lo. Que nem pude ver os meus filhos crescerem. Arre! Porque não desistes de mim? 

Desaparece!

(Dedicado a MJ que cito:

“A vida é uma mentira e as verdades que tem são muito duras.” 

Saudades.)

Andreia Azevedo Moreira

Criado em 2007. Revisto em Dezembro de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Semana #35 - «Da(s) escolha(s).» - 25 de Novembro a 1 de Dezembro de 2013


Queres morrer? Morre. De uma vez. Não às prestações. Não evidenciando cada pequena morte. Estou indiferente, agora. Vive, morre. Escolhe. Nada sou à decisão. Duas pessoas. Não uma. Duas vontades. Pára de me arrastar para a tristeza. Sou melancolia que chegue. Não quero a tua. A alegria dá-me trabalho. Todos os dias luto. Por ela também. Por vezes, custa-me tanto e ainda assim a escolho. Se a não queres, não me diz respeito. Uma vida inteira de palhaço, não foi suficiente. Pouco te fiz sorrir. Tenho muito que fazer, hoje. Dedico-me a outras artes. Perdoa-me a desistência. Nota que o fiz muito depois de ti.

(Nada te devo.)

Se quiseres tenho ternura. Atenção. Cuidados, sim. Se escolheres a vida. Demasiado preciosos, para que os reserve para a morte. Se é o fim que procuras, descansa em paz. Não me deito numa lápide prematura, para arrefecer contigo.

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Junho de 2012. Revisto em Novembro de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

domingo, 17 de novembro de 2013

Semana #34 - «Uma história sobre migalhas.» - 17 a 24 de Novembro de 2013.



Um homem ia todos os dias ao parque da Vila, depois do trabalho. Levava consigo um saquinho com migalhas que despejava ao seu redor. Sentia prazer que os passarinhos, quando o viam, se agitassem voando para perto dele, para comer os restos de pão. Um dos passarinhos aparecia sempre. Tinha o bico cor de laranja e as penas muito pretas, raiadas aqui e ali de azul-marinho. Certo dia o homem cansou-se de levar o saco, por nenhum motivo em especial. Continuava a sentar-se, diariamente, no mesmo banco, sem nada oferecer. Aquele passarinho já não comia, todavia, alegrava-se quando ele chegava. Fazia-lhe voos rentes aos pés e ali permanecia saltitando trinados. Se quisesse, o homem poderia continuar a mimá-lo, sem perturbação dos seus dias. Escolhia não o fazer. Envaidecia-se com a presença do pássaro. O bicho, que nada entendia dos propósitos dos homens, continuava a cantar para ele, refém da própria liberdade.

Criado por Andreia Azevedo Moreira em 12 e 13 de Novembro de 2013. Revisto em 17/11/2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Micro-conto


Numa esquina se perdeu, numa carruagem se encontrou.

Não se achou feliz para sempre, mas viveu. A memória permitia-lhe reinventar muitos destinos onde poderia, sem dificuldade, chegar a pé. Todos lhe agradavam. Permanecia na linha de partida. Pernas flectidas, pontas dos dedos no chão. Olhos fixos defronte. Para sonhar não necessitava de se mover. Era o atleta mais veloz.

Andreia Azevedo Moreira


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

OBRIGADA

Catarina Azevedo, Hugo Catanho, Ângela Viegas e Ana Rute, graças à vossa partilha esta página ganhou 18 leitores. Muito obrigada por me ajudarem a levar as minhas palavras a mais olhos atentos. Aquele abraço.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

«MATIZES»



Tenho frieiras, não pinto. O sangue nota-se na tela. O óleo fende-se como as mãos. Tomo banho, agora. O necessário: sabonete, champô, roupa limpa. Importante não descuidar o asseio. Quando deixa de ser relevante é porque estou perdido. Quando não posso pintar, o tempo empastela. As horas esticam, o sol demora a pôr-se. Respirar. Dormir. Comer. Dias há em que o dinheiro é curto e não compro material, nem Pancas. Os pincéis apropriados e as tintas certas roubam-me à boca. Alterno entre o alimento de que o corpo precisa e o outro, que nutre o espírito. Equilíbrio precário. As vontades colidem; já roí cabos aos pincéis e provei diluente. Magoa que não me olhem para os quadros. Passam acelerados, desprezando as cores. Há dias, inventei uma. Nunca a vi antes e conheço bem os matizes. Dei-lhe um nome: «Ver». Entre o verde e o vermelho, todavia, nem um nem outro, tão-pouco outra cor qualquer. O meu legado. Divertido pensar que a deixo ao mundo, quando o mundo me despreza. Dava-me jeito vender alguns quadros. Viver da arte. O que me convém, pouco interessa aos demais. Maldito frio. O sangue mais espesso nas veias, cada articulação dói ao mexer. O que me apaixona é retratar a minha Rua. Monocromática. Derramou-se o balde divino de tinta cinzenta. Todos os dias encontro novo detalhe. Acrescento cores. Há diferenças entre o que as coisas são e como as percepciono. Acho que ninguém sabe o que é a verdade. O que nos chega não é o que foi emitido. Interferências minúsculas, inevitáveis. O que me encanta na Rua? Prédios com andares sobejando; veículos mal estacionados; calçada portuguesa coberta de dejectos de cão; escarros humanos; transeuntes que não me encaram e é a Rua mais bonita que conheço. Cheira a tubos de escape, a plátanos, a velocidade. A minha tosse deve ser alérgica. Desconheço se aos pólenes, ao monóxido de carbono, ou à humidade. Pintei o “Alergia”. Ninguém o comprou. Como ninguém me compra os restantes em filas que são expectativa. É um nariz com muco de pulmões infectados. Nojento, admito. Ficou para a minha colecção particular que se compõe de tudo o que já criei. Quando se demoram, observam pelo canto do olho para que não os interpele. O que me permite sobreviver não me dá gozo. Sou especialista em inutilidades. Quem me contrata não necessitaria de mim, fossem outras as circunstâncias.

A primeira vez que o vi, estava debruçado sobre um muro baixo. Não identifiquei o que fazia, apenas as costas curvadas e o corrupio dos movimentos. O autocarro avançou revelando-me pincéis, tubos de tinta, telas, paletas e sacos de onde retirava mais objectos. Interrompia-se para olhar o céu. Ajustava a posição do corpo de acordo com o ângulo em que a luz incidia no plano. A paleta era uma misturada horrorosa. Afigurava-se impossível sair dali tom que prestasse. Encantou­-me o despudor. Quando trabalho, envergonho-me dos olhares de terceiros. O Pedro era generoso na forma como se expunha. Constrangia-me vê-lo nu, no meio da Rua. A pintura não me arrebata. Os quadros pendurados nas paredes de nossa casa foram impulsos da Madalena em exposições. Habituei-me a que me espreitassem das paredes, mas a relação nunca deixou de ser estranheza. Os dele falam comigo e é como se, se pintassem a cada passagem. Flor que de véspera não achei. Mancha no piso que se fez ao cair da noite; candeeiro apagado que se acendeu. Pensava muito nele e um dia interpelei-o. Fez pouco caso da minha presença. Nessa hora de desconsideração observei-o minuciosa. Muito mais do que aos quadros, os quais encarei com a ignorância habitual. Homem de porte altivo, cabelo pelos ombros, risco ao lado. Os olhos castanhos pareciam desfocados. Barba mal aparada, o nariz grande. As roupas eram adequadas à altura do ano, embora parecessem saídas de um baú de roupa dos anos sessenta. A voz maravilhosa, qual locutor de rádio. Seria ouvinte a vida toda daquele timbre. Misturava tintas para usar no quadro com carrinhos coloridos que subiam uma rua de cidade, embora parecessem carros de Fórmula-um. Alguma coisa o distinguia. Perdi-me naquelas peças de lata fictícias, como a personagem da Travers. «A senhora o que deseja?» Arrancou-me à criança de outros tempos. «Estou a ver.» «É o que todos dizem.» Retorquiu. Passou-me um quadro de moldura dourada, com uma flor. Senti-lhe o peso, avaliei os relevos e devolvi-lho. Questionei-o sobre o preço. «35». Continuou as pinceladas, como se não lhe tivesse falado. Estava incrédula. Pagara dez vezes mais, por um de uma finalista de Belas Artes. Como se considerava tão mal? Havia mestria no trabalho. «Não tenho dinheiro comigo.» «A Senhora passe quando quiser.» Intui-lhe o descrédito. Peguei no sobretudo branco que ia deixar à lavandaria com a convicção, que ele não tinha, de regressar.

As pessoas que caminham inspiram-me. Se as não retrato é por vingança. Há os que vão de cara fechada vendo sempre, nos outros, dívida irrecuperável; os que sorriem de auscultadores postos; alguns envergam óculos escuros que cortam lágrimas. O brilho a descer denuncia-os; há crianças a ocultarem o que as assola, com gargalhadas que se sobrepõem; velhos passeiam cães-pessoa que lhes fazem companhia; carteiristas contam dinheiro alheio em esgares que são malícia e ingenuidade; vejo pares de mãos dadas que me irritam, de tão colados levam os lábios; há quem fale consigo, maxilar fundido, longe de mim e do mundo; hoje falei com uma mulher de casaco pendurado nos braços desistentes. Fingiu estar interessada no meu trabalho. Capto-lhes o ânimo e verto-o nos automóveis, nas ervas, nas árvores, nos candeeiros. Instantes da Rua. Cores para o pavimento, para o céu, o betão e as folhas. As janelas abrem-se, ou fecham, consoante o que lhes pressinto. Não é honesta a pilhagem. Sento-me durante horas. Contemplo. Estudo as naturezas díspares. Passou uma mulher, corria aflita. Batiam-lhe os sacos nas pernas. Ela tropeçava e abrandava a marcha, mas não a interrompia. Eram pernas longas e bonitas, as quais desejaria seguir e outro verbo que rima com este. Nessa tarde esbocei o primeiro carro. Rascunho a grafite. As tintas vêm depois. Imaginei pneu largo, borracha grosseira, câmara-de-ar possante para aguentar velocidades. Nasceram jantes luzentes, como imagino que devem ser as dos bons carros. À estrutura qui-la robusta, aspecto de rasgar o ar. Não me furtei ao banal: pintei-o de vermelho, desenhei-lhe o número quatro na porta. O primeiro de dez que criei. Todos trepando para o céu, a desdenharem do asfalto rotineiro, por não gostarem de estradas. Renegam caminhos projectados por terceiros. Popós. Pom! Pom! Entre o quarto e o quinto, descobri a minha cor. Acaso feliz. Não dormi nessa noite com dores no corpo. Ouvia o barulho nocturno do trânsito; dos semáforos que vão do verde ao vermelho; dos bêbados que riem alto e cantam mal. Poderia acabar e legava recordação aos que não tenho. Tive uma mulher-paixão que me esqueceu. Se me esqueceu não existo. Não existo não sou e amante não é palavra. É dor. Agulha de crochet na aorta. Pedregulho que emerge em todos os quadros que pinto. Repare-se: dez viaturas, o céu e o calhau no canto inferior à esquerda. Sinto-lhe a falta. Mesmo do verdete de pedra escorregadia e das arestas em que abri os lanhos que trago na alma. No quadro da flor era cascalho em fundo. Pequenitas pedras pretas a suportá-la. No do plátano carregado de pardais que falam não se vê, de tão enterrado entre raízes. Há rochedos nos olhos do cão gigante que tombou. A dureza está no que faço. Nos sonhos, até, que deviam ser de algodão. Ligo-lhe. Atende e fico a ouvi-la respirar. Assente: inspira, expira. Um “ ‘Tou ” que não é descuido. Dois minutos, o suficiente. O tilintar. Depois o silêncio. Uma porta em fole chia atrás de mim.

«Quantos vendeu?»

«Nenhum.»

«Nenhum?»

«Isso.»

«Fico-lhe com um. Lembra-se no outro dia, disse-lhe que voltava? Quando regressei, não o vi.»

«Devo ter ido tomar banho. Sabe como é… As tintas… Os cheiros…»

«Estou contente por reencontrá-lo. Quero levar um quadro.»

«Porquê?»

 «Agrada-me que se transformem. Já não me parecem os mesmos do outro dia. E mesmo então, enquanto os observava, animados!»

«São os mesmos. Estão aqui os que pintei nos últimos meses. Tinha mais. Roubaram-mos.»

Voltou a pegar no quadro da flor tosca e passou-mo, como se não houvesse opções. O dos carros, por exemplo. Poderia oferecê-lo ao meu sobrinho. Não foi assunto passível de debate. Fosse a flor, o objectivo não era decorar paredes.

«São 35.»

«Porque leva tão pouco?»

«Quer pagar mais?»

«Seria justo. Paguei muito mais, por um de inferior qualidade.»

«Disse-lhe o preço que me parece justo.»

«O que pede mal dá para cobrir as despesas com os materiais...»

Respondeu que não era da minha conta, que pagasse e lhe concedesse a calma necessária. Não foi rude. Comprei-lhe o primeiro quadro. A minha relação tinha começado a morrer e achei curioso que a flor tivesse murchado, depois de pendurada no escritório. Passávamos horas em silêncio. Se havia conversação era sobre logística e quotidiano. Nada sobre o nosso moribundo caso de amor. O sexo era despeito. No final cada uma seguia dormindo, como se o interregno não passasse de fome, ou vontade de urinar. Era devastadora a existência sem beijos de língua. Conseguia quantificar o frio de que o Pedro me falara, éramos já bons amigos: «É o frio não meteorológico.», dizia-me no seu modo de conversar radiofónico.

Alguém me levou um dos sacos. Distraí-me quando comprava uma tosta de queijo e um sumo de pêra, aqui no café ao lado. Tempo bastante para este prejuízo... Se apanho o responsável... Que deslealdade. Desconfio quem possa ter sido. Não vou acusá-lo, sem certezas. Não faço telas que se assemelhem. Trata-se, portanto, de ausência definitiva. Se apanho o ladrão, desfaço-o. 

Ah ah ah ah. Luzes não há e fecham-se as portas. Ninguém me acode. A merda do tinóni dá-me cabo da cabeça! Porra. Já não consigo ouvir o caralho das sirenes. Azul. Branco. Azul. Branco. Os pincéis? Tão macios. Hi hi hi. Amarelos. Ah ah ah ah. Estás a olhar? Queres que te mostre os pincéis menina? Vem cá dar festinhas. Vem… Ai, esticadinhas. As minhas preferidas. Arfa cadela. Arfa! Vais aí toda lavadinha e eu sou um monte de merda, não é? Porque é que atendes Ana? Hã? Atendes porquê, minha puta? Que é que foi? Seus idiotas. Idiotas, ouvem? Estão olhar para onde, caralho? Ai a minha vidinha é tão importante com estes saquinhos, vou para lado nenhum, cheio de pressa, mas tão vazio. Vão ver! Ver? Ah ah ah. Não sabem. Vão mas é todos para um sítio que eu cá sei. Eh eh eh eh. Cala-te Pedro… Isso é só teu. Ninguém descobre. Só tu é que sabes como é que se faz. Como é que misturas as cenas. Chiu… Ó Hélder vou-te à tromba. Ficas sem o dentinho. Vais ver… Ah ah ah. Descansa aí velho. Os sacos? O preto, o de pano, o de supermercado. Sete, oito, treze, vinte, nove e o número suplementar o catorze…

Quando passava perto da Rua espreitava, com esperança de o encontrar a trabalhar. Nunca me esquecia daquele lugar e procurei-o, durante as três semanas em que tardou revê-lo. A flor era húmus. Desaparecera. O que me atormentava porque a relacionava comigo e com o presente sem vontades.

«Porque é que me escolheu o da flor?»

«Desculpe? Conheço-a?»

«Está a brincar? Comprei-lhe um quadro, há um mês. A sua primeira venda, segundo me disse. Já o esqueceu?»

«Ah. Sim. Perdoe-me. Claro que me lembro de si. Não me recordo é dos dias a seguir…»

«Pode dizer-me?»

«O quê?»
«Porquê aquele? Sabe que entretanto desapareceu? Está tudo preto em baixo e avermelhado, onde havia pétalas.»

«Não sei o que lhe dizer. Peguei nesse por gentileza, por ser a primeira a dispor-se a pagar pela minha arte e por ser uma senhora.»

«Como explica a alteração na tela?»

«Na minha memória o quadro permanece como lho entreguei.»

«Não me lixe. Vai dizer-me que não sabe que as suas pinturas se alteram? Essa… Os carros já não parecem na mesma posição. O do número na porta estava mais abaixo, na sequência.»

«Garanto-lhe que uso os melhores materiais. É impressão sua. Tem medido a tensão? Anda a tomar alguma coisa que lhe altere os sentidos?»

«Era o que mais faltava. Não sei qual é o truque, mas está a pôr-me maluca.»

«Acalme-se. O que é que tenho a ver com o que me conta? A senhora armou-se em boazinha apreciadora de pintura e comprou-me um quadro, tendo aceitado, sem argumentar, aquele que lhe passei.»

«Teve intenção de me transmitir alguma coisa.»

«Ser gentil. Uma flor para uma flor. O lugar-comum, não conhece? Não me chateie. Tenho muito que fazer. Vai mudar o tempo e serão horas, se não mesmo dias, sem poder criar. Desapareça.»

«Desculpe. Ando enervada. Deixe-me voltar outro dia, por favor, para conversarmos.»

«Sou pouco amigo de conversas.»

«Toda a gente gosta de conversar.»

«Quem é que se julga para falar por “toda a gente”? Eu não aprecio. Aviso-a que não volte para isso, a não ser que queira comprar.»

«Volto outro dia para conversarmos.»

O Pedro bufou e não respondeu. Deitou-se sobre o cotovelo direito, enquanto a outra mão se concentrava na paisagem urbana.

O estômago não se compadece. Grita-me que vá comer. Não penso noutro assunto. Carrego os sacos enquanto vagueio. Posso querer dar um retoque, ou alterar algum pormenor. Como não lhes dou tempo, nem espaço suficientes para secarem, alguns colam-se ao da frente e o resultado tanto me pode arrebatar, como ser desastroso. Inconcebível é deixá-los para trás. Inclusive aos que não prestam. Não sei como começou. Não encontrava rumo, debrucei-me para carris em inúmeras gares, até que uma tela que me custou 1,5 numa loja de bagatelas, adquirida sem motivo aparente, me devolveu determinação ao acordar. No dia seguinte tinha um objectivo: arranjar os restantes materiais. Não sabia o que usar na tela. A primeira papelaria que encontrei tinha uma caixa de madeira na montra, revelando-me uns Van Gogh coloridos. Para os pincéis solicitei a ajuda do empregado que, não tendo sido simpático, soube ser profissional. Deu-me as dicas essenciais. Recomendou-me bibliografia que nunca adquiri. Quando tinha tudo o que precisava para pintar, deparei-me com novas dificuldades: como e o que pintar? O “como” era aterrador. Iria desperdiçar material e saber-me incapaz para criar algo que prestasse. Passei a primeira manhã imóvel, com o material espalhado à minha frente, encandeado de medo. Olhava para as mãos desconhecendo a qual recorrer. Avaliei os pincéis, acariciei-os, inspirei o óleo de linho… Como estaria aquela paleta intocada horas mais tarde? Ensaiei pinceladas. Nada demovia o pavor. A noite caiu e não produzi um risco. Deitei-me frustrado, enraivecido com a cobardia. Haveria de conseguir passar as ideias que tinha para aquelas superfícies, que me aguardavam intocadas. Havia que correr riscos. Para chegar a qualquer resultado tinha de me aventurar a fazer asneiras, mesmo que significasse não poder alimentar-me, não tomar banho, nem arranjar Pancas. Estava disposto a passar por essas dificuldades. A pintura desviara-me da queda. Conservei a primeira tela. Acompanhar-me-á como troféu da evolução. Era grosseiro, inexperiente, ingénuo. Ridículo. Amálgama de cores sem sentido. Não me envergonha. Quando somos pequenos não sabemos ler, nem escrever. Ensinam-nos as vogais, as consoantes e a juntá-las. Orientam-nos pelos sons, pelos significados e eis que um dia há um mundo novo que se nos oferece pelas palavras. Foi o que vivi com a pintura, Universo ao qual aprendi sozinho a juntar cor, símbolos, movimento. Lugares em que me perco. Quando trabalho, evado-me. Gosto de lhe chamar liberdade.  

«Olá. Como está? Tem pintado?»

Não obtive resposta. Tentei a conversa mas não me deu saída. Sentei-me perto dele a observá-lo. Estava a ser intrusiva. Fosse comigo e já teria ripostado, ou virado costas, mas o tratamento que ele me aplicava era pior. Agia como se eu não estivesse ali. Era a sua única cliente, como se dava ao luxo de me destratar? Assim estivemos mais de um par de horas. Dedicava-se a um desenho indefinido. Não arredei pé. Estava encantada. Não tinha vontade de voltar para casa e também por isso me demorava, como podia. Muito infeliz. O Pedro juntava tinta, escurecia o que me pareciam pedras, enquanto eu chorava, lamentando o que não dizia à Madalena. Partilhava com aquele estranho o que não confidenciava aos meus amigos mais queridos. Dei por mim, um fim de tarde, com vontade de o agarrar. Há anos que não estava com um homem. À medida que desabafava, maior a vontade de lhe tirar a roupa, encostá-lo à porta daquele prédio e usá-lo. Antes da Mada mudava de namorado todos os meses. Desacerto que não estava relacionado com a maneira de ser deles, ou de me amarem. Ao conhecê-la melhor entendi, que até então me escapara o Amor. O presente era outro, sentia desnorte inenarrável e aquela pessoa tinha vindo reavivar todas as dúvidas que me atormentavam nos últimos meses. «Maldita flor.» Ao entrar em casa vi que a Madalena estava a ler. Não ergueu a cabeça. Uns tempos antes não só se teria levantado, como me teria enchido de beijos. Foi uma sorte o esforço com que ergueu o sobrolho e disse: «Então?»

«Então. Ao que chegámos.»

Contei-lhe a origem do quadro apesar do desinteresse, que me agrediu. Falei-lhe do artista e da vontade que tive, depois de passar tanto tempo com ele. Limitou-se a encolher os ombros e a esclarecer que éramos livres. Não estava preocupada. Ou porque me achasse incapaz do desvario, ou porque se tratava de assunto que já não queria seu. A angústia alimentava-se-me da garganta. A almofada não me serenava. A situação tornava-se incomportável. Não conseguia agir. Parecia-me injusto que ela não o fizesse já que partira dela o afastamento. Dia 13 de Fevereiro, Sexta-feira, chegou a casa diferente. Não me deu explicações, não mentiu, recusou-se a dizer-me o que se passava apesar das súplicas que multipliquei pelos dias e permanecemos estranhas, enquanto o permiti. Era doloroso. Menos, no entanto, que um afastamento físico definitivo. Talvez se lhe desse espaço e tempo voltasse a si. A nós. Não aconteceu. A minha auto-estima envenenava-se de questões, ciúme e temores. A voz nunca firme. Interpelava-a com medo, como se qualquer atitude pudesse despoletar a sua partida, a qual me julgava incapaz para suportar. Qual das duas pior. Ela no seu silêncio egoísta, eu vitimizando-me inerte. Fiz nada, para tentar esclarecer a questão. A maioria busca o motivo. Revista bolsos, lê mensagens, fareja essências. Não fui maioria. Propunha-me sobreviver à crueza daquela indiferença, esperando que o pesadelo acabasse por si. Saía para o emprego, ao fim do dia procurava o Pedro, adiando o regresso para cada vez mais tarde. Impunha limite ao masoquismo, enquanto tentava curar o desamor em que voluntariamente me enterrara. Inúmeros solilóquios depois, já perdida a esperança no retorno, o Pedro interveio.

«Não sou exemplo. Também vivo das migalhas da atenção alheia. Mas ouvindo-a percebo que isso que vive é solidão maior do que a minha. Porque não vira costas?»

«Não consigo. Amo-a. Não concebo estar longe.»

«Não sente falta de ar? A angústia mata. Um momento apenas e esse nó na garganta passa-lhe para o coração, depois para as mãos, ou para os pés e quando der por si está a bater com um cano frio no céu-da-boca, ou a atravessar fora da passadeira numa rua movimentada. Ninguém lhe merece isso. Embora não seja exemplo, tenho descoberto mais em mim, só, que nos anos todos em que me alimentei dos outros. Eis o que faz. Põe nos ombros da sua companheira a responsabilidade pelo seu bem-estar. Não há fardo maior, ou injustiça, para alguém que afirmamos amar. Ela já não lhe pode dar amor. O que pretende? Piedade? Conseguirá viver disso? Não desista do sentimento maior. Tenha juízo. Pegue nos seus haveres e faça-se à vida.»

A sua entoação desobscureceu-me as ilusões e o facto de estar a apagar dias do calendário. Quis comprar-lhe outra obra, em jeito de agradecimento. Não consentiu.

«Volte noutro dia. Hoje não vendo. Fique-se com o que lhe disse se lhe servir, ou livre-se das minhas palavras, se conseguir. Noutro dia traga 35. Não alterarei o valor.»

Nessa noite não aguardei que levantasse os olhos do que estava a fazer, pois não era importante que participasse do meu acto. Ela que se envergonhasse da hipocrisia que lhe servia de pele. Para mim chegara ao fim o domínio. O amor não pode saber a grades, nem a pânico. Há muito que o que sentia por ela, era de índole diferente. A segurança com que me atacava, há meses, deu lugar a desconcertante pranto. Outrora seria a reacção desejada. Naquela hora constrangia-me a falta de carácter. Destratara-me; irritava-a a carência com que a abordava; o meu odor nauseava-a; o sexo comigo dava-lhe sono e à data:

«Meu amor para aqui. Não nos precipitemos para ali. Tens outra pessoa?»

 Vontade de rir.

«Não, estúpida. Tens tu.» Quis dizer.

«Percebi que não é relevante que não gostes de mim, desde que eu goste.»

Ela:

«Não te contei para não te magoar. Quis evitar precipitações.»

Agradeci-lhe, irónica, o altruísmo e os dias estupendos passados sob a sua clemência.

«Vai-te foder. Acabamos aqui.»

Arrumei o pouco que tinha levado para aquela casa e no próprio dia parti.

«Vais para onde? Não leves tudo. Acalma-te.»

Não estava nervosa.

O cheiro nas mãos massacra. Todas as noites me limpo, como consigo, da criação do dia. Seria difícil a alguém privar comigo. Aquela mulher não se importa. A cada encontro se afoita mais. Incomoda-me tanta proximidade. Há uns dias tocou-me no cabelo. Gesto desagradável. Repeli-a com brusquidão e não o repetiu.

Pousei-lhe a mão no pescoço. Colocou a sua por cima, agarrou-me o indicador acariciando-o e devolveu-ma cuidadosamente ao colo. Prosseguiu pintando, como que ignorante quanto ao que sucedera. Era-me benéfica a sua presença. Perto dele o silêncio não era vazio que tivesse de preencher. Dava-me um grande gozo pensar, que as pessoas da minha vida desconheciam a importância daquele homem em mim. Aluguei uma casa pequena, por mobilar, na cidade. Afastei-me dos arredores e das recordações. Todos os quinze dias comprava um quadro e rapidamente as paredes brancas deram lugar a mosaico criativo por Pedro H.L. Períodos de tempo houve em que desapareceu. Não havia maneira de o localizar. Quando o reencontrava alegava, amiúde, não se recordar dos dias anteriores e que tinha andado a colorir outras paragens. Falso. A cada desaparecimento a colecção mantinha-se inalterada. Apenas nos tempos em que o seu paradeiro me era conhecido novos quadros se revelavam. Não fazia questão que ele percebesse que não acreditava nas suas mentiras. Não temos de saber tudo sobre quem gostamos. Aprendera-o com ele.

«Porque não usas o dinheiro também em roupa?»

«A que tenho cumpre a função.»

«Tens-te alimentado?»

«Pareço-te magro?»

Preocupações destas iam minando o meu pensamento, não tão descomprometido quanto antes. Não era retribuída na domesticidade.

«Queres ficar lá em casa?»

«Não.»

A posse. Quando se dá por ela já deu cabo da relação mais sólida, quanto mais uma construída de encontros fortuitos no meio da Rua. Nunca embarcou no entusiasmo.

Paralelepípedos. Justos na sua irregularidade. Partículas que brilham. Uma formiga segue entre beatas, com migalhas nas tenazes. Perco-a perto do olho. Passo a mão pelo frio da calçada. Encosto mais o ouvido e sinto o tremor que o trânsito causa. A perna esquerda ergue-se para seguir caminho sozinha. Não gosta do frio. Do desconsolo. A cara colou-se à pedra que a morde. A saliva não é minha, extravasa em poça de fuga ao que sou. O fôlego esparso mas teimoso. Não desisti. Imponderável fê-lo por mim. Lamento. Havia, ainda,

O que o afastou. Dedicava-me a tentar resolver a sua situação profissional. Persegui várias pessoas para que me concedessem reuniões e quando consegui uma exposição com destaque e direito a vendas pelo preço justo, desapareceu. Fez cinco anos. Procuro-o, ainda. O talento dele foi reconhecido, porque o levei aos entendidos, sem o levar de facto. Tivessem-no visto e jamais teriam credibilizado o meu pedido. Entendo-o, não sem revolta. A minha vida melhorou depois dele. Os meus sentimentos ficaram como as paredes alegres lá de casa e os olhos, com que me dou ao mundo, vêem melhor. Recordo um homem agreste, ressentido, mentiroso, que fedia e me ensinou a ver a beleza, mesmo quando a paisagem é negrume. Tenho saudades dele. Lamento nunca ter tido o desprendimento de lhe beijar os olhos desfocados.

- Que cheiro.

- ‘Bora. Estamos atrasados.

- Espera. Está aqui alguém.

- São sacos. Depois da hora não nos deixam entrar.

- Cala-te. Não estás a ver? Pés. Cabelo. Boa noite. O senhor está bem? Caiu?

- Deixa-o estar, pá. Deve estar com a bezana…

- Ena… Tantos quadros. Repara. Aqueles olhos… «À Isabel»…

- A peça começa daqui a cinco minutos. Vamos.

- Não será melhor chamarmos a polícia? Se está morto?

- Oh. Pancas, mas é. Olha.

- Ok. Vamos mas não corras! Os saltos enfiam-se no passeio.



(Gargalhadas.)

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Abril de 2012. 

OBRIGADA POR ME LERES.

Foi o 33º texto a sair para a rua, em 04-11-2013 com o título "Cada homem é o que quer" entretanto alterado.