Procuro Leitor para navegação séria. (Sem amarras.) Dei Palavras na Rua de 8/03/2013 a 10/01/2017. Hoje respiro. Só. Andreia Azevedo Moreira
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
terça-feira, 20 de agosto de 2013
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES
Não escrevo para a gaveta. Quero ser lida. (Em papel.) Todas as semanas distribuo um texto diferente por onde passo, na esperança que tu Leitor mo encontres. Nesta página vou deixando o rasto dos sítios onde os semeei. Aguardo resposta, qual náufrago lançando mensagem em garrafa ao oceano. Obrigada a todos quantos respondam ao apelo.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/153068921521076
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/153068921521076
domingo, 18 de agosto de 2013
sábado, 17 de agosto de 2013
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
«Despedida prematura»
Encontraram-se no
meio da rua. Não se viam há muito. Reconheceram-se. O coração batia
indisciplinado, as mãos subitamente trémulas e frias. Faltava-lhes assunto.
Perguntava repetitiva: “Está tudo bem?”. - A resposta não era menos ridícula,
porque da mesma forma insistente. - “Sim. Tudo bem. E contigo?”
“No outro dia vi
aqui perto a Teresa. Lembras-te? Vive mais abaixo.”
“Pois. Lembro.” -
Retorquiu embaraçada.
Nada havia a dizer
com tudo por dizer e não foi dito. Não será pronunciado. Faltou-lhe
coragem para tirar os óculos escuros, encará-la, ver-lhe o que ia dentro. Não
se importou. Ainda bem que houvera o obstáculo. Um par de óculos impedindo a
revelação do que passara despercebido. Naquele instante cristalino.
Molhadas como se aquela vontade chuva miúda. Uma porta entreaberta. A
possibilidade que se não segue. Tudo tão complicado. Não se muda de pessoas como quem faz um transbordo de autocarro. Para isso há a morte a roubar,
aleatoriamente, os nossos. Não. Aquilo ficava por ali. Não mais se
encontrariam. Fora um acaso. Uma rasteira. A vida imutável.
Mentiras. Fora apanhada desprevenida pelo ar desajeitado, pelo constrangimento das duas. Perdera o pé. Afogava-se na surpresa daquele encontro fortuito. Não amasse
outra pessoa e seria dela a partir daquele dia. Tirava os óculos.
(Lamentou e
escureceu.)
(Notava-se nos olhos.)
domingo, 11 de agosto de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Semana #22 - «POUCA TERRA, POUCA TERRA, POUCA TERRA.»
DAR PALAVRAS
www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira
«Pouca terra, pouca terra, pouca terra.»
(Semana #22/ 5 a 11 de Agosto de 2013)
- Larga-me a mão, papá!
- Não posso. Anda daí.
- Onde?
- Já vais ver.
- É bonito onde vamos?
- Há paz.
- Precisamos de paz, papá?
- Preciso.
- E mais?
- Preciso de ti, também.
- Porquê papá? Para jogar à bola?
- Mais ou menos. Não penses que te estou a usar, filho. Quero-te bem.
- Como usar um boné, por exemplo?
- Sim. Como usar um boné. Não estou a fazer isso.
- Então o que estás a fazer, papá? Porque me apertas com tanta força a mão? Dói um bocadinho, sabes? Não queres que fuja?
- É isso. Não me podes fugir. Não agora.
- Nunca fugiria. Gosto tanto de ti. Olha, gosto mais de ti do que de jogar à bola e tu sabes como eu gosto de jogar à bola, pois é?
- Pois.
- Não posso. Anda daí.
- Onde?
- Já vais ver.
- É bonito onde vamos?
- Há paz.
- Precisamos de paz, papá?
- Preciso.
- E mais?
- Preciso de ti, também.
- Porquê papá? Para jogar à bola?
- Mais ou menos. Não penses que te estou a usar, filho. Quero-te bem.
- Como usar um boné, por exemplo?
- Sim. Como usar um boné. Não estou a fazer isso.
- Então o que estás a fazer, papá? Porque me apertas com tanta força a mão? Dói um bocadinho, sabes? Não queres que fuja?
- É isso. Não me podes fugir. Não agora.
- Nunca fugiria. Gosto tanto de ti. Olha, gosto mais de ti do que de jogar à bola e tu sabes como eu gosto de jogar à bola, pois é?
- Pois.
- Larga-me a mão. Não fujo. Juro!
- Não posso filho. Preciso de ti.
- O que é precisar papá?
- É não poder passar sem... Não posso passar sem ti. Entendes? É por isso que te levo para onde vou. Para não estar sem ti.
- Mas estou sempre aqui papá. Não me vês?
- Sim, mas vou para longe e quero levar-te comigo.
- E a mamã?
- A mamã não vai.
- Como é que lhe mostro um passe muito fixe, que aprendi de manhã nas escolinhas?
- Não mostras.
- Não é justo papá. Quero mostrar-lhe. Também gosto muito da mamã sabes?
- Sei. Cala-te um bocadinho e acelera o passo.
- Tens pressa papá?
- Tenho.
- Porquê?
- Porque é tarde para mim.
- O que é precisar papá?
- É não poder passar sem... Não posso passar sem ti. Entendes? É por isso que te levo para onde vou. Para não estar sem ti.
- Mas estou sempre aqui papá. Não me vês?
- Sim, mas vou para longe e quero levar-te comigo.
- E a mamã?
- A mamã não vai.
- Como é que lhe mostro um passe muito fixe, que aprendi de manhã nas escolinhas?
- Não mostras.
- Não é justo papá. Quero mostrar-lhe. Também gosto muito da mamã sabes?
- Sei. Cala-te um bocadinho e acelera o passo.
- Tens pressa papá?
- Tenho.
- Porquê?
- Porque é tarde para mim.
- Tarde? Ainda nem almocei!
- Quero que saibas que te amo muito.
- Vou ficar de castigo?
- De certa forma, sim.
- Mas não fiz nada de mal papá! Alguém te contou uma mentira? Não fiz mal. Não me ponhas de castigo!
- Tem de ser.
- Porquê?
- Porque quero que a tua mãe sofra. Que sinta o que é estar vazio.
- Queres aleijar a mamã?
- Quero.
- Isso não se faz papá. Não se aleijam pessoas de propósito! Tu é que me ensinaste lembras-te? Só tenho seis anos e sei.
- Tens razão. Agora não te consigo dar ouvidos. Nem te consigo ver. Só sei que é hoje que acabamos.
- Acabamos como no um dois três acabou a história?
- Sim.
- Não posso papá. Desculpa. Amanhã tenho de jogar com o João André. Prometi-lhe a desforra. Marquei-lhe muitos golos hoje sabes? Ficou chateado comigo. Quero que continuemos amigos, amanhã vou deixá-lo ganhar.
- Vou ficar de castigo?
- De certa forma, sim.
- Mas não fiz nada de mal papá! Alguém te contou uma mentira? Não fiz mal. Não me ponhas de castigo!
- Tem de ser.
- Porquê?
- Porque quero que a tua mãe sofra. Que sinta o que é estar vazio.
- Queres aleijar a mamã?
- Quero.
- Isso não se faz papá. Não se aleijam pessoas de propósito! Tu é que me ensinaste lembras-te? Só tenho seis anos e sei.
- Tens razão. Agora não te consigo dar ouvidos. Nem te consigo ver. Só sei que é hoje que acabamos.
- Acabamos como no um dois três acabou a história?
- Sim.
- Não posso papá. Desculpa. Amanhã tenho de jogar com o João André. Prometi-lhe a desforra. Marquei-lhe muitos golos hoje sabes? Ficou chateado comigo. Quero que continuemos amigos, amanhã vou deixá-lo ganhar.
- Amanhã não vais à escola filho.
- Papá, não posso faltar. Amanhã vou à escola, sim! Vais ver!
- Confia em mim. Aperta a mão do pai.
- Não quero papá. Estás a assustar-me com essa conversa do um dois três acabou a história. Ainda tenho muitos jogos combinados com o João André e tu não queres deixar. Fico triste, papá.
- Já decidi. Anda. Confia em mim.
- Ai! - Começa a chorar, soluça com medo do, até então, companheiro de muitas brincadeiras.
- Confia em mim. Aperta a mão do pai.
- Não quero papá. Estás a assustar-me com essa conversa do um dois três acabou a história. Ainda tenho muitos jogos combinados com o João André e tu não queres deixar. Fico triste, papá.
- Já decidi. Anda. Confia em mim.
- Ai! - Começa a chorar, soluça com medo do, até então, companheiro de muitas brincadeiras.
(...)
- Porque me levaste? Não estava doente. Porque me apertaste com tanta força a mão, papá? Porque não me deixaste dar-te uma canelada e fugir-te? Sentava-me no passeio à espera de alguém que me viesse buscar. Talvez a mamã.
- A tua mãe nem pensar!
- Porquê?
- Porque já não nos quer.
- Porque me levaste? Não estava doente. Porque me apertaste com tanta força a mão, papá? Porque não me deixaste dar-te uma canelada e fugir-te? Sentava-me no passeio à espera de alguém que me viesse buscar. Talvez a mamã.
- A tua mãe nem pensar!
- Porquê?
- Porque já não nos quer.
- A mamã já não me quer?
- Já não me quer.
- E a mim?
- Hum?
- E a mim?
- A ti quer e nunca mais te vai ter.
- Ter?
- Sim. Eras nosso. Agora serás de ninguém.
- E tudo o que eu queria fazer? Vou ter tempo até à estação?
- Não filho. O que são os teus sonhos (perto da desilusão que sinto)?
- Cantas-me o "Pouca-terra-pouca-terra-pouca-terra. Uuuuuuuuú!"?
- Não temos tempo.
- Já não me quer.
- E a mim?
- Hum?
- E a mim?
- A ti quer e nunca mais te vai ter.
- Ter?
- Sim. Eras nosso. Agora serás de ninguém.
- E tudo o que eu queria fazer? Vou ter tempo até à estação?
- Não filho. O que são os teus sonhos (perto da desilusão que sinto)?
- Cantas-me o "Pouca-terra-pouca-terra-pouca-terra. Uuuuuuuuú!"?
- Não temos tempo.
- Larga-me a mão! Larga-me a mão! Larga-me a mão! Tu não és o meu papá!
- Já não confias em mim?
- Não percebo o que estás a dizer. Só sei que amanhã quero jogar à bola com o João André. Quero rir, correr, brincar e ser alegre!
- Já não confias em mim?
- Não percebo o que estás a dizer. Só sei que amanhã quero jogar à bola com o João André. Quero rir, correr, brincar e ser alegre!
(Criado Agosto de
2011. Revisto em Agosto de 2013.)
Obrigada por me leres.
PROCURO LEITOR. ÉS TU?
sábado, 3 de agosto de 2013
Pelo-me por desafios. Há dias respondi a um da "Associação de Palavras". Sou uma preguiçosa desgraçada. Preciso de prazos para (me) cumprir.
Consistia em escrever uma carta, contrariando a tendência actual das abreviações (sms, tweets e afins.) Aí vai alho...
Consistia em escrever uma carta, contrariando a tendência actual das abreviações (sms, tweets e afins.) Aí vai alho...
andreia am <…>
Jul 29 (6 days ago)
to associacaodepalavras2013@gmail.com
Olá! Olá. Nunca sei se será melhor parecer-se feliz, ou contido. Ando há muito tempo para te escrever. É hoje. Preferiria fazê-lo à mão, com a minha parker bordeaux da vida toda, mas depois teria de digitalizar a carta para enviar para o e-mail da Associação de Palavras e não seria certa a legibilidade da minha letra. Pelo menos, não na totalidade da missiva, que terá notas de rodapé e rasuras. Tinha saudades de te escrever. (Sim, eu sei, ainda ontem o fiz, mas tu não sabes. E por isso não faz mal escrever-te à exaustão. Não te canso.) Uma pessoa anda pela vida esquecendo-se das pessoas que lhe fazem falta e eu passo os dias a dizer que a culpa é do tempo, da rotina, das escolhas que ignorante fiz. Que é que tens feito? Gostava de te conhecer melhor as noites, os sonhos, principalmente os pesadelos. Não quero saber tudo, apenas mais do que sei, que é nada. Imagino-te apenas. E dessa idealização nasceu uma pessoa que não existe a não ser na minha cabeça. É para ti que não és que escrevo. Tento chegar-te e a resposta não vem porque não há destinatários na Terra do Nunca. O carteiro repreendeu-me muitas vezes antes de desistir e começar a guardar-me as cartas. Penso que se apiedou de mim. Entendeu que tenho de as enviar para algum lado. Agradeço-lhe o gesto fingindo que acredito que as minhas palavras chegam sãs e salvas ao destino. A ti. Que mal tem se me iludir um pouco? Uma vez a minha tia-avó disse-me o seguinte: «A vida é uma mentira e as verdades que tem são muito duras.» Na altura não a entendi. Ainda não te tinha criado. Vivia apartada desta loucura, de tamanha asfixia. Era tudo muito simples. Branco, ou preto. Havia uma deficiência visual nos olhos da minha alma que me impedia os cinzentos e as cores do arco-íris. Sei que se me ouvisses ficarias com pena deste vazio. Não é caso para tanto. Sou tão-só uma pessoa perdida. Observo os que me parecem conhecer os seus caminhos e afiguram-se-me igualmente desnorteados. Queremos mesmo ter mapas? Nunca tive jeito para a lógica, tão-pouco sentido de orientação. Habituei-me. Vivo às apalpadelas e é por isso que bato tanto com a cabeça. Quando tal me acontece por vezes acordo, outras entro em coma. Nesses períodos de desligamento sonho. Foi num sonho que te encontrei? Pareces-me tão real. Visualizo-te de forma tão clara. Conheço-te inclusivé o jeito de dizeres mal algumas palavras. Tens dito mal o meu nome. Estou à tua frente, olho-te nos olhos e tu pimbas, soletras-me ao contrário. Onde há uma vogal pões uma consoante. Onde deveria haver uma consoante eis a vogal. O que deveria rimar com sedimento, rima com escrita. Houvesse cura para o desacerto e já a teria encontrado. Ando há anos a tentá-lo. A fronteira entre a sanidade e o purgatório é ténue. Um momento tinha apenas um pé dentro da água fria do Oceano (Único denominador que nos é comum.), no seguinte afogava-me. Tenho água nos pulmões. Falo-te e só te chega glugue glugue glugue. Talvez por isso nunca me tenhas respondido. Aquilo de não haver destinatários numa Terra que é Nunca é desculpa tua para me fugires. Espero um dia destes dar de caras com outro peixe, que me leve para águas mais calmas. Sinto-me extenuada nesta corrente. As mãos que me deram deixaram de saber nadar. Ando aflita para me manter à tona. Se isto te chegasse às mãos e te compadecesses de mim, respondias-me numa garrafa? Andava eu ao sabor da corrente, já desistida de ti e levava com ela na tola. Agarrava-a, sacava-lhe a rolha, retirava o canudo de material indestrutível que desenrolava no meu estertor e lia: O2. Então nadaria como quem voa e chegaria à tona como quem já tocou nas nuvens e viu que elas são mesmo algodão. Por ora cessarei de escrever-te. Tento esta vez, que desejo derradeira, deixar-te no fundo do mar. Dou à costa. Renasço. Subo àquela árvore, onde me rodeio do chilreio dos pássaros para que me alegrem na tua ausência definitiva. Vejo o carteiro a passar lá em baixo. Viro-me. Deito-me neste galho robusto. Pendem-me as mãos e as pernas mas a coluna sustenta-me. Fecho os olhos. Adormeço. Acordo a cair.
Que te cheguem nesta carta todos os beijos e abraços que nunca te dei.
Uma Pessoa Perdida(mente).
quarta-feira, 31 de julho de 2013
«Carta»
Lisboa, 23 de Novembro de 1950
Querida
mãe, não me levarás a peito se te disser que preferiria ter nascido
homem. É violenta a vida para todos. Para uma mulher na sociedade deste ano em que te escrevo – O
da tua morte. – mais do que agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo
não se compadece das regras que inventaram para nós. Não me sinto o que
pretendem que seja. Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No
outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Eis que aquele
contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros
esperam de mim:
- Comporta-te. – Dizia-me a
água.
- És uma senhora. – Sussurrava
o ruído.
Lembrei-me
de ti quando me dizias com os olhos: «Que
desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?»
Foi
demais. Dei cinco murros na parede e um pontapé na torneira. Calou-se,
sabes? Pumba. Bastou querer. Que culpa tenho se o meu pensamento não se
adequa? Antes a morte, por me alistar num exército. A guerra com os combates, o
sangue, as mutilações. Que é isto que me fazem à alma, senão a vontade de amputá-la?
Sofrias. Vi as lágrimas que derramaste por eu ser diferente. Às que não observei
provei-as no sal que te temperava a face, quando te beijava. Perdoa-me se me
não posso desculpar pela minha natureza. Toda a vida me apressei subindo as
escadas que me elevariam ao teu coração. Perdia o
fôlego. Quanto mais corria, menos te alcançava. Sempre soube que, mesmo que lá
chegasse um dia, não teria o que te oferecer, além deste imenso amor.
(E tu sem o aceitares.)
Anna
Maria
Papelinho - Semana 21 - 21º Texto a sair para a Rua
DAR PALAVRAS
www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira
«Carta.» (Semana #21/ 29 de Julho a 4 de Agosto de 2013)
Lisboa, 23 de Novembro de 1950
Querida
mãe, não me levarás a peito se te disser que preferiria ter nascido
homem. É
violenta a vida para todos. Para uma mulher na sociedade deste ano em que te escrevo – O
da tua morte. – mais do que agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo
não se compadece das regras que inventaram para nós. Não me sinto o que
pretendem que seja. Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No
outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Eis que aquele
contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros
esperam de mim:
- Comporta-te. –
Dizia-me a água.
- És uma senhora. – Sussurrava
o ruído.
Lembrei-me
de ti quando me dizias com os olhos: «Que
desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?»
(Criado Dezembro
de 2009. Revisto em Julho de 2013. TEXTO COMPLETO NA PÁGINA DO FB)
Obrigada por me leres.
PROCURO LEITOR. ÉS TU?
andreia.azevedo.moreira@gmail.com
terça-feira, 30 de julho de 2013
quarta-feira, 24 de julho de 2013
«Nunca te esqueci»
Pus-me a pensar em ti, enquanto passava a ferro o vestido verde para
amanhã. Tentei lembrar-me da tua cor. Penderias para algum tom? Azul? Pensei em
música. Aquela que dançaste. A que mais ouviste, em tempos de desespero?
Responder, não consegui. O livro da tua vida? Um das prateleiras com ficção
científica. Qual? Prato preferido. Que iguaria te deleitava, como se não
houvera outra capaz de te alimentar? Franzi a testa e os olhos num esforço de
recordação. Resultado semelhante. À altura ignorava-o, hoje menos saberei. Eras
de esquerda, ou direita? Havia Deus, deuses, ninguém? Culparias de quê tua mãe?
Por quem darias a vida? Ódios de estimação? Venerarias alguém? De quem ligeiro
fugiste? Que palavra jamais disseste? E o animal: O cão? O tigre? O macaco? Entristeço-me
quando constato que a pouco darei resposta. Fico-me pelo "Penso..."
desconhecendo se o pondero, porque me soa bem que assim fosse, ou porque o
seria(s), de facto. Tenho certo: gostavas de nadar nu. Também eu. Houvesse onde
me agarrar melhor. Não é suficiente. Bem sei. O filme da tua vida? Um vício? O
prazer secreto que a mim tivesses confiado. Temores? Creio que tremias na
cadeira do dentista. O grande amor que perdeste? E o teu mais querido amigo? O
que tem nome de utensílio, que serve para cortar madeira? Ah! Gostavas dos
gelados do Italiano. Pouco, não é? Para alguém a quem amei, tão desesperada.
Enquanto pude amei-te muito. Quero que saibas disso. Sobre ti resta a convicção
do que julgavas ocultar, enquanto omitias os pormenores que me eram (en)tão
fundamentais.
Nunca te conheci.
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Abril de 2010. Revisto em Julho de 2013 e Outubro de 2014.
OBRIGADA POR ME LERES.
terça-feira, 23 de julho de 2013
"I Want You"
(National Geographic – Começou por ser uma história sobre leões.)
Observo-te do outro lado da Rua. Mantemo-nos à distância, uns
instantes. Não desviamos os olhos presos. Serei capaz de atravessar? Sou. Estou
a meio metro de ti, na dúvida se cumprimento, ou passo como se não te houvesse
encontrado. Gostas de dificultar e não avanças, nem recuas. Ficamos a medir-nos
como duas janelas por abrir. Por que me olhas tão sério. Queres que me vá. Há
muito prescindiste das respostas. Ainda não me cansei de te questionar.
Colocaram cimento nas nossas articulações. Impede-nos de prosseguir ou de
qualquer tentativa de fuga. Minto-te. «Só um abraço. Depois vou.» Não dás sinal
de o autorizar e já me agarrei a ti com força. Colo-me ao teu corpo. Quero
saber se os nossos perfis encaixam. Interessa-me, por exemplo, a
compatibilidade dos nossos pescoços. Vou atrás da tua orelha. Perco a vergonha,
desenho-a com a língua. Desço-te até à clavícula. Acumulo os cheiros teus para
te mapear na memória. Permaneces sem dizer uma palavra. Escondo-me no teu
peito. Recuarei. Vou fingir que não te vi e que não te tentei seduzir. Nego
tudo, humilhada pela tua indiferença. Desisto. Estava preparada para a
derrota. Coloco o pé para o passo atrás. Correrei muito depressa na direcção
oposta. Talvez nada disto aconteça. Eis que me agarras e reténs sem te rires
para mim que me perco na ausência de sorrisos. Estás a magoar-me. Queres que
fique. É isso. As nódoas negras que me desenhas nos braços são tu a
quereres-me. Quase tanto desejo quanto o meu. O silêncio a tua forma de me
despir. Mordes-me porque não me sabes beijar. Desaprendemos a ternura na
espera. Demasiado longa para arranjarmos tempo, agora, para nos escondermos. A
Rua ficou deserta, por respeito ao nosso inadiável. Bebo o meu sangue e o teu.
(Também te mordo.) Esqueço o medo de me achar nua à tua frente. Empurro-te,
bruta. Bates com a cabeça no prédio onde nos fomos apoiar. Não sentes dor.
Dizes:
«Não sinto dor.» (Estás aqui.)
Agrido-te implacável, com a minha vontade. Não te defendes.
«És a seguir.»
Toco-te para te revelar. Cega é com as mãos que te vejo. Quero
conhecer-te inteiro. Puxo-te. Avanço por ti para te matar em mim. Não é
saudável viver-se com uma pulsão destas a comer-nos a alma. Tenho os tímpanos a
zunir porque me chegaste ao coração pelos ouvidos. O prazer comanda. Passivo
ao meu ataque, aguardas que mate a sede. Impossível. Lambo-te o sal da pele.
Tenho o sexo quente de tanto sangue. Pulsa ao ritmo do músculo na expectativa
de te acolher. Duro. Viras-me.
«Temos tempo.»
Rosnas no meu cachaço. Tens duas mãos para pousar onde preciso. Uma
boca da qual espero o indizível. Narinas que me respiram. Apertas-me contra ti.
Sinto-te. Dentro.
«Não chega.»
Apoio os braços na parede que me sorri, cúmplice. Empurro-a ritmada.
Uma e outra vez. Estás onde te quero.
«Espera.»
Não sou paciente. Precipito-me para a construção e para ti numa
vertigem. És desnorte e, ao contrário de mim, tolerante. Aguardas a vez de me
assassinar em ti.
«Depois de uma paixão destas, só a morte.»
Voltas-me. Sou leve nas tuas mãos. Manipulas-me bem, apesar da
obesidade que não te incomoda. A tua aceitação do meu corpo comove. A
coreografia da nossa dança é inconstante, na pista escorregadia. Somos suor. Os
meus pés deixaram o chão muito antes do teu colo. Quebrar-me-ei na queda. (Não
tenho hipótese.) Não é nisso que penso, quando constato que continuas calado. És
tão silencioso. Há em ti segredos ou só vazio? Quero dizer-te coisas
indecentes ao ouvido. Digo-tas simulando que o não faço. Creio que não mas
queres ouvir, porque me empurraste de novo e esfregas-me o rosto na superfície
irregular, enquanto me seguras pelo cabelo. Não sei de ti. Só de mim.
Enfraquecida, letárgica, depois da corrente que me atravessou. Afastas-me para
o lado. Nojo?
«Ele do outro lado da Rua. Viu-me?»
«Ela do outro lado da Rua. Não me apeteceu.»
Encontraram-na morta um século depois. O cadáver tinha epiderme,
músculos, unhas, cabelo. A face reconhecível, porém, do lado esquerdo mutilada.
Despida sorria. Na Rua testemunha nenhuma do acontecido. A autópsia declararia
órgãos. Um milagre. Foi trabalhoso removerem-lhe o coração para se aferir as
causas da morte.
(Estava amarrado.)
Andreia Azevedo Moreira
Criado de 9 a 13 de Julho de 2013. Saiu para a Rua, pela primeira vez, em 15 de Julho de 2013.
OBRIGADA POR ME LERES.
domingo, 21 de julho de 2013
quarta-feira, 17 de julho de 2013
National Geographic – Começou por ser uma história sobre leões.
I WANT YOU
Observo-te
do outro lado da Rua. Mantemo-nos à distância, uns instantes. Não desviamos os
olhos presos. Serei capaz de atravessar? Sou. Estou a meio metro de ti, na
dúvida se cumprimento, ou passo como se não te houvesse encontrado. Gostas de
dificultar e não avanças, nem recuas. Ficamos a medir-nos como duas janelas por
abrir. Porque me olhas tão sério? Queres que me vá? Há muito prescindiste das
respostas. Ainda não me cansei de te questionar. Colocaram cimento nas nossas
articulações. Impede-nos de prosseguir, ou de qualquer tentativa de fuga.
Minto-te. «Só um abraço. Depois vou.» Não dás sinal de o autorizar e já me
agarrei a ti, com força. Colo-me ao teu corpo. Quero saber se os nossos perfis
encaixam. Interessa-me, por exemplo, a compatibilidade dos nossos pescoços. Vou
atrás da tua orelha. Perco a vergonha, desenho-a com a língua. Desço-te até à
clavícula. Acumulo os cheiros teus, para te mapear na memória. Permaneces sem
dizer uma palavra. Escondo-me no teu peito. Recuarei. Vou fingir que não te vi
e que não te tentei seduzir. Nego tudo, humilhada pela tua indiferença.
Desisto. Estava preparada para esta derrota. Coloco o pé para o passo atrás.
Correrei muito depressa, na direcção oposta. Talvez nada disto aconteça. Eis
que me agarras e reténs sem te rires para mim, que me perco na ausência de
sorrisos. Estás a magoar-me. Queres que fique. É isso. As nódoas negras que me
desenhas nos braços são tu a quereres-me. Quase tanto desejo quanto o meu. O
silêncio a tua forma de me despir. Mordes-me porque não me sabes beijar.
Desaprendemos a ternura na espera. Demasiado longa para arranjarmos tempo, agora,
para nos escondermos. A Rua ficou deserta, por respeito ao nosso inadiável.
Bebo o meu sangue e o teu. (Também te mordo.) Esqueço o medo de me achar nua à
tua frente. Empurro-te, bruta. Bates com a cabeça no prédio onde nos fomos
apoiar. Não sentes dor. Dizes:
«Não
sinto dor.» (Estás aqui.)
Agrido-te
implacável, com a minha vontade. Não te defendes.
«És a
seguir.»
Toco-te
para te revelar. Cega é com as mãos que te vejo. Quero conhecer-te inteiro.
Puxo-te. Avanço por ti, para te matar em mim. Não é saudável viver-se com uma
pulsão destas a comer-nos a alma. Tenho os tímpanos a zunir, porque me chegaste
ao coração pelos ouvidos. O prazer comanda. Passivo ao meu ataque, aguardas que
mate a sede. Impossível. Lambo-te o sal da pele. Tenho o sexo quente, de tanto
sangue. Pulsa ao ritmo do músculo na expectativa de te acolher. Duro. Viras-me.
«Temos
tempo.»
Rosnas
no meu cachaço. Tens duas mãos para pousar onde preciso. Uma boca da qual
espero o indizível. Narinas que me respiram. Apertas-me contra ti. Sinto-te.
Dentro.
«Não
chega.»
Apoio
os braços na parede que me sorri, cúmplice. Empurro-a ritmada. Uma e outra vez.
Estás onde te quero.
«Espera.»
Não sou
paciente. Precipito-me para a construção e para ti numa vertigem. És desnorte
e, ao contrário de mim, tolerante. Aguardas a vez de me assassinar em ti.
«Depois
de uma paixão destas, só a morte.»
Voltas-me.
Sou leve nas tuas mãos. Manipulas-me bem, apesar da obesidade que não te
incomoda. A tua aceitação do meu corpo comove. A coreografia da nossa dança é
inconstante, na pista escorregadia. Somos suor. Os meus pés deixaram o chão
muito antes do teu colo. Quebrar-me-ei na queda. Não tenho hipótese. Não é
nisso que penso, quando constato que continuas calado. És tão silencioso. Há em
ti segredos, ou só vazio? Quero dizer-te coisas indecentes ao ouvido. Digo-tas
simulando que o não faço. Creio que não mas queres ouvir, porque me empurraste
de novo e esfregas-me o rosto na superfície irregular, enquanto me seguras pelo
cabelo. Não sei de ti. Só de mim. Enfraquecida, letárgica, depois da corrente
que me atravessou. Afastas-me para o lado. Nojo?
«Ele do
outro lado da Rua. Viu-me?»
«Ela do
outro lado da Rua. Não me apeteceu.»
Encontraram-na
morta um século depois. O cadáver tinha epiderme, músculos, unhas, cabelo. A
face reconhecível, porém, do lado esquerdo mutilada. Despida sorria. Na Rua
testemunha nenhuma do acontecido. A autópsia declararia órgãos. Um milagre. Foi
trabalhoso removerem-lhe o coração para se aferir as causas da morte.
(Estava
amarrado.)
Andreia
Azevedo Moreira
Criado
de 9 a 13 de Julho de 2013. Saiu para a Rua, pela primeira vez em 15 de Julho
de 2013.
Última
revisão a 17 de Dezembro de 2014.
OBRIGADA POR ME LERES
terça-feira, 16 de julho de 2013
quarta-feira, 10 de julho de 2013
«CARAPAQUECLÉ»
- Hey. Não vás! Pelo menos, não já. Tenho perguntas, ainda.
Carapaqueclé pára. Vira-se com uma expressão benévola no rosto,
sem intenção de me dizer mais. Tem aquele olhar doce, a boca numa meia-lua
optimista. Feições belíssimas, impenetráveis. Retira o chapéu sagrado da cabeça
e segura-o com ambas as mãos. Olha para o chão, autorizando-me a prosseguir.
- Não vi tudo. Mostraste-me a paisagem, o horizonte distante, a
roupa que me servirá. Deste-me perspectiva. Aceito-a, sinto-me grato, mas não
vejo a chegada. A vegetação impede-mo. Achas que consigo? Continua o silêncio.
O olhar diz-me o que preciso mas os meus ouvidos pedem, narcisistas, uma
qualquer vibração que os conforte. Encontramo-nos numa floresta. É escura,
embora nada assustadora. De tal maneira é densa que me dará muito trabalho
sair. Ele ensinara-me o essencial. Crê que cada um terá de se evadir pelos
próprios meios. É sábio o meu amigo. Fui seu discípulo atento, apreendi ávido e
comprometido o que me quis transmitir. O problema é que, demasiadas vezes, a
preguiça, um bicho que na selva gostamos de chamar “vagarinho”, encarna. Cruzo
os braços, sento-me prostrado e mandrião. Carapaqueclé não tolera esse tipo de
comportamento. Olha-me tão-só e nada diz. Nada dirá. Espera que a birra me
passe.
«Faz-te ao caminho.»
Criado em Dezembro de 2009 . Revisto em Julho de 2013.)
Obrigada por me leres.
Foi o 18.º Texto a sair para a Rua.
terça-feira, 9 de julho de 2013
quinta-feira, 4 de julho de 2013
«Anna e Boris»
Rasgos de lucidez e Boris devastado. Olha para Anna, a seu
lado, no jardim da residência francesa e apetece-lhe chorar. Todo desconsolo.
Não pode fazê-lo. Por ela que há muito se ausentou, há que manter a farsa. Anna
cujo corpo vagueia perto, roçando-lhe a roupa e a alma, parece nunca esquecer o
amor que os enleou na primeira troca muda de olhares. Ignora a realidade. Há
anos que ela vive apenas a “outra vida”. Boris sabe que a demência haverá de o
levar também. Mantêm-se unidos pela memória de um amor teimoso, insensível à
passagem do tempo, ou ao avanço da loucura. Não quer continuar sem ela. Perdeu
a graça. É cada vez mais difícil distinguir entre o que lhe acontece de facto e
o que é fruto da imaginação de ambos.
Recorda com doçura magoada a sua vida, com Anna, outrora
normal. Não Anna, porra. Isabel. Anna já é dos tempos de alienação. Anna, Boris
e todas as outras personagens que forjaram para mascararem a rotina. Começara
por brincadeira. Casaram jovens e fartos que estavam da existência morna que se
instalara, decidiram reinventar-se. Juntos. Cada um seguir o seu caminho não
era hipótese. Depressa perceberam que as brincadeiras e os fetiches não eram
suficientes. Os chicotes e as flagelações não os excitavam por aí além. As
trocas de nome massacravam-nos de ciúme. As viagens revelavam-se insuficientes.
Desvanecera-se a comoção nos terminais dos aeroportos. Queriam mais. Outras
vidas. Ao pormenor. Essas pessoas transpuseram as fronteiras das suas mentes e
começaram a povoar-lhes os dias. Davam-se ao trabalho de organizarem jantares
para convidados fictícios. A mesa era posta a rigor, as melhores garrafas de
vinho respiravam em cima da mesa para serem saboreadas. Música selecionada
tocava na aparelhagem. Dançavam a dança da insanidade. Enlouqueceram António e
Isabel. Boris e Anna. Pablo e Cuca.
Os amigos afastaram-se. Encaravam-nos incrédulos. Os mais
leais tentaram, durante algum tempo, fazê-los ver o que lhes acontecia. De nada
serviu. Alegavam legitimidade para fazerem o que entendessem. Saíram, pois, de
mansinho daquelas duas vidas incompreensíveis que seguiam cada vez mais sós.
Viveram aventuras envolvendo envelopes pardos e soros da verdade. Frequentaram
sessões de psicoterapia, que ao invés de os fazer regressar ainda lhes
estimularam mais o devaneio. Andaram por Paris e por Lisboa, em carros de alta
cilindrada. Foram pai e filha, amantes, assassinos, espiões armados até aos
dentes. Foram inimigos, amigos, duas mulheres e dois homens, partilharam e
fugiram da realidade "dos outros". Cúmplices.
No dia em que tudo começara rodava no prato do gira-discos o
vinil com Clair de Lune de Debussy. Melodia com que Oddville se lhes apresentou. (Homem que
mais ninguém conheceu.) Era a partitura que António mais gostava de
interpretar, quando tocava piano. Música maldita que de quando em vez o obriga,
ainda, a regressar à realidade para onde já não é possível resgatar Isabel.
Responsável, também, pela sua desgraça. Pela sua morte. Pela morte e desgraça
de ambos.
Olha para o líquido onde diluiu a dosagem fatal com que planeou o seu suicídio e o homicídio dela. Contempla desolado a sua bela mulher, alheia ao plano, ingénua na sua ausência irremediável. Agita a garrafa acima da cabeça diante dos olhos. Pensa:
É chegado o fim?
(Criado em Fevereiro de 2009. Revisto em Julho de
2013.)
andreia azevedo moreira
OBRIGADA POR ME LERES!
andreia azevedo moreira
OBRIGADA POR ME LERES!
quarta-feira, 3 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
SINOPSE
De cada vez que caía nela,
arranjava
desculpas para as nódoas negras que se lhe
iam acumulando na alma.
desculpas para as nódoas negras que se lhe
iam acumulando na alma.
«ANIVERSÁRIO(S)»
Vagueio na memória pela casa que, na infância, também foi minha. A
quietude actual agride-me. A penumbra em que se buscava o fresco nos dias mais
quentes é, hoje, a afirmação do que não torna. Abate-se sobre mim a saudade
desses instantes. Desanimo nesta carência das certezas de vocês em mim. De quem
era, aí convosco. Em cada Verão feito vosso. Ao cheiro da árvore do jardim, intenso
em noites abafadas e que nos chegava às narinas enquanto apreciávamos a brisa
no alpendre, recordo-o enternecido numa semelhante, quando regresso pela
estação ferroviária. Arrancaram-na há muitos anos. O odor era enjoativo. Sinto
falta dos serões adocicados, da árvore e de todos nós nos respectivos lugares.
Não nos deviam mover dos sítios para que fomos feitos. Fomo-lo uns para os
outros. Apesar das falhas. Graças às virtudes. Às escadas em que nos sentávamos
rindo, talvez não volte. Se lá me sentasse aguardaria, pelo vosso regresso.
Incansável, dorido, saudoso do que são cá dentro e não podem ser, fora. A todos
quantos crescemos nesses metros quadrados magoa a casa tão vazia. A saudade a
sovar-nos e nós a fingirmos que não fere a pancada. Há que continuar. A vida
empurra. Continuamos, pois, mas a espreitar para trás. Sabemos que não se apagam
as pessoas nossas, mesmo quando o presente se reduz a uma centelha da força de
outrora, num olhar apagado e a uma ausência irremediável. Mudamos. Existimos,
ainda. Porém, não são destruídas as fundações. Sólidas? Perigosas? Pouco
importa. São história. A nossa. São memória. Amor. Vagueio na obscuridade e no
sossego definitivos. Atento, escuto gargalhadas, ralhetes, gritos, manias,
conversas, mágoas, perdões que não se pediram. Ouço-nos reunidos. Instantâneos
do meu tempo de vida. Vejo-nos. Foi ontem. Não foi? Talvez tenham decorrido 24
horas, apenas. A gata listada, macia, perseverante num quotidiano pretérito
agora sem gente, risos, ou choros. A nossa casa desabitada e ela enchendo
teimosa as escadas do alpendre, o corredor empedrado que dá para a garagem,
deitando-se no relvado, lá atrás. Impassível, preenche-nos o abismo, não nos
consentindo esquecer-vos.
(Pouco tempo depois do
aniversário a gata morreu.)
Andreia Azevedo Moreira
OBRIGADA POR ME LERES
16º Texto - Saiu, pela primeira vez, à Rua em 25-06-2013
«Aniversário(s)»
Vagueio na memória pela casa que, na infância, também foi minha. A
quietude e o silêncio actuais agridem-me. A penumbra em que se buscava o
fresco, nos dias mais quentes é, hoje, a afirmação do que não torna. Abate-se
sobre mim a saudade desses instantes. Desanimo nesta carência das certezas de
vocês em mim. De quem era, aí convosco. Em cada Verão feito vosso. Ao cheiro da
árvore do jardim, muito intenso em noites abafadas e que nos chegava às narinas
enquanto apreciávamos a brisa no alpendre, recordo-o enternecido numa
semelhante, quando regresso pela estação ferroviária. Arrancaram-na há
muitos anos, por causa do odor enjoativo. Sinto falta dos serões adocicados, da
árvore e de todos nós nos respectivos lugares. Não nos deviam mover dos sítios
para que fomos feitos. Fomo-lo uns para os outros. Apesar das falhas. Graças às
virtudes. Às escadas em que nos sentávamos rindo, talvez não torne. Se lá me
sentasse aguardaria pelo vosso regresso. Incansável, dorido, saudoso do tanto
que são cá dentro e não podem ser fora. A todos quantos crescemos nesses metros
quadrados magoa a casa tão vazia. A saudade a sovar-nos e nós a fingirmos que
não fere a pancada. Há que continuar. A vida empurra. Continuamos a espreitar
para trás. Sabemos que não se apagam as pessoas nossas, mesmo que o presente se
reduza a uma centelha, da força de outrora, num olhar apagado e a uma ausência
irremediável. Mudamos. Existimos. Porém, não são destruídas as fundações.
Sólidas? Periclitantes? Pouco importa. São história. A nossa. São memória.
Amor. Vagueio na obscuridade e no sossego definitivos. Atento escuto
gargalhadas, ralhetes, gritos, manias, conversas, mágoas, perdões que não se
pediram. Ouço-nos reunidos. Instantâneos do meu tempo de vida. Vejo-nos. Foi
ontem. Não foi? Talvez tenham decorrido 24 horas. A gata listada, macia,
perseverante num quotidiano pretérito agora sem gente, risos, ou choros. A
nossa casa desabitada e a gata enchendo teimosa as escadas do alpendre, o
corredor empedrado que dá para a garagem, deitando-se no relvado, lá atrás.
Impassível, preenche-nos o abismo, não nos consentindo esquecer-vos.
(Pouco tempo depois do
aniversário a gata morreu.)
Andreia Azevedo Moreira
Criado em Outubro de 2010. Saiu, pela primeira vez, à Rua em Junho de 2013.
OBRIGADA POR ME LERES.
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