sexta-feira, 6 de setembro de 2013

PROCURO LEITOR


PRETÉRITO (Perfeito)



Deixa-me passar. 
Não venhas para o meu lado, 
sussurrar-me ao ouvido. 

Não acertes o passo com o meu, 
finge que não nos vimos um dia. 
Antes de te encontrar vivia 
sem saber que Deus havia 
criado, para mim, um par. 
Deixa-me passar.
Abranda, fica p’ra trás.
Não entendo esse buliço.
É tão triste o teu olhar.
Mal mereço a tua dor, 
não é em mim o teu lugar.
Antes de ti não sorria, 
mas não posso em ti ficar.
Deixa-me passar.
Magoa ver-te partir, é certo que fico a perder.
Resta a dor de não te ver.
Queria-te eterno abraço, mas tenho apenas dois braços,
que acolhem já outros dois.
Não os hei-de desprezar.
Antes de ti não sentia, mas não posso em ti morar.
Deixaste-me passar.
E eu não consigo esquecer os beijos que não te dei.
Como calo a vontade e a força com que te amei?
Vesti a alma de luto por esta paixão não vivida,
que antes de começar já soava a despedida.
Sonho-te da cama feita, com cobertores de saudade. 
Num encontro numa esquina, roubaste-me a liberdade.
Não choraste por mim amor.
Nem me barraste o caminho, ou imploraste «Fica.»
Não era eu, eu era engano.
Ardi num ciúme insano, com o que te aconteceu.
Encontraste amor verdadeiro.
O do passo certo com o teu.

Andreia Azevedo Moreira
Junho 2009 – 1ª Versão
Março, Abril de 2013 - Adaptação para Fado.

Este trabalho que me deu um gozo desgraçado surgiu na sequência de um desafio do Povo Lisboa - Rua Nova do Carvalho. Categoria: FADO MUSICADO

OBRIGADA POR ME LERES.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Qual é coisa, qual é ela?

"Arde a pele às costas subjugadas, 


arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s); 


cheira ao carvão das frases sublinhadas, 


sabe ao sal do médio a virar as folhas 


com ruído; 


eis o vício avassalador e irreprimível que, 


ao aprisionar, liberta." 



Andreia AM em Fevereiro de 2012, para passatempo da Revista Ler.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

«É LÁ DENTRO A MINHA MORADA.»

                                                                                                                    
Disseram-me que não podia entrar. Sento-me do lado de fora, descrente. Choro. Não tenho força para erguer a cabeça, que me tomba nas mãos. Não de vergonha, cansaço. «Não entre, por favor.» Quando só eu devo estar ali. Eles parecem não perceber, ou não querer. «São as regras.» Regras que também ditaram que não comprássemos casa. «Não». Aceitámos. Tantas recusas. Comunicaram-nos que era proibido amarmos uma criança. Ela que ficasse esquecida, de ninguém. Resignámo-nos. Tentaram varrer-nos. Como se o que os olhos não vissem, nós, não existisse. Vivemos inteiros apenas entre as nossas paredes arrendadas. Aquela pessoa tem qualidades, os seus defeitos também. A conversa habitual. Desejo-a, ainda. O meu corpo entendeu-se com o dela. Lembro-me bem da primeira vez que os nossos olhos se prenderam. Soube que ali iria morar algum tempo. Fui correspondido. Custa-me não lho conseguir demonstrar na rua. «Não pode ser.» Pretendem que afirme tratar-se de amizade; convencer-me de um bem-querer menor. Exigem que não afrontemos os demais, com esta maneira anormal de ser. Procurei empenhado e nunca encontrei qualquer anomalia. Todavia, o nosso amor insulta e por isso nos coibimos dele. Desconheço se para não ferir, ou para que não nos agredissem, fartos que estamos que nos maltratem. Extenuado que vejam feio o que, para mim, é belo. Perfeito. Tenho perdido muito tempo a esconder-me. Agora mesmo, ele está ali dentro e não consentem que fique perto. Deveria ter-lhe dado mais festas e tê-lo apertado mais vezes nos braços. Deveria ter-lhe procurado a boca, com a minha, sempre que quis. Abdicámos em prol de terceiros que mais não têm feito senão tentar matar-nos. «Esse elo não tem validade.» O que trago em mim é para ocultar. Afirmam. Quero gritar-lhes da injustiça que cometem. Desisto. A luta afigura-se inglória. Despirei, algum dia, a vergonha que me vestiram ainda criança? Sobretudo pesado. Escuro. Bafiento. Uma festa no rosto ou darmos as mãos, trocarmos beijos, ou aquelas carícias nos cabelos. Gestos abolidos. Tornei-me furtivo. Exímio na arte de amar sem o toque. Ainda que uma vontade imensa no peito, não houve o lugar devido para o nosso calor. Isto provocou-me vazio que corrói. Têm-me dito por meias palavras, olhares reprovadores e trocistas que não é digna a minha história. Não entendo. É igual ao que observo noutros casais. Estudo os modos dos apaixonados. Os meus em nada diferem. Quero-lhe bem, daria a minha vida para salvar a sua e faço o que posso para o proteger. Cumplicidade que me é devolvida. Impõem-me uma parede. Sou assim e minto, para que não me chateiem, nem me tentem formatar. Hoje barram-me o caminho, o que me é inaceitável. Está ali dentro toda a minha vida partilhada com outra pessoa. Dizem-me que vá para casa; só a família chegada; eu não. Como? Eu, sim. Sou a sua companhia. Tenho sido o amor, o sexo, também a amizade. Tenho sido as discussões, a ternura, a saúde, as doenças (esta também), as viagens, a convivência, as traições, as mágoas, os desabafos, as flatulências, o desespero, as gargalhadas, os abraços, os beijos, as dificuldades, as vitórias. Tenho sido. Sou, ainda. Mandem-me para casa, pouco importa. Ali acaba parte de mim. Já não tenho como lhes explicar que não se explica o amor. Sou o João. Morre o meu Francisco. Não me deixam entrar, mas eu nunca de lá saí.

Andreia Azevedo MoreiraCriado em Maio de 2009. 

Obrigada por me leres.



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Texto #24 a sair para a Rua

Chegou o dia em que o homem, cuja rectidão sempre fora inquestionável, se sentiu perdido.
Vive-se.
O dia-a-dia vive-se.
Feliz.
Impensado.
Até ao dia.
Hoje, amanhã, um dia qualquer.
A vida interroga-nos. Questiona insolente:
- É isso?
(Assinto)
Pergunta insistente:
- É isto?
- Sim.
(Porque perguntas?)
É o que desejo. Com senãos. Aceito. É tudo.
(Isto eu.)
O meu pensamento, outra história.
Vida contida nele.
Vidas que não vivi (Que não escolhi.) pressentidas.
- Cala-te!
Ignora-me brincalhão.
Ocupa-se de melodias alheias às que escolhi.
Desinquieta-me matreiro.
- Cala-te!
Enfrenta-me. Gargalhadas desobedientes. Diz-me:
- Estou aqui.
Eu já enervado, desorientado:
- Shiu.
Ele manso, dengoso, feito lobo vestido de lã:
- Não me consegues calar.
- Vamos ver.
(Vamos ver.)
Ri-se sobranceiro.
Aflijo-me.

- Enlouqueceste?

Andreia Azevedo Moreira - Criado em Março de 2009. Revisto em Agosto de 2013. 

OBRIGADA POR ME LERES.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013



Viveria 100 anos na solidão do papel e da caneta. Mas diz que tenho o colesterol elevado. Deve dar-me um fanico muito antes...
A partir de amanhã inicia-se a semana #24. Últimos cartuchos da #23. Já leram? Hum?

https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/204170756410892

MARATONA DE DISTRIBUIÇÃO. LOCAL: ALCOCHETE


UM ENCONTRO


Um encontro e as minhas palavras a aproximar-lhes as cabeças. Ui...

O pendura pode ir a ler pois é?


VERDE ESPERANÇA


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

Não escrevo para a gaveta. Quero ser lida. (Em papel.) Todas as semanas distribuo um texto diferente por onde passo, na esperança que tu Leitor mo encontres. Nesta página vou deixando o rasto dos sítios onde os semeei. Aguardo resposta, qual náufrago lançando mensagem em garrafa ao oceano. Obrigada a todos quantos respondam ao apelo.















https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/153068921521076 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Depois do tornado que rasga como 

reaprender a doçura de uma brisa?

«Despedida prematura»


Encontraram-se no meio da rua. Não se viam há muito. Reconheceram-se. O coração batia indisciplinado, as mãos subitamente trémulas e frias. Faltava-lhes assunto. Perguntava repetitiva: “Está tudo bem?”. - A resposta não era menos ridícula, porque da mesma forma insistente. - “Sim. Tudo bem. E contigo?”

“No outro dia vi aqui perto a Teresa. Lembras-te? Vive mais abaixo.”

“Pois. Lembro.” - Retorquiu embaraçada.

Nada havia a dizer com tudo por dizer e não foi dito. Não será pronunciado. Faltou-lhe coragem para tirar os óculos escuros, encará-la, ver-lhe o que ia dentro. Não se importou. Ainda bem que houvera o obstáculo. Um par de óculos impedindo a revelação do que passara despercebido. Naquele instante cristalino. Molhadas como se aquela vontade chuva miúda. Uma porta entreaberta. A possibilidade que se não segue. Tudo tão complicado. Não se muda de pessoas como quem faz um transbordo de autocarro. Para isso há a morte a roubar, aleatoriamente, os nossos. Não. Aquilo ficava por ali. Não mais se encontrariam. Fora um acaso. Uma rasteira. A vida imutável.

Mentiras. Fora apanhada desprevenida pelo ar desajeitado, pelo constrangimento das duas. Perdera o pé. Afogava-se na surpresa daquele encontro fortuito. Não amasse outra pessoa e seria dela a partir daquele dia. Tirava os óculos.

(Lamentou e escureceu.)


(Notava-se nos olhos.)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Semana #22 - «POUCA TERRA, POUCA TERRA, POUCA TERRA.»

DAR PALAVRAS
www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira

 «Pouca terra, pouca terra, pouca terra.» 

(Semana #22/ 5  a 11 de Agosto de 2013)


- Larga-me a mão, papá!
- Não posso. Anda daí.
- Onde?
- Já vais ver.
- É bonito onde vamos?
- Há paz.
- Precisamos de paz, papá?
- Preciso.
- E mais?
- Preciso de ti, também.
- Porquê papá? Para jogar à bola?
- Mais ou menos.
Não penses que te estou a usar, filho. Quero-te bem.
- Como usar um boné, por exemplo?
- Sim. Como usar um boné. Não estou a fazer isso.
- Então o que estás a fazer, papá? Porque me apertas com tanta força a mão? Dói um bocadinho, sabes? Não queres que fuja?
- É isso. Não me podes fugir. Não agora.
- Nunca fugiria. Gosto tanto de ti. Olha, gosto mais de ti do que de jogar à bola e tu sabes como eu gosto de jogar à bola, pois é?
- Pois.
- Larga-me a mão. Não fujo. Juro!
- Não posso filho. Preciso de ti.
- O que é precisar papá?
- É não poder passar sem... Não posso passar sem ti. Entendes? É por isso que te levo para onde vou. Para não estar sem ti.
- Mas estou sempre aqui papá. Não me vês?
- Sim, mas vou para longe e quero levar-te comigo.
- E a mamã?
- A mamã não vai.
- Como é que lhe mostro um passe muito fixe, que aprendi de manhã nas escolinhas?
- Não mostras.
- Não é justo papá. Quero mostrar-lhe. Também gosto muito da mamã sabes?
- Sei. Cala-te um bocadinho e acelera o passo.
- Tens pressa papá?
- Tenho.
- Porquê?
- Porque
é tarde para mim.
- Tarde? Ainda nem almocei!
- Quero que saibas que te amo muito.
- Vou ficar de castigo?
- De certa forma, sim.
- Mas não fiz nada de mal papá! Alguém te contou uma mentira? Não fiz mal. Não me ponhas de castigo!
- Tem de ser.
- Porquê?
- Porque quero que a tua mãe sofra. Que sinta o que é estar vazio.
- Queres aleijar a mamã?
- Quero.
- Isso não se faz papá. Não se aleijam pessoas de propósito! Tu é que me ensinaste lembras-te? Só tenho seis anos e sei.
- Tens razão. Agora não te consigo dar ouvidos. Nem te consigo ver. Só sei que é hoje que acabamos.
- Acabamos como no um dois três acabou a história?
- Sim.
- Não posso papá. Desculpa. Amanhã tenho de jogar com o João André. Prometi-lhe a desforra. Marquei-lhe muitos golos hoje sabes? Ficou chateado comigo. Quero que continuemos amigos, amanhã vou deixá-lo ganhar. 
- Amanhã não vais à escola filho.
- Papá, não posso faltar. Amanhã vou à escola, sim! Vais ver!
- Confia em mim. Aperta a mão do pai.
- Não quero papá. Estás a assustar-me com essa conversa do um dois três acabou a história. Ainda tenho muitos jogos combinados com o João André e tu não queres deixar. Fico triste, papá.
- Já decidi. Anda.
Confia em mim.
- Ai! - Começa a chorar, soluça com medo do, até então, companheiro de muitas brincadeiras.

(...)

- Porque me levaste? Não estava doente. Porque me apertaste com tanta força a mão, papá? Porque não me deixaste dar-te uma canelada e fugir-te? Sentava-me no passeio à espera de alguém que me viesse buscar. Talvez a mamã.
- A tua mãe nem pensar!
- Porquê?
- Porque já não nos quer.
 
- A mamã já não me quer?
- Já não me quer.
- E a mim?
- Hum?
- E a mim?
- A ti quer e nunca mais te vai ter.
- Ter?
- Sim. Eras nosso. Agora serás de ninguém.
- E tudo o que eu queria fazer? Vou ter tempo até à estação?
- Não filho. O que são os teus sonhos (perto da desilusão que sinto)?
- Cantas-me o "Pouca-terra-pouca-terra-pouca-terra. Uuuuuuuuú!"?
- Não temos tempo.
- Larga-me a mão! Larga-me a mão! Larga-me a mão! Tu não és o meu papá!
- Já não confias em mim?
- Não percebo o que estás a dizer. Só sei que amanhã quero jogar à bola com o João André. Quero
rir, correr, brincar e ser alegre!

(Criado Agosto de 2011. Revisto em Agosto de 2013.)


Obrigada por me leres.
PROCURO LEITOR. ÉS TU?

sábado, 3 de agosto de 2013

Pelo-me por desafios. Há dias respondi a um da "Associação de Palavras". Sou uma preguiçosa desgraçada. Preciso de prazos para (me) cumprir.

Consistia em escrever uma carta, contrariando a tendência actual das abreviações (sms, tweets e afins.) Aí vai alho...

andreia am <…> 

Jul 29 (6 days ago)

to associacaodepalavras2013@gmail.com 

Olá! Olá. Nunca sei se será melhor parecer-se feliz, ou contido. Ando há muito tempo para te escrever. É hoje. Preferiria fazê-lo à mão, com a minha parker bordeaux da vida toda, mas depois teria de digitalizar a carta para enviar para o e-mail da Associação de Palavras e não seria certa a legibilidade da minha letra. Pelo menos, não na totalidade da missiva, que terá notas de rodapé e rasuras. Tinha saudades de te escrever. (Sim, eu sei, ainda ontem o fiz, mas tu não sabes. E por isso não faz mal escrever-te à exaustão. Não te canso.) Uma pessoa anda pela vida esquecendo-se das pessoas que lhe fazem falta e eu passo os dias a dizer que a culpa é do tempo, da rotina, das escolhas que ignorante fiz. Que é que tens feito? Gostava de te conhecer melhor as noites, os sonhos, principalmente os pesadelos. Não quero saber tudo, apenas mais do que sei, que é nada. Imagino-te apenas. E dessa idealização nasceu uma pessoa que não existe a não ser na minha cabeça. É para ti que não és que escrevo. Tento chegar-te e a resposta não vem porque não há destinatários na Terra do Nunca. O carteiro repreendeu-me muitas vezes antes de desistir e começar a guardar-me as cartas. Penso que se apiedou de mim. Entendeu que tenho de as enviar para algum lado. Agradeço-lhe o gesto fingindo que acredito que as minhas palavras chegam sãs e salvas ao destino. A ti. Que mal tem se me iludir um pouco? Uma vez a minha tia-avó disse-me o seguinte: «A vida é uma mentira e as verdades que tem são muito duras.» Na altura não a entendi. Ainda não te tinha criado. Vivia apartada desta loucura, de tamanha asfixia. Era tudo muito simples. Branco, ou preto. Havia uma deficiência visual nos olhos da minha alma que me impedia os cinzentos e as cores do arco-íris. Sei que se me ouvisses ficarias com pena deste vazio. Não é caso para tanto. Sou tão-só uma pessoa perdida. Observo os que me parecem conhecer os seus caminhos e afiguram-se-me igualmente desnorteados. Queremos mesmo ter mapas? Nunca tive jeito para a lógica, tão-pouco sentido de orientação. Habituei-me. Vivo às apalpadelas e é por isso que bato tanto com a cabeça. Quando tal me acontece por vezes acordo, outras entro em coma. Nesses períodos de desligamento sonho. Foi num sonho que te encontrei? Pareces-me tão real. Visualizo-te de forma tão clara. Conheço-te inclusivé o jeito de dizeres mal algumas palavras. Tens dito mal o meu nome. Estou à tua frente, olho-te nos olhos e tu pimbas, soletras-me ao contrário. Onde há uma vogal pões uma consoante. Onde deveria haver uma consoante eis a vogal. O que deveria rimar com sedimento, rima com escrita. Houvesse cura para o desacerto e já a teria encontrado. Ando há anos a tentá-lo. A fronteira entre a sanidade e o purgatório é ténue. Um momento tinha apenas um pé dentro da água fria do Oceano (Único denominador que nos é comum.), no seguinte afogava-me. Tenho água nos pulmões. Falo-te e só te chega glugue glugue glugue. Talvez por isso nunca me tenhas respondido. Aquilo de não haver destinatários numa Terra que é Nunca é desculpa tua para me fugires. Espero um dia destes dar de caras com outro peixe, que me leve para águas mais calmas. Sinto-me extenuada nesta corrente. As mãos que me deram deixaram de saber nadar. Ando aflita para me manter à tona. Se isto te chegasse às mãos e te compadecesses de mim, respondias-me numa garrafa? Andava eu ao sabor da corrente, já desistida de ti e levava com ela na tola. Agarrava-a, sacava-lhe a rolha, retirava o canudo de material indestrutível que desenrolava no meu estertor e lia: O2. Então nadaria como quem voa e chegaria à tona como quem já tocou nas nuvens e viu que elas são mesmo algodão. Por ora cessarei de escrever-te. Tento esta vez, que desejo derradeira, deixar-te no fundo do mar. Dou à costa. Renasço. Subo àquela árvore, onde me rodeio do chilreio dos pássaros para que me alegrem na tua ausência definitiva. Vejo o carteiro a passar lá em baixo. Viro-me. Deito-me neste galho robusto. Pendem-me as mãos e as pernas mas a coluna sustenta-me. Fecho os olhos. Adormeço. Acordo a cair.

Que te cheguem nesta carta todos os beijos e abraços que nunca te dei.

Uma Pessoa Perdida(mente).

21 Semanas a DAR PALAVRAS na Rua.

Escrevia-lhe cartas que lhe falavam aos olhos. 

Era, todavia, mais abaixo que as escutava quando as repetia em voz alta

AAM, 3/4/2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

«Carta»



Lisboa, 23 de Novembro de 1950

Querida mãe, não me levarás a peito se te disser que preferiria ter nascido homem. É violenta a vida para todos. Para uma mulher  na sociedade deste ano em que te escrevo – O da tua morte. – mais do que agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo não se compadece das regras que inventaram para nós. Não me sinto o que pretendem que seja. Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Eis que aquele contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros esperam de mim:

- Comporta-te. – Dizia-me a água.

- És uma senhora. – Sussurrava o ruído.

Lembrei-me de ti quando me dizias com os olhos: «Que desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?»

Foi demais. Dei cinco murros na parede e um pontapé na torneira. Calou-se, sabes? Pumba. Bastou querer. Que culpa tenho se o meu pensamento não se adequa? Antes a morte, por me alistar num exército. A guerra com os combates, o sangue, as mutilações. Que é isto que me fazem à alma, senão a vontade de amputá-la? Sofrias. Vi as lágrimas que derramaste por eu ser diferente. Às que não observei provei-as no sal que te temperava a face, quando te beijava. Perdoa-me se me não posso desculpar pela minha natureza. Toda a vida me apressei subindo as escadas que me elevariam ao teu coração. Perdia o fôlego. Quanto mais corria, menos te alcançava. Sempre soube que, mesmo que lá chegasse um dia, não teria o que te oferecer, além deste imenso amor.

(E tu sem o aceitares.)


Anna Maria

Papelinho - Semana 21 - 21º Texto a sair para a Rua

DAR PALAVRAS
www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira

 


«Carta.» (Semana #21/ 29  de Julho a 4 de Agosto de 2013)


Lisboa, 23 de Novembro de 1950

Querida mãe, não me levarás a peito se te disser que preferiria ter nascido homem. É violenta a vida para todos. Para uma mulher  na sociedade deste ano em que te escrevo – O da tua morte. – mais do que agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo não se compadece das regras que inventaram para nós. Não me sinto o que pretendem que seja. Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Eis que aquele contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros esperam de mim:
- Comporta-te. – Dizia-me a água.
- És uma senhora. – Sussurrava o ruído.
Lembrei-me de ti quando me dizias com os olhos: «Que desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?»

 

(Criado Dezembro de 2009. Revisto em Julho de 2013. TEXTO COMPLETO NA PÁGINA DO FB)

Obrigada por me leres.
PROCURO LEITOR. ÉS TU?
andreia.azevedo.moreira@gmail.com

quarta-feira, 24 de julho de 2013

«Nunca te esqueci»



Pus-me a pensar em ti, enquanto passava a ferro o vestido verde para amanhã. Tentei lembrar-me da tua cor. Penderias para algum tom? Azul? Pensei em música. Aquela que dançaste. A que mais ouviste, em tempos de desespero? Responder, não consegui. O livro da tua vida? Um das prateleiras com ficção científica. Qual? Prato preferido. Que iguaria te deleitava, como se não houvera outra capaz de te alimentar? Franzi a testa e os olhos num esforço de recordação. Resultado semelhante. À altura ignorava-o, hoje menos saberei. Eras de esquerda, ou direita? Havia Deus, deuses, ninguém? Culparias de quê tua mãe? Por quem darias a vida? Ódios de estimação? Venerarias alguém? De quem ligeiro fugiste? Que palavra jamais disseste? E o animal: O cão? O tigre? O macaco? Entristeço-me quando constato que a pouco darei resposta. Fico-me pelo "Penso..." desconhecendo se o pondero, porque me soa bem que assim fosse, ou porque o seria(s), de facto. Tenho certo: gostavas de nadar nu. Também eu. Houvesse onde me agarrar melhor. Não é suficiente. Bem sei. O filme da tua vida? Um vício? O prazer secreto que a mim tivesses confiado. Temores? Creio que tremias na cadeira do dentista. O grande amor que perdeste? E o teu mais querido amigo? O que tem nome de utensílio, que serve para cortar madeira? Ah! Gostavas dos gelados do Italiano. Pouco, não é? Para alguém a quem amei, tão desesperada. Enquanto pude amei-te muito. Quero que saibas disso. Sobre ti resta a convicção do que julgavas ocultar, enquanto omitias os pormenores que me eram (en)tão fundamentais.
Nunca te conheci.


Andreia Azevedo Moreira
Criado em Abril de 2010. Revisto em Julho de 2013 e Outubro de 2014.

OBRIGADA POR ME LERES.


terça-feira, 23 de julho de 2013

"I Want You"


(National Geographic – Começou por ser uma história sobre leões.)

Observo-te do outro lado da Rua. Mantemo-nos à distância, uns instantes. Não desviamos os olhos presos. Serei capaz de atravessar? Sou. Estou a meio metro de ti, na dúvida se cumprimento, ou passo como se não te houvesse encontrado. Gostas de dificultar e não avanças, nem recuas. Ficamos a medir-nos como duas janelas por abrir. Por que me olhas tão sério. Queres que me vá. Há muito prescindiste das respostas. Ainda não me cansei de te questionar. Colocaram cimento nas nossas articulações. Impede-nos de prosseguir ou de qualquer tentativa de fuga. Minto-te. «Só um abraço. Depois vou.» Não dás sinal de o autorizar e já me agarrei a ti com força. Colo-me ao teu corpo. Quero saber se os nossos perfis encaixam. Interessa-me, por exemplo, a compatibilidade dos nossos pescoços. Vou atrás da tua orelha. Perco a vergonha, desenho-a com a língua. Desço-te até à clavícula. Acumulo os cheiros teus para te mapear na memória. Permaneces sem dizer uma palavra. Escondo-me no teu peito. Recuarei. Vou fingir que não te vi e que não te tentei seduzir. Nego tudo, humilhada pela tua indiferença. Desisto. Estava preparada para a derrota. Coloco o pé para o passo atrás. Correrei muito depressa na direcção oposta. Talvez nada disto aconteça. Eis que me agarras e reténs sem te rires para mim que me perco na ausência de sorrisos. Estás a magoar-me. Queres que fique. É isso. As nódoas negras que me desenhas nos braços são tu a quereres-me. Quase tanto desejo quanto o meu. O silêncio a tua forma de me despir. Mordes-me porque não me sabes beijar. Desaprendemos a ternura na espera. Demasiado longa para arranjarmos tempo, agora, para nos escondermos. A Rua ficou deserta, por respeito ao nosso inadiável. Bebo o meu sangue e o teu. (Também te mordo.) Esqueço o medo de me achar nua à tua frente. Empurro-te, bruta. Bates com a cabeça no prédio onde nos fomos apoiar. Não sentes dor. Dizes:

«Não sinto dor.» (Estás aqui.)

Agrido-te implacável, com a minha vontade. Não te defendes.

«És a seguir.»

Toco-te para te revelar. Cega é com as mãos que te vejo. Quero conhecer-te inteiro. Puxo-te. Avanço por ti para te matar em mim. Não é saudável viver-se com uma pulsão destas a comer-nos a alma. Tenho os tímpanos a zunir porque me chegaste ao coração pelos ouvidos. O prazer comanda. Passivo ao meu ataque, aguardas que mate a sede. Impossível. Lambo-te o sal da pele. Tenho o sexo quente de tanto sangue. Pulsa ao ritmo do músculo na expectativa de te acolher. Duro. Viras-me.

«Temos tempo.»

Rosnas no meu cachaço. Tens duas mãos para pousar onde preciso. Uma boca da qual espero o indizível. Narinas que me respiram. Apertas-me contra ti. Sinto-te. Dentro.

«Não chega.»

Apoio os braços na parede que me sorri, cúmplice. Empurro-a ritmada. Uma e outra vez. Estás onde te quero.

«Espera.»

Não sou paciente. Precipito-me para a construção e para ti numa vertigem. És desnorte e, ao contrário de mim, tolerante. Aguardas a vez de me assassinar em ti.

«Depois de uma paixão destas, só a morte.»

Voltas-me. Sou leve nas tuas mãos. Manipulas-me bem, apesar da obesidade que não te incomoda. A tua aceitação do meu corpo comove. A coreografia da nossa dança é inconstante, na pista escorregadia. Somos suor. Os meus pés deixaram o chão muito antes do teu colo. Quebrar-me-ei na queda. (Não tenho hipótese.) Não é nisso que penso, quando constato que continuas calado. És tão silencioso. Há em ti segredos ou só vazio? Quero dizer-te coisas indecentes ao ouvido. Digo-tas simulando que o não faço. Creio que não mas queres ouvir, porque me empurraste de novo e esfregas-me o rosto na superfície irregular, enquanto me seguras pelo cabelo. Não sei de ti. Só de mim. Enfraquecida, letárgica, depois da corrente que me atravessou. Afastas-me para o lado. Nojo?

«Ele do outro lado da Rua. Viu-me?»

«Ela do outro lado da Rua. Não me apeteceu.»

Encontraram-na morta um século depois. O cadáver tinha epiderme, músculos, unhas, cabelo. A face reconhecível, porém, do lado esquerdo mutilada. Despida sorria. Na Rua testemunha nenhuma do acontecido. A autópsia declararia órgãos. Um milagre. Foi trabalhoso removerem-lhe o coração para se aferir as causas da morte.

(Estava amarrado.)

Andreia Azevedo Moreira

Criado de 9 a 13 de Julho de 2013. Saiu para a Rua, pela primeira vez, em 15 de Julho de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.