Procuro Leitor para navegação séria. (Sem amarras.) Dei Palavras na Rua de 8/03/2013 a 10/01/2017. Hoje respiro. Só. Andreia Azevedo Moreira
terça-feira, 15 de março de 2016
sexta-feira, 11 de março de 2016
Lançamento da antologia de contos - «O País Invisível» - Centro Mário Cláudio
12 de Março, Venade.
Paredes de Coura.
Lá dentro «Os cães ladram», escrito por mim, muito bem acompanhado por nove contos magníficos.
TODAS AS FOTOGRAFIAS DAQUI: https://www.facebook.com/centromarioclaudio/?fref=ts
quarta-feira, 9 de março de 2016
V - Teresa S.
No dia da cobardia maior
investi-me de toda a coragem. Vinte e um de Fevereiro triste. Estreei o “não”.
Havia de acontecer contigo a quem desejei pelo toque dos olhos, primeiro, da pele
depois. Experimentei todos os tipos de dependência. Restava a intelectual.
Identifiquei o momento de parar. Lamento perder-te antes do princípio e que me julgues
fraca ou encares esta fuga com a altivez dos convictos. Massacro-me pela citação
do Buarque. Perturbada, não te ouvia. Coloco a Futuros amantes na lacuna para me relembrar que nos tocámos. Tu
enorme e eu minúscula numa sintonia qualquer. Isolados das restantes cidades do
mundo. Embatemos tontos: ombros, braços, coxas. Dançámos naquela calçada,
rodeados. Ninguém além de nós o compreendeu. Como imaginar-me eleita entre as pessoas
interessantes que te sobrevoam. Imperceptível, ao início, as tuas mãos em todo
o lado buscando as minhas. Subestimei o teu sorriso pedinte. Incrédula e avançavas
determinado, tempo nenhum a perder. Achei-me nua na tua frente antes de me
despires. A certeza de me teres na tua cama, minha também, sacudiu-me. Impediu-me
de avançar. Abandonar-te antes de ser enjeitada, a solução única convincente. Fugir
antes de ler o meu coração partido pela tua intempérie. Irónico. Eu descrente
do amor, das paixões irremediáveis, a proteger-me do devaneio. Passo o fingimento
de poeta. A vontade insensível ao que levo debaixo da pele. Dispenso a
classificação aritmética. Quantos dígitos no somatório. Recuso a aprendiza idólatra.
Preciso descortinar se anseio o teu sexo, a tua saliva, o teu cheiro ou me
importa o intelecto, as criações, a tua importância. Deve amachucar quererem-te
por seres o Eminente E.. O que se apaga no teu íntimo. Será que te asseguras
sobre as ambições de quem te permite a aproximação feroz, sem argumentos que te
dêem a conhecer quem tens defronte. Da púdica guardo pouco. Não se trata de
proteger honra nem de romantismo ou sensatez. Amor-próprio, claro. Exigir o
conhecimento da biografia com que te misturas na partilha da intimidade e que
dês a conhecer as partes invisíveis da tua. Não me importo com um amante furtivo,
de me esconder, nem de haver um prazo limitado para amar. Faria pouca diferença
limpar as marcas da tua passagem no meu corpo a cada colisão. Os relacionamentos
amorosos, casos de vida maior, morrem como tudo o que pulsa. Isto é a biologia.
Aqui a conversa é sobre profundidade. Nada importante se despacha com tanta
leveza. Terminou a sessão e avançaste para fora do auditório. Um ténue sinal
para te seguir sem necessidade de me orientares. Entrámos no elevador onde te
senti no pescoço, nas costas, nas nádegas, na parte anterior dos joelhos. Os
nós das tuas mãos encaixaram-se nas minhas. Um corredor labiríntico, a porta ímpar
no piso empestado de alcatifa. Agi por impulso. Dei passos-âncora de respiração
alterada. Virei-me para os teus olhos. Agarraste-me a nuca. Com os polegares desenhaste
os meus lábios. Molhaste-os.
«Até depois».
Recuei antes do beijo que
firmasse a tua na minha boca. Podíamos ter sido os melhores, juntos. Fracassaríamos.
«O odor da tua transpiração excita-me.» Fica por dizer. No dia da coragem maior
investi-me de toda a cobardia.
- Afinal preciso que me
deixe na Rua Dr. Leonardo Coimbra, por favor.
- Tem bilhete para
regressar?
- Sim. Não se preocupe. Não
me esqueço do seu cuidado. Obrigada!
- Quer que mude a música,
entretanto?
- Deixe-a cantar. Soa tranquila.
- Vou dar-lhe um cartão com
o nome. – Reforça. – Teresa Teng. Tian mi mi. Ouça também o For the good times, cantado pelo Kris Kristofferson. É formidável.
- Obrigada. Voltarei a eles
noutra altura.
Reparo na camisola branca
do condutor repleta de símbolos bordados a vermelho e a preto. Uma espécie de
código em ponto de cruz. Pitoresca, díspar das camisolas quentes a que estou
habituada. Inspira identidade. O Eminente E. havia de a descrever tal como
existe e quem o lesse teria imagem própria e precisa dela. Eu falho. Somos
separados. Nunca estivemos para acontecer. Pago a corrida. Saio do carro. Retiro
a mala com dificuldade.
- Leve o cartão.
terça-feira, 8 de março de 2016
IV - «Ademar»
Na rotunda intersecção da
avenida do descobridor com a do Repatriamento dos Poveiros, no percurso diário
para o meu lugar burocrático, um touro de bronze relembra a glória diminuta dos
actos divisores. Gosto de parar defronte olhando as gentes da terra e do mar
unas, combativas, abnegadas, fortes. Trabalhadoras. O meu destino, hoje, será diferente.
Passo por lá como alguém descobrindo, na bússola, o Norte. Sou poeta. Digo. Sou
poeta e entrego um cartão a mulheres sedutoras. De um lado o meu contacto, no
verso uma rima. Esta manhã, no Auditório Municipal, cruzei-me com ela. Vem de
longe. Notei os modos distintos. Denunciou-a a forma de se mover, antes de lhe
ouvir palavra. Estudei-a afastado. Nervosa em gestos repetitivos de
confirmação. Verificou a mala, ajeitou o cabelo curto, a franja. Compôs o
vestido verde-rubi. Subiu recatada a meia esquerda, quase até ao glúteo. Olhou
para o pulso direito à exaustão. De ora em vez, fixava-se nas pessoas que se juntavam
nas imediações. Retirava um caderno azul A4, com argolas brancas em espiral,
anotava e devolvia-o à carteira. Aproximei-me para me apresentar. É muito bonita
quando aguarda. Sorriso. Propus-lhe que nos sentássemos próximos, na Mesa
seguinte. Informei-a da folga dada ao relógio de ponto, para me dedicar às
Correntes. Dou-lhe a conhecer parte da cidade, no intervalo para o almoço,
acaso queira. Fez pouco caso, riu e afastou-se delicada, mal pôde, num trejeito
tão doce que me não agrediu a recusa. Não me demovo. Hei-de vê-la nas sessões
porvir e se me apetecer falo-lhe outra e outra vez, até que amoleça ou aceda a dar-me
atenção ou. Gosto de conversar, tanto como de fêmeas belas e, com isto, não
quero dizer irreais. Esta foge dos cânones mas revela qualidade atraente e rara:
Autonomia. Intuo apetência para a rebelião por detrás do porte impassível. O
que faz esta solitária a quilómetros de si. Parece de gelo e é lume daqueles em
que um homem se queima e desfigura, para sempre. Careço de esperança mas ajo
com ludibriante jovialidade, por isso me levam na brincadeira. Esta, exemplo
comum. Desconfiada, rindo em excesso do que lhe disse. Desacreditando a
intensidade colocada nas palavras proferidas. Escarneceu da disponibilidade que
demonstrei para me revelar. Vontade de a ferir pela ideia preconcebida que faz dos
homens. Não entendo. Audaz e um gesto simples, como a confidência trocada entre
estranhos, tamanho constrangimento. Encolheu-se amedrontada, esquiva. Deu
passos pequenos atrás. Pressenti a intenção de me deixar sozinho. No princípio
da repulsa saí de cena. Despedi-me com vénia afantochada. Adoraria ouvi-las rir
por bons motivos. Cócegas que lhes fizesse com os cabelos na epiderme dos
adutores. Queixume useiro. Na plateia observei-a ávido de olhos postos no
Eminente E.. As mãos tremiam-lhe alvas, geladas. Dava tudo para ter impressões
digitais daquelas a percorrerem-me voluntariosas. Não suspeitou ou mostrou-se
indiferente a que a espiasse. Terá anotado o que ele disse ao detalhe. Escrevia
a velocidade incrível sem verificar o redigido. Era retribuída na intensidade.
Num auditório esgotado torna-se difícil aferir quem vêem os convidados. Olhos
atentos atestariam a conexão. Quanta raiva dele. Há pessoas-facilidade e, outras,
infortúnio no esforço. Terá havido mulher a valorizar a minha poesia. Releio os
versos, inepto para desvendar a insuficiência de que padecem.
Insisto.
segunda-feira, 7 de março de 2016
III - O taxista feliz
Joaquim M. Sousa taxista
poveiro nasceu em 1970, ainda a Cidade não o era. Filho de Filomena M. de Vila
do Conde, costureira e de Cristóvão F. Sousa, outrora também taxista, nado em
casa na freguesia de Laúndos com o auxílio da parteira Amélia. Residem juntos,
na Praça do Almada, num edifício perto da intersecção com a Rua dos Ferreiros. Joaquim
assegura o negócio de família desde a trombose do pai, primeiro da sua geração
a recusar-se a andar ao mar. Mudo e cego, a audição manteve-se intacta bem como
as pernas ossudas que o carregam arrastado, pelas divisões da casa. Raspa os
braços nas paredes de areia. Vão-se fazendo rubras. Filomena M. trata do marido.
O filho encarrega-se de ambos. Havia a namorada, Luísa. Detestava os sogros e
aproveitou para não regressar, numa tarde de divergências. Joaquim brando,
conciliador «Não merecia.» Criticou a vizinhança desancando a moral da pequena deslocada,
após a separação, para Matosinhos. Exigiu respeito pela mulher querida e
intimou a suspensão dos boatos sob pena de se remeter ao silêncio. Acederam a
cochichar nas suas costas, por ser consentâneo aos respectivos feitios e porque
a bonomia do condutor fazia diferença. Os óculos de Joaquim aferem mal a
sonsice. Aparentam estar intactos à custa de metros de rolos de fita-cola. Ele
tem um aspecto alheado sem correspondência à realidade de indivíduo atencioso
com quem o rodeia, clientes habituais e desconhecidos. Quem chega ou pretende partir
de Metro habituou-se a que, na Almirante Reis ou nas imediações, seja garantido
apanhar o táxi do Sousa. Desiludem-se se o vêem passar com o “Ocupado” aceso. A
sua conversa cativa, a gargalhada fácil contagia e as sugestões musicais além
de desconcertantes são memoráveis. Formam melómanos. Nesta tarde de Inverno, planeia
terminar a jornada antes de anoitecer. Engraçou com uma rapariga e quer
convidá-la para conversarem, num sítio calmo. Teresa S. entra na viatura em
estado deplorável, colocada a pequena mala azul de rodinhas na bagageira. Há-de
dificultar-lhe o cumprimento do horário. O taxista adopta várias estratégias,
para fazê-la falar. De início o usual: A meteorologia, a televisão, a política e
tema nenhum surte efeito. A comunicação está bloqueada. Passa pelas redes
sociais e pelos pontos de interesse da cidade e obtém monossílabos
incompreensíveis. Ao sugerir Teresa Teng
e a sua canção Tian mi mi a rapariga informa,
entre soluços, ter o nome próprio da cantora sendo engraçada a coincidência de
lhe dar a conhecer música oriental. Cresceu em Macau. Incapaz de sorrir pede as
maiores desculpas. Ele vai tranquilo, habituado a ouvir quando necessário e a
falar se o impulso lho suscita. Neste caso sente-se perdido. A cliente oculta
as pistas sobre a preferência. Mantém o queixume despudorado expondo lágrimas e
tremores, ao contrário dos inseguros.
sexta-feira, 4 de março de 2016
II - Ele
Ruge.
«Tardaste.»
Ensurdecedora a saudade instalada
nos meses de afastamento. Regresso desde a primeira edição. Revolve-se sobre si
mesmo indignado. A espuma beija-me o rosto. Não dou explicações do que tenho a fazer
além do amor.
«Estou aqui.»
Aproxima-se devorando
areia. Quase toca a ponta dos meus sapatos negros. É da sua natureza chegar
perto dos homens. Insiste no amuo. Eleva-se para desabar numa voragem. Amo-o na
fúria.
«Demorar-me-ei pouco, aqui.
Quero assistir ao instante primordial.»
«Fica. Quem és, lá?»
«Vou. Não posso viver de
azul, do sabor do teu sal, no estado líquido. Sou de todos os lugares.»
Recolhe as vagas enraivecido.
«Se amas, por que te ausentas?»
Fixa-se no horizonte, linha
pesada. O céu cinzento-escuro prenuncia os segredos de ambos. Guardo-os
discreta. Ninguém nos assiste ao desencontro. Inauguro um abraço manso mas a inquietação
mantém-se. Subo ao murete e acelero ao longo da Marginal. Menosprezo consciente
o escasso espaço para os pés. Desequilibro-me. Do chão observo o firmamento.
Levanto-me inteira e continuo a marcha pela ciclovia. Há poucos ciclistas nesta
altura do ano. Aí vem um. Encara-me de olhos azuis questionadores e cabelo
comprido. Relembro o italiano por quem me enamorei em adolescente e a quem
entreguei a minha camisola preferida, reminiscência da história fugaz que
vivemos. Ter-me-á visto. Baptizo-o: Veracini. Adoro distribuir nomes pelas
pessoas com quem me cruzo. Estou tranquila. Vinte e três são os minutos
previstos até ao Casino. Ele acompanha-me no ombro direito, rebenta
esclarecedor. Tenta dissuadir-me. Deixo-o na praia da Redonda. Para trás, mil e
novecentos metros percorridos e os edifícios que o guardam: o Estádio, o Hotel A-Ver-o-Mar,
o Carvalhido, o Bar com nome de marujo, o Guardador do sol, o Enseada. A zanga
dele não é ciúme por isso a relevo. A preocupação enternece. Avisto o edifício amarelo
esmaecido a encher-se de passos, júbilos e reencontros pela escadaria. Noto
cumplicidades e implicâncias. Depois de dezassete anos são afecto. Anseio
pertencer. Basta-me estar. O auditório silencia-se. Sou fantasma benigno entre
os que nunca darão pela minha presença. O homenageado fala para a audiência de
ouvidos alfabetizados e reverenciadores. Irrequieto avança no palco
gesticulando. Distribui tesouro confiado ao futuro. Passá-lo-emos de leitor em leitor.
Escutei-o com atenção e às palavras ambulantes. Aprendo com ele a paciência. São
necessárias a espera e a frustração. O desnorte. A dor. Sim, a dor imensa.
Pressinto que me avista do palco. Um vislumbre. Intuição. A loucura?
«Te enxergo. Estás aí no
meio da multidão de cadernos pretos de cantos arredondados. Nada te distingue.»
Faltou-lhe rebater a declaração. Ansiava um «contudo» inconcebível. Nada me
diferencia de facto. Posso ser jornalista ou crítica. Mirone, perseguidora, leitora,
desempregada com tempo a sobrar nas palmas. Interesseira. Aduladora. Convicta
de escrever, não acrescento. Componho narrativas imperfeitas quase engraçadas, distantes
de serem «Justas.» Dir-me-ia. Experimentei um piparote no ombro do espectador
defronte. Olhou para trás de viés e como não achou o que o incomodara voltou-se,
de novo, para as palavras do peripatético. Deixei cair a caneta aos pés do
anotador ao lado. Nem se moveu com o peso de uma cabeça no colo. Molhei-o de
desalento. Sacudiu as calças, desconcertado e movimentou-se com vigor adicional.
Motivada e imaginativa questiono-me. Quantos abismos de papel a transpor. Rodeio-me
dos que trabalham, deveras, atribuo à má sorte os fracos resultados. Remeto-me
ao silêncio. Quem me quer ler nas entrelinhas do que omito. Falta-me o quê.
Admito que em data indeterminável secou a tinta desta caneta que estimo sem eu ter
alinhado três parágrafos. Usava-a para tópicos, citações de terceiros e listas
de supermercado: Uma garrafa de vinho branco;
Tostas tradicionais estaladiças; Um queijo Camembert; Um sabonete; Um maço de
tabaco; Preservativos. Comovo-me com caixas coloridas. Compro-as sem lhes dar
uso. Quem deseja copular com a falência. Colecciono canetas inúteis, moleskines-promessa, embalagens de sexo-mais-que-seguro
e reúno ilusões. Erro transparente. Um assobio. A brisa nos dias de calma. Alcanço
na saída a revista oferecida aos fiéis e meto-a debaixo do braço. Imagino-a na
estante no anexo pequeno onde habito, no sótão do n.º 1308 à Ajuda. Finda a
solenidade precipito-me para o exterior. Saltito como as crianças em pulos
elevados e amplos. Passeio alegre na direcção da praia. Leve. Esclarecida. Ele aguarda-me
furioso.
«Por que te submetes?»
«Hum?»
«Por que te preocupa darem
por ti?»
«Ah. Amar é isto mesmo de
te colocares em risco. Dares o peito à seta de quem empunha a besta engatilhada.
Com confiança. Não o farias? A maior
parte das minhas horas são paralisia. Careço da tua intrepidez. Resta-me expressar
na redacção o rebentar das ondas como as tuas. Ondas importantes. Ondas que inundem.»
«Escrever? Combinar
palavras?»
Forma-se coluna vertebral gigante
a meia milha de mim. Levanta-se numa gruta ameaçadora.
«Sabes quantas pessoas se
sentam aí, alheadas como tu? Sonham e a realidade enganadora. Alguns
mergulharam na intenção de não regressarem. Pediram-me que os engolisse.
Concordei. Os delírios pesam. Não te quero devorar. Amo-te. Conseguiria mentir.
Opto por assegurar: És somente um corpo que flutua.»
«Também tu?»
Procuro um restaurante para
almoçar não para fugir da chuva nem pela sede ou pela fome, incomodam pouco, antes
para rever o bloco dos romances porvir. Inquieta-me a esferográfica bordeaux inactiva. As redacções calcadas
no papel, meros lamentos do que pensei. Hei-de reler os sulcos gravados com risível
firmeza. Incómodo. Escrevo para quem. Talvez a tinta seque para me poupar à
incompetência. Deverei desistir de enganar com a verdade.
«Compra uma.»
«Esqueci-me da carteira no
hotel. O dinheiro à recta para a refeição ligeira antes das mesas da tarde.»
«Tens um telemóvel de
última geração e o portátil na mochila. Para quê a obsoleta esferográfica?»
«Obsoleta? É-o o coração? O
cérebro?»
«Excentricidades. Quem
escreve à mão?»
«Eu escrevo.»
«Cala-te. Confessaste-mo: secou
há dias. Anos?»
«Tenho vivido.»
«Este tempo todo? Tens a
certeza?»
«O necessário para passar o
teste do desejo.»
«Desejo?»
«Permito a combustão do
entusiasmo e busco possibilidades nas cinzas.»
«Soa a adiamento.»
«Comprá-la-ei.»
«Acreditarei, assim
declares: Tenho-a.»
Andreia Azevedo Moreira
Novembro-Dezembro de 2015
quinta-feira, 3 de março de 2016
I. Virgínia
Eça de Queiroz nasceu nesta
cidade a 25 de Novembro de 1845. Uma frase autobiográfica célebre: «Sou um
pobre homem da Póvoa de Varzim». A criação mais vezes citada: «Os Maias».
Virgínia desconhece as origens do escritor e, da sua obra, leu o título
mencionado. Alta, esguia, lívida. Mãos grosseiras, dedos de anéis de prata e
pulseiras de conchas nos pulsos e tornozelos. Brincos gritantes. Cabelo crespo demasiado
comprido e saias reduzidas, em exagero, para a velhice. Comentam. A sua figura denuncia
infantilidade. A renúncia em assumir-se ultrapassada. Chamam-lhe a senhora das rimas
com alguma desconsideração. Assídua familiar volvidos anos desde a primeira vez.
Baralha-se com a gramática. O apreendido na instrução primária é sussurro e coloca
as vírgulas, leviana, onde lhe apetece. Rouba displicente os sentidos às ideias
a expressar. Alfabetizada: Predicado a atribuir-lhe no domínio das Letras. A cronologia
cilindrou o seu corpo gasto, descaído, desprovido de fulgor. No íntimo
desconhece estes pormenores. Absoluta ignorante a Filosofia, Francês, Grego e
Latim, alimenta fantasias desde garota sem que alguém a tenha demovido. Na verdade
ninguém tentou e com ela cresceu aquela convicção inabalável como a fé em Deus dos
crentes. Publicou palavras invisíveis em variadas edições de autor. ISBN
soa-lhe bem e é fácil adquiri-lo. Todos os livros são reproduções dos seus
manuscritos com páginas em branco. As capas anunciando o deserto. Quem esforçar
bastante a vista talvez intua os sulcos dos documentos originais, criados com a
imprestável Parker bordeaux.
Assemelham-se a palavras casadas nas frases da sua imaginação. Assegurá-las é a
boa vontade de quem tema contrariar a insensatez. Virgínia não constituiu família
nem acumulou poupanças ou gatos. O que a sintoniza com a existência são as
obras dos «Colegas». Procura-os para os autógrafos que reúne como a retratos de
família. Aproveita as oportunidades para lhes oferecer exemplares dos seus com
dedicatórias. Sorriem constrangidos e aceitam por piedade ou receio. Nunca foi internada
na medida em que se manteve funcional. Ninguém se preocupa com ela ao ponto de
poupá-la. Falta quem a proteja ou ataque. Vento fraco incomoda, despenteia
pouco.
Passa.
quarta-feira, 2 de março de 2016
QUEBRAR A CORRENTE
No dia 03-11-2015 soube que haveria nova edição do Prémio Literário Fundação Dr. Luís Rainha. Decidi concorrer, tal como decidira no ano anterior e desistira para ter mais tempo para pensar a trama. O que idealizei que havia de ser um ano de escrita (foi esse o pressuposto da desistência) revelou-se, pelo adiamento que cultivo amiúde, resumido a dois meses. O prazo terminava a 31-12-2015.
Desde o dia em que o anúncio do prémio foi feito, até ao dia 28-12-2015 empenhei a alma no desafio que me impus. Dei tudo o que tinha. Fiz o melhor que pude com as circunstâncias que são as minhas (trabalho durante o dia e em casa, tenho dois filhos pequenos e amigos que adoro) daí que, embora tenha noção que muito mais podia ter feito, foi o que apresentarei nas próximas semanas aquilo de que fui capaz. Saiu-me do pêlo. Arranjei um problema no estômago cujo desenlace ainda não vislumbro. Esgotei-me na tentativa. Ainda me sinto a recuperar desse cansaço.
Valeu a pena. Orgulho-me do pouco que fiz. Escrevi todos os dias com excepção do dia de aniversário do meu filho mais velho e da véspera de Natal. Nos dias úteis das 22h às 00h. Aos fins-de-semana madrugada adentro, com os clamores das crias a despertarem-me parcas horas depois da última palavra, dessa noite, inscrita. Espero que encontre alguém a quem as palavras falem. Só assim se completa este amor. Obrigada aos que me lerem.
Haverá papelinhos com excertos pela Rua como tem havido com os restantes contos, desde o dia 08-03-2013.
Uma nota final. Neste texto imprimi a libertação definitiva sobre a legitimidade que me reconheçam ou não para escrever (Fá-lo-ei até ao fim, sem necessidade de enunciação sobre o que sou.). Trata-se do meu singelo tributo à Literatura que me salva e aos dias alegres que tenho passado na Póvoa de Varzim, desde a primeira vez em que estive nas Correntes D'Escritas (2012) e é, claro, ficção.
Dou os parabéns ao Vencedor. Senti ter sido bem entregue o prémio. Fiquei feliz com ele como se fora comigo.
Amanhã, aqui, à mesma hora. O primeiro conto de «Quebrar a corrente».
Aquele abraço.
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Escrita,
Gratidão,
Não perder o Norte,
Quebrar a corrente
domingo, 28 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
DAR PALAVRAS
Este blogue encontra-se em construção.
É a reprodução do que ficou registado na página do facebook em www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira desde 08-03-2013.
Uma vez que consiga colocar aqui toda a informação, passará a ser este o meio preferencial de registo da minha demanda.
PROCURO LEITOR.
ÉS TU?
(OBRIGADA POR ME LERES.)
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
sábado, 17 de outubro de 2015
Exercícios
TEMA: LIVRE
A - Ando
C - Contigo
I - Impressionada
P - Pelo
O - Olhar
TEMA: ACIDENTE
A - Andava
C - Cansada
I - Irascível
P - Premi-
O - o
A - Ando
C - Contigo
I - Impressionada
P - Pelo
O - Olhar
TEMA: ACIDENTE
A - Andava
C - Cansada
I - Irascível
P - Premi-
O - o
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
«JULGAMENTO»
Chove lá fora. Ouço as gotas baterem no plástico dos estores. Toc. Toc. Toc. Pic. Puc. O despertador falhou. O sol não encontrou
caminho nas frestas, nem ouço os passos apressados dos saltos altos da vizinha.
Acordei com frio. Há quantas horas me destapei? O robe «bordeaux» caiu da cama para lado nenhum. Procuro os chinelos com os
pés gelados. Espreito para debaixo da mesa-de-cabeceira, de mim. Não estão.
Tremo. Dirijo-me ao quarto de banho e meto-me na banheira. A água tarda em
aquecer. O morno nunca consola. Limpo-me a uma toalha branca que esqueci. Todos
os atoalhados desta casa são de cor garrida. Pelo menos, pensava serem. Sou
desconforto. Regresso ao quarto para escolher o que vestir. É o possível. A
roupa escondida. O mundo não acordou, como alguém que me gritasse: «Estás só.»
Tento situar-me. É fim-de-semana. Foram quatro os telefonemas sem resposta.
Onde me apetece ir? Agarro, instintivamente, na trela e deixo-a cair. O tic tic
tic das unhas, no soalho de madeira, cessou há muito. «Só.» Quanto peso numa palavra
tão pequena. Duas letras, um acento estridente a empurrar-me a cabeça para os
joelhos. A coluna arqueada. As pernas encolhidas. O estômago sem lugar. Para
onde foi a ilusão dos que me povoavam?
Aquele dia?
O instante?
Uma confidência?
Condenação. Creio que houvesse confiança na sua justiça, porém,
surpreendeu-me a unanimidade. Guardava fé na empatia. No ser possível
colocarem-se no meu lugar, ainda que no final não déssemos os mesmos passos.
Claro que nunca a pratiquei. Acontecesse com Sofia ou com Marcelo, os
intocáveis? Até o Lopes desistiu de me visitar e era dos que não podia falar descontraído.
De que vale mover-me, fazer o que quer que seja, não tendo para quem? Que
legitimidade atribuir aos movimentos involuntários dos pulmões e do coração? Apenas
eu assisto ao seu milagre. Não tenho respostas nem ânimo para me matar. Como me
defino? Pelo que fiz? Dou razão aos que se afastaram numa obediência de
exército? É importante o que penso, se todos se recusam a ouvir-me? Imagino que
habitava um daqueles lugares em que as questões se resolvem com uma massa
indiferenciada de gente a massacrar uma amálgama de tecidos, outrora organismo
humano. Teria sido melhor para mim ou para eles? Temia este abandono. Constato neste
frio, que visto como casaco justo, que não é aterrador o medo ao ganhar corpo.
Só. Todos os que subornei com ternura, para que não me deixassem, estão
ausentes. Para quê o empenho? Acabarei sem pares. Coisa pequena. Comparo-o com
o braço direito que levanto e ainda há uma mão, com cinco dedos, na
extremidade. O mesmo constato com o esquerdo. O sexo permanece central e pulsa
quente, capaz de amar. Seria um último aceno assim o desejasse? Montava-lhes
uma cilada, no Trindade ali ao Largo e, antes que conseguissem negar-ma,
concretizava a despedida.
«ADEUS!»
Reparem como as minhas mãos se movem não obstante o vosso repúdio.
Que digo? Necessito que tomem conhecimento. Mover-se-iam estes membros? Noto
que vejo cada vez pior. Ao espelho confirmo uma espécie de névoa. Embacia-me as
córneas. Diagnostico-me: «Cataratas». Não as da anatomia patológica, antes o
que optei por não chorar. Décadas a estancar emoções. Acreditei-me capaz de me
proteger. Agi como se a existência pudesse ser traduzida em gargalhadas e nada,
a não ser secura. Tudo é angústia. Apresentar-me bem, a todas as horas, foi uma
farsa. Não mo perdoaram. Não há pachorra para os alegres constantes. Teimam em desconsiderar
conscientes ou ignorantes o incontornável. Todo o esforço é inglório. Façamos o
que fizermos: correcto, incorrecto, horrendo, belo, altruísta, avaro, seja o
que for… Morreremos. Andei no passo certo, marchei ao ritmo que me instigaram,
guardei o corpo como pertencendo a outrem. Num advento desencadeado por circunstâncias
que não sei precisar, baralhei-me dentro. Resolvi que era ao contrário. As decisões
tomadas como certas afiguraram-se ao lado. Identifiquei as atitudes benignas como
subserviência. O que julguei para meu bem, afinal, havia-me prejudicado. Não
era tarde. Detinha gana para me pôr de pantanas. Fi-lo sem contemplações. A voz
da consciência colectiva calara-se. Não tinha o propósito de trazer desgosto aos
meus, mas não podia persistir nas mentiras que me contava para poder viver a
vida dos normais. Repus o que, à data, considerava a verdade. Quem mais me
estranhou foram os que se acreditavam íntimos. Puseram o ar «compreendo-te»
mais competente, enquanto se afastavam. Desagradava. Era pela impostura que
nutriam sentimentos. Não cedi. É terrível o momento em que concebemos a
condição de sermos isolados. Tinha ido ao cinema ver um filme do pós-guerra.
Saí da sala com o filme sobre os ombros. Abracei a minha amiga Rita, pela
última vez. Conduzia até casa e verguei à orfandade. As mãos salgadas e húmidas
escorregavam no volante.
«Não há quem me salve?»
«Não há quem me salve!»
«Não há quem me salve.»
Saio para adquirir uma bengala. O sol nunca ilumina os meus
passos. A sombra é o caminho. A ilusão de ter gente era melhor do que isto.
Para quê a insistência em obter a verdade? Sou incapaz de a sustentar. Não há
memória pior do que a dos olhos que amamos aturdidos de desconsolo. Uma vez
feita a descoberta, não há retorno. São olhos espancados. Devolvia esta constatação
de merda, pudesse confortar aqueles olhos de mágoa postos em mim. Não me
compete a clemência.
«Como foste capaz? Por que quiseste agarrar tudo? Qual é o teu
limite? Não sabes parar?»
Desculpa. Não sei. Desconheço como fui capaz ou de onde vem esta
ansiedade de sentir o mundo em falta comigo. Esta consciência de que não há
fronteiras para a ambição que alimento sobre a minha passagem pelo planeta.
Descobri-o tarde e é incontestável. A dor que me derruba? Procurei-a. Sonhei
com ela. Desejei-a em oposição à dormência, ao contentamento que não consigo destrinçar
da resignação. Temo-a. Recuso a serenidade incompetente para me provocar, para
me demonstrar que dentro de mim há vida. Ninguém no-la ensina fora das
restrições impostas pela culpa, pelo medo, pelo conforto. Gostava que ma
tivessem dado pura e que as escolhas fossem, de facto, minhas. Pensei em mim,
pois. Havia de pensar em quem?
«Abdico por ti. Não me deixes.»
Soa tão mal a cobrança. Concordam? Ão…Ão…Ão… Hey?! Hey?! Hey?! Eco.
Enlouqueço. A solidão dá-nos para falarmos sozinhos e para escutarmos o abismo.
Dessem-me a possibilidade de me redimir e não o faria.
«Eis um botão mágico que anula as tuas acções classificadas, pelos
demais, como perniciosas.»
Não seria premido. Olhá-lo-ia com curiosidade, ante o que poderia
ser-me devolvido. Haveria de me deixar estar a mirá-lo. Não pretendo perdão
para o pecado. Busco, incansável, a origem da palavra. Quem ma semeou no
cérebro? Quem ma coseu aos músculos submetendo o instinto animal? Quem a
costurou nos olhos e nos tímpanos dos semelhantes? Que justificação há para lhe
causar dor tamanha? Vivemo-la e à humilhação, mais o ciúme. De quê? Porquê?
«Aceitas beber um café? A minha amizade. Esta partilha de
conhecimentos, gostos ou de indomáveis vontades?»
Um café. Metáfora simples para o nosso encontro. Sim. Tomar um
café, ferir quem amamos, deitar fora o que é sólido, contudo, brando. Vamos a
isso. Um café já nos instiga esta adrenalina, imagina o resto. Um almoço. Uma
tarde. Um pretexto qualquer. Dá-nos mais do que tira? Insistamos nisto até que
um se farte ou alguém denuncie. Há sempre quem esteja disposto a expor, para
não ser exposto. É certo que não de dará em simultâneo. Um há-de se saber
coisa. Objecto gasto, amortizado. O picante dará lugar ao amargo. Conjectura-se
o quanto terá valido o desvio. Poderíamos passar sem aquele café? Sem os risos-malícia,
o toque primordial? Por que não se recusou? Tantos podem ser os motivos para
dizer «não» como os que nos impelem ao «sim». Quem mede o impacto das
consequências? A que profundidade nos atingem? «Aceito tomar café.» O que tinha
dava-me tanto, mas não tudo. Nada lhe faltava. A carência era minha. No
primeiro «sim» ignorava o poder da matéria. Aprendi a calar, não a dizer, o que
quero. Ser capaz de me olhar, sem vergonha, é a conquista. Inábil para me acolher
qual ser imperfeito. O avanço da idade trouxe-me a capacidade de apreciar o deleite.
A maturidade, também. O entendimento de que a urgência apaga inseguranças e de
que todos andamos à deriva. O prazer sobreveio. Por que não fui capaz de aliar o
preceito à transgressão? Há os que mentem. Os que omitem. Imaculados não há. Há
quem vá beber a bica e quem a recuse. Suspeito que não seja o carácter o que as
demove. Há vencedores? Haverá condecorações suficientes para os dignos do céu?
Por que fere a busca de emoção? Como alcançá-la quando nos desconhecemos de
cor? Por que se adivinha apelativa uma pessoa estranha? Pode matar-me. Pode
convidar-me para um café, de sabor intenso, em chávena que queima. Podia dizer «sim».
Podia dizer «não». Podia provar-te tão-só com os lábios e aguardar que arrefecesses.
Podíamos ter fingido que não nos vimos. A inocência não torna. O quotidiano mata
e, no entanto, foi a ausência de uma rotina comum, a causa do óbito redigida na
certidão dos acasos. A determinada altura falha alguma coisa. Falha-se sempre.
O amor constrói-se no conforto da repetição. No nada também nascem exigências,
não haja ilusões neste aspecto. É a expectativa do colo falho. Daí não nos termos
amado? O desalento instalara-se. Era do nosso conhecimento. Prosseguíamos
obstinados, programados numa absoluta sincronia de infelicidade. Adoecemos.
Implodir soa aterrador e é mais fácil do que se supõe. No início, os próximos
simularam aceitar. A situação degradou-se ao notarem a minha falta de arrependimento
e que continuava a viver o que os dias me apresentassem. Lançaram-me acusações
rectas: Necessidade. Aguentar. Confiança. Lealdade. Correcção. Verticalidade.
Testemunhas. Integridade. Ética. Compromisso. Dever. Respeito. Doença. Em todos
os dias da vossa. Alegria. Tristeza. Votos.
«Não era feliz.»
«Que disparate! Alguém o é?»
Não havendo quem o seja, qual a legitimidade para a tentativa?
«Não podes ter tudo.»
Não se tratava de ter. Naquele momento não queria possuir.
Tratava-se, sim, de experienciar. De ser.
«Não te matei.»
«Teria sido melhor.»
«A tua vida não é minha.»
«Depositei-ta nas mãos. No coração. Era tua.»
«E tu? Que responsabilidade te resta sobre a tua própria vida?»
«Qual vida?»
Tornara-se claro que o diálogo se desenrolaria entre duas personagens
principais, uma vítima e uma culpada e as secundárias, os auto-proclamados júri.
Não tinha vontade de o prolongar. Não me definia como a primeira nem a segunda,
tão-pouco tinha talento para insistir na representação. Viu que se encontrava
sem contracena. Enraiveceu. Virou bicho ferido a dar coices na morte. Não o
terá feito com maldade mas foi hábil na persuasão daqueles que nos ligavam.
«E tu? Como estás? Como chegaste a este ponto?»
Silêncio. Afastamento. Não me perguntaram o que quer que fosse.
Procedera mal.
«Não existes.»
No início pareceu-me adequado que pagasse pelos meus actos. Depois
deu-me para pensar pela minha cabeça e percebi que me culpavam, sobretudo, por
arriscar. Por me pôr em causa e aos meus padrões então refutados. Deixava-os
inseguros e a questionarem-se sobre si mesmos. O que os impedia? A vontade
própria ou a do grupo? Era miserável e o coro não se reunia. Ninguém para se
preocupar com as minhas opções. Quando o sorriso se instalou no meu rosto, apareceram
os valorosos inquietos com o restabelecimento da paz e da ordem. A norma já não
me interessa. Os afectos, sim. Recuso o rótulo da leviandade. Capricho? Pode a
espontaneidade sê-lo?
«Antes de desapareceres, quero que saibas o quanto gostei do que
pude conhecer-te. Não apenas do teu corpo e da novidade que me trouxeste aos
dias. Naquela noite em que te desembaraçaste do meu abraço, com uma rapidez
desconcertante, não o interpretei como desprezo. Apiedei-me de ti e do teu
constrangimento. Deve ser triste não saberes o que fazer de um gesto puro.»
A liberdade tem um preço. Paga-se em anos de solidão. Aceitar é a
palavra mais enganadora. O que se costuma fazer é aprovar enquanto se nos
assemelha. O que escapa ao nosso entendimento merece-nos primeiro a estranheza,
depois a repulsa veemente, mais tarde descartamos as supostas diferenças, como
quem recicla o lixo. Que nos venham parar às mãos as embalagens apelativas,
porque as amachucadas não aguentamos. Parecem-se demasiado connosco.
O perdão há-de chegar, com a actuação do esquecimento próprio das
mentes humanas. Não darei por isso. Não tenho como regressar.
Na Rua, as pessoas assustam-me. Vislumbro vultos acelerados que me
ultrapassam ou se cruzam comigo, deslocando o ar ao meu redor. Desequilibram-me
sem me tocarem. É ameaçador o vaivém. Acredito que não me vêem. Pressentem,
talvez, um incómodo. Uma chamada de atenção que dispensam. Será unânime a noção
de que não presto? Comprei a bengala. Entorta-me o andar. Coxeio como se o
problema fosse nos ossos ao invés de o ser na visão. Não me vêem. Não vejo.
Chove, ainda.
Toc. Toc. Toc. Pic. Puc.
Tremo. Quantos minutos de desamparo me restam? Dezenas. Centenas.
Milhares. Consigo viver desta maneira, é evidente. A questão é: «Quero?» O que
faço desta total autonomia? A revelação transformou-se em banalidade. A
aventura já cheira a rotina. Não há como escapar. O proibido desvaneceu-se nas
próprias regras. A impressão de existir esbate-se.
Quase não vejo.
Quase não ouço.
Quase não falo.
Converso comigo, poucas vezes, como agora. Ando por cá sem
intervenção no meio. Comovem-me as saudades de certas pessoas. Sinto falta da
percepção do que é exterior a mim, proporcionada pelos outros. Apesar das
obrigações, das fronteiras e das morais impositivas. Falta-me um encaixe. Poderia
ser ilusório. Não há calor neste estado. Os sentidos perderam-se neste espaço
imenso que criei ao meu redor. Tacteio, na penumbra, o regresso à cama. O robe
estava pendurado no corrimão do prédio. A vizinha tem esse costume, com a roupa
alheia caída no seu estendal. Evita incomodar com campainhas. Voou enquanto
estendia a máquina de cores escuras. Em que dia? Tropecei nos chinelos a
caminho do quarto. Sento-me na cama. Apalpo a textura da colcha. Recordo-a
azul-marinho, com quadrados. Chego-me para o meio. É o ponto certo para erguer
os pés e me deitar equidistante da cabeceira e do fundo. O telefone toca com
susto. Atendo. Ouço, primeiro, alguém suspirar. É o tom da preocupação.
- Onde tens andado? Andamos doidos à tua procura.
Tenho a cabeça na direcção do espelho do guarda-fatos. O vulto defronte torna-se nítido. Sorri. Há afecto na imagem.
- Eu também.
De 14/01/2015 a 13/09/2015. Última revisão em 21/09/2015.
OBRIGADA POR
ME LERES.
Andreia Azevedo Moreira
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