quinta-feira, 24 de março de 2016

VII

Eu | escrevo.

Escrevi.

Crescendo com desentendimentos, quando me reconheci ímpar, no abuso, no primeiro dia de escola, nas paixões ingénuas e nas perversas, ao descobrir a traição dos que amei e as próprias, com a mesma facilidade, na tarde da decisão definitiva.

Escrevi.

Estava um dia de sol asfixiante. Suávamos. Apetecia-me um gelado. Fui até ao parque com a minha irmã. Levámos as bicicletas. Havia crianças a brincarem. Riam, empurravam-se para as caixas de areia, caíam perdidas de riso e eu desentendia o que se passava com elas. Divertidas. Porquê. Que argumentos se guardam para alimentar a ligeireza. Invejava-as. Tinha dezasseis anos e sentia-me pesada, velha nos olhos. Carente de qualquer coisa. Aproximei-me com o intuito de as envenenar. Dei três passos largos de punhos cerrados. Contive-me. Encarei Ivone. Os maxilares tensos. Comuniquei: “Não quero filhos.” Escarneceu da resolução, certa de que eu mudaria de ideias. Ela casou. Teve-os, aos quatro, de parto natural. Parideira-nata. Envelheceu mal mesmo sem rugas. Desistiu de ter vontades. Sorriso imposto ao rosto, inclinação fixa da cabeça “Não troco isto. Por nada.” O pescoço fraquejando. A coluna incerta. Passou à descendência amargura bastante para sobrar para as deles. Debatem-se para contentá-la errando sempre. Desconheço qual das duas a opção correcta. Somos infelizes. Eu livre, ela com compromissos para mais anos do que os que lhe restam. Do tempo que me concedi pouco tenho a apresentar. Ela desprovida desse luxo destino semelhante. Dois caminhos divergentes e o resultado tão parecido. As conversas entre nós azedaram, frustradas demais para nos suportarmos, trocámos acusações sem sairmos do próprio calçado. Agredimo-nos. Afastámo-nos, em simultâneo. Escrevo apesar do mutismo da tinta. Barro. Laranja, verde-claro, verde-escuro, branco-clara, amarela, branco-cheiro-maresia. Barro. Um lenço de pontas a atar em cruz. Saboreio o estrugido que embebe a pescada e o pão torrado isenta de preocupações com terceiros. Ela alimentava. Uma boca, duas, três, quatro. Sucumbia ao cansaço antes de saciar apetites. Rendeu-se. O seu universo distribuído por quatro rostos e a expressão tão distante quanto a da máscara com que dissimulo a alma. Ivone, uma fronteira de arame farpado. Nem o doce desta bola frita aplaca o sabor da sua ausência. Única pessoa a aceitar-me sem estranheza, mesmo nos dislates. Podia ler para ela uma tarde inteira. Acreditava se lhe contava “Eu escrevo” antes de haver uma página, uma frase, a palavra primeira. Alimentava-me da sua confiança. Choro termo-nos perdido. A quem dedicar as primeiras linhas com cor. Escreverei para Ivone. Sem aquela irmã, o percurso comum ou a resolução não poderia sair do Leonardo, neste instante, para comprar uma caneta. Comprá-la-ei. Decido. A caneta azul de bico macio desliza na folha, transparente. Escrevo. Prazer.

«Tenho-a.»     

Está escrito.



sexta-feira, 18 de março de 2016

«Quebrar a corrente» - VI - Donzília


Filha, neta, bisneta, trineta de pescadores, Donzília jamais olvidou a tragédia passada de boca em boca entre familiares e conterrâneos. Aninhou-se nos seus tímpanos desde a idade de juntar inconsequente consoantes e vogais. Contou-a aos filhos e aos netos. Dos quatro, Luís, o atento, seguiu como ela acrescentando e fazendo sua a desgraça à entrada da barra do 27 de Fevereiro de 1892. Tempestade gravada em todas as almas Poveiras. Mesmo nas ilesas, sem parentes afogados. Perderam-se cento e cinco vidas. O número brutal conhecido. Ritos fúnebres doridos. Lenços negros de desespero. As gaivotas aflitas em bando no céu condenador, ecoavam a dor dos que assistiam na areia nada podendo. As homenagens um pranto multiplicado. Das tragédias familiares a que mais os tocou foi a provação de Manuela.

Poucos recordam a história dessa menina casada com o amor primeiro, António. Durou uma nortada. Naquele Sábado o mar também lho levou. Restou no ventre o feto mirrado pelo desgosto, seco como se não se houvessem amado. Enxugaram as lágrimas e a tristeza renasceu esperança. Manuela viveu de acordo com as marés. Ia a casa pôr os assuntos em ordem para o caso de se dar o milagre. Nas horas de sol sentava-se na areia remendando as redes que alugava aos sobreviventes. As noites em claro passavam melhor porque havia que as encascar e entralhar as artes. Se o oceano plácido lho autorizava, embarcava em jangadas para a apanha do sargaço de ganchorra a postos, secundada pelos moços. Nos dias que sobejavam auxiliava outras mulheres com os barcos no bota-abaixo, pelos paus de sebo. Assim garantia a subsistência perigada pela partida derradeira do seu homem. Na areia ignorava a dormência das pernas, decorridas jornadas na mesma posição. Trazia-as vestidas da malha para a pesca da sardinha. O local da sua expectativa era o ponto onde começava o imenso. Os seus calcanhares fendidos como troncos de árvores antigas eram insensíveis às carícias das águas no Verão. Nas marés cheias de Inverno molhava-se até à cintura. Enregelada permanecia no posto até ao sol-pôr. Tchópa de traços fortes. Sobrancelhas carregadas, nariz redondo, cova no queixo, falatório franco. Mãos calosas de artesã. O lenço claro na cabeça contrastava com o castanho-escuro da melena oculta e com o luto apropriado. Soltava o cabelo para António. Cascatas caíam-lhe nas costas onde ele mergulhava olfacto, desejo, o corpo inteiro. Manuela passou a vestir camisa negra abotoada até ao pescoço e a mesma pobre saia escura rodada desnudava, apenas, pés e tornozelos. Promessa nenhuma. Nunca mais se lhe viu a melena manta. Impressionava a postura magoada da espera de viúva na praia. Os braços prendiam as pernas suporte para o estômago sem préstimo. Como haver digestão em carência tamanha. A garganta estreitada perscrutava o fim do mundo. Almejava a devolução do nobre sustento do corpo e da alma. O impossível. Os anos passaram numa alternância de labor e obcecação. O terço nas mãos postas em descanso. Ao seu lado depositava um cesto com o que António comia com mais gosto. Por mais fome que tivesse a merenda mantinha-se intacta. A pilha de comida decomposta aumentava, a cada crepúsculo, por cima do local onde enterrara a camisola que tricotara para o noivo, perto dos aprestos acomodados no quintal estreito. As traseiras da sua casa na colmeia fediam. O rosto crestado de Manuela quebrou-se caído o último dos trinta e dois dentes. Os olhos, contudo, mantiveram a vivacidade das horas de António quarenta e um anos antes. Terminou o conserto da rede ao cair da noite. Para acertá-la foi necessário, primeiro, abrir buraco maior. Cortou as pontas que atrapalhavam. Então, começou o trabalho paciente. Pegou numa malha com a agulha de madeira e deu dois nós. Um por dentro do outro. Cada nó no seguimento do anterior. Uma recta. Havendo meia malha melhor. Mais dois nós. Um, dois. Por dentro. Voltou atrás. Repetiu o procedimento. Nó com nó. Um, dois. Fechou a falha da rede, deu por findo o dia. Extenuada acolheu nos antebraços as coxas flectidas. Enrolou o dorso. Fechou por segundos os olhos. António veio. A espuma revolta reclamou-a.
Donzília adormece sobre o computador.

quarta-feira, 9 de março de 2016

V - Teresa S.



No dia da cobardia maior investi-me de toda a coragem. Vinte e um de Fevereiro triste. Estreei o “não”. Havia de acontecer contigo a quem desejei pelo toque dos olhos, primeiro, da pele depois. Experimentei todos os tipos de dependência. Restava a intelectual. Identifiquei o momento de parar. Lamento perder-te antes do princípio e que me julgues fraca ou encares esta fuga com a altivez dos convictos. Massacro-me pela citação do Buarque. Perturbada, não te ouvia. Coloco a Futuros amantes na lacuna para me relembrar que nos tocámos. Tu enorme e eu minúscula numa sintonia qualquer. Isolados das restantes cidades do mundo. Embatemos tontos: ombros, braços, coxas. Dançámos naquela calçada, rodeados. Ninguém além de nós o compreendeu. Como imaginar-me eleita entre as pessoas interessantes que te sobrevoam. Imperceptível, ao início, as tuas mãos em todo o lado buscando as minhas. Subestimei o teu sorriso pedinte. Incrédula e avançavas determinado, tempo nenhum a perder. Achei-me nua na tua frente antes de me despires. A certeza de me teres na tua cama, minha também, sacudiu-me. Impediu-me de avançar. Abandonar-te antes de ser enjeitada, a solução única convincente. Fugir antes de ler o meu coração partido pela tua intempérie. Irónico. Eu descrente do amor, das paixões irremediáveis, a proteger-me do devaneio. Passo o fingimento de poeta. A vontade insensível ao que levo debaixo da pele. Dispenso a classificação aritmética. Quantos dígitos no somatório. Recuso a aprendiza idólatra. Preciso descortinar se anseio o teu sexo, a tua saliva, o teu cheiro ou me importa o intelecto, as criações, a tua importância. Deve amachucar quererem-te por seres o Eminente E.. O que se apaga no teu íntimo. Será que te asseguras sobre as ambições de quem te permite a aproximação feroz, sem argumentos que te dêem a conhecer quem tens defronte. Da púdica guardo pouco. Não se trata de proteger honra nem de romantismo ou sensatez. Amor-próprio, claro. Exigir o conhecimento da biografia com que te misturas na partilha da intimidade e que dês a conhecer as partes invisíveis da tua. Não me importo com um amante furtivo, de me esconder, nem de haver um prazo limitado para amar. Faria pouca diferença limpar as marcas da tua passagem no meu corpo a cada colisão. Os relacionamentos amorosos, casos de vida maior, morrem como tudo o que pulsa. Isto é a biologia. Aqui a conversa é sobre profundidade. Nada importante se despacha com tanta leveza. Terminou a sessão e avançaste para fora do auditório. Um ténue sinal para te seguir sem necessidade de me orientares. Entrámos no elevador onde te senti no pescoço, nas costas, nas nádegas, na parte anterior dos joelhos. Os nós das tuas mãos encaixaram-se nas minhas. Um corredor labiríntico, a porta ímpar no piso empestado de alcatifa. Agi por impulso. Dei passos-âncora de respiração alterada. Virei-me para os teus olhos. Agarraste-me a nuca. Com os polegares desenhaste os meus lábios. Molhaste-os.

«Até depois».

Recuei antes do beijo que firmasse a tua na minha boca. Podíamos ter sido os melhores, juntos. Fracassaríamos. «O odor da tua transpiração excita-me.» Fica por dizer. No dia da coragem maior investi-me de toda a cobardia.     

- Afinal preciso que me deixe na Rua Dr. Leonardo Coimbra, por favor.

- Tem bilhete para regressar?

- Sim. Não se preocupe. Não me esqueço do seu cuidado. Obrigada!

- Quer que mude a música, entretanto?

- Deixe-a cantar. Soa tranquila.

- Vou dar-lhe um cartão com o nome. – Reforça. – Teresa Teng. Tian mi mi. Ouça também o For the good times, cantado pelo Kris Kristofferson. É formidável.

- Obrigada. Voltarei a eles noutra altura.

Reparo na camisola branca do condutor repleta de símbolos bordados a vermelho e a preto. Uma espécie de código em ponto de cruz. Pitoresca, díspar das camisolas quentes a que estou habituada. Inspira identidade. O Eminente E. havia de a descrever tal como existe e quem o lesse teria imagem própria e precisa dela. Eu falho. Somos separados. Nunca estivemos para acontecer. Pago a corrida. Saio do carro. Retiro a mala com dificuldade.

- Leve o cartão.


 




























terça-feira, 8 de março de 2016

IV - «Ademar»

                                                                                                                                                         
Na rotunda intersecção da avenida do descobridor com a do Repatriamento dos Poveiros, no percurso diário para o meu lugar burocrático, um touro de bronze relembra a glória diminuta dos actos divisores. Gosto de parar defronte olhando as gentes da terra e do mar unas, combativas, abnegadas, fortes. Trabalhadoras. O meu destino, hoje, será diferente. Passo por lá como alguém descobrindo, na bússola, o Norte. Sou poeta. Digo. Sou poeta e entrego um cartão a mulheres sedutoras. De um lado o meu contacto, no verso uma rima. Esta manhã, no Auditório Municipal, cruzei-me com ela. Vem de longe. Notei os modos distintos. Denunciou-a a forma de se mover, antes de lhe ouvir palavra. Estudei-a afastado. Nervosa em gestos repetitivos de confirmação. Verificou a mala, ajeitou o cabelo curto, a franja. Compôs o vestido verde-rubi. Subiu recatada a meia esquerda, quase até ao glúteo. Olhou para o pulso direito à exaustão. De ora em vez, fixava-se nas pessoas que se juntavam nas imediações. Retirava um caderno azul A4, com argolas brancas em espiral, anotava e devolvia-o à carteira. Aproximei-me para me apresentar. É muito bonita quando aguarda. Sorriso. Propus-lhe que nos sentássemos próximos, na Mesa seguinte. Informei-a da folga dada ao relógio de ponto, para me dedicar às Correntes. Dou-lhe a conhecer parte da cidade, no intervalo para o almoço, acaso queira. Fez pouco caso, riu e afastou-se delicada, mal pôde, num trejeito tão doce que me não agrediu a recusa. Não me demovo. Hei-de vê-la nas sessões porvir e se me apetecer falo-lhe outra e outra vez, até que amoleça ou aceda a dar-me atenção ou. Gosto de conversar, tanto como de fêmeas belas e, com isto, não quero dizer irreais. Esta foge dos cânones mas revela qualidade atraente e rara: Autonomia. Intuo apetência para a rebelião por detrás do porte impassível. O que faz esta solitária a quilómetros de si. Parece de gelo e é lume daqueles em que um homem se queima e desfigura, para sempre. Careço de esperança mas ajo com ludibriante jovialidade, por isso me levam na brincadeira. Esta, exemplo comum. Desconfiada, rindo em excesso do que lhe disse. Desacreditando a intensidade colocada nas palavras proferidas. Escarneceu da disponibilidade que demonstrei para me revelar. Vontade de a ferir pela ideia preconcebida que faz dos homens. Não entendo. Audaz e um gesto simples, como a confidência trocada entre estranhos, tamanho constrangimento. Encolheu-se amedrontada, esquiva. Deu passos pequenos atrás. Pressenti a intenção de me deixar sozinho. No princípio da repulsa saí de cena. Despedi-me com vénia afantochada. Adoraria ouvi-las rir por bons motivos. Cócegas que lhes fizesse com os cabelos na epiderme dos adutores. Queixume useiro. Na plateia observei-a ávido de olhos postos no Eminente E.. As mãos tremiam-lhe alvas, geladas. Dava tudo para ter impressões digitais daquelas a percorrerem-me voluntariosas. Não suspeitou ou mostrou-se indiferente a que a espiasse. Terá anotado o que ele disse ao detalhe. Escrevia a velocidade incrível sem verificar o redigido. Era retribuída na intensidade. Num auditório esgotado torna-se difícil aferir quem vêem os convidados. Olhos atentos atestariam a conexão. Quanta raiva dele. Há pessoas-facilidade e, outras, infortúnio no esforço. Terá havido mulher a valorizar a minha poesia. Releio os versos, inepto para desvendar a insuficiência de que padecem.

Insisto.









segunda-feira, 7 de março de 2016

III - O taxista feliz

Joaquim M. Sousa taxista poveiro nasceu em 1970, ainda a Cidade não o era. Filho de Filomena M. de Vila do Conde, costureira e de Cristóvão F. Sousa, outrora também taxista, nado em casa na freguesia de Laúndos com o auxílio da parteira Amélia. Residem juntos, na Praça do Almada, num edifício perto da intersecção com a Rua dos Ferreiros. Joaquim assegura o negócio de família desde a trombose do pai, primeiro da sua geração a recusar-se a andar ao mar. Mudo e cego, a audição manteve-se intacta bem como as pernas ossudas que o carregam arrastado, pelas divisões da casa. Raspa os braços nas paredes de areia. Vão-se fazendo rubras. Filomena M. trata do marido. O filho encarrega-se de ambos. Havia a namorada, Luísa. Detestava os sogros e aproveitou para não regressar, numa tarde de divergências. Joaquim brando, conciliador «Não merecia.» Criticou a vizinhança desancando a moral da pequena deslocada, após a separação, para Matosinhos. Exigiu respeito pela mulher querida e intimou a suspensão dos boatos sob pena de se remeter ao silêncio. Acederam a cochichar nas suas costas, por ser consentâneo aos respectivos feitios e porque a bonomia do condutor fazia diferença. Os óculos de Joaquim aferem mal a sonsice. Aparentam estar intactos à custa de metros de rolos de fita-cola. Ele tem um aspecto alheado sem correspondência à realidade de indivíduo atencioso com quem o rodeia, clientes habituais e desconhecidos. Quem chega ou pretende partir de Metro habituou-se a que, na Almirante Reis ou nas imediações, seja garantido apanhar o táxi do Sousa. Desiludem-se se o vêem passar com o “Ocupado” aceso. A sua conversa cativa, a gargalhada fácil contagia e as sugestões musicais além de desconcertantes são memoráveis. Formam melómanos. Nesta tarde de Inverno, planeia terminar a jornada antes de anoitecer. Engraçou com uma rapariga e quer convidá-la para conversarem, num sítio calmo. Teresa S. entra na viatura em estado deplorável, colocada a pequena mala azul de rodinhas na bagageira. Há-de dificultar-lhe o cumprimento do horário. O taxista adopta várias estratégias, para fazê-la falar. De início o usual: A meteorologia, a televisão, a política e tema nenhum surte efeito. A comunicação está bloqueada. Passa pelas redes sociais e pelos pontos de interesse da cidade e obtém monossílabos incompreensíveis. Ao sugerir Teresa Teng e a sua canção Tian mi mi a rapariga informa, entre soluços, ter o nome próprio da cantora sendo engraçada a coincidência de lhe dar a conhecer música oriental. Cresceu em Macau. Incapaz de sorrir pede as maiores desculpas. Ele vai tranquilo, habituado a ouvir quando necessário e a falar se o impulso lho suscita. Neste caso sente-se perdido. A cliente oculta as pistas sobre a preferência. Mantém o queixume despudorado expondo lágrimas e tremores, ao contrário dos inseguros.      

 

sexta-feira, 4 de março de 2016

II - Ele

                                                                                                                                                                   
Ruge.

«Tardaste.»

Ensurdecedora a saudade instalada nos meses de afastamento. Regresso desde a primeira edição. Revolve-se sobre si mesmo indignado. A espuma beija-me o rosto. Não dou explicações do que tenho a fazer além do amor.

«Estou aqui.»

Aproxima-se devorando areia. Quase toca a ponta dos meus sapatos negros. É da sua natureza chegar perto dos homens. Insiste no amuo. Eleva-se para desabar numa voragem. Amo-o na fúria.

«Demorar-me-ei pouco, aqui. Quero assistir ao instante primordial.»

«Fica. Quem és, lá?»

«Vou. Não posso viver de azul, do sabor do teu sal, no estado líquido. Sou de todos os lugares.»

Recolhe as vagas enraivecido. «Se amas, por que te ausentas?»

Fixa-se no horizonte, linha pesada. O céu cinzento-escuro prenuncia os segredos de ambos. Guardo-os discreta. Ninguém nos assiste ao desencontro. Inauguro um abraço manso mas a inquietação mantém-se. Subo ao murete e acelero ao longo da Marginal. Menosprezo consciente o escasso espaço para os pés. Desequilibro-me. Do chão observo o firmamento. Levanto-me inteira e continuo a marcha pela ciclovia. Há poucos ciclistas nesta altura do ano. Aí vem um. Encara-me de olhos azuis questionadores e cabelo comprido. Relembro o italiano por quem me enamorei em adolescente e a quem entreguei a minha camisola preferida, reminiscência da história fugaz que vivemos. Ter-me-á visto. Baptizo-o: Veracini. Adoro distribuir nomes pelas pessoas com quem me cruzo. Estou tranquila. Vinte e três são os minutos previstos até ao Casino. Ele acompanha-me no ombro direito, rebenta esclarecedor. Tenta dissuadir-me. Deixo-o na praia da Redonda. Para trás, mil e novecentos metros percorridos e os edifícios que o guardam: o Estádio, o Hotel A-Ver-o-Mar, o Carvalhido, o Bar com nome de marujo, o Guardador do sol, o Enseada. A zanga dele não é ciúme por isso a relevo. A preocupação enternece. Avisto o edifício amarelo esmaecido a encher-se de passos, júbilos e reencontros pela escadaria. Noto cumplicidades e implicâncias. Depois de dezassete anos são afecto. Anseio pertencer. Basta-me estar. O auditório silencia-se. Sou fantasma benigno entre os que nunca darão pela minha presença. O homenageado fala para a audiência de ouvidos alfabetizados e reverenciadores. Irrequieto avança no palco gesticulando. Distribui tesouro confiado ao futuro. Passá-lo-emos de leitor em leitor. Escutei-o com atenção e às palavras ambulantes. Aprendo com ele a paciência. São necessárias a espera e a frustração. O desnorte. A dor. Sim, a dor imensa. Pressinto que me avista do palco. Um vislumbre. Intuição. A loucura?  
  
«Te enxergo. Estás aí no meio da multidão de cadernos pretos de cantos arredondados. Nada te distingue.» Faltou-lhe rebater a declaração. Ansiava um «contudo» inconcebível. Nada me diferencia de facto. Posso ser jornalista ou crítica. Mirone, perseguidora, leitora, desempregada com tempo a sobrar nas palmas. Interesseira. Aduladora. Convicta de escrever, não acrescento. Componho narrativas imperfeitas quase engraçadas, distantes de serem «Justas.» Dir-me-ia. Experimentei um piparote no ombro do espectador defronte. Olhou para trás de viés e como não achou o que o incomodara voltou-se, de novo, para as palavras do peripatético. Deixei cair a caneta aos pés do anotador ao lado. Nem se moveu com o peso de uma cabeça no colo. Molhei-o de desalento. Sacudiu as calças, desconcertado e movimentou-se com vigor adicional. Motivada e imaginativa questiono-me. Quantos abismos de papel a transpor. Rodeio-me dos que trabalham, deveras, atribuo à má sorte os fracos resultados. Remeto-me ao silêncio. Quem me quer ler nas entrelinhas do que omito. Falta-me o quê. Admito que em data indeterminável secou a tinta desta caneta que estimo sem eu ter alinhado três parágrafos. Usava-a para tópicos, citações de terceiros e listas de supermercado: Uma garrafa de vinho branco; Tostas tradicionais estaladiças; Um queijo Camembert; Um sabonete; Um maço de tabaco; Preservativos. Comovo-me com caixas coloridas. Compro-as sem lhes dar uso. Quem deseja copular com a falência. Colecciono canetas inúteis, moleskines-promessa, embalagens de sexo-mais-que-seguro e reúno ilusões. Erro transparente. Um assobio. A brisa nos dias de calma. Alcanço na saída a revista oferecida aos fiéis e meto-a debaixo do braço. Imagino-a na estante no anexo pequeno onde habito, no sótão do n.º 1308 à Ajuda. Finda a solenidade precipito-me para o exterior. Saltito como as crianças em pulos elevados e amplos. Passeio alegre na direcção da praia. Leve. Esclarecida. Ele aguarda-me furioso.

«Por que te submetes?»

«Hum

«Por que te preocupa darem por ti?»

«Ah. Amar é isto mesmo de te colocares em risco. Dares o peito à seta de quem empunha a besta engatilhada. Com confiança. Não o farias? A maior parte das minhas horas são paralisia. Careço da tua intrepidez. Resta-me expressar na redacção o rebentar das ondas como as tuas. Ondas importantes. Ondas que inundem.»

«Escrever? Combinar palavras?»

Forma-se coluna vertebral gigante a meia milha de mim. Levanta-se numa gruta ameaçadora.

«Sabes quantas pessoas se sentam aí, alheadas como tu? Sonham e a realidade enganadora. Alguns mergulharam na intenção de não regressarem. Pediram-me que os engolisse. Concordei. Os delírios pesam. Não te quero devorar. Amo-te. Conseguiria mentir. Opto por assegurar: És somente um corpo que flutua.»

«Também tu?»

Procuro um restaurante para almoçar não para fugir da chuva nem pela sede ou pela fome, incomodam pouco, antes para rever o bloco dos romances porvir. Inquieta-me a esferográfica bordeaux inactiva. As redacções calcadas no papel, meros lamentos do que pensei. Hei-de reler os sulcos gravados com risível firmeza. Incómodo. Escrevo para quem. Talvez a tinta seque para me poupar à incompetência. Deverei desistir de enganar com a verdade.

«Compra uma.»

«Esqueci-me da carteira no hotel. O dinheiro à recta para a refeição ligeira antes das mesas da tarde.»

«Tens um telemóvel de última geração e o portátil na mochila. Para quê a obsoleta esferográfica?»

«Obsoleta? É-o o coração? O cérebro?»

«Excentricidades. Quem escreve à mão?»

«Eu escrevo.»

«Cala-te. Confessaste-mo: secou há dias. Anos?»

«Tenho vivido.»

«Este tempo todo? Tens a certeza?»

«O necessário para passar o teste do desejo.»

«Desejo?»

«Permito a combustão do entusiasmo e busco possibilidades nas cinzas.»

«Soa a adiamento.»

«Comprá-la-ei.»

«Acreditarei, assim declares: Tenho-a


 Andreia Azevedo Moreira
Novembro-Dezembro de 2015
«Quebrar a corrente»




quinta-feira, 3 de março de 2016

I. Virgínia

                                                                                                                                                       
Eça de Queiroz nasceu nesta cidade a 25 de Novembro de 1845. Uma frase autobiográfica célebre: «Sou um pobre homem da Póvoa de Varzim». A criação mais vezes citada: «Os Maias». Virgínia desconhece as origens do escritor e, da sua obra, leu o título mencionado. Alta, esguia, lívida. Mãos grosseiras, dedos de anéis de prata e pulseiras de conchas nos pulsos e tornozelos. Brincos gritantes. Cabelo crespo demasiado comprido e saias reduzidas, em exagero, para a velhice. Comentam. A sua figura denuncia infantilidade. A renúncia em assumir-se ultrapassada. Chamam-lhe a senhora das rimas com alguma desconsideração. Assídua familiar volvidos anos desde a primeira vez. Baralha-se com a gramática. O apreendido na instrução primária é sussurro e coloca as vírgulas, leviana, onde lhe apetece. Rouba displicente os sentidos às ideias a expressar. Alfabetizada: Predicado a atribuir-lhe no domínio das Letras. A cronologia cilindrou o seu corpo gasto, descaído, desprovido de fulgor. No íntimo desconhece estes pormenores. Absoluta ignorante a Filosofia, Francês, Grego e Latim, alimenta fantasias desde garota sem que alguém a tenha demovido. Na verdade ninguém tentou e com ela cresceu aquela convicção inabalável como a fé em Deus dos crentes. Publicou palavras invisíveis em variadas edições de autor. ISBN soa-lhe bem e é fácil adquiri-lo. Todos os livros são reproduções dos seus manuscritos com páginas em branco. As capas anunciando o deserto. Quem esforçar bastante a vista talvez intua os sulcos dos documentos originais, criados com a imprestável Parker bordeaux. Assemelham-se a palavras casadas nas frases da sua imaginação. Assegurá-las é a boa vontade de quem tema contrariar a insensatez. Virgínia não constituiu família nem acumulou poupanças ou gatos. O que a sintoniza com a existência são as obras dos «Colegas». Procura-os para os autógrafos que reúne como a retratos de família. Aproveita as oportunidades para lhes oferecer exemplares dos seus com dedicatórias. Sorriem constrangidos e aceitam por piedade ou receio. Nunca foi internada na medida em que se manteve funcional. Ninguém se preocupa com ela ao ponto de poupá-la. Falta quem a proteja ou ataque. Vento fraco incomoda, despenteia pouco.

Passa.




quarta-feira, 2 de março de 2016

QUEBRAR A CORRENTE

No dia 03-11-2015 soube que haveria nova edição do Prémio Literário Fundação Dr. Luís Rainha. Decidi concorrer, tal como decidira no ano anterior e desistira para ter mais tempo para pensar a trama. O que idealizei que havia de ser um ano de escrita (foi esse o pressuposto da desistência) revelou-se, pelo adiamento que cultivo amiúde, resumido a dois meses. O prazo terminava a 31-12-2015. 

Desde o dia em que o anúncio do prémio foi feito, até ao dia 28-12-2015 empenhei a alma no desafio que me impus. Dei tudo o que tinha. Fiz o melhor que pude com as circunstâncias que são as minhas (trabalho durante o dia e em casa, tenho dois filhos pequenos e amigos que adoro) daí que, embora tenha noção que muito mais podia ter feito, foi o que apresentarei nas próximas semanas aquilo de que fui capaz. Saiu-me do pêlo. Arranjei um problema no estômago cujo desenlace ainda não vislumbro. Esgotei-me na tentativa. Ainda me sinto a recuperar desse cansaço. 

Valeu a pena. Orgulho-me do pouco que fiz. Escrevi todos os dias com excepção do dia de aniversário do meu filho mais velho e da véspera de Natal. Nos dias úteis das 22h às 00h. Aos fins-de-semana madrugada adentro, com os clamores das crias a despertarem-me parcas horas depois da última palavra, dessa noite, inscrita. Espero que encontre alguém a quem as palavras falem. Só assim se completa este amor. Obrigada aos que me lerem. 

Haverá papelinhos com excertos pela Rua como tem havido com os restantes contos, desde o dia 08-03-2013.   

Uma nota final. Neste texto imprimi a libertação definitiva sobre a legitimidade que me reconheçam ou não para escrever (Fá-lo-ei até ao fim, sem necessidade de enunciação sobre o que sou.). Trata-se do meu singelo tributo à Literatura que me salva e aos dias alegres que tenho passado na Póvoa de Varzim, desde a primeira vez em que estive nas Correntes D'Escritas (2012) e é, claro, ficção.

Dou os parabéns ao Vencedor. Senti ter sido bem entregue o prémio. Fiquei feliz com ele como se fora comigo.

Amanhã, aqui, à mesma hora. O primeiro conto de «Quebrar a corrente».

Aquele abraço.














quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

DAR PALAVRAS

Este blogue encontra-se em construção. 

É a reprodução do que ficou registado na página do facebook em www.facebook.com/andreia.azevedo.moreira desde 08-03-2013.

Uma vez que consiga colocar aqui toda a informação, passará a ser este o meio preferencial de registo da minha demanda.

PROCURO LEITOR.

ÉS TU?

(OBRIGADA POR ME LERES.)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Caio em mim. Ele já tem consciência do que eu faço. Quanta responsabilidade.


- Mãe, tu deixas os teus papéis em muitos 

sítios para as pessoas lerem?


- Sim, Amor.


- Ah...

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

sábado, 17 de outubro de 2015

Exercícios

TEMA: LIVRE

A - Ando
C - Contigo
I - Impressionada
P - Pelo
O - Olhar

TEMA: ACIDENTE

A - Andava
C - Cansada
I - Irascível
P - Premi-
O - o


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

«JULGAMENTO»



Chove lá fora. Ouço as gotas baterem no plástico dos estores. Toc. Toc. Toc. Pic. Puc. O despertador falhou. O sol não encontrou caminho nas frestas, nem ouço os passos apressados dos saltos altos da vizinha. Acordei com frio. Há quantas horas me destapei? O robe «bordeaux» caiu da cama para lado nenhum. Procuro os chinelos com os pés gelados. Espreito para debaixo da mesa-de-cabeceira, de mim. Não estão. Tremo. Dirijo-me ao quarto de banho e meto-me na banheira. A água tarda em aquecer. O morno nunca consola. Limpo-me a uma toalha branca que esqueci. Todos os atoalhados desta casa são de cor garrida. Pelo menos, pensava serem. Sou desconforto. Regresso ao quarto para escolher o que vestir. É o possível. A roupa escondida. O mundo não acordou, como alguém que me gritasse: «Estás só.» Tento situar-me. É fim-de-semana. Foram quatro os telefonemas sem resposta. Onde me apetece ir? Agarro, instintivamente, na trela e deixo-a cair. O tic tic tic das unhas, no soalho de madeira, cessou há muito. «Só.» Quanto peso numa palavra tão pequena. Duas letras, um acento estridente a empurrar-me a cabeça para os joelhos. A coluna arqueada. As pernas encolhidas. O estômago sem lugar. Para onde foi a ilusão dos que me povoavam?

Aquele dia?
O instante?
Uma confidência?

Condenação. Creio que houvesse confiança na sua justiça, porém, surpreendeu-me a unanimidade. Guardava fé na empatia. No ser possível colocarem-se no meu lugar, ainda que no final não déssemos os mesmos passos. Claro que nunca a pratiquei. Acontecesse com Sofia ou com Marcelo, os intocáveis? Até o Lopes desistiu de me visitar e era dos que não podia falar descontraído. De que vale mover-me, fazer o que quer que seja, não tendo para quem? Que legitimidade atribuir aos movimentos involuntários dos pulmões e do coração? Apenas eu assisto ao seu milagre. Não tenho respostas nem ânimo para me matar. Como me defino? Pelo que fiz? Dou razão aos que se afastaram numa obediência de exército? É importante o que penso, se todos se recusam a ouvir-me? Imagino que habitava um daqueles lugares em que as questões se resolvem com uma massa indiferenciada de gente a massacrar uma amálgama de tecidos, outrora organismo humano. Teria sido melhor para mim ou para eles? Temia este abandono. Constato neste frio, que visto como casaco justo, que não é aterrador o medo ao ganhar corpo. Só. Todos os que subornei com ternura, para que não me deixassem, estão ausentes. Para quê o empenho? Acabarei sem pares. Coisa pequena. Comparo-o com o braço direito que levanto e ainda há uma mão, com cinco dedos, na extremidade. O mesmo constato com o esquerdo. O sexo permanece central e pulsa quente, capaz de amar. Seria um último aceno assim o desejasse? Montava-lhes uma cilada, no Trindade ali ao Largo e, antes que conseguissem negar-ma, concretizava a despedida.

«ADEUS!»

Reparem como as minhas mãos se movem não obstante o vosso repúdio. Que digo? Necessito que tomem conhecimento. Mover-se-iam estes membros? Noto que vejo cada vez pior. Ao espelho confirmo uma espécie de névoa. Embacia-me as córneas. Diagnostico-me: «Cataratas». Não as da anatomia patológica, antes o que optei por não chorar. Décadas a estancar emoções. Acreditei-me capaz de me proteger. Agi como se a existência pudesse ser traduzida em gargalhadas e nada, a não ser secura. Tudo é angústia. Apresentar-me bem, a todas as horas, foi uma farsa. Não mo perdoaram. Não há pachorra para os alegres constantes. Teimam em desconsiderar conscientes ou ignorantes o incontornável. Todo o esforço é inglório. Façamos o que fizermos: correcto, incorrecto, horrendo, belo, altruísta, avaro, seja o que for… Morreremos. Andei no passo certo, marchei ao ritmo que me instigaram, guardei o corpo como pertencendo a outrem. Num advento desencadeado por circunstâncias que não sei precisar, baralhei-me dentro. Resolvi que era ao contrário. As decisões tomadas como certas afiguraram-se ao lado. Identifiquei as atitudes benignas como subserviência. O que julguei para meu bem, afinal, havia-me prejudicado. Não era tarde. Detinha gana para me pôr de pantanas. Fi-lo sem contemplações. A voz da consciência colectiva calara-se. Não tinha o propósito de trazer desgosto aos meus, mas não podia persistir nas mentiras que me contava para poder viver a vida dos normais. Repus o que, à data, considerava a verdade. Quem mais me estranhou foram os que se acreditavam íntimos. Puseram o ar «compreendo-te» mais competente, enquanto se afastavam. Desagradava. Era pela impostura que nutriam sentimentos. Não cedi. É terrível o momento em que concebemos a condição de sermos isolados. Tinha ido ao cinema ver um filme do pós-guerra. Saí da sala com o filme sobre os ombros. Abracei a minha amiga Rita, pela última vez. Conduzia até casa e verguei à orfandade. As mãos salgadas e húmidas escorregavam no volante.

«Não há quem me salve?»
«Não há quem me salve!»
«Não há quem me salve.»

Saio para adquirir uma bengala. O sol nunca ilumina os meus passos. A sombra é o caminho. A ilusão de ter gente era melhor do que isto. Para quê a insistência em obter a verdade? Sou incapaz de a sustentar. Não há memória pior do que a dos olhos que amamos aturdidos de desconsolo. Uma vez feita a descoberta, não há retorno. São olhos espancados. Devolvia esta constatação de merda, pudesse confortar aqueles olhos de mágoa postos em mim. Não me compete a clemência.

«Como foste capaz? Por que quiseste agarrar tudo? Qual é o teu limite? Não sabes parar?»

Desculpa. Não sei. Desconheço como fui capaz ou de onde vem esta ansiedade de sentir o mundo em falta comigo. Esta consciência de que não há fronteiras para a ambição que alimento sobre a minha passagem pelo planeta. Descobri-o tarde e é incontestável. A dor que me derruba? Procurei-a. Sonhei com ela. Desejei-a em oposição à dormência, ao contentamento que não consigo destrinçar da resignação. Temo-a. Recuso a serenidade incompetente para me provocar, para me demonstrar que dentro de mim há vida. Ninguém no-la ensina fora das restrições impostas pela culpa, pelo medo, pelo conforto. Gostava que ma tivessem dado pura e que as escolhas fossem, de facto, minhas. Pensei em mim, pois. Havia de pensar em quem?

«Abdico por ti. Não me deixes.»

Soa tão mal a cobrança. Concordam? Ão…Ão…Ão… Hey?! Hey?! Hey?! Eco. Enlouqueço. A solidão dá-nos para falarmos sozinhos e para escutarmos o abismo. Dessem-me a possibilidade de me redimir e não o faria.

«Eis um botão mágico que anula as tuas acções classificadas, pelos demais, como perniciosas.»

Não seria premido. Olhá-lo-ia com curiosidade, ante o que poderia ser-me devolvido. Haveria de me deixar estar a mirá-lo. Não pretendo perdão para o pecado. Busco, incansável, a origem da palavra. Quem ma semeou no cérebro? Quem ma coseu aos músculos submetendo o instinto animal? Quem a costurou nos olhos e nos tímpanos dos semelhantes? Que justificação há para lhe causar dor tamanha? Vivemo-la e à humilhação, mais o ciúme. De quê? Porquê?

«Aceitas beber um café? A minha amizade. Esta partilha de conhecimentos, gostos ou de indomáveis vontades?»

Um café. Metáfora simples para o nosso encontro. Sim. Tomar um café, ferir quem amamos, deitar fora o que é sólido, contudo, brando. Vamos a isso. Um café já nos instiga esta adrenalina, imagina o resto. Um almoço. Uma tarde. Um pretexto qualquer. Dá-nos mais do que tira? Insistamos nisto até que um se farte ou alguém denuncie. Há sempre quem esteja disposto a expor, para não ser exposto. É certo que não de dará em simultâneo. Um há-de se saber coisa. Objecto gasto, amortizado. O picante dará lugar ao amargo. Conjectura-se o quanto terá valido o desvio. Poderíamos passar sem aquele café? Sem os risos-malícia, o toque primordial? Por que não se recusou? Tantos podem ser os motivos para dizer «não» como os que nos impelem ao «sim». Quem mede o impacto das consequências? A que profundidade nos atingem? «Aceito tomar café.» O que tinha dava-me tanto, mas não tudo. Nada lhe faltava. A carência era minha. No primeiro «sim» ignorava o poder da matéria. Aprendi a calar, não a dizer, o que quero. Ser capaz de me olhar, sem vergonha, é a conquista. Inábil para me acolher qual ser imperfeito. O avanço da idade trouxe-me a capacidade de apreciar o deleite. A maturidade, também. O entendimento de que a urgência apaga inseguranças e de que todos andamos à deriva. O prazer sobreveio. Por que não fui capaz de aliar o preceito à transgressão? Há os que mentem. Os que omitem. Imaculados não há. Há quem vá beber a bica e quem a recuse. Suspeito que não seja o carácter o que as demove. Há vencedores? Haverá condecorações suficientes para os dignos do céu? Por que fere a busca de emoção? Como alcançá-la quando nos desconhecemos de cor? Por que se adivinha apelativa uma pessoa estranha? Pode matar-me. Pode convidar-me para um café, de sabor intenso, em chávena que queima. Podia dizer «sim». Podia dizer «não». Podia provar-te tão-só com os lábios e aguardar que arrefecesses. Podíamos ter fingido que não nos vimos. A inocência não torna. O quotidiano mata e, no entanto, foi a ausência de uma rotina comum, a causa do óbito redigida na certidão dos acasos. A determinada altura falha alguma coisa. Falha-se sempre. O amor constrói-se no conforto da repetição. No nada também nascem exigências, não haja ilusões neste aspecto. É a expectativa do colo falho. Daí não nos termos amado? O desalento instalara-se. Era do nosso conhecimento. Prosseguíamos obstinados, programados numa absoluta sincronia de infelicidade. Adoecemos. Implodir soa aterrador e é mais fácil do que se supõe. No início, os próximos simularam aceitar. A situação degradou-se ao notarem a minha falta de arrependimento e que continuava a viver o que os dias me apresentassem. Lançaram-me acusações rectas: Necessidade. Aguentar. Confiança. Lealdade. Correcção. Verticalidade. Testemunhas. Integridade. Ética. Compromisso. Dever. Respeito. Doença. Em todos os dias da vossa. Alegria. Tristeza. Votos.

«Não era feliz.»
«Que disparate! Alguém o é?»
Não havendo quem o seja, qual a legitimidade para a tentativa?
«Não podes ter tudo.»
Não se tratava de ter. Naquele momento não queria possuir. Tratava-se, sim, de experienciar. De ser.
«Não te matei.»
«Teria sido melhor.»
«A tua vida não é minha.»
«Depositei-ta nas mãos. No coração. Era tua.»
«E tu? Que responsabilidade te resta sobre a tua própria vida?»
«Qual vida?»

Tornara-se claro que o diálogo se desenrolaria entre duas personagens principais, uma vítima e uma culpada e as secundárias, os auto-proclamados júri. Não tinha vontade de o prolongar. Não me definia como a primeira nem a segunda, tão-pouco tinha talento para insistir na representação. Viu que se encontrava sem contracena. Enraiveceu. Virou bicho ferido a dar coices na morte. Não o terá feito com maldade mas foi hábil na persuasão daqueles que nos ligavam.

«E tu? Como estás? Como chegaste a este ponto?»

Silêncio. Afastamento. Não me perguntaram o que quer que fosse. Procedera mal.

«Não existes.»

No início pareceu-me adequado que pagasse pelos meus actos. Depois deu-me para pensar pela minha cabeça e percebi que me culpavam, sobretudo, por arriscar. Por me pôr em causa e aos meus padrões então refutados. Deixava-os inseguros e a questionarem-se sobre si mesmos. O que os impedia? A vontade própria ou a do grupo? Era miserável e o coro não se reunia. Ninguém para se preocupar com as minhas opções. Quando o sorriso se instalou no meu rosto, apareceram os valorosos inquietos com o restabelecimento da paz e da ordem. A norma já não me interessa. Os afectos, sim. Recuso o rótulo da leviandade. Capricho? Pode a espontaneidade sê-lo?

«Antes de desapareceres, quero que saibas o quanto gostei do que pude conhecer-te. Não apenas do teu corpo e da novidade que me trouxeste aos dias. Naquela noite em que te desembaraçaste do meu abraço, com uma rapidez desconcertante, não o interpretei como desprezo. Apiedei-me de ti e do teu constrangimento. Deve ser triste não saberes o que fazer de um gesto puro.»

A liberdade tem um preço. Paga-se em anos de solidão. Aceitar é a palavra mais enganadora. O que se costuma fazer é aprovar enquanto se nos assemelha. O que escapa ao nosso entendimento merece-nos primeiro a estranheza, depois a repulsa veemente, mais tarde descartamos as supostas diferenças, como quem recicla o lixo. Que nos venham parar às mãos as embalagens apelativas, porque as amachucadas não aguentamos. Parecem-se demasiado connosco.
O perdão há-de chegar, com a actuação do esquecimento próprio das mentes humanas. Não darei por isso. Não tenho como regressar.
Na Rua, as pessoas assustam-me. Vislumbro vultos acelerados que me ultrapassam ou se cruzam comigo, deslocando o ar ao meu redor. Desequilibram-me sem me tocarem. É ameaçador o vaivém. Acredito que não me vêem. Pressentem, talvez, um incómodo. Uma chamada de atenção que dispensam. Será unânime a noção de que não presto? Comprei a bengala. Entorta-me o andar. Coxeio como se o problema fosse nos ossos ao invés de o ser na visão. Não me vêem. Não vejo. Chove, ainda.

Toc. Toc. Toc. Pic. Puc.

Tremo. Quantos minutos de desamparo me restam? Dezenas. Centenas. Milhares. Consigo viver desta maneira, é evidente. A questão é: «Quero?» O que faço desta total autonomia? A revelação transformou-se em banalidade. A aventura já cheira a rotina. Não há como escapar. O proibido desvaneceu-se nas próprias regras. A impressão de existir esbate-se.

Quase não vejo.
Quase não ouço.
Quase não falo.

Converso comigo, poucas vezes, como agora. Ando por cá sem intervenção no meio. Comovem-me as saudades de certas pessoas. Sinto falta da percepção do que é exterior a mim, proporcionada pelos outros. Apesar das obrigações, das fronteiras e das morais impositivas. Falta-me um encaixe. Poderia ser ilusório. Não há calor neste estado. Os sentidos perderam-se neste espaço imenso que criei ao meu redor. Tacteio, na penumbra, o regresso à cama. O robe estava pendurado no corrimão do prédio. A vizinha tem esse costume, com a roupa alheia caída no seu estendal. Evita incomodar com campainhas. Voou enquanto estendia a máquina de cores escuras. Em que dia? Tropecei nos chinelos a caminho do quarto. Sento-me na cama. Apalpo a textura da colcha. Recordo-a azul-marinho, com quadrados. Chego-me para o meio. É o ponto certo para erguer os pés e me deitar equidistante da cabeceira e do fundo. O telefone toca com susto. Atendo. Ouço, primeiro, alguém suspirar. É o tom da preocupação. 

- Onde tens andado? Andamos doidos à tua procura.

Tenho a cabeça na direcção do espelho do guarda-fatos. O vulto defronte torna-se nítido. Sorri. Há afecto na imagem.

- Eu também.

De 14/01/2015 a 13/09/2015. Última revisão em 21/09/2015.

OBRIGADA POR ME LERES.

Andreia Azevedo Moreira