quinta-feira, 28 de abril de 2016

XIV - Preia-mar; 04h49; 3.32m











                                                                                                                   
Quando as Correntes D’Escritas estrearam estava com quarenta e três anos. Adiava-me para a idade da reforma. Comparecer nesse encontro com a literatura, os livros, os autores e os meus pares era o mais próximo que chegava da paixão cativa. Os dias passados entre as estantes dos clássicos e dos filósofos haviam-me inundado de inibições face a grandes aventuras. Os eventos com os escritores que lá se dirigiam para falar a alunos das escolas ou a públicos mais velhos, aumentava a inércia. Encarava o ímpeto qual sacrilégio. Está tudo feito, muito mais bem dito do que serás capaz. Quieta. Obedeci à sensatez. Um neurinoma na coluna vertebral, aos cinquenta, alterou-me o ponto de vista. A história poderia estar prestes a ser interrompida. O facto de a massa ser benigna não me sossegou. Entrei em pânico com o atraso que me havia imposto. Durante anos escrevera páginas para as destruir. O que estás a fazer, mãe? Coisas sem importância, amor. Vou brincar convosco. Querem fazer o quê? Amachucava-as e deitava-as no balde inconclusivo, desmerecedoras de pensamento adicional. No ano do diagnóstico recordei as folhas amarrotadas, irrecuperáveis. Por que as diminuí daquela maneira. Saltei condenações e decidi fazer até à desistência do corpo. Só então o senti falível. Classificara o saldo de horas como infinito e a mim inábil para me dedicar a várias causas, em simultâneo, pelo que abracei a óbvia. Tratar da prole. Ninguém conhecia o meu sacrifício porque, até então, jamais expressara essa faceta privada. Filha de pescador, tinha sido um prodígio o meu pai ordenar que abandonasse a areia para ir estudar. Inteligente e visionário recusou que a vida dura da faina me fizesse murchar, cedo demais. Por motivos de saúde da minha mãe, fui filha única. As expectativas sem divisão possível da carga. Esforcei-me para ser o que esperavam. A média ficou aquém da imprescindível para ser doutora, mas poupei-os ao anúncio de uma filha com aspirações de artista. Tornei-me exímia na arte de o ocultar. Mais tarde, rodeei-me de amigos com reservas comuns. Reunimo-nos à volta dos títulos eleitos. Lemos, discutimos ideais, inventamos fins alternativos aos propostos pelos autores, organizamos encontros de leitores e da primeira à última Mesa das Correntes duas filas da plateia são nossas. O primeiro a chegar marca os assentos. Nas assistências sobrelotadas as pessoas protestam. Daí que tentemos ser pontuais para o núcleo se manter junto. Na feira do livro combinamos as compras de modo a levarmos a maioria das obras que nos interessem. Temos uma biblioteca itinerante entre casas e corre bem. De resto, fazemos as nossas compras nas pequenas livrarias independentes que subsistem. Tudo isto me é caro e tem ajudado a superar a interrupção que me havia imposto, contudo, revelou-se insuficiente. Havia que contar as minhas histórias. As que careciam das soluções que só a ficção que eu criasse poderia encontrar. As que me trariam o consolo de consertar os irremediáveis agressores. Iniciar-me pelo familiar, para poder dar passos maiores, trata-se do abecedário dos aspirantes. Aprendi, à custa de muitas linhas sonegadas, a desistir das palavras com maiúsculas no meio das frases. Ofendiam os textos.

Saltavam-me à mão hesitações e clamores, dada a ânsia de recuperar parte do tempo desperdiçado. A gana de me constatar renascida. Percebi do que devia abdicar. Os melhores ensinaram-me que devo impor a ficção à realidade, na vez de me contentar com desforras mal concebidas e forçadas à primeira. Domei palavras como ingente. Trouxe-as para perto. Ouvem-se sem serem proferidas. Na primeira noite de insónia comecei a Manuela. Fascinava-me a precocidade das meninas feitas adultas pelo casamento. Como podiam ser convictas do amor. Havia as que casavam por conveniência das famílias. Casamentos fora das castas eram mal recebidos. Manuela, tal como me chegou, destacava-se. Fê-lo por arrebatamento. Apaixonou-me a sua persistência, a convicção de que António tornaria. Era muito jovem quando aconteceu. Podia ter reconstruído a sua vida ao lado de outro pescador. Os pretendentes sobejavam. Podia ter abandonado a existência pesqueira e partir com homem que se fixasse no interior e vivesse da terra. No entanto, sem se entender porquê, teimou no quotidiano ao sabor das marés, até àquele sol-pôr em que a verdade ficou submersa. O corpo jamais deu notícias. Impressionam-me as pessoas austeras que se impõem uma rigidez de costumes que condena antes do fim. Em Manuela ressaltava da sua essência pormenor escorregadio. Algo nas suas atitudes se distanciava da ideia de viúva triste. Esse subtil desacerto foi o gatilho para que a quisesse reescrever. Desejava conhecê-la melhor, entender a sua passagem por cá. A torrente revelou-se imparável. Hoje, pondero os meus interesses com equidade. A adaptação foi mais fácil do que previ. Os obstáculos eram mentais. Quem me quer bem entende as ausências e aceita-mas. Os restantes diabolizam a dedicação enorme ao indizível, sem remuneração que se veja. Da incomensurável entrega ao que faço não aguardo dividendos. É acto puro.


Doação.

terça-feira, 19 de abril de 2016

XIII - Baixa-mar; 10h27; 0.64m

                                                                                                                       
Norte. O método é simples. Um relance de curva convence-me. Poderão negar terem concedido dois dedos de conversa. Para mim, são desinteressantes essas averiguações. Comando. São as peças necessárias e encaixo-as com deleite inenarrável. Embora momentâneo, o efeito é dominador. Uma espécie de embriaguez. Forcei-me a parar, muitas vezes. Contestei a violência residente, tentei corrigir a conduta. Pior. A escuridão avançou implacável. O medo estabeleceu-se. Quem vive com medo saberá a que me refiro. Desligamo-nos sob o seu manto. Para trás o ponto de onde teria sido possível regressar. Levanto-me com o fito bem definido. Podem decorrer semanas sem agir. O curso inato do pensamento permanece imperturbável. Oriento-me pelo mapa dos lugares fecundos com que me cruzo. Antes, desorientado, quanto mais me debatia contra a natureza mais ela se impunha. Naquele dia quente de marés-vivas arrisquei na Salgueira e fui enrolado. As mareadas mastigavam o meu corpo e, impotente, percebi qual espectador que os meus impulsos eram como aquela energia. Debatendo-me cansar-me-ia, apenas. Havia que os aceitar. Permiti-los. Sê-los. Algum propósito emergiria do remoinho. A aflição passou despercebida. Nenhum surfista de prancha, sob pés firmes experientes, para me resgatar. Ninguém em cuidados, com a minha demora, numa barraca de riscas azul-marinho. Acolhi a solidão tão certa, quanto intrínseca, a cada órgão vital. Um estômago, um fígado, um pâncreas, um genital. Sobrevive-se à mentira de poder ter dois de cada, embora estar vivo seja questionável. Os braços desistiram de quebrar a corrente, as pernas de procurar terra firme, a cabeça habituou-se à confusão. Inspirava líquido e tardava em morrer. As funções vitais aguentaram-se enquanto a torrente fez o que lhe competia. Fui devolvido à areia como sargaço arrancado. Aceito-me na condição de adicto. Um dia de cada vez é escolha de terceiros. O meu caminho é este. Irremediável. Sul. Alguém se sentou aqui, há pouco. Denuncia-o a ponta de cigarro mal apagado. Giro o sapato para a extinguir. Apresso-me para Este de mãos nos bolsos. Vou atrasado para a Mesa. Aquilo ficou jeitoso remodelado. Cumprimentarei uma pessoa ou outra. Hão-de me questionar sobre a esposa, se tudo vai bem, se há saúde. Demonstro-me fleumático nos esclarecimentos. Olharão para mim duvidando se me consideram o patrício disponível ou parvalhão. Terei votos em ambos os sentidos, o que me agrada. Interrogam-me. Onde anda. Viram-na com livros na praia, no café ao domingo, enquanto leio o jornal. Decerto gostaria de participar neste evento cultural por demais interessante e ninguém lhe põe a vista em cima. Encaro-os calmo sem avançar explicações de monta, deixando-os com a sua impaciência e perplexidade. As pessoas habituam-se a quem justifica por isso me fogem amigos e inimigos. Altero ágil o assunto da conversação, sugiro leituras, autores de que gosto e adeusinho, atendo-vos mais logo que é como quem diz ficarão por atender. É complicado abordar as musas que me encantam com este tipo de inspectores à perna. Sou doentiamente cauteloso com o que me é mais importante. O que me faz acordar e ter ânimo para sair da cama todas as manhãs. Mesmo se o corpo implora descanso, se o que obtenho é insuficiente ante o que falha, se à marca que tento inscrever falta beleza e originalidade. Prossigo doente, dores nas costas, consumido. Estou com o apelo. Inadiável. É uma vida encaixada noutra e ninguém desconfia do desalinho, das ausências, da incoerência do discurso. A discrição integra a rotina. Hei-de ser velho. Começo a acabar. Levarei até à cova esta firmeza.

A luxúria.

Andreia Azevedo Moreira
De Novembro a Dezembro de 2015.


OBRIGADA POR  ME LERES.









sexta-feira, 15 de abril de 2016

XII - Preia-mar; 16h02; 3.31m

                                                                                                                
Aflijo-me fora de pé. As conchas arranham os tornozelos frenéticos. Há uma turba violenta a ambicionar como eu. Ignoro-a. Que a derrota adie o aviso de me ter alcançado. Esquivo-me ao pavor de a tragédia ter ocorrido diante dos meus olhos cegos, de conceber que investi o essencial numa quimera à qual ninguém se junta. De que sirvo sem compartilhar o que faço. Refugio-me nos que cortaram a meta e quedo-me na certeza de que há, no meu calendário, um dia marcado para não chegar. Nem isso me dissuade dos intentos profundos. Um bebé lançado à água nada para se salvar. As frases surgem como uma maldição. Inolvidáveis. Enfrento a dificuldade. Um poeta que deixou saudades contou-me e à plateia, daquela Mesa, a história de Rilke em que este instou o discípulo a parar, desse-se o caso de o conseguir. O poeta grande morreu escrevendo. Mora na cabeça de todos a quem marcou a sua obra e o caminho íntegro. É isto a posteridade. A libertação do delírio de se construir o definitivo dá-se com a morte. Até lá, padece-se nesta vigília perene. As ideias sucedem-se, sugerem cenários, num exponencial jogo de combinações. Um detalhe verídico por mais insignificante é digno de explodir um universo. Noto a piedade nos eleitos. Aproximo-me, na mesma, sem me intimidar. Sou. A minha invisibilidade ostentada nos seus actos. Sou. Inspiro o ar ao redor do chileno, ao pequeno-almoço. Sentei-me próxima. Roço qual aragem a toalha da sua mesa. Deixo um dos meus livros brancos na cadeira ao lado da dele. Encosto-me à espanhola como se a louca da casa fosse eu e estar na mesma divisão nos conferisse sorte idêntica. Coloco, na sua mala, um dos exemplares incompletos com dedicatória. Imponho a companhia a duas portuguesas que calculam risonhas a minha pobre vista para o mar. Mais dois volumes e a incredulidade das bem-sucedidas. Inútil aferir se me reconhecem talento. Desta crise não se pode escapar. Dizerem-me «Não pode.» afigura-se simples mas desencadeia questões. Coloco-as e não as ouvem, tal como ficarão por ler as linhas invisíveis que lhes reservei. Terão encontrado um sentido. A plenitude. Há algo a almejar após o reconhecimento global. Pergunto. Almejamos utopias como a do esquecimento da morte. Na criação pensamo-nos eternos. Aprenderei a economizar as palavras. Quando. 

Uma folha de papel organiza-se melhor do que as entranhas. 

Respiração.    

Andreia Azevedo Moreira
Novembro a Dezembro de 2015

Texto #70 a sair para a Rua com o DAR PALAVRAS.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

XI

Sigo-a desde ontem. Move-me o frémito abaixo da cintura, o instinto, uma sensação de incompletude. Tardo em desligar-me dela. Escapa-me o motivo. Haveria gajas mais fáceis. Passei a noite sentado ao frio tendo por encosto a estátua do Rocha Peixoto, de livro na mão, do lado que me permitia alguma invisibilidade. Escrevi quarenta e nove poemas de rajada como o poeta maior. Perfeitos, para ela, sob os candeeiros nocturnos. A manhã custou a passar. Este frio. Por que há morte a cada enamoramento. 

Cansado deste desacerto com as mulheres. É carnal o que me move. Penso. Haverá mais, porém, foge-me do alcance o quê e sei que mereço sentir essa chama. Hei-de superar esta satisfação bruta das necessidades. Quando, caso raro, uma cai nos meus poemas, sem ter de a forçar, desinteresso-me. Uso-a até estar esgotada. Branda. Entregue. Tornam-se amorosas. Preocupam-se. Alimento-me bem. Fui à consulta, porquê. De onde vêm as olheiras. Sugerem-me abandonar a velha para ficar com elas, enfim, para sermos felizes e eu com ganas de me pirar. 

Antes de tudo, rondo-as como um cão. 

Assim estejam vulneráveis desprezo as qualidades atraentes. Impensável abster-me de a perseguir até tê-la experimentado. Com ou sem consentimento. As gajas são carros possantes de muitos cavalos, bons vinhos ou camisolas de caxemira. Servem para dar prazer. Se me sinto incomodado com isso. Pois claro. Escrevo rimas para a seguinte. As intenções são as melhores. Imploram que pare e nego clemência, aí habita a inspiração. Vejo-a sair com um gajo. Vai com um péssimo aspecto. Entraram num táxi. Perco-a, por agora. Aguardarei as Mesas tardias. Um atraso, um descuido. Ninguém a espera. Vou a casa avisar a velha que cesse os festejos. Estou vivo. Habitamos um T2, no n.º 153, ao Largo das Dores. Peço uma francesinha no café de baixo para chegar de estômago forrado ao confronto. Como chegámos a isto. Para onde vamos. E o amor e tal. Há lá pachorra para a aturar. Nunca amaste e trolaró. Acrescenta trinta minutos de histeria. Acumulámos trinta quilos, cada um, os anos, as rugas e o caralho. Transforma-se um sentimento indefinível, antes puro, numa linda amizade dúbia, nas bocas da multidão conformada. Com os amigos não se fode. É ou não. É. Incomoda-a que dedique rimas na rua a outras, ponha para o lado. 

Incomoda-me mais a apatia bovina dela. 

O desencanto que me provoca. 

Rumina como as que têm quatro estômagos numa tristeza débil e resignada. Aos dias passa-os a assistir aos programas da manhã, da tarde, do lusco-fusco. Ranhosa com os dramas alheios. Fazendo-se boazinha, condoída de dar nojo, marimbando-se para a infelicidade daqueles palonços. Augura sentir-se bem com gente mais miserável do que ela, do que nós e é tudo. Malta que vai contar as vergonhas para os écrans, despudorada. Falam das hipocondrias, dos vícios, dos filhinhos abandonados ou doentes. Das transfusões, da medula rançosa, dos membros disfuncionais, das dívidas, das depressões e ela radiante pela ausência de filhos nossos. Rancor que lhe guardo. Devia tê-la posto a andar. Assim me dissesse «Temos um problema se queres filhos, eu pelo contrário.» e ala que se faz tarde. Vai à tua vida. Guardo mundo para dar a um filho ou três. Devia ter procedido assim mas ela, à data, um doce e eu não me tinha lambuzado o suficiente. 

Depois um gajo apega-se e apaga-se. 

É um vê se te avias para despachar aliança, casa, compromissos, almoços de família, comodismo e afins. Gostava de ter tido outra vida e fiz por isso. Cada folha na qual arrumo as palavras em sons felizes é nota na minha pauta. Mulher que subjugue é sinfonia. Se me importa a vaca à espera que eu entre em casa para gritar com alguém. Mal meti a chave na porta e a voz esganiçada a entrar por mim adentro. Estúpida. Servil. Reviro-lhe os olhos e mingua. Muge entredentes. Ódio por ela. Ficasse impune e matava-a. Desadequada para mim como eu sem ser destino nela. Desconheço a arte de trocar lâmpadas, renego o berbequim, abomino a jardinagem a que se dedica, como se termos um jardim estivesse para breve. Trabalhinhos em casa faça-os ela ou contrate alguém. Tenho mais preocupações do que acudir a domesticidades. Gosto de combinar palavras. Duas quanto baste para me sentir eufórico. Escapo-lhe ao entendimento e ela ao meu. Em crise há treze anos. Têm-nos dito: «Acabem com esse massacre.» O que nos prende. Por que alimentamos o desrespeito. Acomodámo-nos. Arranjei esta maneira de a violentar sem toque. Rejeitei-a metódica e repetidamente. No princípio pedia que fizéssemos amor. Humilhava-se. Nem por piedade. Nela não assento a mão, nem para bater nem para a amar. Em casa gosto de mudar o sítio aos objectos. Dá-me um gozo do carago vê-la desnorteada à procura. Altiva evita perguntas. Anda às voltas, pião doido, até dar com elas ou se resignar a perdê-las. Derrotada, devolvo-lhas noutro sítio. Encontra-as em dia à frente, sem esperá-las ou delas, entretanto, necessitar. Divirto-me. Vingo-me da comunicação torta, de a responsabilizar por me ter tornado um monstro, convicto de que sem o nosso desamor seria bom. Magoo-a intencional. Pode ser que morra de tristeza ou louca. O pior é que digo uma e ela diz três. Danos acumulados deste lado. Tratando-se dela, a imunidade tarda. 

Abeiro-me das eleitas na rua e esqueço as palavras duras que trocamos. As ditas e as veladas. Foco-me na boca que preencho erecto, nas mamas magoadas pela sofreguidão, nas ancas robustas escolhidas, com critério, pensando na força investida nelas, nos membros superiores inúteis, à conta do fio de nylon nos pulsos que sangram se resistem demasiado, nos olhos apavorados e estimulantes. Gravo nelas a frustração dos anos perdidos a morrer ao lado desta, sendo afável para os outros. 

«Metido consigo. Zero defeitos a apontar-lhe.» 

Regra geral, as parvas fazem queixa mal as liberto. Esbaforidas partem das traseiras onde as desgraço. Rio-me alto enquanto correm, tarde demais. Fumo um cigarro. Subo as calças, aperto o cinto. Ouço as botas no alcatrão. Nada me liga à empresa de exportações ou àquele ermo. Entregam esperançosas às autoridades cartões vários com os meus versos. Deixo-lhos entalados no rabo. 

Servem de prova que usei um nome falso.

Andreia Azevedo Moreira
Novembro a Dezembro de 2015

OBRIGADA POR ME LERES.









quinta-feira, 7 de abril de 2016

X


- Boa noite.

- Boa noite. Ah é você.

- Sim. Também não a reconhecia. Como está?

- Incomodada com o episódio de hoje.

- Não se preocupe. Ela ficou bem. Deixei-a no Hotel.

- Ai sim?

- Ela insistiu. E a senhora, para onde?

- Para lá, precisamente.

- Ok.

- Diga-me, aquela canção era?

- For the good times. Kris Kristofferson

- Cantou-a um pouco fora de tom, não a identificava. Era um sucesso quando me casei, a primeira vez. Sabe que ele era professor de literatura?

- O seu primeiro marido? Engraçado. O que aconteceu? Desculpe. Fui inconveniente. Não responda.

- Sem problema. O músico era o professor. O meu primeiro marido apaixonou-se por outra pessoa.

- Desculpe-me, por favor.

- Não peça desculpa, gosto de falar dele. Somos grandes amigos. O amor pode chegar disfarçado de amizade.

- Será de trocar a ordem?

- Pode ser. 

- Cá estamos. São quatro euros e meio, por favor.

- Aqui tem. Guarde o troco. Boa noite.

- Boa noite. Leve um cartão.

- Obrigada. Até à próxima.

- Minha senhora esqueceu-se do saco. Desculpe.


Esqueceu-se.

Andreia Azevedo Moreira
Parte X - Quebrar a corrente
Novembro a Dezembro de 2015



quarta-feira, 6 de abril de 2016

IX

Escreve-nos.

Obedeço. Aconteceu, passeava pela alargada Junqueira, na senda de uma Livraria. A pesquisa online devolveu nome de Deusa. Avistei um casal. Reformulo. Um homem e uma mulher sem relação dada a distância dos corpos em movimento. A compulsão para lhes perseguir e deturpar os passos foi desencadeada pelo rosto desfeito dela, pelo abandono dos ombros. Os olhos inchados, a boca manchada, o espanto. A finitude estampada no rosto.

«Careces do principal.»

Desiludido constata a continuação da mentira. Somei duas páginas redigidas a branco.

«Servem para quê.»

Impaciente face ao meu incumprimento.

«Estão aqui.» - Grito-lho de regresso à Redonda. - «Leio-tas. Queres ouvir?» - Faço o que posso da prosa.

Gargantas de espuma salpicam-me. Despreza-me.

«Incompetente.»

Inadmissível assumir o fracasso. Vagueio pelas ruas dizendo em voz alta o que vem à cabeça. Rimar é a mnemónica da memória. Hei-de relembrar um por um os contos imateriais. Ele descrê do método. Perco-o. Chegará o momento de me engolir como fez aos meus pares. Sucumbimos na tentativa. Desaparecerei como eles, inábil para o converter à fé que cultivo.

Escreve-me.

Óculos escuros espelhados e baixa estatura, calças de veludo e gola alta. Direi, caxemira. Regra geral, evito avançar se as pupilas ocultas. Será pai Ilustre. Por detrás das lentes defino olhos azuis. Na cabeça caracóis ruivos. Sardas na face, no pescoço, nos braços. Tê-las-á nas pernas, nas costas, na barriga. Cola-se a uma rapariga nova. Ela esquiva-se da abordagem segura. Poeta deprimido. Falho no amor, como na poesia, procurará nos classificados mulheres para leituras em voz alta. Intima as respostas de quem se comova pela mesma via. Família: esposa obesa amarga, desencantada dele e de andar cá. Sai de casa e ela senta-se. Desaparece ela e ele em direcção oposta. Desprovido de ânimo ou capacidade para resoluções. Sobrevive no versejar a ouvidos brandos, a línguas menos afiadas. Línguas que o beijem e o lambam, na vez de o dilacerar. Lábios sugadores que invoquem o melhor dele. Bocas sedentas de vida. Quanto àquela mulher inalcançável, ainda. É ele quem cativa toda a atenção criativa. Mudo-lhe o nome pronunciado ao apresentar-se. A voz aquecida, o corte de cabelo menos certo, a tonalidade contrastando vívida. Disfarce tão competente que me esqueço de quem reescrevo, pronto para existir fora dos limites auto-impostos, das precisões. Será de quem o queira acolher.       

«Mostra-ma.»

Uma embalagem nova de plástico, bem fechada com fita-cola, oferece resistência ao tentar abri-la. Três. Cada uma de sua cor. Invólucros transparentes. Escrita grossa. Encaro-as embevecida e exibo-as. Ergo-as para o calar. Estão escritas.

«Verde, preto, azul.»

«Regista. Agora.»

«Preciso de comprar papel. O caderno preto de cantos arredondados carece de espaço.»

Ecoa a risada cava. Mereço-a. Serei ridícula e ele intransponível. Pereço intimidada pela história.  

Jornalista. Rude. Cáustica. Instintiva. Temperamental. Compõe as madeixas escuras do nervosismo. Sinal em local a determinar no rosto. Apaixona-se por quem revele o mínimo de interesse real ou imaginado. Uma questão, o bastante: «E este frio?» Para entregar as mamas generosas, para ser refém. Coxas opulentas. Negligencia os bondosos. Liga-se aos matreiros, aos dissimulados, aos viciosos. A vulnerabilidade é a defesa orgulhosa. A desilusão demora mais a instalar-se quando se entrega aos isentos de piedade. Morena feia, morena bela. Ela vê: Feia. Outrem vê: bela. O banal dirá: Livre. Liberdade sem préstimo. Ela disfarçará mal a parca vontade que o bem lhe suscita. Desconhece de que fala o ruivo de óculos escuros. Reluta em dar-lhe atenção, inebriada pela espera.

«Ah ah ah ah. Pára, por favor.»

Introvertida e pensadora escreve uma história. Senta-se ao computador. Criadora. Individualista. Silenciosa. Rodeada de estantes com livros. Literatura, Teologia, Ciências, Filosofia, História, Artes, Música, Etnografia, Religião. Mulher pesada de caracóis largos, olhos claros. Colo terno. Mãe de quatro, avó de três, foi divorciada, é viúva. Problemas de visão impedem-na de focar longe e perto. As suas várias amizades não constituem apoio, acostumada a resolver os assuntos por si. Adiou em demasia as aspirações pessoais. Há que recuperar o atraso como pode. Febril. Preocupada. No desespero da morte.

«Isto é o quê?»

Três crianças brincam no chão da divisão clara. Ao lado, na penumbra, uma mão impede a voz de se ouvir. A tensão aumenta na divisão escondida. As crianças escutam ruídos dos quais desconhecem a natureza. Tivessem cães, diriam: cães. Os peixes no aquário não justificam o desassossego. Caem objectos da bancada. Parte-se um copo ou um prato, com estrondo. Talheres tilintam no embate com os azulejos. A queda acompanha a violência dos gestos. Da fome. Paira a dor em cheiros alcalinos e ácidos numa mistura desvairada. As crianças mantêm-se na brincadeira. A curiosidade é inocente.

«Onde vais?»

«Praça dos combatentes.»


 Andreia Azevedo Moreira
Quebrar a corrente - Parte IX





terça-feira, 29 de março de 2016

VIII

A bibliotecária encontrou-a às duas e meia da tarde com os braços carregados de livros demonstrando-se inapta para lhos subtrair ou argumentar, com sucesso, a favor da devolução. Ela mantém-se em silêncio quieta, feto com a carga junto ao peito. Na secção onde caiu faltam, na prateleira classificada em oito, todas as obras do Eminente E.. O queixo treme incontrolável. Os olhos liquefeitos denunciam arrependimento ou perda idêntica.

Estacionei do lado da escola e dirigi-me mal disposto ao interior. Tinha começado a almoçar e o telefone tocou. Engoli a refeição quase sem mastigar. Encontrou-me no bolso da Teresa, julgou-me conhecido uma vez que havia as referências musicais no verso do cartão-de-visita e informações adicionais ela reservou para si. Chamei-a pelo nome, indaguei se se lembrava de ter estado no táxi comigo, na véspera ou da Teresa Teng. Permaneceu desolada, esclarecimento nenhum. A funcionária sem vontade de condescender informou-me que teria de telefonar para a polícia para resolver a questão. Tinha afazeres, não podia continuar ali e evitava ser ela a obrigá-la a abdicar dos volumes. Acalmei-a. Pedi-lhe que me desse alguns minutos até avisar as autoridades competentes. Sem perspectivas de correr bem, cantei-lhe uma das canções que lhe sugerira:

Don't look so sad, I know it's over.
But life goes on, and this old world will keep on turning.
Let's just be glad we had some time to spend together.
There's no need to watch the bridges that we're burning.[1]

Ao contrário do que seria recomendável, ao invés de lha sussurrar, berrei desafinado. A bibliotecária de pupilas horrorizadas e boca comprimida limitou-se a elevar o indicador aos lábios. Os utilizadores entreolharam-se em esgares duvidosos. Encavacado mantive a actuação. Teresa S. acordou do transe. Riu às gargalhadas até ser capaz de falar informando-me que lhe doíam as costelas. Largou a carga, levantou-se, ajeitou a roupa e deu-me um abraço apertado no esqueleto. Ofereci-me para levá-la onde quisesse. Concordou. Antes, apanhou os livros deixando-os cair à vez até equilibrar a pilha. Levou-os até ao balcão. Pediu desculpas à séria senhora que encolheu os ombros como se fosse usual, de vez em quando, alguém perder a cabeça com um vulto daquela grandeza. A leitora abraçou-a demoradamente e ela manteve-se hirta com os braços colados ao corpo e a cabeça estática olhando a direito. Permitiu-lhe o beijo depositado na face, embora o tenha arrastado, discreta, com o ombro assim que pôde. Então, Teresa S. deu-me a mão e saímos da Biblioteca Municipal ao som das rodinhas. Sentámo-nos um pouco nas escadas da entrada principal com ela a estudar a fachada incompleta do orfeão, transplantada para este lugar como um portal mágico há uns anos.

- Falha-me a literatura logo me salva a música.

- Hum?

- Esqueça. Falava comigo.

- Para onde?

- Leve-me ao Hotel A-Ver-o-Mar.

- Fica? Sente-se capaz?

- Sim, estou bem. Até ao fim.    




[1] Kris Kristofferson - For the good times (1970)

















quinta-feira, 24 de março de 2016

VII

Eu | escrevo.

Escrevi.

Crescendo com desentendimentos, quando me reconheci ímpar, no abuso, no primeiro dia de escola, nas paixões ingénuas e nas perversas, ao descobrir a traição dos que amei e as próprias, com a mesma facilidade, na tarde da decisão definitiva.

Escrevi.

Estava um dia de sol asfixiante. Suávamos. Apetecia-me um gelado. Fui até ao parque com a minha irmã. Levámos as bicicletas. Havia crianças a brincarem. Riam, empurravam-se para as caixas de areia, caíam perdidas de riso e eu desentendia o que se passava com elas. Divertidas. Porquê. Que argumentos se guardam para alimentar a ligeireza. Invejava-as. Tinha dezasseis anos e sentia-me pesada, velha nos olhos. Carente de qualquer coisa. Aproximei-me com o intuito de as envenenar. Dei três passos largos de punhos cerrados. Contive-me. Encarei Ivone. Os maxilares tensos. Comuniquei: “Não quero filhos.” Escarneceu da resolução, certa de que eu mudaria de ideias. Ela casou. Teve-os, aos quatro, de parto natural. Parideira-nata. Envelheceu mal mesmo sem rugas. Desistiu de ter vontades. Sorriso imposto ao rosto, inclinação fixa da cabeça “Não troco isto. Por nada.” O pescoço fraquejando. A coluna incerta. Passou à descendência amargura bastante para sobrar para as deles. Debatem-se para contentá-la errando sempre. Desconheço qual das duas a opção correcta. Somos infelizes. Eu livre, ela com compromissos para mais anos do que os que lhe restam. Do tempo que me concedi pouco tenho a apresentar. Ela desprovida desse luxo destino semelhante. Dois caminhos divergentes e o resultado tão parecido. As conversas entre nós azedaram, frustradas demais para nos suportarmos, trocámos acusações sem sairmos do próprio calçado. Agredimo-nos. Afastámo-nos, em simultâneo. Escrevo apesar do mutismo da tinta. Barro. Laranja, verde-claro, verde-escuro, branco-clara, amarela, branco-cheiro-maresia. Barro. Um lenço de pontas a atar em cruz. Saboreio o estrugido que embebe a pescada e o pão torrado isenta de preocupações com terceiros. Ela alimentava. Uma boca, duas, três, quatro. Sucumbia ao cansaço antes de saciar apetites. Rendeu-se. O seu universo distribuído por quatro rostos e a expressão tão distante quanto a da máscara com que dissimulo a alma. Ivone, uma fronteira de arame farpado. Nem o doce desta bola frita aplaca o sabor da sua ausência. Única pessoa a aceitar-me sem estranheza, mesmo nos dislates. Podia ler para ela uma tarde inteira. Acreditava se lhe contava “Eu escrevo” antes de haver uma página, uma frase, a palavra primeira. Alimentava-me da sua confiança. Choro termo-nos perdido. A quem dedicar as primeiras linhas com cor. Escreverei para Ivone. Sem aquela irmã, o percurso comum ou a resolução não poderia sair do Leonardo, neste instante, para comprar uma caneta. Comprá-la-ei. Decido. A caneta azul de bico macio desliza na folha, transparente. Escrevo. Prazer.

«Tenho-a.»     

Está escrito.



sexta-feira, 18 de março de 2016

«Quebrar a corrente» - VI - Donzília


Filha, neta, bisneta, trineta de pescadores, Donzília jamais olvidou a tragédia passada de boca em boca entre familiares e conterrâneos. Aninhou-se nos seus tímpanos desde a idade de juntar inconsequente consoantes e vogais. Contou-a aos filhos e aos netos. Dos quatro, Luís, o atento, seguiu como ela acrescentando e fazendo sua a desgraça à entrada da barra do 27 de Fevereiro de 1892. Tempestade gravada em todas as almas Poveiras. Mesmo nas ilesas, sem parentes afogados. Perderam-se cento e cinco vidas. O número brutal conhecido. Ritos fúnebres doridos. Lenços negros de desespero. As gaivotas aflitas em bando no céu condenador, ecoavam a dor dos que assistiam na areia nada podendo. As homenagens um pranto multiplicado. Das tragédias familiares a que mais os tocou foi a provação de Manuela.

Poucos recordam a história dessa menina casada com o amor primeiro, António. Durou uma nortada. Naquele Sábado o mar também lho levou. Restou no ventre o feto mirrado pelo desgosto, seco como se não se houvessem amado. Enxugaram as lágrimas e a tristeza renasceu esperança. Manuela viveu de acordo com as marés. Ia a casa pôr os assuntos em ordem para o caso de se dar o milagre. Nas horas de sol sentava-se na areia remendando as redes que alugava aos sobreviventes. As noites em claro passavam melhor porque havia que as encascar e entralhar as artes. Se o oceano plácido lho autorizava, embarcava em jangadas para a apanha do sargaço de ganchorra a postos, secundada pelos moços. Nos dias que sobejavam auxiliava outras mulheres com os barcos no bota-abaixo, pelos paus de sebo. Assim garantia a subsistência perigada pela partida derradeira do seu homem. Na areia ignorava a dormência das pernas, decorridas jornadas na mesma posição. Trazia-as vestidas da malha para a pesca da sardinha. O local da sua expectativa era o ponto onde começava o imenso. Os seus calcanhares fendidos como troncos de árvores antigas eram insensíveis às carícias das águas no Verão. Nas marés cheias de Inverno molhava-se até à cintura. Enregelada permanecia no posto até ao sol-pôr. Tchópa de traços fortes. Sobrancelhas carregadas, nariz redondo, cova no queixo, falatório franco. Mãos calosas de artesã. O lenço claro na cabeça contrastava com o castanho-escuro da melena oculta e com o luto apropriado. Soltava o cabelo para António. Cascatas caíam-lhe nas costas onde ele mergulhava olfacto, desejo, o corpo inteiro. Manuela passou a vestir camisa negra abotoada até ao pescoço e a mesma pobre saia escura rodada desnudava, apenas, pés e tornozelos. Promessa nenhuma. Nunca mais se lhe viu a melena manta. Impressionava a postura magoada da espera de viúva na praia. Os braços prendiam as pernas suporte para o estômago sem préstimo. Como haver digestão em carência tamanha. A garganta estreitada perscrutava o fim do mundo. Almejava a devolução do nobre sustento do corpo e da alma. O impossível. Os anos passaram numa alternância de labor e obcecação. O terço nas mãos postas em descanso. Ao seu lado depositava um cesto com o que António comia com mais gosto. Por mais fome que tivesse a merenda mantinha-se intacta. A pilha de comida decomposta aumentava, a cada crepúsculo, por cima do local onde enterrara a camisola que tricotara para o noivo, perto dos aprestos acomodados no quintal estreito. As traseiras da sua casa na colmeia fediam. O rosto crestado de Manuela quebrou-se caído o último dos trinta e dois dentes. Os olhos, contudo, mantiveram a vivacidade das horas de António quarenta e um anos antes. Terminou o conserto da rede ao cair da noite. Para acertá-la foi necessário, primeiro, abrir buraco maior. Cortou as pontas que atrapalhavam. Então, começou o trabalho paciente. Pegou numa malha com a agulha de madeira e deu dois nós. Um por dentro do outro. Cada nó no seguimento do anterior. Uma recta. Havendo meia malha melhor. Mais dois nós. Um, dois. Por dentro. Voltou atrás. Repetiu o procedimento. Nó com nó. Um, dois. Fechou a falha da rede, deu por findo o dia. Extenuada acolheu nos antebraços as coxas flectidas. Enrolou o dorso. Fechou por segundos os olhos. António veio. A espuma revolta reclamou-a.
Donzília adormece sobre o computador.