Mais um desafio do meu amigo Paulo. Ver as nossas palavras nos instantes revelados pelos olhares de diferentes fotógrafos. Apaixonante.
Procuro Leitor para navegação séria. (Sem amarras.) Dei Palavras na Rua de 8/03/2013 a 10/01/2017. Hoje respiro. Só. Andreia Azevedo Moreira
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Um copo de cólera - Raduan Nassar
Como definir o indefinível. Neste livro cabem mundos. É sexo, carne, tesão. Pensamento, reflexão, duas mentes que se digladiam. É acto cénico que testemunhamos quais espectadores mas também palco pisado por algum íntimo recanto nosso. É um homem e uma mulher que se odeiam enquanto se amam, se devoram, se magoam. Egoísmo e reciprocidade. Discurso directo e subliminar. É foda sem sentimento e ternura que comove. Frieza e intimidade. Perversidade e candura. Linguagem ímpar que estonteia - Cada frase um monumento. - e vulgaridade a convocar o mais primário. É fragilidade e força, luz e treva, submissão e domínio, abuso, cuidado, vontade, pele. Fastio. É animalesco e racional. Grande nas causas e na hipocrisia. Injustiça e paridade. Honesto e dissimulado. Disfarce e nudez. Vingativo. Redentor.
Li-o.
Reli-o.
«eu não tive o bastante, mas tive o suficiente.»
É um caso de amor.
(195 BPM)
Adquirido na A-das-Artes ao Livreiro, Joaquim Gonçalves.
segunda-feira, 4 de julho de 2016
O PAÍS INVISÍVEL - À venda nas livrarias Bulhosa - Books and Living
Esperei tanto para me dirigir a uma Bulhosa, desde o 12 de Março de 2016, que ia perdendo a oportunidade de sentir esta alegria. Valeram-me os livreiros da Bulhosa do CC Amoreiras que ainda não o tinham escondido. Desconheço se voltarei a ter o privilégio de haver um pouco de mim numa livraria. Cá fica, para registo e alento da memória, "aquela vez" em que consegui publicar um conto em papel (!), tendo estado a colectânea em destaque, perto de alguns escritores maiores.
Serei grata até ao meu último dia ao Mário Cláudio, ao José Alberto Pinheiro, ao Centro Mário Cláudio, ao Martinho Soares e José Vieira (por me terem lido e considerado estar a minha escrita à altura de passar o seu crivo Leitor), aos companheiros de colectânea, a todos os amigos, conhecidos e estranhos que compraram o livro e nos leram.
«Os cães ladram»
Andreia Azevedo Moreira
Nívea acorda com a mão pesada na garganta. O galo no casebre ao lado canta alegrias que não conhece. Há menos frio na geada sobre as folhas da esteva, ao redor da casa de guarda, do que o que tem acumulado nos órgãos vitais. O hálito etílico ronca próximo. Ela olha para o tecto depois de afastar o que lhe impede a respiração. É um movimento lento, todo nojo e vontade de vingança. Olha de esguelha para o homem que a submete. «É tã enfezado o amalçoado. Desbandalhava-o se quisesse.» As brasas na lareira espreitam da véspera. Um estalido recorda-a que é hora de se erguer. O quotidiano não pára pelas nódoas que ostenta nos olhos, ombros e rins. Nos pulsos. (...)
Bulhosa - Amoreiras.
EU E OS COMPANHEIROS:
À VENDA AQUI:
ALERTA AOS QUE ESCREVEM: NOVO DESAFIO. (Prazo até Setembro de 2016)
quarta-feira, 29 de junho de 2016
«AMARIN – O QUE FALTOU»
«Sou feliz com o cheiro da terra quando
chego a Garvlae e abro a janela, para pagar a portagem.»
Gostava de ser o tipo de pessoa que se
alegra com impressões olfactivas. Dava o conteúdo da minha conta bancária para
ter dito isto. Nunca me ocorreria. Foi Amarin quem me falou assim. Terei todo o
prazer em contar-vos sobre o que me faz feliz. Ser-vos-á desagradável, creio.
Começo pelo nome, depois veremos. Chamo-me Liexao Icke. Nasci trinta e um anos
após a Segunda Guerra. Detestaria viver naquela época, fardado, parte
integrante de um exército. As pessoas formatadas irritam-me. As obedientes
enojam-me. Um batalhão reforça-se com gente submissa. Sem submissão não há
guerras, nem carne para munir canhões. O mundo que fabricámos é merda porque
houve e haverá, sempre, os que baixam as cabeças e abdicam de pensar por si
mesmos. Também desprezo os senhores que se aproveitam dessas almas subalternas.
Nasci forte, tenho responsabilidades. Se conheço mais e alcanço mais longe, se
ocupo lugar que me confere poder, tenho de medir as forças que emprego. Isto
não é bondade. É o equilíbrio que devo ao Universo. Será reclamado. Conheço a
minha posição e apesar do desinteresse em comandar, é-me inevitável se se
rendem ainda nem iniciei o confronto.
Amarin
não é fraca. Age como tal. Acredita num défice de coragem que me empenhei em
incutir-lhe. Mudei as lentes da sua alma. É extasiado que o declaro. Certa vez,
abordei o medo. Ela estava muito quieta, direita, ouvindo-me atenta com os
olhos castanhos. Idolatrava-me. Não recordo a idade que teria. Não teve grande
importância. Passou magra e discreta, cá dentro, como a vizinha a quem achamos
piada e, houvesse oportunidade, com quem gostaríamos de dar uma, mas temos
dificuldade em memorizar o nome. Baixei o tom de voz, até a um timbre quase
inaudível. «O Medo.» Terá sentido o rumor do meu hálito no
pescoço. Os caracóis escuros estremeceram no arrepio. Manteve-se muda. «O
Medo.» Era bonita a minha morena em pânico, fitando a
televisão. Fixava o olhar míope, compenetrada, para impedir o horror de
entrar. O espanto dela excitava-me. Podia estar uma tarde inteira a sussurrar «O
medo…», apenas para poder observar as mãos esguias cravarem-se nas
coxas-tentação, que testemunhei inseguras na primeira marcha. Angariei amigos
para o dizerem comigo. Não se descontrolava. Remetia-se ao silêncio, como a
presa encurralada que acredita. De tanto ouvir sobre o temor encheu os bolsos e
tinha-o para dar, às mãos cheias. Não entendo não me ter odiado. Fiz o que
pude, desde que ma passaram para as mãos suja de fezes e sangue. Ou era imune,
ou encontrava cura no riso e no choro dos quais abusava, sem consideração pela
injustiça das emoções. Risse como ela, sufocaria. Admito apenas o tipo de humor
que faz cócegas a pouca gente, porque menos entendível. O óbvio não me aquece.
O fácil não me move. A simplicidade cansa-me. Amarin era simples, inocente, espontânea,
suave. Parva. A sua gargalhada agredia-me. Quem a ensinou a ser alegre? Houve
tempos mortos, nos quais me dediquei a estudá-la. Queria desvendar o mecanismo
daquela autenticidade. Ambicionava desmontar a representação, convicto que, por
detrás do pacifismo estaria a verdade; a zanga; o mal. A minha morte. Chorasse
metade do que verteu, morreria afogado. Era obsceno o seu modo comovido de
levar a vida. Quando visitámos o Zoo lamentou a candura dos aprisionados.
Passou minutos defronte das grades, que os distinguiam, a encará-los.
«Para eles sou uma janela.»
Caminhava até ao seguinte. Ridicularizei a
missão que abraçara e não obstante a reverência que me devotava prosseguiu,
ignorando-me. Fê-lo até que todos os animais tivessem experimentado a liberdade.
No fim da tarde afirmou: «Não torno.» Assim foi. Provoquei-a. Cancelei
encontros por me negar o destino proposto. Não cedeu, embora escurecesse de
saudade. Eu, nada sentia. Fazia-o por desporto, para castigá-la por ousar
contrariar-me. Divertia-me a sua vontade de estar comigo, que a maltratava.
Talvez Amarin fosse estúpida. Não sei. Desconheço do que é capaz a couraça do
amor. Pessoalmente, o bem-querer que dominei foi à Arte. Um prato com comida
pode sê-lo, sejam nele depositadas as quantidades justas de empenho,
criatividade, talento e esforço. Eis o amor em estado puro. Da Arte pouco
espero, além de frustração. A demanda que não cessa. Um caminhar incansável.
Aprendo a menosprezar o desgaste que o insucesso traz. Já de uma pessoa espero
muito. Que não adoeça, para não me maçar com trabalhos; que me ame
incondicionalmente; não me abandone; me dê prazer; que seja companhia, ouvinte,
interlocutor, salvação; algo que possa pontapear, com o que me sobeja em
amargura e me faça “FELIZ!”. Não acaba o quanto esperamos dos outros. Onde não
houve incúria? Na educação dela. Inatacável. Teve acesso à excelência. Se não
aproveitou deveu-se ao feitio de asno. Mantinha-se imperturbável, qual sequoia,
perante os incêndios que lhe ateávamos, ao redor. Giravam vinis de Stravinsky,
implorava por bandas com nome de cidade remota. Pergunto: Morre-se de paixão
com aquele barulho nos ouvidos? Levei-a a espectáculos de dança que eram como
ver, de perto, o paraíso, sentou-se ao lado agarrada ao dispositivo táctil e ar
lunático, a desviar-lhe as feições. Ignorante por convicção. Livro que eu
sugerisse e a leitura ficava pelas primeiras páginas. As minhas estantes jamais
a cativaram. A melhor literatura dava lugar a histórias de cordel terríveis. O
meu gosto coíbe-me de enunciá-las. Tenho uma teoria acerca do pouco espaço que
ocupou, na minha vida: Espirrei-a. Foi um desperdício dos meus pulmões.
Estranhei-a sem a entranhar, contrariando o poeta. Não se apercebia. Era fiel.
O cão que se alegrava com a minha chegada e entristecia, na despedida.
Defender-me-ia com o corpo. Usei-a sem parcimónia. Não me envergonho, ou
arrependo. Preciso de me saber a existência e a extinção para alguém. Consenti
que me lambesse mãos, pés, os restos. Acolhi, com deleite, a sua
vulnerabilidade. Interrogo-me se ela desconhecia a humilhação, ou a tolerava
refém do meu amor sem respostas. As minhas demonstrações de orgulho, pelas suas
conquistas, eram nulas. Chegava contente para me falar de uma vitória,
desmantelava-lhe a alegria. Arrogante. Vibrava ao fazê-lo em público. Quanto
mais a expusesse ao ridículo, melhor. Maior o entretenimento. Ri-me, muitas
vezes, do seu rosto carente e ela sem desistir. Não compreendia a teimosia.
Ambicionava que me odiasse, de tanto me querer. Desejava que se estragasse, que
lhe apodrecesse a ternura e se preenchesse dos vazios que eu hábil urdia, nas
suas emoções. Ela ia somando prémios: Revelação aqui, originalidade ali.
Destaques na imprensa, além. Os louvores alheios não a consolavam, quando me
procurava expectante e eu devolvia tédio e silêncio. Creio que não perdia a
esperança de um dia me apanhar a lacrimejar, babar, ou qualquer disparate do
género que as pessoas segregam, quando gostam umas das outras e alguém triunfa.
Pobre rapariga. Acreditava-se capaz de me reparar e ao mundo e que o faria,
começando por si mesma. Uma idiotice. O mundo não tem conserto, sabemo-lo. Não
o havia de ter através de uma miúda sem QI, movida a vísceras. Idealista sem
causa relevante. Por outro lado, a minha falta de conserto era um equívoco. Não
estava danificado. O nosso mal foi a inabilidade dela, para o conceber.
Naquele Domingo combinámos lanchar. Eu
levava um saco de memórias corrompidas. Recusou-se a recebê-lo. Dispensava
prendas. A minha presença seria o bastante, para estar bem. Tentava, amiúde,
abraçar-me com a meiguice do olhar, já que o toque e os afectos estavam
excluídos, da equação que nos escrevi. Insisti que abrisse os presentes, quando
terminámos as torradas com manteiga, doce de tomate e o chá com leite. Cada
papel que rasgava, à minha frente, era o som do que lhe faziam as minhas
intenções aos sonhos. Eu rejubilava. Ela respirava com maior dificuldade, ao
avançar nas descobertas. Uma vez revelado o último presente encarou-me, sem
indício de emoção. Os olhos estavam secos, contrariando o que eu antecipara.
Perguntou-me: «É isto?» Nada respondi, além do sorriso. Depois ficou tudo
branco. Havia um brilho que me cegava e uma Amarin sem expressão. Pela primeira
vez ela não era transparente. Não conseguia decifrar em que pensava, o que
sentia, a vontade que lhe subia ao peito e faria mover as mãos, houvesse sangue
aquecido nas veias de gente passiva. O controlo da situação abandonara-me,
todavia, sentia-me leve. Fitava-me esquisita, de baixo para cima. Havia desafio
e desnorte. Tristeza e orgulho. Perda e soma. Havia ressentimento e amor. Não
pude calcular o que predominava. O «Noves fora, nada»? Afastámo-nos
inconscientes um do outro. Amaldiçoei-a: «O amor que te neguei, não será.» Não
que desejasse mal maior do que o que já lhe tinha imposto, mas sou realista.
Parecia resignada e ao mesmo tempo preparada para ir buscá-lo, noutros lugares.
Os olhos mantiveram-se indiferentes ao que lhe embrulhara. As mãos ainda me
davam festas, na mesa. Os pés acusavam o nervo da despedida. Quis dizer. Não
disse. Quis sentir. Não pude. Quis fazer. Estaquei. Ela saiu, a correr, da
pastelaria. Decidi berrar à mulher-criança, então surda para me ouvir, que
tropeçava, caía e prosseguia, Rua abaixo, desprezando os meus rogos. Não me
sentia forte, nem a sua vida, tão-pouco o seu fim. Era o chão percorrido.
Amarin pisava-me para escapar e o fôlego não me permitiu rasteirá-la, contra o
que fora hábito durante anos. Desapareceu, ponto minúsculo, ao dobrar a esquina
do Lote 15. Parasita. Fingidora. Coisa...
«AMARIN!»
Sinto-me feliz quando me deparo com os
azulejos das fachadas da Cidade, nos meus passeios, conduzida pelo piano, em Dó
menor, de Bethoven. Sou-o nesta esplanada, a beber café e a Ler: «Era um dia
claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze.»*
Penso no meu Icke. Estivesse comigo dizia-lhe.
*Citação do livro de George Orwell «Mil
Novecentos e Oitenta e Quatro
Texto #56 a sair para a Rua com o DAR PALAVRAS.
OBRIGADA POR ME LERES.
Publicação original aqui:
http://preguicamagazine.com/2015/03/18/conto-amarin-o-que-faltou/
Agradeço a oportunidade que o querido Paulo Kellerman me deu, ao publicar três dos meus textos («Amor?», «Amarin - o que faltou» e «Check-in») no espaço dinamizado por ele, na Preguiça Magazine.
Trata-se de um grande escritor que merece ser conhecido. Recomendo «Gastar palavras» - Prémio Camilo Castelo Branco de 2005 e «Os Mundos Separados que Partilhamos».
Podem acompanhá-lo, também, aqui:
http://agavetadopaulo.blogspot.pt/2016/05/contagio.html.
Texto #56 a sair para a Rua com o DAR PALAVRAS.
OBRIGADA POR ME LERES.
Publicação original aqui:
http://preguicamagazine.com/2015/03/18/conto-amarin-o-que-faltou/
Agradeço a oportunidade que o querido Paulo Kellerman me deu, ao publicar três dos meus textos («Amor?», «Amarin - o que faltou» e «Check-in») no espaço dinamizado por ele, na Preguiça Magazine.
Trata-se de um grande escritor que merece ser conhecido. Recomendo «Gastar palavras» - Prémio Camilo Castelo Branco de 2005 e «Os Mundos Separados que Partilhamos».
Podem acompanhá-lo, também, aqui:
http://agavetadopaulo.blogspot.pt/2016/05/contagio.html.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
DEZOITO
Está sentada no degrau onde por encosto arranjou uma parede
de azulejos azuis. Quinze homens enfrentam ondas desafiadoras perto do
escritor, do etnógrafo, do outrora presidente do município. A cabeça pende-lhe.
Bonita e antiga. Amo-a na vulnerabilidade. A saliva escorre entre os lábios
entreabertos. A saia queimou-se. Um montículo de cinza frio jaz no seu colo ladeando
o buraco recém-aberto no tecido. Um cigarro mal apagado no chão, ao lado dos
sapatos engraxados a preto, fumega resquícios de um vício libertador. Penduradas
nos seus pensamentos descrições precisas de massas informes. Imagens presas por
molas no estendal laboratório da sua mente. Conheço-a melhor a cada mergulho.
Aperfeiçoa-se na apneia. Ganha robustez na fragilidade resiliente. Aprende
sozinha a arte de perceber a força escondida em cada deficiência sua. Levanta-se,
sorri para a saia danificada, para os pés molhados. Limpa a bochecha com o
pulso. Cheira-o. Detesta o odor da própria saliva, adorando o das pessoas com quem
se deitou. Sente saudades de ter orgasmos e de escrever. Há quanto tempo o
vazio. Principia a marcha incerta como o bicho selvagem recém-parido que se
ergue e, de imediato, para sobreviver se põe a andar, a fugir, a comer. Corre
como respira. Autónomo. Sem progenitora que lhe valha. Sem pai que o proteja. Amor
nenhum além daquele que o agarra à vida. É nascer e partir. Haverá frase mais
curta do que o que medeia o parto e a morte. Virgínia caminha
bamboleante. Para trás louvores a peixeiras e pescadores. Para a frente honras
a homens que defenderam centenas de vidas arriscando a própria. Impede-se de reflectir
sobre a inutilidade da sua existência comparada à relevância dos que fizeram
diferença ao salvarem alguém. Quando muito é a si mesma que salva. Acredita
cumprir-se. Enquanto houver em si o interesse pelas histórias resistirá a
entregar-se. Espero-a onde acaba a terra. Pressa nenhuma.
Passeia com destino definido pelas ruas da minha cidade.
Demora-se na alegria antes de estacar na Rua José Malgueira. Enfrenta
consciente o edifício onde estão muitos dos que conseguiram sentados e outros
tantos falhos, como ela, de pé. Na mesma posição, vê quatro figuras de costas
para quem chega pela Santos Minho. Dois homens e duas mulheres. Um deles carrega
um saco do lado esquerdo. Miúdos correm chilreando inocências a perder. Virgínia
prende o cabelo, inspira profundamente, expande o peito ao limite. Ajeita o
peso da mochila nas costas. Acomoda as dúvidas ao fundo e ao meio.
A angústia incapaz do futuro.
XIX
Ruge.
PROCURO LEITOR
Para navegação séria. Sem amarras. Dou palavras na Rua desde 08 de Março de 2013.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/550376868456944
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/550376868456944
quarta-feira, 11 de maio de 2016
O ESTRANGEIRO - ALBERT CAMUS
QUEM AINDA NÃO LEU QUE NÃO PARE NESTE POST,
P.F.
Retorno aos clássicos com “O Estrangeiro” de Albert Camus (1913-1960. Nobel da Literatura em 1957). Afigura-se história simples: Morre a mãe de Mersault e este cumpre a função de ir ao velório e ao funeral. Não chora. Namora com Maria porque a deseja. Trabalha num escritório para ganhar um ordenado. Tem um amigo, Raimundo, que se envolveu em quezília com o irmão de uma amante que espancou. Almoça no Celeste. Trivial. Indiferente ante as escolhas do quotidiano que, segundo ele, jamais fazem a diferença, dado que todos mortos um dia. Numa tarde de Verão dispara cinco tiros fatais para outro homem, porque se desnorteia com o calor.
Será julgado. Testemunhamos o esgotante desenrolar do processo de acusação. Constatamos que, para os acusadores, o crime maior não terá sido assassinar um homem. Foi não chorar a mãe.
Acaba quem o trouxe para a vida e nem uma lágrima, um soluço, um tremor? Sinal nenhum de desconsolo. De facto, como o próprio esclarece, estaria com demasiado sono para viver, em condições, a perda. As necessidades fisiológicas impõem-se-lhe amiúde ao bom senso e aos deveres sociais. Há muito que nada diziam um ao outro, motivo bastante para que lhe não doesse, tanto, a despedida. Preferiria, note-se, que tivesse continuado viva, todavia, a culpa do falecimento não fora sua. No dia seguinte à descida de sete palmos da ascendente vai até à praia, namorisca com Maria e termina a noite no cinema, com uma comédia do Fernandel. Insensível ou tão-só fiel a si mesmo?
Dir-se-á de alguém que diz o que pensa e sente que é honesto. Sincero. Confiável. E se as razões e sentires dessa pessoa chocam os outros? Agridem, até. Se vão contra tudo o que lhes incutem desde o ventre. Então, desejarão que se cale (nós também), de preferência para sempre. Eis o que sucede ao anti-herói desta obra-prima de 89 páginas. Será sentenciado por se expor em demasia ao não omitir certos pormenores do que lhe vai dentro. É descritivo até às entranhas, nunca censório. Não há floreados no discurso de Mersault nem hipocrisia e é isso que o trama quando, ironicamente, se manteve calado a maior parte da existência, por considerar não ter o que de relevante dizer.
Culpado de não demonstrar sofrimento, de assumir as urgências e os não-sentimentos. Culpado de não ser, nem agir, como os demais. Estrangeiro em terra de mentirosos. Ninguém aguenta a verdade inteira, como não se tolera olhar directamente para o sol. Foi a inteireza que condenou Mersault e é nessa que renascerá.
A um instante da execução crê recomeçar. Nesse momento de expiração, mais do que o amem, deseja com fervor que o odeiem profunda e exultantemente. Somente bizarro ou derradeiro grito de liberdade?
195 BPM – A adquirir. Um livro para reler a vida toda. Cito o advogado de defesa: «Eis aqui a imagem deste processo: tudo é verdade e nada é verdade.»
Publicação original AQUI.
Publicação original AQUI.
terça-feira, 10 de maio de 2016
XVII – Ala-arriba!
Santo André resgatou-me à fundura. Acordo
a flutuar. Quanto durou o afogamento. Ao redor centenas de páginas nadam a
profundidades diversas. Amparam-me. São as que criei. Distingui-las-ia em
qualquer meio. Letras de todas as cores vão surgindo como fotografias
reveladas em câmara escura. O papel indestrutível. As histórias, os lugares, os
compassos, as personagens vieram em meu socorro. Puxam-me, pelas axilas, para fora.
Pousam-me com cuidado numa pana, embora seja certo darem-me como acabada com a
visão turva e as cordas vocais enfeitiçadas, som nenhum. Ouvem-se diversas
pronúncias do português em conversas encantatórias. Num repente de convulsão
expulso água dos pulmões. Posso assegurar ter recebido um beijo de vida,
instantes antes. A reduzida área, entre bancos, está atulhada de redes com
livros, papéis, esferográficas, blocos, folhas soltas, dois computadores,
papiros, penas, tinteiros, mata-borrões, uma Olympia, maços de tabaco de marcas
desconhecidas, as caixas coloridas de algumas das colecções doentias. Tiveram
de arranjar espaço para me acomodar além da estranha pescaria, entre os pés dos
tripulantes da lancha sobrelotada. À medida que os olhos se habituam à luz vou
descortinando os rostos que me rodeiam. Mortos, todavia, vivos. Integramos
frota de embarcações diferentes em tamanho e feitio. Alguém confirma «Navegamos
à bolina». Os remos ainda estão recolhidos. Ao bombordo, incontáveis
velas-trapézio rogam a Deus inclinadas na sua fé desmedida. Lotação esgotada,
igualmente. Levanto-me e reconheço mais gente que venero. A boreste, barcos a
perder de vista no limite da capacidade. A ondulação faz-me temer o
desequilíbrio e o naufrágio. Perdi o impulso de me matar. Recupero, aos poucos,
o fôlego de que desistira. Quando me constatam viva, todavia, morta,
congratulam-se. «Bem-vinda a bordo. Permaneces se remares.» Lêem-se histórias
dos séculos antepassados. Relembro algumas, surpreendem-me as desconhecidas.
Recrimino-me por estar tão atrasada nas leituras essenciais. Sentámo-nos de
frente uns para os outros. Ti’Maio concentrado ouve-nos. Garante que navegamos
seguros nesta lancha. Indelével.
Ao longe, luz. A Lapa reacendeu-se para
nós. Será difícil. O farol avisa-nos das condições adversas à entrada da barra.
Tomo o meu posto como se soubesse exactamente o que fazer na navegação. Foco-me
nas pinturas mágicas dos cascos que a vista alcança. Creio nas suas bênçãos
para nos fazer aportar. As conhecenças serenam-me. Serei capaz. Por companhia
os tripulantes mais competentes da história da humanidade e um patrão bravo ao
leme. Por debaixo de nós as vagas aumentam súbitas e assustadoras. Ele fala
comigo depois deste período em que o desconsiderei.
«Fica.»
«Indo onde tenho de ir.»
«Isso significa o quê?»
«Preciso de chegar para reconhecer a rota.
O quanto remei.»
«Chegar?»
«Sabes o que quero dizer. Chegar.»
«Persigo-te como um cão raivoso.»
«Perdi o receio.»
«Decides afrontar-me.»
«Sem dúvida.»
«Arriscas.»
«Sim.»
«Antes de ti muitos falharam ou
desistiram.»
«Já mo disseste. Vou.»
Encapela-se. As lanchas bailam o
descontrolo imposto pela sua indignação, ameaçam tombar, render-se à água
invasora. Desceu a noite antes da hora e uma neblina espessa engole-nos, vinda
do interior. Deixamos de ver os pontos que nos asseguravam estarmos perto de
poder deixá-lo. Só a intuição pode valer-nos. O vento é afinal seu cúmplice na
refrega. Os patrões gritam-nos incitamentos, calma e as orientações possíveis.
«Reduzir o pano nos quatro rizes.» Dobramo-nos combativos sobre os remos aos
quais nos amarrámos. Contamos com a força maior que levamos dentro. Impassíveis
perante o sangue que preenche as linhas das palmas guerreando. Tememos morrer
pelo esquecimento e que tenha sido vão o nosso esforço para permanecer, acerca
de nós, uma evidência. Somos iguais, temos medo. «P’ra barlavento.» Que a
velocidade boieira nos guarde e leve rápido a bom porto. Aguardamos vigilantes,
antes da barra, por todos os barcos ainda em perigo. A solidariedade é
redentora. A compaixão salva. Apesar da desorientação que a tempestade nos
inflige, remamos em absoluta sincronia. Sabemo-lo: A noite estrelada é bela mas
a estrela solitária não enleva. Dois camaradas ajudam José Rodrigues com o
governo da lancha. «Agôra.» Entramos na barra. Na praia uma multidão
organiza-se lesta, aguarda a oportunidade de se atirar ao mar e caçar os estais
para varar os barcos para terra. Acolher-nos-ão após a tormenta na enseada.
Sophia, Florbela, Luísa, Irene, Sara,
Fiama, Maria, Gabriela, Ana, Madalena, Cecília, Filipa, Ângela, Teresa,
Violante, Helena, Mariana, Judith, Judite, Branca, Luiza, Natália, Leonor,
Jacinta, Ilse, Catarina, Mécia, Guiomar, Joana, Amália, Alice, Dóris, Rosa,
Carlota, Matilde, Francisca, Bernarda, Inácia, Brígida, Antónia, Constança,
Teodosia, Aurora, Tomásia, Brites, Isabel, Beatriz, Umbelina, Margarida,
Adriana, Agostinha, Bárbara, Eugénia, Ivo, Caetano, António, Raúl, João,
Flávio, Francisco, David, Jorge, Dinis, Carlos, Vitorino, Manuel, Miguel,
Vergílio, Júlio, Fernando, Diogo, Duarte, Augusto, Camilo, Campos, Adolfo,
Mário, Armando, Abel, José, Alfredo, Gil, Luís, Luiz, Leonardo, George, Emídio,
Albino, Fernão, Agostinho, Pedro, Guilherme, Nicolau, Alexandre, Joaquim,
Henrique, Jacinto, Alberto, Jaime, Álvaro, Herberto, Eduardo, Romeu, Ruy,
Eugénio.
Reuniram-se infindos na salvação.
Saltamos para terra firme. Os nossos
ombros aliviam o peso do barco agitando-o pelos lados, enquanto a irmandade
puxa a lancha com alento conciliado. As pernas são tesouras vencendo a areia
além do próprio eixo. Alguns correm da ré para a proa com os paus de sebo
recém-libertados para os recolocarem por debaixo do casco, mais acima. As
expressões denotam o contentamento de vencerem as dificuldades. O barco move-se
lento, metro a metro, conquistado ao mar, galgando a duna sobre dorsos obstinados.
Somos voz em uníssono. «Força, para cima! Força, para cima!»
Andreia Azevedo Moreira
03 de Novembro a 28 de Dezembro de 2015
OBRIGADA POR ME LERES.
terça-feira, 3 de maio de 2016
Dezasseis
Abençoado o que determinou que se rasgasse a Mouzinho de Albuquerque. Quilómetro percorrido, sem desvios, em poucos minutos. Derivasse o percurso e a cidade devolver-me-ia diligente ao nosso amor primordial, num abraço com mais de oitenta quilómetros quadrados. Vasco da Gama. Santos Graça. Serpa Pinto. Elias Garcia. Descobrimentos. Esta pela qual me desloco apressada e enferma. Paro solene em cada uma das dezanove placas de metal anunciando a avenida a azul. Nando artífice de outras artes faz de cada criação irrepetível. As letras são as mesmas, a matéria-prima variação subtil. Apesar do tom predominante, o labor do artista originou peças incomparáveis como o são memórias e afectos. Como irmãs o mesmo código, mundos diversos. As siglas poveiras segredam as leituras dos valorosos de antigamente. Caminho fazendo jus à alcunha com que me apodaram. Julgam-me tonta, incapaz de os entender se me criticam próximos. Brinco perdida de gozo. A troça cessou de fazer mossa e brinco com as palavras alto, em rima ou em prosa, sem necessidade de lhes provar ser capaz do melhor. Importa-me tão-só o rumo.
Passeio na cidade fantástica
com os olhos fora do chão. Cálice aberto, lanchinha, quartos, pé-de-galinha, estrela,
São Selimão. É coice, também sarilho, colhorda, cruz, pique e arpão. Escrita
primeira de marcar bens e presenças. Admiro-a bendizendo a hora em que aprendi os
signos da língua-mãe. Inscritos na cabeça, penso-os com o coração.
Na Póvoa jamais acontecerá perder-me, mesmo quando rimo.
Todas as ruas conduzem ao mar. Atravessada a Avenida dos Banhos, estou à frente
do edifício cor-de-rosa, com o nome que teria escolhido para a filha que não
quis gerar: Diana. Também teria gostado de Inês ou de Sofia. De que serve a
especulação, nunca aspirei à maternidade. Contorno deferente esta morada de cultura.
Os livros escritos a transparente estão alinhados lá dentro sem testemunhas.
Escondi-os, há muito, perto de Marguerite.
Estou certa de que alguém atento os há-de ler. Por ora, enterro bem os pés na
areia. Preenche cada espaço entre as meias, os pés e os sapatos. Percorro o
areal munida das canetas multicolores, da resma de papel e das armas próprias
da inteligência. Chegou o último mergulho. Vou com a roupa que me serve. Coloco
um pé dentro dele. Sinto-o gelado no couro dos sapatos. A areia pesa mais. Submerjo
o pé direito. Caminho por ele adentro. A temperatura sente-se como espadas.
Encharca as meias, a saia, a pele arrepiada e dorida, os cabelos colam-se às
costas para, mais à frente, flutuarem como algas. As articulações bloqueiam. É o
28 de Fevereiro de um ano desconsolo. Ele enrola-me, respiro sal, arde a
garganta. Os pensamentos misturam-se. Os ouvidos comprimem-se antes do pânico da
extinção. Estou certa de poder emergir com ideias de revolução e liberdades
urgentes. Livre. Enfim, livre. Afinal, completa. As ideias vêm de todas as
partes do corpo. Uma de um tornozelo. Aquela, dos joelhos. A mais adorada do
céu-da-boca. O arrojo depositado na língua solta-se e é visível como se
tratasse das bolhas de oxigénio, por ora dispensável. Abro os olhos no verde
turbulento. Ao meu redor o meio desenha-se como bolas de sabão das que duravam
menos do que a alegria de menina ao soprá-las. Ouço o cavernoso «Pára.»
Desesperado com o próprio domínio, tenta devolver-me à beira. Tusso alguma água
engolida. Reergo-me. Dou três passos com determinação redobrada. Esbracejo
ânimo e recito narrativas, entrecortada pelos trovões. Vês. Lembro-me. Recordações
perduram apesar dos recalcamentos. Busco nele a cura. Chora com o dilúvio por
me saber irreparável. Roga «Desiste.» Recuso-o, não obstante o poder imenso que
exerce sobre mim. O vento agita-o. Desconheço se o conforta ou atormenta. Que serventia
é a sua. Rumor incansável, potência motriz, único ruído antes de me afundar. A
corrente transporta-me a velocidade constante onde só há quietude. O xaile ocre
dança à tona.
Silêncio.
Andreia Azevedo Moreira
3 de Novembro a 28 de Dezembro de 2015
OBRIGADA POR ME LERES.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Parte XV - Baixa-mar; 23h09; 0.89m
Toda a evasiva é exterior. Daí ter resolvido regressar. A
estadia paga até domingo. Os miúdos encaminhados com o Ricardo, lá em baixo.
Fico. Disse “Não”. Engraçado que bater com a porta, para mim, equivalha a levar
com a dita com estrondo. No caminho renegado sinto a dor do desfecho como se
tivesse sido E. a promovê-lo. Passei a tarde a dormir. O surto desta manhã um
pesadelo remoto. Dormi pesada em cima do colchão estranho. Tive sorte de a
bibliotecária me ter proibido, apenas, de repetir a graça. Grata. Estes dias
são o oásis do meu quotidiano. Sede de me isolar. A literatura é o pretexto
para que os meus aceitem ausência prolongada. Procuro a solidão obstinada,
tanto quanto os que anseiam companhia buscam alguém que os resolva. Passo bem
sem pessoas. Seria desgosto se lhes causasse a dor de uma descoberta destas.
Assisto horrorizada quando acções de que sou responsável lhes desenham tristeza
nas testas pequeninas. Atormenta-me o pavor de lhes destruir o futuro, de lhes
dar cabo da auto-estima, de os estilhaçar impedindo-os de construírem relações
saudáveis. A responsabilidade de criar três crianças é avassaladora. Fazer o
quê com elas se desconheço o que fazer comigo. Vêem-me alta, santa, como se
soubesse imenso e é falso. As memórias que construímos sobre a convivência primeira
são as mais destrutivas. Quero fugir. Acordo com esta ideia. Domestico-a. Imperdoável
a mãe que abandona. Cinco dias em trezentos e sessenta e cinco em que me finjo
só. Ninguém à espera para eu cuidar ou para me idealizar. Ninguém aguarda um
pingo de chuva num dilúvio, nem se angustia com um mosquito contra a velocidade
do pára-brisas. Sou vento, graças a Deus. Ninguém dá por mim . Invisível. Vou às
Correntes. O resto do ano é vosso. Ajo mecânica. Abarco atabalhoada os papéis
destinados. Robot da vida moderna. Encurralada entre a família, os pensamentos,
acções e omissões, clandestinidades e a cura. Nunca me diagnosticaram asma,
ansiedade ou outra desordem quer fisiológica, quer mental e, no entanto, uma
falta de ar persistente acompanhada de um hálito fétido. Ando com a bomba. É-me
tão característica como pesar sessenta quilos, medir um metro e setenta e
quatro, ter cortado o cabelo curto na adolescência e manter o corte inalterado
por décadas, a franja, um sinal que detesto no queixo e uma apetência estúpida
para me apaixonar. Isto estará explicado nos anais de psicologia. O meu
paizinho, isto, a minha mãezinha, aquilo. Acredito que esteja e não quero
saber. O presente é responsabilidade do próprio. As mudanças operadas foram
subtis. No início, era feliz ou convicta de o ser. Passados alguns anos, algo
insatisfeita, atribuí-o a indisposição passageira. Comecei a acumular o
descontentamento nos ossos capaz de me afirmar bem. Protegia a imagem. Era o momento
de pretender, somente, convencê-los. Miserável já não disfarçava fora nem
dentro. Na dor declarada descuido o valor atribuído ao que pensam das minhas atitudes.
A infelicidade é o esqueleto que sustém. Dificílimo sair disto. Nego os
argumentos que impulsionem a mínima mudança. O logro começou anos antes de o
poder admitir, quanto mais verbalizar. Gostaria de experimentar vidas diversas
da escolhida. Uma é insuficiente. Daí que a fachada incompleta na Rocha Peixoto
me tenha sugerido um conto sobre o portal que nos permitiria ensaiar a vida.
Anotei os tópicos principais do enredo. Pela fresca, com os primeiros indícios
da manhã, trabalho-o. Perseguir inúmeros trilhos sem prejudicar. Experimentação
e regresso. Experimentação e regresso. Experimentação e regresso. A trama foi
mais bem escrita por um grande escritor séculos antes de mim, todavia,
ignorante relativamente ao que quero. Assim, causas próprias as mesmas mãos no
teclado. De facto, ninguém me forçou. Tomei decisões. Precipitei-as, inclusive.
Crente de que o amor é companhia sem estar certa, sequer, da sua existência.
Este, a estar desacompanhada, é o quê? Deve ser o egoísmo. Talvez tenha nascido
defeituosa. Imaginei a maternidade altruísta, feita de renúncia alegre. Mulheres
com este instinto exacerbado para serem outras, além de cuidadoras de lares e de
filhos, falham nas competências, no preenchimento do teste psicotécnico tácito
dos que estabelecem como é ser-se boa mãe. Não me chateiem, não me façam pedidos
a cada três, vírgula, nove segundos e para ontem, deixem-me na casa de banho
sozinha, são três minutos, pouco mais. Cinco não vos fazendo mossa. Parem de me
chamar em simultâneo, de gritarem matérias importantíssimas as quais devo
considerar de igual modo, no exacto momento em que as proferem, parem de
competir pela atenção, pelo afecto, como se o meu bem-querer fosse uma coisa
pequenina que partilhada perdesse significado. Não respondo a perguntas que me
obriguem a distinguir quem amo. Grito. Grito mais do que queria e odeio
gritar. É contra a minha natureza impor-me. Ver-me sozinha longe de reclamações
é o que quero com ardor. Serei mãe. Saturada das birras, berros, ralhetes, da
negativa, de lutar com a resistência deles, das ladainhas insatisfeitas, de me ver
malvada a cada instante, em erro, a desiludir, a magoar, a exceder-me nociva.
Estou farta. Exausta. Em extinção. Agiganto é certo, porém, não diminuo o que
me apetece. Desaparecer. Então, neste mês redentor, guardo numa pequena mala três
camisolas quentes, calças de ganga, meias e cuecas, botas para a chuva, livros,
revistas, o meu caderno azul, o estojo de grafites, o computador portátil e
meto-me num comboio para o Norte. As férias tiradas da biografia começam pelas
quatro e meia da manhã. Desço as escadas silenciosas do Lote 11. Aguarda-me o Sérgio,
amigo da família, em quem confio para me levar em segurança de madrugada. Vamos
numa conversa boa até Santa Apolónia. Na estação gelada verifico a linha de
onde parte o alfa-pendular das seis. Sigo para a plataforma e instalo-me no
assento escolhido com quinze dias de antecedência, para usufruto da promoção.
Entretenho-me a observar os passageiros ao redor. Desenho a maioria, escrevo
poucos. Conjecturo um bocado sobre as suas vidas e, quando me aborreço,
dedico-me à leitura. É raro adormecer. No hotel pelas dez estico-me na cama indolente.
Aprecio a imobilidade, vejo o que me apetece na televisão, leio, faço o que me
dá na bolha. Vingo-me. Serei propriedade de quem. Pergunto porque nas falanges escuto
culpa. Levanta-te. Põe-te em sentido,
Mãe. Os que te avaliam têm tabelas com os parâmetros que incumpres, em rigor,
todos os dias, Mãe. Comporta-te, Mãe. Aspirações-extra a que propósito, Mãe. Há
lá melhor. O que fazes estendida, Mãe. É árduo, sim, mas o sorriso deles
compensa. É, Mãe? Os sorrisos deles são a expressão da sua generosidade
perante a vida, reconfortantes, sim, mas não são tudo e, sobretudo, não são
meus. São deles. Sinto falta de mim, do ar limpo e a médica de família nega-mo.
Serei doida. Por que não me bastam. Por que não me rendo. Nado no mesmo sítio
há tanto tempo. Afogamento previsto para uma noite de desânimo pelas 23h09.
Como é que ela se afogou com água pela cintura. «Não pediram para vir.» A avó.
«Tens de brincar com eles.» O avô. «Descontrai.» O marido. «Desorientada.» Eu. Avisto
o Grande Hotel no seu tom vívido. Renasço. É o princípio do desprendimento.
Corro. Possibilidades imensas. Desconforto nenhum.
Paz.
Andreia Azevedo Moreira
De 3 de Novembro a 28 de Dezembro de 2015
OBRIGADA POR ME LERES.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




































