quarta-feira, 29 de junho de 2016

«AMARIN – O QUE FALTOU»


«Sou feliz com o cheiro da terra quando chego a Garvlae e abro a janela, para pagar a portagem.»

Gostava de ser o tipo de pessoa que se alegra com impressões olfactivas. Dava o conteúdo da minha conta bancária para ter dito isto. Nunca me ocorreria. Foi Amarin quem me falou assim. Terei todo o prazer em contar-vos sobre o que me faz feliz. Ser-vos-á desagradável, creio. Começo pelo nome, depois veremos. Chamo-me Liexao Icke. Nasci trinta e um anos após a Segunda Guerra. Detestaria viver naquela época, fardado, parte integrante de um exército. As pessoas formatadas irritam-me. As obedientes enojam-me. Um batalhão reforça-se com gente submissa. Sem submissão não há guerras, nem carne para munir canhões. O mundo que fabricámos é merda porque houve e haverá, sempre, os que baixam as cabeças e abdicam de pensar por si mesmos. Também desprezo os senhores que se aproveitam dessas almas subalternas. Nasci forte, tenho responsabilidades. Se conheço mais e alcanço mais longe, se ocupo lugar que me confere poder, tenho de medir as forças que emprego. Isto não é bondade. É o equilíbrio que devo ao Universo. Será reclamado. Conheço a minha posição e apesar do desinteresse em comandar, é-me inevitável se se rendem ainda nem iniciei o confronto.

Amarin não é fraca. Age como tal. Acredita num défice de coragem que me empenhei em incutir-lhe. Mudei as lentes da sua alma. É extasiado que o declaro. Certa vez, abordei o medo. Ela estava muito quieta, direita, ouvindo-me atenta com os olhos castanhos. Idolatrava-me. Não recordo a idade que teria. Não teve grande importância. Passou magra e discreta, cá dentro, como a vizinha a quem achamos piada e, houvesse oportunidade, com quem gostaríamos de dar uma, mas temos dificuldade em memorizar o nome. Baixei o tom de voz, até a um timbre quase inaudível. «O Medo.» Terá sentido o rumor do meu hálito no pescoço. Os caracóis escuros estremeceram no arrepio. Manteve-se muda. «O Medo.» Era bonita a minha morena em pânico, fitando a televisão. Fixava o olhar míope, compenetrada, para impedir o horror de entrar. O espanto dela excitava-me. Podia estar uma tarde inteira a sussurrar «O medo…», apenas para poder observar as mãos esguias cravarem-se nas coxas-tentação, que testemunhei inseguras na primeira marcha. Angariei amigos para o dizerem comigo. Não se descontrolava. Remetia-se ao silêncio, como a presa encurralada que acredita. De tanto ouvir sobre o temor encheu os bolsos e tinha-o para dar, às mãos cheias. Não entendo não me ter odiado. Fiz o que pude, desde que ma passaram para as mãos suja de fezes e sangue. Ou era imune, ou encontrava cura no riso e no choro dos quais abusava, sem consideração pela injustiça das emoções. Risse como ela, sufocaria. Admito apenas o tipo de humor que faz cócegas a pouca gente, porque menos entendível. O óbvio não me aquece. O fácil não me move. A simplicidade cansa-me. Amarin era simples, inocente, espontânea, suave. Parva. A sua gargalhada agredia-me. Quem a ensinou a ser alegre? Houve tempos mortos, nos quais me dediquei a estudá-la. Queria desvendar o mecanismo daquela autenticidade. Ambicionava desmontar a representação, convicto que, por detrás do pacifismo estaria a verdade; a zanga; o mal. A minha morte. Chorasse metade do que verteu, morreria afogado. Era obsceno o seu modo comovido de levar a vida. Quando visitámos o Zoo lamentou a candura dos aprisionados. Passou minutos defronte das grades, que os distinguiam, a encará-los.

«Para eles sou uma janela.»

Caminhava até ao seguinte. Ridicularizei a missão que abraçara e não obstante a reverência que me devotava prosseguiu, ignorando-me. Fê-lo até que todos os animais tivessem experimentado a liberdade. No fim da tarde afirmou: «Não torno.» Assim foi. Provoquei-a. Cancelei encontros por me negar o destino proposto. Não cedeu, embora escurecesse de saudade. Eu, nada sentia. Fazia-o por desporto, para castigá-la por ousar contrariar-me. Divertia-me a sua vontade de estar comigo, que a maltratava. Talvez Amarin fosse estúpida. Não sei. Desconheço do que é capaz a couraça do amor. Pessoalmente, o bem-querer que dominei foi à Arte. Um prato com comida pode sê-lo, sejam nele depositadas as quantidades justas de empenho, criatividade, talento e esforço. Eis o amor em estado puro. Da Arte pouco espero, além de frustração. A demanda que não cessa. Um caminhar incansável. Aprendo a menosprezar o desgaste que o insucesso traz. Já de uma pessoa espero muito. Que não adoeça, para não me maçar com trabalhos; que me ame incondicionalmente; não me abandone; me dê prazer; que seja companhia, ouvinte, interlocutor, salvação; algo que possa pontapear, com o que me sobeja em amargura e me faça “FELIZ!”. Não acaba o quanto esperamos dos outros. Onde não houve incúria? Na educação dela. Inatacável. Teve acesso à excelência. Se não aproveitou deveu-se ao feitio de asno. Mantinha-se imperturbável, qual sequoia, perante os incêndios que lhe ateávamos, ao redor. Giravam vinis de Stravinsky, implorava por bandas com nome de cidade remota. Pergunto: Morre-se de paixão com aquele barulho nos ouvidos? Levei-a a espectáculos de dança que eram como ver, de perto, o paraíso, sentou-se ao lado agarrada ao dispositivo táctil e ar lunático, a desviar-lhe as feições. Ignorante por convicção. Livro que eu sugerisse e a leitura ficava pelas primeiras páginas. As minhas estantes jamais a cativaram. A melhor literatura dava lugar a histórias de cordel terríveis. O meu gosto coíbe-me de enunciá-las. Tenho uma teoria acerca do pouco espaço que ocupou, na minha vida: Espirrei-a. Foi um desperdício dos meus pulmões. Estranhei-a sem a entranhar, contrariando o poeta. Não se apercebia. Era fiel. O cão que se alegrava com a minha chegada e entristecia, na despedida. Defender-me-ia com o corpo. Usei-a sem parcimónia. Não me envergonho, ou arrependo. Preciso de me saber a existência e a extinção para alguém. Consenti que me lambesse mãos, pés, os restos. Acolhi, com deleite, a sua vulnerabilidade. Interrogo-me se ela desconhecia a humilhação, ou a tolerava refém do meu amor sem respostas. As minhas demonstrações de orgulho, pelas suas conquistas, eram nulas. Chegava contente para me falar de uma vitória, desmantelava-lhe a alegria. Arrogante. Vibrava ao fazê-lo em público. Quanto mais a expusesse ao ridículo, melhor. Maior o entretenimento. Ri-me, muitas vezes, do seu rosto carente e ela sem desistir. Não compreendia a teimosia. Ambicionava que me odiasse, de tanto me querer. Desejava que se estragasse, que lhe apodrecesse a ternura e se preenchesse dos vazios que eu hábil urdia, nas suas emoções. Ela ia somando prémios: Revelação aqui, originalidade ali. Destaques na imprensa, além. Os louvores alheios não a consolavam, quando me procurava expectante e eu devolvia tédio e silêncio. Creio que não perdia a esperança de um dia me apanhar a lacrimejar, babar, ou qualquer disparate do género que as pessoas segregam, quando gostam umas das outras e alguém triunfa. Pobre rapariga. Acreditava-se capaz de me reparar e ao mundo e que o faria, começando por si mesma. Uma idiotice. O mundo não tem conserto, sabemo-lo. Não o havia de ter através de uma miúda sem QI, movida a vísceras. Idealista sem causa relevante. Por outro lado, a minha falta de conserto era um equívoco. Não estava danificado. O nosso mal foi a inabilidade dela, para o conceber.

Naquele Domingo combinámos lanchar. Eu levava um saco de memórias corrompidas. Recusou-se a recebê-lo. Dispensava prendas. A minha presença seria o bastante, para estar bem. Tentava, amiúde, abraçar-me com a meiguice do olhar, já que o toque e os afectos estavam excluídos, da equação que nos escrevi. Insisti que abrisse os presentes, quando terminámos as torradas com manteiga, doce de tomate e o chá com leite. Cada papel que rasgava, à minha frente, era o som do que lhe faziam as minhas intenções aos sonhos. Eu rejubilava. Ela respirava com maior dificuldade, ao avançar nas descobertas. Uma vez revelado o último presente encarou-me, sem indício de emoção. Os olhos estavam secos, contrariando o que eu antecipara. Perguntou-me: «É isto?» Nada respondi, além do sorriso. Depois ficou tudo branco. Havia um brilho que me cegava e uma Amarin sem expressão. Pela primeira vez ela não era transparente. Não conseguia decifrar em que pensava, o que sentia, a vontade que lhe subia ao peito e faria mover as mãos, houvesse sangue aquecido nas veias de gente passiva. O controlo da situação abandonara-me, todavia, sentia-me leve. Fitava-me esquisita, de baixo para cima. Havia desafio e desnorte. Tristeza e orgulho. Perda e soma. Havia ressentimento e amor. Não pude calcular o que predominava. O «Noves fora, nada»? Afastámo-nos inconscientes um do outro. Amaldiçoei-a: «O amor que te neguei, não será.» Não que desejasse mal maior do que o que já lhe tinha imposto, mas sou realista. Parecia resignada e ao mesmo tempo preparada para ir buscá-lo, noutros lugares. Os olhos mantiveram-se indiferentes ao que lhe embrulhara. As mãos ainda me davam festas, na mesa. Os pés acusavam o nervo da despedida. Quis dizer. Não disse. Quis sentir. Não pude. Quis fazer. Estaquei. Ela saiu, a correr, da pastelaria. Decidi berrar à mulher-criança, então surda para me ouvir, que tropeçava, caía e prosseguia, Rua abaixo, desprezando os meus rogos. Não me sentia forte, nem a sua vida, tão-pouco o seu fim. Era o chão percorrido. Amarin pisava-me para escapar e o fôlego não me permitiu rasteirá-la, contra o que fora hábito durante anos. Desapareceu, ponto minúsculo, ao dobrar a esquina do Lote 15. Parasita. Fingidora. Coisa... 

«AMARIN!»     

Sinto-me feliz quando me deparo com os azulejos das fachadas da Cidade, nos meus passeios, conduzida pelo piano, em Dó menor, de Bethoven. Sou-o nesta esplanada, a beber café e a Ler: «Era um dia claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze.»*

Penso no meu Icke. Estivesse comigo dizia-lhe.

*Citação do livro de George Orwell «Mil Novecentos e Oitenta e Quatro



Texto #56 a sair para a Rua com o DAR PALAVRAS.
OBRIGADA POR ME LERES.


Publicação original aqui: 
http://preguicamagazine.com/2015/03/18/conto-amarin-o-que-faltou/

Agradeço a oportunidade que o querido Paulo Kellerman me deu, ao publicar três dos meus textos («Amor?», «Amarin - o que faltou» e «Check-in») no espaço dinamizado por ele, na Preguiça Magazine.

Trata-se de um grande escritor que merece ser conhecido. Recomendo «Gastar palavras» - Prémio Camilo Castelo Branco de 2005 e «Os Mundos Separados que Partilhamos».

Podem acompanhá-lo, também, aqui:
http://agavetadopaulo.blogspot.pt/2016/05/contagio.html.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

DEZOITO

Está sentada no degrau onde por encosto arranjou uma parede de azulejos azuis. Quinze homens enfrentam ondas desafiadoras perto do escritor, do etnógrafo, do outrora presidente do município. A cabeça pende-lhe. Bonita e antiga. Amo-a na vulnerabilidade. A saliva escorre entre os lábios entreabertos. A saia queimou-se. Um montículo de cinza frio jaz no seu colo ladeando o buraco recém-aberto no tecido. Um cigarro mal apagado no chão, ao lado dos sapatos engraxados a preto, fumega resquícios de um vício libertador. Penduradas nos seus pensamentos descrições precisas de massas informes. Imagens presas por molas no estendal laboratório da sua mente. Conheço-a melhor a cada mergulho. Aperfeiçoa-se na apneia. Ganha robustez na fragilidade resiliente. Aprende sozinha a arte de perceber a força escondida em cada deficiência sua. Levanta-se, sorri para a saia danificada, para os pés molhados. Limpa a bochecha com o pulso. Cheira-o. Detesta o odor da própria saliva, adorando o das pessoas com quem se deitou. Sente saudades de ter orgasmos e de escrever. Há quanto tempo o vazio. Principia a marcha incerta como o bicho selvagem recém-parido que se ergue e, de imediato, para sobreviver se põe a andar, a fugir, a comer. Corre como respira. Autónomo. Sem progenitora que lhe valha. Sem pai que o proteja. Amor nenhum além daquele que o agarra à vida. É nascer e partir. Haverá frase mais curta do que o que medeia o parto e a morte. Virgínia caminha bamboleante. Para trás louvores a peixeiras e pescadores. Para a frente honras a homens que defenderam centenas de vidas arriscando a própria. Impede-se de reflectir sobre a inutilidade da sua existência comparada à relevância dos que fizeram diferença ao salvarem alguém. Quando muito é a si mesma que salva. Acredita cumprir-se. Enquanto houver em si o interesse pelas histórias resistirá a entregar-se. Espero-a onde acaba a terra. Pressa nenhuma.

Passeia com destino definido pelas ruas da minha cidade. Demora-se na alegria antes de estacar na Rua José Malgueira. Enfrenta consciente o edifício onde estão muitos dos que conseguiram sentados e outros tantos falhos, como ela, de pé. Na mesma posição, vê quatro figuras de costas para quem chega pela Santos Minho. Dois homens e duas mulheres. Um deles carrega um saco do lado esquerdo. Miúdos correm chilreando inocências a perder. Virgínia prende o cabelo, inspira profundamente, expande o peito ao limite. Ajeita o peso da mochila nas costas. Acomoda as dúvidas ao fundo e ao meio.

A angústia incapaz do futuro.




XIX

                                                                                                                                                                   
Ruge.















 

 



PROCURO LEITOR

Para navegação séria. Sem amarras. Dou palavras na Rua desde 08 de Março de 2013.





https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/550376868456944

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O ESTRANGEIRO - ALBERT CAMUS

QUEM AINDA NÃO LEU QUE NÃO PARE NESTE POST, 
P.F.

Retorno aos clássicos com “O Estrangeiro” de Albert Camus (1913-1960. Nobel da Literatura em 1957). Afigura-se história simples: Morre a mãe de Mersault e este cumpre a função de ir ao velório e ao funeral. Não chora. Namora com Maria porque a deseja. Trabalha num escritório para ganhar um ordenado. Tem um amigo, Raimundo, que se envolveu em quezília com o irmão de uma amante que espancou. Almoça no Celeste. Trivial. Indiferente ante as escolhas do quotidiano que, segundo ele, jamais fazem a diferença, dado que todos mortos um dia. Numa tarde de Verão dispara cinco tiros fatais para outro homem, porque se desnorteia com o calor.
Será julgado. Testemunhamos o esgotante desenrolar do processo de acusação. Constatamos que, para os acusadores, o crime maior não terá sido assassinar um homem. Foi não chorar a mãe.

Acaba quem o trouxe para a vida e nem uma lágrima, um soluço, um tremor? Sinal nenhum de desconsolo. De facto, como o próprio esclarece, estaria com demasiado sono para viver, em condições, a perda. As necessidades fisiológicas impõem-se-lhe amiúde ao bom senso e aos deveres sociais. Há muito que nada diziam um ao outro, motivo bastante para que lhe não doesse, tanto, a despedida. Preferiria, note-se, que tivesse continuado viva, todavia, a culpa do falecimento não fora sua. No dia seguinte à descida de sete palmos da ascendente vai até à praia, namorisca com Maria e termina a noite no cinema, com uma comédia do Fernandel. Insensível ou tão-só fiel a si mesmo?
Dir-se-á de alguém que diz o que pensa e sente que é honesto. Sincero. Confiável. E se as razões e sentires dessa pessoa chocam os outros? Agridem, até. Se vão contra tudo o que lhes incutem desde o ventre. Então, desejarão que se cale (nós também), de preferência para sempre. Eis o que sucede ao anti-herói desta obra-prima de 89 páginas. Será sentenciado por se expor em demasia ao não omitir certos pormenores do que lhe vai dentro. É descritivo até às entranhas, nunca censório. Não há floreados no discurso de Mersault nem hipocrisia e é isso que o trama quando, ironicamente, se manteve calado a maior parte da existência, por considerar não ter o que de relevante dizer.
Culpado de não demonstrar sofrimento, de assumir as urgências e os não-sentimentos. Culpado de não ser, nem agir, como os demais. Estrangeiro em terra de mentirosos. Ninguém aguenta a verdade inteira, como não se tolera olhar directamente para o sol. Foi a inteireza que condenou Mersault e é nessa que renascerá.
A um instante da execução crê recomeçar. Nesse momento de expiração, mais do que o amem, deseja com fervor que o odeiem profunda e exultantemente. Somente bizarro ou derradeiro grito de liberdade?
195 BPM – A adquirir. Um livro para reler a vida toda. Cito o advogado de defesa: «Eis aqui a imagem deste processo: tudo é verdade e nada é verdade.»

Publicação original AQUI.

terça-feira, 10 de maio de 2016

XVII – Ala-arriba!

Santo André resgatou-me à fundura. Acordo a flutuar. Quanto durou o afogamento. Ao redor centenas de páginas nadam a profundidades diversas. Amparam-me. São as que criei. Distingui-las-ia em qualquer meio. Letras de todas as cores vão surgindo como fotografias reveladas em câmara escura. O papel indestrutível. As histórias, os lugares, os compassos, as personagens vieram em meu socorro. Puxam-me, pelas axilas, para fora. Pousam-me com cuidado numa pana, embora seja certo darem-me como acabada com a visão turva e as cordas vocais enfeitiçadas, som nenhum. Ouvem-se diversas pronúncias do português em conversas encantatórias. Num repente de convulsão expulso água dos pulmões. Posso assegurar ter recebido um beijo de vida, instantes antes. A reduzida área, entre bancos, está atulhada de redes com livros, papéis, esferográficas, blocos, folhas soltas, dois computadores, papiros, penas, tinteiros, mata-borrões, uma Olympia, maços de tabaco de marcas desconhecidas, as caixas coloridas de algumas das colecções doentias. Tiveram de arranjar espaço para me acomodar além da estranha pescaria, entre os pés dos tripulantes da lancha sobrelotada. À medida que os olhos se habituam à luz vou descortinando os rostos que me rodeiam. Mortos, todavia, vivos. Integramos frota de embarcações diferentes em tamanho e feitio. Alguém confirma «Navegamos à bolina». Os remos ainda estão recolhidos. Ao bombordo, incontáveis velas-trapézio rogam a Deus inclinadas na sua fé desmedida. Lotação esgotada, igualmente. Levanto-me e reconheço mais gente que venero. A boreste, barcos a perder de vista no limite da capacidade. A ondulação faz-me temer o desequilíbrio e o naufrágio. Perdi o impulso de me matar. Recupero, aos poucos, o fôlego de que desistira. Quando me constatam viva, todavia, morta, congratulam-se. «Bem-vinda a bordo. Permaneces se remares.» Lêem-se histórias dos séculos antepassados. Relembro algumas, surpreendem-me as desconhecidas. Recrimino-me por estar tão atrasada nas leituras essenciais. Sentámo-nos de frente uns para os outros. Ti’Maio concentrado ouve-nos. Garante que navegamos seguros nesta lancha. Indelével.

Ao longe, luz. A Lapa reacendeu-se para nós. Será difícil. O farol avisa-nos das condições adversas à entrada da barra. Tomo o meu posto como se soubesse exactamente o que fazer na navegação. Foco-me nas pinturas mágicas dos cascos que a vista alcança. Creio nas suas bênçãos para nos fazer aportar. As conhecenças serenam-me. Serei capaz. Por companhia os tripulantes mais competentes da história da humanidade e um patrão bravo ao leme. Por debaixo de nós as vagas aumentam súbitas e assustadoras. Ele fala comigo depois deste período em que o desconsiderei.

«Fica.»

«Indo onde tenho de ir.»

«Isso significa o quê?»

«Preciso de chegar para reconhecer a rota. O quanto remei.»

«Chegar?»

«Sabes o que quero dizer. Chegar.»

«Persigo-te como um cão raivoso.»

«Perdi o receio.»

«Decides afrontar-me.»

«Sem dúvida.»

«Arriscas.»

«Sim.»

«Antes de ti muitos falharam ou desistiram.»

«Já mo disseste. Vou.»


Encapela-se. As lanchas bailam o descontrolo imposto pela sua indignação, ameaçam tombar, render-se à água invasora. Desceu a noite antes da hora e uma neblina espessa engole-nos, vinda do interior. Deixamos de ver os pontos que nos asseguravam estarmos perto de poder deixá-lo. Só a intuição pode valer-nos. O vento é afinal seu cúmplice na refrega. Os patrões gritam-nos incitamentos, calma e as orientações possíveis. «Reduzir o pano nos quatro rizes.» Dobramo-nos combativos sobre os remos aos quais nos amarrámos. Contamos com a força maior que levamos dentro. Impassíveis perante o sangue que preenche as linhas das palmas guerreando. Tememos morrer pelo esquecimento e que tenha sido vão o nosso esforço para permanecer, acerca de nós, uma evidência. Somos iguais, temos medo. «P’ra barlavento.» Que a velocidade boieira nos guarde e leve rápido a bom porto. Aguardamos vigilantes, antes da barra, por todos os barcos ainda em perigo. A solidariedade é redentora. A compaixão salva. Apesar da desorientação que a tempestade nos inflige, remamos em absoluta sincronia. Sabemo-lo: A noite estrelada é bela mas a estrela solitária não enleva. Dois camaradas ajudam José Rodrigues com o governo da lancha. «Agôra.» Entramos na barra. Na praia uma multidão organiza-se lesta, aguarda a oportunidade de se atirar ao mar e caçar os estais para varar os barcos para terra. Acolher-nos-ão após a tormenta na enseada.

Sophia, Florbela, Luísa, Irene, Sara, Fiama, Maria, Gabriela, Ana, Madalena, Cecília, Filipa, Ângela, Teresa, Violante, Helena, Mariana, Judith, Judite, Branca, Luiza, Natália, Leonor, Jacinta, Ilse, Catarina, Mécia, Guiomar, Joana, Amália, Alice, Dóris, Rosa, Carlota, Matilde, Francisca, Bernarda, Inácia, Brígida, Antónia, Constança, Teodosia, Aurora, Tomásia, Brites, Isabel, Beatriz, Umbelina, Margarida, Adriana, Agostinha, Bárbara, Eugénia, Ivo, Caetano, António, Raúl, João, Flávio, Francisco, David, Jorge, Dinis, Carlos, Vitorino, Manuel, Miguel, Vergílio, Júlio, Fernando, Diogo, Duarte, Augusto, Camilo, Campos, Adolfo, Mário, Armando, Abel, José, Alfredo, Gil, Luís, Luiz, Leonardo, George, Emídio, Albino, Fernão, Agostinho, Pedro, Guilherme, Nicolau, Alexandre, Joaquim, Henrique, Jacinto, Alberto, Jaime, Álvaro, Herberto, Eduardo, Romeu, Ruy, Eugénio.

Reuniram-se infindos na salvação.

Saltamos para terra firme. Os nossos ombros aliviam o peso do barco agitando-o pelos lados, enquanto a irmandade puxa a lancha com alento conciliado. As pernas são tesouras vencendo a areia além do próprio eixo. Alguns correm da ré para a proa com os paus de sebo recém-libertados para os recolocarem por debaixo do casco, mais acima. As expressões denotam o contentamento de vencerem as dificuldades. O barco move-se lento, metro a metro, conquistado ao mar, galgando a duna sobre dorsos obstinados. Somos voz em uníssono. «Força, para cima! Força, para cima!»

«Força, para cima!»


Imagem daqui.


Andreia Azevedo Moreira
03 de Novembro a 28 de Dezembro de 2015



OBRIGADA POR ME LERES.


terça-feira, 3 de maio de 2016

Dezasseis




Abençoado o que determinou que se rasgasse a Mouzinho de Albuquerque. Quilómetro percorrido, sem desvios, em poucos minutos. Derivasse o percurso e a cidade devolver-me-ia diligente ao nosso amor primordial, num abraço com mais de oitenta quilómetros quadrados. Vasco da Gama. Santos Graça. Serpa Pinto. Elias Garcia. Descobrimentos. Esta pela qual me desloco apressada e enferma. Paro solene em cada uma das dezanove placas de metal anunciando a avenida a azul. Nando artífice de outras artes faz de cada criação irrepetível. As letras são as mesmas, a matéria-prima variação subtil. Apesar do tom predominante, o labor do artista originou peças incomparáveis como o são memórias e afectos. Como irmãs o mesmo código, mundos diversos. As siglas poveiras segredam as leituras dos valorosos de antigamente. Caminho fazendo jus à alcunha com que me apodaram. Julgam-me tonta, incapaz de os entender se me criticam próximos. Brinco perdida de gozo. A troça cessou de fazer mossa e brinco com as palavras alto, em rima ou em prosa, sem necessidade de lhes provar ser capaz do melhor. Importa-me tão-só o rumo.

Passeio na cidade fantástica com os olhos fora do chão. Cálice aberto, lanchinha, quartos, pé-de-galinha, estrela, São Selimão. É coice, também sarilho, colhorda, cruz, pique e arpão. Escrita primeira de marcar bens e presenças. Admiro-a bendizendo a hora em que aprendi os signos da língua-mãe. Inscritos na cabeça, penso-os com o coração.

Na Póvoa jamais acontecerá perder-me, mesmo quando rimo. Todas as ruas conduzem ao mar. Atravessada a Avenida dos Banhos, estou à frente do edifício cor-de-rosa, com o nome que teria escolhido para a filha que não quis gerar: Diana. Também teria gostado de Inês ou de Sofia. De que serve a especulação, nunca aspirei à maternidade. Contorno deferente esta morada de cultura. Os livros escritos a transparente estão alinhados lá dentro sem testemunhas. Escondi-os, há muito, perto de Marguerite. Estou certa de que alguém atento os há-de ler. Por ora, enterro bem os pés na areia. Preenche cada espaço entre as meias, os pés e os sapatos. Percorro o areal munida das canetas multicolores, da resma de papel e das armas próprias da inteligência. Chegou o último mergulho. Vou com a roupa que me serve. Coloco um pé dentro dele. Sinto-o gelado no couro dos sapatos. A areia pesa mais. Submerjo o pé direito. Caminho por ele adentro. A temperatura sente-se como espadas. Encharca as meias, a saia, a pele arrepiada e dorida, os cabelos colam-se às costas para, mais à frente, flutuarem como algas. As articulações bloqueiam. É o 28 de Fevereiro de um ano desconsolo. Ele enrola-me, respiro sal, arde a garganta. Os pensamentos misturam-se. Os ouvidos comprimem-se antes do pânico da extinção. Estou certa de poder emergir com ideias de revolução e liberdades urgentes. Livre. Enfim, livre. Afinal, completa. As ideias vêm de todas as partes do corpo. Uma de um tornozelo. Aquela, dos joelhos. A mais adorada do céu-da-boca. O arrojo depositado na língua solta-se e é visível como se tratasse das bolhas de oxigénio, por ora dispensável. Abro os olhos no verde turbulento. Ao meu redor o meio desenha-se como bolas de sabão das que duravam menos do que a alegria de menina ao soprá-las. Ouço o cavernoso «Pára.» Desesperado com o próprio domínio, tenta devolver-me à beira. Tusso alguma água engolida. Reergo-me. Dou três passos com determinação redobrada. Esbracejo ânimo e recito narrativas, entrecortada pelos trovões. Vês. Lembro-me. Recordações perduram apesar dos recalcamentos. Busco nele a cura. Chora com o dilúvio por me saber irreparável. Roga «Desiste.» Recuso-o, não obstante o poder imenso que exerce sobre mim. O vento agita-o. Desconheço se o conforta ou atormenta. Que serventia é a sua. Rumor incansável, potência motriz, único ruído antes de me afundar. A corrente transporta-me a velocidade constante onde só há quietude. O xaile ocre dança à tona.

Silêncio.

Andreia Azevedo Moreira
3 de Novembro a 28 de Dezembro de 2015

OBRIGADA POR ME LERES.












segunda-feira, 2 de maio de 2016

Parte XV - Baixa-mar; 23h09; 0.89m

Toda a evasiva é exterior. Daí ter resolvido regressar. A estadia paga até domingo. Os miúdos encaminhados com o Ricardo, lá em baixo. Fico. Disse “Não”. Engraçado que bater com a porta, para mim, equivalha a levar com a dita com estrondo. No caminho renegado sinto a dor do desfecho como se tivesse sido E. a promovê-lo. Passei a tarde a dormir. O surto desta manhã um pesadelo remoto. Dormi pesada em cima do colchão estranho. Tive sorte de a bibliotecária me ter proibido, apenas, de repetir a graça. Grata. Estes dias são o oásis do meu quotidiano. Sede de me isolar. A literatura é o pretexto para que os meus aceitem ausência prolongada. Procuro a solidão obstinada, tanto quanto os que anseiam companhia buscam alguém que os resolva. Passo bem sem pessoas. Seria desgosto se lhes causasse a dor de uma descoberta destas. Assisto horrorizada quando acções de que sou responsável lhes desenham tristeza nas testas pequeninas. Atormenta-me o pavor de lhes destruir o futuro, de lhes dar cabo da auto-estima, de os estilhaçar impedindo-os de construírem relações saudáveis. A responsabilidade de criar três crianças é avassaladora. Fazer o quê com elas se desconheço o que fazer comigo. Vêem-me alta, santa, como se soubesse imenso e é falso. As memórias que construímos sobre a convivência primeira são as mais destrutivas. Quero fugir. Acordo com esta ideia. Domestico-a. Imperdoável a mãe que abandona. Cinco dias em trezentos e sessenta e cinco em que me finjo só. Ninguém à espera para eu cuidar ou para me idealizar. Ninguém aguarda um pingo de chuva num dilúvio, nem se angustia com um mosquito contra a velocidade do pára-brisas. Sou vento, graças a Deus. Ninguém dá por mim . Invisível. Vou às Correntes. O resto do ano é vosso. Ajo mecânica. Abarco atabalhoada os papéis destinados. Robot da vida moderna. Encurralada entre a família, os pensamentos, acções e omissões, clandestinidades e a cura. Nunca me diagnosticaram asma, ansiedade ou outra desordem quer fisiológica, quer mental e, no entanto, uma falta de ar persistente acompanhada de um hálito fétido. Ando com a bomba. É-me tão característica como pesar sessenta quilos, medir um metro e setenta e quatro, ter cortado o cabelo curto na adolescência e manter o corte inalterado por décadas, a franja, um sinal que detesto no queixo e uma apetência estúpida para me apaixonar. Isto estará explicado nos anais de psicologia. O meu paizinho, isto, a minha mãezinha, aquilo. Acredito que esteja e não quero saber. O presente é responsabilidade do próprio. As mudanças operadas foram subtis. No início, era feliz ou convicta de o ser. Passados alguns anos, algo insatisfeita, atribuí-o a indisposição passageira. Comecei a acumular o descontentamento nos ossos capaz de me afirmar bem. Protegia a imagem. Era o momento de pretender, somente, convencê-los. Miserável já não disfarçava fora nem dentro. Na dor declarada descuido o valor atribuído ao que pensam das minhas atitudes. A infelicidade é o esqueleto que sustém. Dificílimo sair disto. Nego os argumentos que impulsionem a mínima mudança. O logro começou anos antes de o poder admitir, quanto mais verbalizar. Gostaria de experimentar vidas diversas da escolhida. Uma é insuficiente. Daí que a fachada incompleta na Rocha Peixoto me tenha sugerido um conto sobre o portal que nos permitiria ensaiar a vida. Anotei os tópicos principais do enredo. Pela fresca, com os primeiros indícios da manhã, trabalho-o. Perseguir inúmeros trilhos sem prejudicar. Experimentação e regresso. Experimentação e regresso. Experimentação e regresso. A trama foi mais bem escrita por um grande escritor séculos antes de mim, todavia, ignorante relativamente ao que quero. Assim, causas próprias as mesmas mãos no teclado. De facto, ninguém me forçou. Tomei decisões. Precipitei-as, inclusive. Crente de que o amor é companhia sem estar certa, sequer, da sua existência. Este, a estar desacompanhada, é o quê? Deve ser o egoísmo. Talvez tenha nascido defeituosa. Imaginei a maternidade altruísta, feita de renúncia alegre. Mulheres com este instinto exacerbado para serem outras, além de cuidadoras de lares e de filhos, falham nas competências, no preenchimento do teste psicotécnico tácito dos que estabelecem como é ser-se boa mãe. Não me chateiem, não me façam pedidos a cada três, vírgula, nove segundos e para ontem, deixem-me na casa de banho sozinha, são três minutos, pouco mais. Cinco não vos fazendo mossa. Parem de me chamar em simultâneo, de gritarem matérias importantíssimas as quais devo considerar de igual modo, no exacto momento em que as proferem, parem de competir pela atenção, pelo afecto, como se o meu bem-querer fosse uma coisa pequenina que partilhada perdesse significado. Não respondo a perguntas que me obriguem a distinguir quem amo. Grito. Grito mais do que queria e odeio gritar. É contra a minha natureza impor-me. Ver-me sozinha longe de reclamações é o que quero com ardor. Serei mãe. Saturada das birras, berros, ralhetes, da negativa, de lutar com a resistência deles, das ladainhas insatisfeitas, de me ver malvada a cada instante, em erro, a desiludir, a magoar, a exceder-me nociva. Estou farta. Exausta. Em extinção. Agiganto é certo, porém, não diminuo o que me apetece. Desaparecer. Então, neste mês redentor, guardo numa pequena mala três camisolas quentes, calças de ganga, meias e cuecas, botas para a chuva, livros, revistas, o meu caderno azul, o estojo de grafites, o computador portátil e meto-me num comboio para o Norte. As férias tiradas da biografia começam pelas quatro e meia da manhã. Desço as escadas silenciosas do Lote 11. Aguarda-me o Sérgio, amigo da família, em quem confio para me levar em segurança de madrugada. Vamos numa conversa boa até Santa Apolónia. Na estação gelada verifico a linha de onde parte o alfa-pendular das seis. Sigo para a plataforma e instalo-me no assento escolhido com quinze dias de antecedência, para usufruto da promoção. Entretenho-me a observar os passageiros ao redor. Desenho a maioria, escrevo poucos. Conjecturo um bocado sobre as suas vidas e, quando me aborreço, dedico-me à leitura. É raro adormecer. No hotel pelas dez estico-me na cama indolente. Aprecio a imobilidade, vejo o que me apetece na televisão, leio, faço o que me dá na bolha. Vingo-me. Serei propriedade de quem. Pergunto porque nas falanges escuto culpa. Levanta-te. Põe-te em sentido, Mãe. Os que te avaliam têm tabelas com os parâmetros que incumpres, em rigor, todos os dias, Mãe. Comporta-te, Mãe. Aspirações-extra a que propósito, Mãe. Há lá melhor. O que fazes estendida, Mãe. É árduo, sim, mas o sorriso deles compensa. É, Mãe? Os sorrisos deles são a expressão da sua generosidade perante a vida, reconfortantes, sim, mas não são tudo e, sobretudo, não são meus. São deles. Sinto falta de mim, do ar limpo e a médica de família nega-mo. Serei doida. Por que não me bastam. Por que não me rendo. Nado no mesmo sítio há tanto tempo. Afogamento previsto para uma noite de desânimo pelas 23h09. Como é que ela se afogou com água pela cintura. «Não pediram para vir.» A avó. «Tens de brincar com eles.» O avô. «Descontrai.» O marido. «Desorientada.» Eu. Avisto o Grande Hotel no seu tom vívido. Renasço. É o princípio do desprendimento. Corro. Possibilidades imensas. Desconforto nenhum.

Paz.




Andreia Azevedo Moreira
De 3 de Novembro a 28 de Dezembro de 2015

OBRIGADA POR ME LERES.









quinta-feira, 28 de abril de 2016

XIV - Preia-mar; 04h49; 3.32m











                                                                                                                   
Quando as Correntes D’Escritas estrearam estava com quarenta e três anos. Adiava-me para a idade da reforma. Comparecer nesse encontro com a literatura, os livros, os autores e os meus pares era o mais próximo que chegava da paixão cativa. Os dias passados entre as estantes dos clássicos e dos filósofos haviam-me inundado de inibições face a grandes aventuras. Os eventos com os escritores que lá se dirigiam para falar a alunos das escolas ou a públicos mais velhos, aumentava a inércia. Encarava o ímpeto qual sacrilégio. Está tudo feito, muito mais bem dito do que serás capaz. Quieta. Obedeci à sensatez. Um neurinoma na coluna vertebral, aos cinquenta, alterou-me o ponto de vista. A história poderia estar prestes a ser interrompida. O facto de a massa ser benigna não me sossegou. Entrei em pânico com o atraso que me havia imposto. Durante anos escrevera páginas para as destruir. O que estás a fazer, mãe? Coisas sem importância, amor. Vou brincar convosco. Querem fazer o quê? Amachucava-as e deitava-as no balde inconclusivo, desmerecedoras de pensamento adicional. No ano do diagnóstico recordei as folhas amarrotadas, irrecuperáveis. Por que as diminuí daquela maneira. Saltei condenações e decidi fazer até à desistência do corpo. Só então o senti falível. Classificara o saldo de horas como infinito e a mim inábil para me dedicar a várias causas, em simultâneo, pelo que abracei a óbvia. Tratar da prole. Ninguém conhecia o meu sacrifício porque, até então, jamais expressara essa faceta privada. Filha de pescador, tinha sido um prodígio o meu pai ordenar que abandonasse a areia para ir estudar. Inteligente e visionário recusou que a vida dura da faina me fizesse murchar, cedo demais. Por motivos de saúde da minha mãe, fui filha única. As expectativas sem divisão possível da carga. Esforcei-me para ser o que esperavam. A média ficou aquém da imprescindível para ser doutora, mas poupei-os ao anúncio de uma filha com aspirações de artista. Tornei-me exímia na arte de o ocultar. Mais tarde, rodeei-me de amigos com reservas comuns. Reunimo-nos à volta dos títulos eleitos. Lemos, discutimos ideais, inventamos fins alternativos aos propostos pelos autores, organizamos encontros de leitores e da primeira à última Mesa das Correntes duas filas da plateia são nossas. O primeiro a chegar marca os assentos. Nas assistências sobrelotadas as pessoas protestam. Daí que tentemos ser pontuais para o núcleo se manter junto. Na feira do livro combinamos as compras de modo a levarmos a maioria das obras que nos interessem. Temos uma biblioteca itinerante entre casas e corre bem. De resto, fazemos as nossas compras nas pequenas livrarias independentes que subsistem. Tudo isto me é caro e tem ajudado a superar a interrupção que me havia imposto, contudo, revelou-se insuficiente. Havia que contar as minhas histórias. As que careciam das soluções que só a ficção que eu criasse poderia encontrar. As que me trariam o consolo de consertar os irremediáveis agressores. Iniciar-me pelo familiar, para poder dar passos maiores, trata-se do abecedário dos aspirantes. Aprendi, à custa de muitas linhas sonegadas, a desistir das palavras com maiúsculas no meio das frases. Ofendiam os textos.

Saltavam-me à mão hesitações e clamores, dada a ânsia de recuperar parte do tempo desperdiçado. A gana de me constatar renascida. Percebi do que devia abdicar. Os melhores ensinaram-me que devo impor a ficção à realidade, na vez de me contentar com desforras mal concebidas e forçadas à primeira. Domei palavras como ingente. Trouxe-as para perto. Ouvem-se sem serem proferidas. Na primeira noite de insónia comecei a Manuela. Fascinava-me a precocidade das meninas feitas adultas pelo casamento. Como podiam ser convictas do amor. Havia as que casavam por conveniência das famílias. Casamentos fora das castas eram mal recebidos. Manuela, tal como me chegou, destacava-se. Fê-lo por arrebatamento. Apaixonou-me a sua persistência, a convicção de que António tornaria. Era muito jovem quando aconteceu. Podia ter reconstruído a sua vida ao lado de outro pescador. Os pretendentes sobejavam. Podia ter abandonado a existência pesqueira e partir com homem que se fixasse no interior e vivesse da terra. No entanto, sem se entender porquê, teimou no quotidiano ao sabor das marés, até àquele sol-pôr em que a verdade ficou submersa. O corpo jamais deu notícias. Impressionam-me as pessoas austeras que se impõem uma rigidez de costumes que condena antes do fim. Em Manuela ressaltava da sua essência pormenor escorregadio. Algo nas suas atitudes se distanciava da ideia de viúva triste. Esse subtil desacerto foi o gatilho para que a quisesse reescrever. Desejava conhecê-la melhor, entender a sua passagem por cá. A torrente revelou-se imparável. Hoje, pondero os meus interesses com equidade. A adaptação foi mais fácil do que previ. Os obstáculos eram mentais. Quem me quer bem entende as ausências e aceita-mas. Os restantes diabolizam a dedicação enorme ao indizível, sem remuneração que se veja. Da incomensurável entrega ao que faço não aguardo dividendos. É acto puro.


Doação.

terça-feira, 19 de abril de 2016

XIII - Baixa-mar; 10h27; 0.64m

                                                                                                                       
Norte. O método é simples. Um relance de curva convence-me. Poderão negar terem concedido dois dedos de conversa. Para mim, são desinteressantes essas averiguações. Comando. São as peças necessárias e encaixo-as com deleite inenarrável. Embora momentâneo, o efeito é dominador. Uma espécie de embriaguez. Forcei-me a parar, muitas vezes. Contestei a violência residente, tentei corrigir a conduta. Pior. A escuridão avançou implacável. O medo estabeleceu-se. Quem vive com medo saberá a que me refiro. Desligamo-nos sob o seu manto. Para trás o ponto de onde teria sido possível regressar. Levanto-me com o fito bem definido. Podem decorrer semanas sem agir. O curso inato do pensamento permanece imperturbável. Oriento-me pelo mapa dos lugares fecundos com que me cruzo. Antes, desorientado, quanto mais me debatia contra a natureza mais ela se impunha. Naquele dia quente de marés-vivas arrisquei na Salgueira e fui enrolado. As mareadas mastigavam o meu corpo e, impotente, percebi qual espectador que os meus impulsos eram como aquela energia. Debatendo-me cansar-me-ia, apenas. Havia que os aceitar. Permiti-los. Sê-los. Algum propósito emergiria do remoinho. A aflição passou despercebida. Nenhum surfista de prancha, sob pés firmes experientes, para me resgatar. Ninguém em cuidados, com a minha demora, numa barraca de riscas azul-marinho. Acolhi a solidão tão certa, quanto intrínseca, a cada órgão vital. Um estômago, um fígado, um pâncreas, um genital. Sobrevive-se à mentira de poder ter dois de cada, embora estar vivo seja questionável. Os braços desistiram de quebrar a corrente, as pernas de procurar terra firme, a cabeça habituou-se à confusão. Inspirava líquido e tardava em morrer. As funções vitais aguentaram-se enquanto a torrente fez o que lhe competia. Fui devolvido à areia como sargaço arrancado. Aceito-me na condição de adicto. Um dia de cada vez é escolha de terceiros. O meu caminho é este. Irremediável. Sul. Alguém se sentou aqui, há pouco. Denuncia-o a ponta de cigarro mal apagado. Giro o sapato para a extinguir. Apresso-me para Este de mãos nos bolsos. Vou atrasado para a Mesa. Aquilo ficou jeitoso remodelado. Cumprimentarei uma pessoa ou outra. Hão-de me questionar sobre a esposa, se tudo vai bem, se há saúde. Demonstro-me fleumático nos esclarecimentos. Olharão para mim duvidando se me consideram o patrício disponível ou parvalhão. Terei votos em ambos os sentidos, o que me agrada. Interrogam-me. Onde anda. Viram-na com livros na praia, no café ao domingo, enquanto leio o jornal. Decerto gostaria de participar neste evento cultural por demais interessante e ninguém lhe põe a vista em cima. Encaro-os calmo sem avançar explicações de monta, deixando-os com a sua impaciência e perplexidade. As pessoas habituam-se a quem justifica por isso me fogem amigos e inimigos. Altero ágil o assunto da conversação, sugiro leituras, autores de que gosto e adeusinho, atendo-vos mais logo que é como quem diz ficarão por atender. É complicado abordar as musas que me encantam com este tipo de inspectores à perna. Sou doentiamente cauteloso com o que me é mais importante. O que me faz acordar e ter ânimo para sair da cama todas as manhãs. Mesmo se o corpo implora descanso, se o que obtenho é insuficiente ante o que falha, se à marca que tento inscrever falta beleza e originalidade. Prossigo doente, dores nas costas, consumido. Estou com o apelo. Inadiável. É uma vida encaixada noutra e ninguém desconfia do desalinho, das ausências, da incoerência do discurso. A discrição integra a rotina. Hei-de ser velho. Começo a acabar. Levarei até à cova esta firmeza.

A luxúria.

Andreia Azevedo Moreira
De Novembro a Dezembro de 2015.


OBRIGADA POR  ME LERES.









sexta-feira, 15 de abril de 2016

XII - Preia-mar; 16h02; 3.31m

                                                                                                                
Aflijo-me fora de pé. As conchas arranham os tornozelos frenéticos. Há uma turba violenta a ambicionar como eu. Ignoro-a. Que a derrota adie o aviso de me ter alcançado. Esquivo-me ao pavor de a tragédia ter ocorrido diante dos meus olhos cegos, de conceber que investi o essencial numa quimera à qual ninguém se junta. De que sirvo sem compartilhar o que faço. Refugio-me nos que cortaram a meta e quedo-me na certeza de que há, no meu calendário, um dia marcado para não chegar. Nem isso me dissuade dos intentos profundos. Um bebé lançado à água nada para se salvar. As frases surgem como uma maldição. Inolvidáveis. Enfrento a dificuldade. Um poeta que deixou saudades contou-me e à plateia, daquela Mesa, a história de Rilke em que este instou o discípulo a parar, desse-se o caso de o conseguir. O poeta grande morreu escrevendo. Mora na cabeça de todos a quem marcou a sua obra e o caminho íntegro. É isto a posteridade. A libertação do delírio de se construir o definitivo dá-se com a morte. Até lá, padece-se nesta vigília perene. As ideias sucedem-se, sugerem cenários, num exponencial jogo de combinações. Um detalhe verídico por mais insignificante é digno de explodir um universo. Noto a piedade nos eleitos. Aproximo-me, na mesma, sem me intimidar. Sou. A minha invisibilidade ostentada nos seus actos. Sou. Inspiro o ar ao redor do chileno, ao pequeno-almoço. Sentei-me próxima. Roço qual aragem a toalha da sua mesa. Deixo um dos meus livros brancos na cadeira ao lado da dele. Encosto-me à espanhola como se a louca da casa fosse eu e estar na mesma divisão nos conferisse sorte idêntica. Coloco, na sua mala, um dos exemplares incompletos com dedicatória. Imponho a companhia a duas portuguesas que calculam risonhas a minha pobre vista para o mar. Mais dois volumes e a incredulidade das bem-sucedidas. Inútil aferir se me reconhecem talento. Desta crise não se pode escapar. Dizerem-me «Não pode.» afigura-se simples mas desencadeia questões. Coloco-as e não as ouvem, tal como ficarão por ler as linhas invisíveis que lhes reservei. Terão encontrado um sentido. A plenitude. Há algo a almejar após o reconhecimento global. Pergunto. Almejamos utopias como a do esquecimento da morte. Na criação pensamo-nos eternos. Aprenderei a economizar as palavras. Quando. 

Uma folha de papel organiza-se melhor do que as entranhas. 

Respiração.    

Andreia Azevedo Moreira
Novembro a Dezembro de 2015

Texto #70 a sair para a Rua com o DAR PALAVRAS.