Procuro Leitor para navegação séria. (Sem amarras.) Dei Palavras na Rua de 8/03/2013 a 10/01/2017. Hoje respiro. Só. Andreia Azevedo Moreira
domingo, 29 de setembro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
«NÃO SOU A INÊS PEDROSA.»
Faço o quê, agora? Alguém me diz? Sou uma optimista, espalho sorrisos, alegria
e o que é que a vida me faz? Põe-me estas bestas no caminho. De que me serviram
os últimos meses nas aulas de yoga e aprender a vibrar em frequências de
energia positiva? Estou metida neste filme e o Universo nickles para os meus esforços em
me transformar numa pessoa boa. São quatro. Três deles saíram de um carro
preto, muito velho, para me agarrar. O quarto ficou ao volante. Foi o que vi
antes de me amarrarem as mãos com uma fita-cola parda resistente e me vendarem.
Encheram-me a boca com um lenço que me ataram à nuca e me dificulta a
respiração. Fizeram bem, ou já teriam ouvido um, ou outro palavrão. Que merda,
pá! Dei um salto à livraria, da rua onde moro, para comprar um livro que me
tinham emprestado há uns anos e do qual me lembrei há bocado. Fiquei com aquela
vontade inadiável de o reler. Ironia das ironias pela conversa percebi que me
raptaram pensando que sou a Inês Pedrosa. Será possível? Mas por que raio
haveria a autora de se dirigir a uma livraria, no Rato, às oito da noite de um
dia de semana, para comprar um livro seu saído há tanto tempo? Estes senhores
têm cabeças de insecto é o que é. Que me tivessem carregado, pelo menos, em
grande estilo. Quero dizer em braços, como uma diva. Não… Vim aos empurrões. Os
brutos… Mas o que é que lhes passou pelas antenas? Tenho o cabelo e os olhos
claros, mas acabam por aí as parecenças com a Inês. Nem sequer temos a mesma
idade. Ai, ai, ai, ai, ai. O que hei-de fazer, para que eles entendam que
cometeram um erro? Receio que me façam mal uma vez desfeito o equívoco. O
cheiro a bafio do automóvel, em que me raptaram, é desagradável de tão intenso.
Para uma pessoa de olfacto apurado, como eu, é uma tortura. Imagino que tenha
estado fechado em alguma garagem, ou armazém. Os assentos colam-se à roupa o
que me enoja, embora o asseio seja o menor dos meus problemas. Eles falam pouco
entre si. Ordens e monossílabos. É tudo. O suficiente, no entanto, para
perceber que todos, sem excepção, têm mau hálito e que, pelo menos, dois deles
fumam. O que conduz fá-lo a grande velocidade e nenhum dos restantes se deu ao
trabalho de me pôr o cinto de segurança. Já bati três vezes com a cabeça no
vidro da janela em curvas mais apertadas. O que me vale é o mau génio, ou
estaria a chorar como um bebé. Sou dada às reivindicações. Por sinal, estou
desejosa de o fazer. À cautela, por agora, fico de bico fechado. A única frase
que um deles me dirigiu foi proferida em tom sarcástico: “A vida de uma certa
pessoa, minha menina, está nas tuas mãos.” Enquanto me tirava o livro. Não sou
capaz de os identificar. Estão encapuzados. Dos olhos azuis glaciares do que me
falou hei-de lembrar-me, sempre. O olho direito tem uma espécie de sinal em
forma de lua. Inconfundível. «Por que há-de alguém querer raptar uma
escritora?» Não
tenho noção das horas. Sou despassarada. Como me encontro de venda e em
andamento é irremediável que me sinta perdida. Seguimos a esta velocidade louca
há horas, julgo. Não há meio de chegarmos a algum lado. Não suporto esta
angústia. Que alguma coisa aconteça para que possa entender o que se passa,
rapidamente, ou morro de síncope cardíaca, não tarda. Paramos. O silêncio ao
redor é opressor. «Bem-feito para não seres ansiosa.» Estou apavorada.
- Vamos. – Diz-me o da íris esquisita, enquanto me puxa pelo braço, bruscamente, para fora da viatura. Sei ser esse, porque a sua voz na ocasião em que me agarrou se tornou inesquecível. Uma voz cavernosa. Retirou-me a mordaça.
- Onde? Posso saber? – Armando-me em esperta com o intuito de disfarçar o nervosismo.
- Calada. À minha frente. – O bafo quente na minha nuca provoca-me um arrepio que me lambe, desagradavelmente, a coluna. Uma porta abriu-se antes da minha e só essa se fechou. Deduzo que apenas este me acompanhará.
Começa a empurrar-me. Vou tropeçando e quase caio algumas vezes. Pela irregularidade do terreno e total ausência de ruído, só interrompida pelo cantar esporádico dos grilos, calculo estar longe da cidade. Estacamos subitamente. Ouço pancadas secas numa porta, que adivinho ser de madeira. Abre-se vagarosamente à minha frente e range.
- Entra.
- Sozinha? Quem me espera ali? Onde me deixam?
- Cala-te. Entra.
- Não vejo. Tire-me a venda, por favor. – Enfim, submissa.
- Entra, já te disse!
Tacteio a parede à minha direita. O raptor ordenou-me que, uma vez no interior, seguisse sempre encostada. Ouço um mecanismo que ora avança, ora se detém. No intervalo, um apito sonoro. Três toques e prossegue. Avanço pelo corredor, cautelosa. Tropeço num degrau e logo depois esbarro numa qualquer peça de mobiliário.
- Continua. – Diz uma voz diferente.
Estar cega é aterrador. Prossigo. Detecto degraus. São demasiado curtos. Opto por subi-los aos pares. Estão revestidos por um material que abafa os passos. Talvez alcatifa. A pessoa que me aguarda terá um bom ouvido, ou é demasiado impaciente, pois de cada vez que paro me incita de imediato e em tom ríspido, a continuar. Subi dois lances de escadas. Em cada um desses havia uma porta que me parecia de madeira em quadriculado, à qual me agarrava em busca de uma saída.
- Não é aí. Avança. – Diz-me a voz.
Atinjo o topo. Pressinto alguém muito perto e ouço uma chave rodar. Cinco voltas, numa pesada fechadura manuseada com aparente dificuldade. Um ligeiro safanão precipita-me para o interior. Sou orientada até um ponto em que uma pressão no ombro me faz sentar. O carcereiro retira-me a venda.
- Mas você é...
- Sou.
- Como? Está com cem
anos, ou mais?
- Quem faz as
perguntas sou eu. Por que é que foste comprar o livro, precisamente hoje?
Porquê? – Está a falar-me tão perto que a saliva, com que me salpica, ainda
está quente. Porém, a sua voz não se eleva.
- Apeteceu-me.
Palavra. Lembrei-me dele e fui comprá-lo. Uma coincidência dos diabos.
- Não me faças rir.
Não sou para brincadeiras. Ouves? Diz-me a verdade.
- É o que digo! Tive
vontade. Recordei a primeira vez que o li e decidi adquiri-lo. Não tinha um
exemplar em casa. Foi isto.
- Não acredito. Pensa
bem no que fazes. Já te disseram que há uma vida em jogo?
- Que vida? O que é
que eu lhe fiz? Diga-me? Sou inocente, ouve?! Seja lá o que for de que me acusa.
Tenho dito. – Recupero alguma da insolência que me caracteriza e deito-lhe a
língua de fora, qual traquinas. Ele ensaia uma bofetada, contudo, suspende o
gesto mesmo junto à minha cara apertando-a com a mão direita. Faz-me sentir
humilhada e impotente, com a fisionomia deformada entre as suas manápulas.
- Fica aí um
bocadinho a pensar no que queres fazer à tua vida, que eu já venho. Fá-lo com
cuidado pequena, que a minha paciência está a esgotar-se. Aguentarias a culpa?
- Sou inocente! –
Grito-lhe uma vez mais.
O Senhor Almada. Quem
diria? Ainda mais velho, embora semelhante ao que tinha guardado na memória:
barba grisalha, bem aparada, corpo roliço, bengala na mão esquerda e aqueles
dois grandes sinais escuros por debaixo dos olhos. Marcas de uma pele idosa. O
cachecol vermelho, acessório do qual jamais se separava e que mantém, enrolado
no pescoço da esquerda para a direita. Dois grandes anéis no anelar e no
mindinho rematam a aparição. “Velhos hábitos morrem dificilmente.” Como se ouve
nos filmes. Este senhor manteve-se fiel ao estilo que criou para si. Gosto
disso. O que não aprecio é o modo como me trata. Conheci-o há uns anos, mas a
relação que estabelecemos não justifica as cobranças que me faz. São
descabidas. Absolutamente desconcertantes.
Consigo vê-lo daqui. Retirou-se para trás de um biombo que o oculta parcialmente. Percebo que se sentou ao que me parece ser uma secretária. Pela luz que lhe ilumina o rosto e pelo dedilhar, depreendo que se encontre ao computador. Resta-me estudar esta sumptuosa divisão. A profusão de objectos, achados arqueológicos de diferentes civilizações, mobiliário e obras de arte que me rodeiam, é intimidatória. Nestas alturas amaldiçoo a ignorância com que me tenho vestido ao longo da vida. Aqui estou, decerto, numa câmara de tesouros sem a conseguir avaliar. Apenas posso intuir o seu valor. Um quadro majestoso chama-me a atenção. Ocupa metade de uma das paredes. Trata-se de uma ilustração de uma queda de água, de grandes proporções, à frente da qual um homem insignificante, perante a força com que a natureza se lhe apresenta, monta um cavalo e empunha uma espécie de lança. Pondero: um indígena despido num remoto lugar do planeta. É como me sinto, qual homenzinho nu, empunhando uma azagaia quebradiça e ridícula, quando comparada à força indomável das águas de uma catarata. Ao lado há uma estante que se ergue até ao tecto. Contém dezenas de livros, todos do mesmo tamanho, com a mesma cor e de lombada igual. Sei que devia procurar as respostas que ele me intimou a dar, mas desconheço-as e esta sala é apaixonante demais para não me dedicar a observá-la. Três cores me invadem os sentidos: o vermelho, o azul e o verde água. Uma quarta cor neutra, consiste na luz emitida pelos candeeiros de formatos variados que se encontram dispersos pela assoalhada alumiando o que, sem esses, seria um local obscuro. Não fosse este o meu cativeiro e considerá-la-ia acolhedora. Sal digna de um lar de família. Sê-lo-á por ventura. As molduras proliferam em todas as superfícies: em cima de arcas de madeira, nas diferentes mesas, em cómodas. Revelam ternura, momentos de partilha, conquistas. O vermelho em excesso, pelo contrário, faz-me pensar no inferno. O meu. Até os estores são rubros. Fechou-os para me impedir de ver o que há para lá das duas janelas que tenho defronte. Ao meu lado esquerdo está um santo que fica à altura da minha cabeça, e à direita uma cruz de ferro. Fé agora? Não consigo. Com a cagufa até me esqueci das orações que costumo murmurar, todas as noites. Ui. Aí vem ele...
- Então? Como estamos
de memória?
- Continuo sem saber
o que fiz para merecer isto.
- Não te faças de
vítima! Comigo essa ladainha não pega. Diz-me o que quero ouvir. Sem demora!
Exalta-se de tal
maneira que se engasga e começa a tossir. Dada a velhice, senta-se num cadeirão
de pele com rodinhas, que se encontra no lado oposto ao da minha localização,
para recuperar o fôlego. Limpa com um lenço verde de pano, retirado do bolso, o
suor que lhe invadira a fronte. Fecha os olhos, combalido. Para minha surpresa
a sua respiração torna-se mais pesada, até se transformar num ronco. Dorme. A
esperança que este acontecimento inesperado me suscita, injecta-me o ânimo que
me faltava para procurar uma saída de emergência. Busco ao meu redor uma forma
de me soltar. Constato que a cruz ao meu lado tem arestas afiadas. Rodo o corpo
na cadeira e esfrego na antiguidade a fita-cola que me unia as mãos. O espelho
à minha frente com linhas de um mapa-mundo, em duplicado, desenhadas,
devolve-me a imagem de uma expressão que desconhecia, até então, em mim.
Mistura de determinação e audácia sem, contudo, me encontrar corada como
acontece, amiúde, quando me enervo. Este factor joga a meu favor. Ainda que ele
acorde, não dará, no imediato, pela minha euforia. Levanto-me cuidadosamente
para não fazer barulho e dirijo-me à lareira onde vira, há pouco, um telefone.
Verifico se tem linha. Não tem. Muito prazer, Miss Azar 2009... Toco numa jarra
chinesa que cai com grande estardalhaço. O Almada acorda e eu dou-lhe com o par
da primeira, em cheio, no cocuruto. Cai atordoado, embora não inanimado e
começa a levantar-se novamente. Precipito-me para a porta não sem antes
guardar, dentro da camisola que entalo nas calças, o que me ficou ao alcance da
mão. Mais tarde espero que me sirva de prova desta aventura e quem sabe, me
permita incriminar o sujeito. Não tendo havido oportunidade para reflexões o
que trouxe resume-se a uma cassete áudio Basf; uma cassete VHS e um desenho a
carvão com diferentes caras, que arranquei da parede ao lado da porta da rua.
- Não tens
escapatória! Mato-te se insistires na fuga. Mato-te! – Tenta dissuadir-me com
palavras, já que não consegue mover-se rápido, quanto baste, para me alcançar
sem o auxílio da bengala que, antes de o acordar, havia atirado para longe de
si.
- Adeus! – Desafio a
sua ira, com um último sorriso que manifesta mais temor do que coragem, embora
esteja certa que ele não o interpretou assim.
A precipitação é
tanta ao descer as escadas que me estatelo no chão. Bato com a cabeça na cómoda
da entrada. O sangue quente rola-me cara abaixo. Não há azo a pieguices e abro
a porta do prédio, espavorida. Verifico que os quatro que me abduziram não se
encontram nas imediações e desato a correr, sem saber para onde. “Longe” é a
palavra. Trouxeram-me para o meio de uma floresta. A noite está fria e paira
uma neblina junto ao solo. A corrida ajuda a manter-me quente. Ouço os meus
passos ritmados a partirem ramos e a chutarem pedras. As árvores falam-me com
as folhas agitadas: Cuidado! Pela primeira vez desde que isto começou, percebo
que talvez não me safe. A tenacidade vira desistência. Choro, as lágrimas
misturam-se com o sangue. O vento seca-os deixando-me com uma sensação
desagradável, como se tivesse uma máscara de argila colada à pele,
endurecendo-me a expressão. Invoco a minha avó Fernanda: «Amélia, dos fracos
não reza a história!» Mantenho a correria acelerada rumo ao incerto. Sei lá se
não estarei a fazê-lo em círculo, no sentido da casa de onde fugi? Ouço o piar
das corujas e o restolhar constante da vegetação. Apavoram-me. Volta e meia,
ramos mais baixos prendem-se ao cabelo atrasando-me a marcha. O meu estado é
deplorável. Apercebo-me, entretanto, que não são só os meus passos a rasgar a
escuridão. Paro e escuto atenta. Há alguém no meu encalço. Não consigo pensar em
mais. São eles! São eles! Rodo sobre mim desesperada em busca de um
esconderijo. É no tronco oco de um eucalipto colossal que o acho. Entro rápida
e discreta na cavidade e perscruto o bosque com o ouvido apurado. Quieta,
sustenho a respiração diversas vezes. Quieta! Aparecem dois dos encapuzados.
- Inês é bom que
apareças. Não dês muito trabalho a procurar-te. É pior para ti querida. – A voz
medonha, não engana. É o tal, o do olho com a lua.
Anjo da guarda minha
companhia guarda a minha alma de noite e de dia... – Ocorre-me rezar e
acorrem-me, então, em catadupa à memória, todas as orações que aprendi, na
infância, com a minha avó materna: Maximina.
O pânico é tanto que me urino. Sinto o quente encharcar-me a roupa e passados poucos minutos, instala-se o frio, chegando-me aos ossos.
- AAAAATCHOOOO. –
Agora é que me lixei.
Consigo vê-los a
correrem nesta direcção. Morrerei sem glória. Quando se encontram a cerca de
dez metros da árvore em que me escondi, ouve-se um estrondo e um deles cai
redondo no chão. Um tiro? Por segundos, foi como se o meu coração parasse. O
outro bandido ajoelha-se ao lado do que foi atingido, pega-lhe no pulso e
verifica se está vivo. Sem proferir palavra, dirige-se a passo cadenciado para
cá. Outro estrondo. É ferido no ombro e corre para o meio das árvores
embrenhando-se no bosque.
- Psst. – Ouço.
Continuo no mesmo sítio quando uma mão estendida me aparece à altura dos olhos
e me convida a agarrá-la e a sair. Que remédio. Alcanço-a tremendo e ergo-me.
- Inês? Inês
Pedrosa? Como me descobriu?
- Não te
descobri. Pergunta antes como te encontraste. Não julgam eles que és quem sou?
- Pois... –
Digo baixo, baralhada.
- Temos de
nos apressar, o outro anda perto.
-
Acertaste-lhe.
- Sim,
porém, apenas o atrasei. Seria preciso muito mais que uma simples bala para o
demover.
- Quem são
eles?
- Doentes.
- Como?
- Entes que
acreditam ser, quando não o são de facto.
- A Inês
desculpe. Sou uma pessoa simples, de ideias elementares e apesar de apreciar
muito a sua escrita, não percebi patavina do que aqui se passa. Com todo o
respeito que me merece, a realidade é que estou borrada de medo. O que fazemos?
- Vem
comigo. Vou mostrar-te uma coisa.
Avançamos
pela penumbra. Não faço ideia para onde a Inês me leva. Tenho de conter
inúmeras vezes os espirros que ameaçam irromper, cada vez mais frequentes, dado
o meu estado.
- Não
receies. Sei o que faço.
Sigo-a em
silêncio apertando o nariz e a boca com a mão direita, enquanto que com a
esquerda esfrego rapidamente o corpo na tentativa vã de fazer o que a caminhada
por si só, não está a conseguir.
Eis que me
deparo com a fachada da casa que quis, há tão pouco, esquecer.
- A senhora
enlouqueceu?
- Calada. Já
te disse: Sei o que faço.
Encolho os
ombros e faço novamente o aterrador percurso, desta feita, sem venda, sem
mordaça, sem raptores. Pelo menos à primeira vista não os vejo. Tirito de frio,
de horror, quem sabe de gripe A. Tremo qual gelatina, porém, sigo-a sem
escolha. Entramos na casa e nem sinal do Almada.
-
Reconheceste-o?
- Assim que
o vi.
- E não estranhaste?
- Não!
Sempre fui dada a crer no absurdo.
- Ok.
Conheces a personagem de um livro em carne e osso e não temes, por um segundo,
estar louca?
- Já vi
acontecerem coisas mais improváveis. Intimamente, todas as personagens dos
livros que leio são pessoas. Comovo-me, rio-me com e delas, amo-as e odeio-as,
tal e qual como com às pessoas da minha vida.
- Tretas pá!
Estás a brincar? O homem que te rapta é igual a um que só existe num livro que
leste e não achas insólito?
- Cá para
mim a Inês acaba de resvalar um bocadinho na linguagem.
- Ironias a esta hora não! Olha para a estante por favor.
- Ironias a esta hora não! Olha para a estante por favor.
- Ena,
tantos livros!
- Olha de
novo. Repara.
- Todos os
livros são iguais. Mesmo tamanho. Mesma cor. Lombada idêntica. Já tinha
percebido. O Almada é metódico e então?
- Vê o
título...
- Ora, “Nas
tuas mãos.”; “Nas tuas mãos.”; “Nas tuas mãos.”... Constato que todos os livros
da estante são o mesmo. O tal que fora comprar à livraria antes disto tudo ter
começado.
- Dá-me a K7
que tens contigo.
- Como é que
sabe? – Soergo a sobrancelha direita, cumprindo um trejeito que aprendera a
fazer em miúda.
- Coloca-a
nesse gravador. – Indica-me um antigo, em cima de uma das muitas mesinhas que a
divisão tem.
Iniciamos a
audição da fita em conjunto. Trata-se de uma entrevista de Inês acerca do livro
recém-lançado. Data de 1997.
- Ah.
Compreendo agora porque nos confundiram. Julgam-me a Inês com menos doze
anos...
- Começas a
entender...
- Os outros?
Também se julgam personagens dos seus textos?
- São-no, de
facto...
- Como?
- Mostra-me
o desenho. – Estendo-lho e ela vira-o para mim.
- São-te
familiares, estas caras? Os diagramas estabelecendo relações? Os nomes?
Percorro
rapidamente as diferentes feições retratadas. António, Jenny, Camila, Pedro,
Anacleta, entre outros secundários no enredo. Todos os que conheci naquele
livro se encontram definidos.
- Mas? –
Incrédula. – O que pretendem?
- Outros
destinos. Querem que os reescreva.
- Estão
loucos. Como poderia?
- Estarão?
A porta
range. Estivesse aflita e descuidava-me outra vez. Vejo-os entrar. Um por um,
acomodam-se na divisão. Olho para Inês em pânico e observo-a serena.
- Ando a segui-los há meses. Hoje é o aniversário da data de casamento de Jenny com António. Manuel Almada tem tentado matá-lo todos os anos, por esta altura. Sem António fico sem história. Perco o triângulo António, Jenny e Pedro.
- Ando a segui-los há meses. Hoje é o aniversário da data de casamento de Jenny com António. Manuel Almada tem tentado matá-lo todos os anos, por esta altura. Sem António fico sem história. Perco o triângulo António, Jenny e Pedro.
Ouço um
objecto a cair que me distrai. Esfrego os olhos. O coração bate descompassado.
Giro a cabeça. Livros. Livros. Livros. Já não os de lombada igual. Outros.
Coloridos. Diversos. Olho para as calças. Estão molhadas, sim, de café. No
chão, perto dos pés, o livro que me arrancara à realidade nos últimos minutos.
Não saíra do andar de cima da livraria.
EPÍLOGO
Envergonhada
olho em redor. Ninguém. Antes assim. Pego no livro com a capa marcada pela sola
da minha bota e dirijo-me ao andar inferior para o pagar. Sorrio a Catarina,
agradeço-lhe a amabilidade com que invariavelmente me recebem. - Ela e Ricardo.
- Aperto o casaco que vesti entretanto, para me prevenir do frio no exterior. À
porta esbarro com um sujeito que me fita intensamente. "Boa Noite."
num timbre que se me cola ao corpo. Há uma meia-lua desenhada no seu olho.
Arrepio-me. Sorrio-lhe lívida e saio da Trama. Sinto o livro a pulsar nas
minhas mãos.
Dedicado a
Raquel Ochoa que me ajudou a produzir alguns dos meus textos e a Manuel
Vicente, o gentil arquitecto entretanto falecido, que nos recebeu no seu
apaixonante apartamento com um grande sorriso e boa vontade.
Semana #29 – 27 de Setembro a 4 de Outubro de 2013 - Criado em Janeiro de 2010.
Andreia Azevedo Moreira
OBRIGADA POR ME LERES
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
sábado, 21 de setembro de 2013
«Obsessão»
Aquela mulher andava deslumbrada com aquele homem. Conhecera-o numa festa e
tudo o que haviam dito se resumira a um “Prazer.” da parte dele; e um “Tem
lume?”, gemido por ela. Nada a poderia ter induzido em erro. Meses depois,
quando se encontraram, o coração acusou o desconcerto que ele lhe provocava.
Ele não recordava o seu nome. Percebera-o pela hesitação em apresentá-la ao
amigo. Mentia-se, ainda assim, para alimentar o sentimento. Desde miúda que se
apaixonava para se desiludir. Tinha-o esquecido durante meses. O reencontro
viera submergi-la com o desejo que sentira na “primeira troca de olhares”. Ou
seja, “quando ela o viu”. Ele, é sabido, ignorara-a. Andava louca.
Fantasiava-lhe os dias; um quotidiano comum. Sofria com a separação que o
destino impiedoso lhes teria imposto.
- Não me procura por medo. – Consolava-se. – Também me assusta a devastação que uma paixão assim causará.
Realizou minucioso estudo da vida daquela pessoa, que lhe tomara conta dos dias. Descobriu onde trabalhava e espreitava-o, diariamente. Investigou-lhe os gostos, os hábitos, até as manias. Fez por conhecer todos os seus amigos; as antigas namoradas; os seus pais; a filha. Vivia na sombra da vida dele, cautelosamente, para não o amedrontar. Far-lhe-ia chegar os mais subtis sinais, para que soubesse que seria seguro avançar. Poderiam, enfim, transformar aquele desvairado amor platónico. No primeiro encontro ele nem sequer lhe sorrira. Limitara-se a acender-lhe o cigarro sem um esforço de olhar e continuara com o cotovelo apoiado acima da cabeça, na ombreira daquela porta, enquanto aquecia o pescoço de outra qualquer. Capaz de lhe perdoar qualquer indelicadeza insistia infantil:
- Já nesse dia tinha medo. – E com o medo justificou cada ano que perdeu. Chegou o dia em que os mesmos amigos os haveriam de juntar. Quando o avistou sentado no sofá as pernas acusaram o pavor do confronto, então inadiável. Dirigiu-se-lhe trémula, embora determinada. Antes que o alcançasse, Marília, uma amizade comum pegou-lhe no braço e precipitou-a para junto dele, que a percorreu com os seus olhos de um azul indescritível.
- Joana lembras-te da Rita?
Criado em Dezembro de 2009.
andreia azevedo moreira
OBRIGADA POR ME LERES.
domingo, 15 de setembro de 2013
SINOPSE
Ela ensaiava a assinatura.
Ele dizia-lhe que ela não sabia assinar
e
aconselhava-a:
«Muda de nome cachopa.»
Ele dizia-lhe que ela não sabia assinar
e
aconselhava-a:
«Muda de nome cachopa.»
SINOPSE
Ele precisava de muito.
Ela de quase nada.
Entenderam-se no desacerto.
Separaram-se muito antes de terem vontade de tentar o
entendimento e não chegaram a ter banda sonora.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/213175072177127
Ela de quase nada.
Entenderam-se no desacerto.
Separaram-se muito antes de terem vontade de tentar o
entendimento e não chegaram a ter banda sonora.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/213175072177127
SINOPSE
Ele que não lia livros ajudava-a
a
encontrar
as palavras
certas.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/213174818843819
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
O INTELECTUAL
Mauro Pavia era um homem interessantíssimo. Bonito não, todavia, isso não
tinha importância, se o que dizia e a forma como se movia na existência
cativavam, tanto, os demais. A sua inteligência, acima da média, era
indiscutível, daí que Mariana Alberto se tenha indignado quando o viu a cometer
um erro que lhe custaria o amor. Ele conhecera uma mulher extraordinária, sem
se ter dado conta do sucedido. Havia nele um permanente estado narcísico, que o
impedia de se interessar por quem o rodeava. O que o movia passava, sempre,
pelo que via de si, no reflexo das córneas alheias. Os seus encontros duravam
há muitos dias, sem que ele interrompesse o seu discurso sobre a sua vida, os
seus conhecidos e os seus feitos, naquela atitude grosseira de ostentar tudo
quanto lhe sobejava. Considerava, decerto, embevecê-la. Alienava-a. A Diana Escobar afigurava-se enfadonho
que ele quisesse tanto falar do umbigo e saber tão pouco dela. Que concebia ele
construir? Uma relação, seja de que tipo
for, erige-se com partilhas e reconhecimentos recíprocos, não com altares. Para
isso há as igrejas e ela não era uma pessoa religiosa. O tolo persistia na
atitude, há tempo indeterminado. Diana sentia-o no corpo, outrora sedento dele,
como à passagem de décadas. Jurava ter-lhe nascido um ou outro cabelo branco na
espera enquanto supunha: Ou ele não a desejava e andava apenas a passar o tempo, como quem fala para o espelho. Ou
talvez a quisesse com intensidade tamanha que acreditava não serem suficientes
as suas qualidades, tendo de lhas relembrar. Omitia do discurso o elementar “E
tu?” que os elevaria a interacção mais densa. Mauro Pavia perdia aquela mulher.
Não lhe iria conhecer com as mãos as nádegas generosas, ou a cintura fina que
desejava envolver; não descobriria o sabor do seu sexo, nem a que lhe cheirava
a pele por cima do atlas. Jamais teria noção do que a faria rir às gargalhadas,
ou sentir-se perdida. Tratava-se de uma questão de horas. Apesar da sua grande bagagem intelectual que fomentava, amiúde,
sussurros “É um Senhor.” à sua passagem na Rua, comportava-se, no que concernia às relações humanas no geral e
àquela, em particular, como um
parvalhão. Não haveria filosofia capaz de o redimir. Mariana Alberto
compreendia o que se passava, mas não lho poderia dizer. Ele era deus, todo
sabedor. Ela não passava de rapariga ignorante. O seu único talento: descortinar as subtilezas da vida.
Andreia Azevedo Moreira
OBRIGADA POR ME LERES.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
PRETÉRITO (Perfeito)
Deixa-me passar.
Não venhas para o meu lado,
sussurrar-me ao ouvido.
Não acertes o passo com o meu,
finge que não nos vimos um dia.
Antes de te encontrar vivia
sem saber que Deus havia criado, para mim, um par.
Não venhas para o meu lado,
sussurrar-me ao ouvido.
Não acertes o passo com o meu,
finge que não nos vimos um dia.
Antes de te encontrar vivia
sem saber que Deus havia criado, para mim, um par.
Deixa-me passar.
Abranda, fica p’ra trás.
Não entendo esse buliço.
É tão triste o teu olhar.
Mal mereço a tua dor,
não é em mim o teu lugar.
Antes de ti não sorria, mas não posso em ti ficar.
Abranda, fica p’ra trás.
Não entendo esse buliço.
É tão triste o teu olhar.
Mal mereço a tua dor,
não é em mim o teu lugar.
Antes de ti não sorria, mas não posso em ti ficar.
Deixa-me passar.
Magoa ver-te partir, é certo que fico a perder.
Resta a dor de não te ver.
Queria-te eterno abraço, mas tenho apenas dois braços,
que acolhem já outros dois.
Não os hei-de desprezar.
Antes de ti não sentia, mas não posso em ti morar.
Magoa ver-te partir, é certo que fico a perder.
Resta a dor de não te ver.
Queria-te eterno abraço, mas tenho apenas dois braços,
que acolhem já outros dois.
Não os hei-de desprezar.
Antes de ti não sentia, mas não posso em ti morar.
Deixaste-me passar.
E eu não consigo esquecer os beijos que não te dei.
Como calo a vontade e a força com que te amei?
Vesti a alma de luto por esta paixão não vivida,
que antes de começar já soava a despedida.
Sonho-te da cama feita, com cobertores de saudade.
Num encontro numa esquina, roubaste-me a liberdade.
E eu não consigo esquecer os beijos que não te dei.
Como calo a vontade e a força com que te amei?
Vesti a alma de luto por esta paixão não vivida,
que antes de começar já soava a despedida.
Sonho-te da cama feita, com cobertores de saudade.
Num encontro numa esquina, roubaste-me a liberdade.
Não choraste por mim amor.
Nem me barraste o caminho, ou imploraste «Fica.»
Não era eu, eu era engano.
Ardi num ciúme insano, com o que te aconteceu.
Encontraste amor verdadeiro.
O do passo certo com o teu.
Nem me barraste o caminho, ou imploraste «Fica.»
Não era eu, eu era engano.
Ardi num ciúme insano, com o que te aconteceu.
Encontraste amor verdadeiro.
O do passo certo com o teu.
Andreia Azevedo Moreira
Junho 2009 – 1ª Versão
Março, Abril de 2013 - Adaptação para Fado.
Março, Abril de 2013 - Adaptação para Fado.
Este trabalho que me deu um gozo desgraçado surgiu na sequência de um desafio do Povo Lisboa - Rua Nova do Carvalho.
OBRIGADA POR ME LERES.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/210450725782895
Pensamento do dia:
É de sobrevivência que se trata
quando escrevo.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/211884282306206
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Obrigada a todos os que aqui têm
chegado e ficado, nos últimos
dias.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/211516822342952
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
PRETÉRITO (Perfeito)
Deixa-me passar.
Não venhas para o meu lado,
sussurrar-me ao ouvido.
Não acertes o passo com o meu,
finge que não nos vimos um dia.
Antes de te encontrar vivia
sem saber que Deus havia
criado, para mim, um par.
Deixa-me passar.
Abranda, fica p’ra trás.
Não entendo esse buliço.
É tão triste o teu olhar.
Mal mereço a tua dor,
não é em mim o teu lugar.
Antes de ti não sorria,
mas não posso em ti ficar.
Deixa-me passar.
Magoa ver-te partir, é certo que fico a perder.
Resta a dor de não te ver.
Queria-te eterno abraço, mas tenho apenas dois braços,
que acolhem já outros dois.
Não os hei-de desprezar.
Antes de ti não sentia, mas não posso em ti morar.
Deixaste-me passar.
E eu não consigo esquecer os beijos que não te dei.
Como calo a vontade e a força com que te amei?
Vesti a alma de luto por esta paixão não vivida,
que antes de começar já soava a despedida.
Sonho-te da cama feita, com cobertores de saudade.
Num encontro numa esquina, roubaste-me a liberdade.
Não choraste por mim amor.
Nem me barraste o caminho, ou imploraste «Fica.»
Não era eu, eu era engano.
Ardi num ciúme insano, com o que te aconteceu.
Encontraste amor verdadeiro.
O do passo certo com o teu.
Andreia Azevedo Moreira
Junho 2009 – 1ª Versão
Março, Abril de 2013 - Adaptação para Fado.
Este trabalho que me deu um gozo desgraçado surgiu na sequência de um desafio do Povo Lisboa - Rua Nova do Carvalho. Categoria: FADO MUSICADO
OBRIGADA POR ME LERES.
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quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Qual é coisa, qual é ela?
"Arde a pele às costas subjugadas,
arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s);
cheira ao carvão das frases sublinhadas,
sabe ao sal do médio a virar as folhas
com ruído;
eis o vício avassalador e irreprimível que,
ao aprisionar, liberta."
Andreia AM em Fevereiro de 2012, para passatempo da Revista Ler.
arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s);
cheira ao carvão das frases sublinhadas,
sabe ao sal do médio a virar as folhas
com ruído;
eis o vício avassalador e irreprimível que,
ao aprisionar, liberta."
Andreia AM em Fevereiro de 2012, para passatempo da Revista Ler.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Por vezes há que permitir que nos
destruam, para podermos renascer
melhores.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/209399022554732
02-09-2013, 00:07
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
«É LÁ DENTRO A MINHA MORADA.»
Disseram-me
que não podia entrar. Sento-me do lado de fora, descrente. Choro. Não tenho
força para erguer a cabeça, que me tomba nas mãos. Não de vergonha, cansaço.
«Não entre, por favor.» Quando só eu devo estar ali. Eles parecem não perceber,
ou não querer. «São as regras.» Regras que também ditaram que não comprássemos
casa. «Não». Aceitámos. Tantas recusas. Comunicaram-nos que era proibido
amarmos uma criança. Ela que ficasse esquecida, de ninguém. Resignámo-nos.
Tentaram varrer-nos. Como se o que os olhos não vissem, nós, não existisse.
Vivemos inteiros apenas entre as nossas paredes arrendadas. Aquela pessoa tem
qualidades, os seus defeitos também. A conversa habitual. Desejo-a, ainda. O
meu corpo entendeu-se com o dela. Lembro-me bem da primeira vez que os nossos
olhos se prenderam. Soube que ali iria morar algum tempo. Fui correspondido.
Custa-me não lho conseguir demonstrar na rua. «Não pode ser.» Pretendem que
afirme tratar-se de amizade; convencer-me de um bem-querer menor. Exigem que
não afrontemos os demais, com esta maneira anormal de ser. Procurei empenhado e
nunca encontrei qualquer anomalia. Todavia, o nosso amor insulta e por isso nos
coibimos dele. Desconheço se para não ferir, ou para que não nos agredissem,
fartos que estamos que nos maltratem. Extenuado que vejam feio o que, para mim,
é belo. Perfeito. Tenho perdido muito tempo a esconder-me. Agora mesmo, ele
está ali dentro e não consentem que fique perto. Deveria ter-lhe dado mais
festas e tê-lo apertado mais vezes nos braços. Deveria ter-lhe procurado a
boca, com a minha, sempre que quis. Abdicámos em prol de terceiros que mais não
têm feito senão tentar matar-nos. «Esse elo não tem validade.» O que trago em
mim é para ocultar. Afirmam. Quero gritar-lhes da injustiça que cometem.
Desisto. A luta afigura-se inglória. Despirei, algum dia, a vergonha que me
vestiram ainda criança? Sobretudo pesado. Escuro. Bafiento. Uma festa no rosto
ou darmos as mãos, trocarmos beijos, ou aquelas carícias nos cabelos. Gestos
abolidos. Tornei-me furtivo. Exímio na arte de amar sem o toque. Ainda que uma
vontade imensa no peito, não houve o lugar devido para o nosso calor. Isto
provocou-me vazio que corrói. Têm-me dito por meias palavras, olhares
reprovadores e trocistas que não é digna a minha história. Não entendo. É igual
ao que observo noutros casais. Estudo os modos dos apaixonados. Os meus em nada
diferem. Quero-lhe bem, daria a minha vida para salvar a sua e faço o que posso
para o proteger. Cumplicidade que me é devolvida. Impõem-me uma parede. Sou
assim e minto, para que não me chateiem, nem me tentem formatar. Hoje barram-me
o caminho, o que me é inaceitável. Está ali dentro toda a minha vida partilhada
com outra pessoa. Dizem-me que vá para casa; só a família chegada; eu não.
Como? Eu, sim. Sou a sua companhia. Tenho sido o amor, o sexo, também a
amizade. Tenho sido as discussões, a ternura, a saúde, as doenças (esta
também), as viagens, a convivência, as traições, as mágoas, os desabafos, as
flatulências, o desespero, as gargalhadas, os abraços, os beijos, as
dificuldades, as vitórias. Tenho sido. Sou, ainda. Mandem-me para casa, pouco
importa. Ali acaba parte de mim. Já não tenho como lhes explicar que não se
explica o amor. Sou o João. Morre o meu Francisco. Não me deixam entrar, mas eu
nunca de lá saí.
Andreia Azevedo MoreiraCriado em Maio de 2009.
Obrigada por me leres.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
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