quarta-feira, 31 de agosto de 2016

fotografar palavras: # 026

fotografar palavras: # 026: “Quantos minutos de desamparo me restam?” Texto: Andreia Azevedo Moreira



Foto: Ana Moderno



(Que pujança de fotografia, Ana. Obrigada.)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

fotografar palavras: # 024

fotografar palavras: # 024: “És tão silencioso. Há em ti segredos, ou só vazio?” Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Bruno Mourinha

fotografar palavras: # 023

fotografar palavras: # 023: “Ficamos a medir-nos como duas janelas por abrir.” Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Teresa Afonso

fotografar palavras: # 020

fotografar palavras: # 020: "O sol nunca ilumina os meus passos. A sombra é o caminho." Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Cristina Lopes

fotografar palavras: # 014

fotografar palavras: # 014: “Ninguém aguarda um pingo de chuva num dilúvio, nem se angustia com um mosquito contra a velocidade do pára-brisas.” Texto: Andreia Azev...

fotografar palavras: # 009

fotografar palavras: # 009: "O mundo que fabricámos é merda porque houve e haverá, sempre, os que baixam as cabeças e abdicam de pensar por si mesmos.” Texto: ...

Escolha musical #3 - DAR PALAVRAS na Rádio Voz da Ria

Escolha musical #2 - DAR PALAVRAS na Rádio Voz da Ria

Escolha musical #1 - DAR PALAVRAS na Rádio Voz da Ria

DAR PALAVRAS na Rádio Voz da Ria.

O DAR PALAVRAS na rádio Voz da Ria. 
Obrigada, Di Guimaraes, por esta experiência fantástica.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Um copo de cólera - Raduan Nassar




























Como definir o indefinível. Neste livro cabem mundos. É sexo, carne, tesão. Pensamento, reflexão, duas mentes que se digladiam. É acto cénico que testemunhamos quais espectadores mas também palco pisado por algum íntimo recanto nosso. É um homem e uma mulher que se odeiam enquanto se amam, se devoram, se magoam. Egoísmo e reciprocidade. Discurso directo e subliminar. É foda sem sentimento e ternura que comove. Frieza e intimidade. Perversidade e candura. Linguagem ímpar que estonteia - Cada frase um monumento. - e vulgaridade a convocar o mais primário. É fragilidade e força, luz e treva, submissão e domínio, abuso, cuidado, vontade, pele. Fastio. É animalesco e racional. Grande nas causas e na hipocrisia. Injustiça e paridade. Honesto e dissimulado. Disfarce e nudez. Vingativo. Redentor. 

Li-o.

Reli-o.

«eu não tive o bastante, mas tive o suficiente.»

É um caso de amor.

(195 BPM)












Adquirido na A-das-Artes ao Livreiro, Joaquim Gonçalves.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O PAÍS INVISÍVEL - À venda nas livrarias Bulhosa - Books and Living

Esperei tanto para me dirigir a uma Bulhosa, desde o 12 de Março de 2016, que ia perdendo a oportunidade de sentir esta alegria. Valeram-me os livreiros da Bulhosa do CC Amoreiras que ainda não o tinham escondido. Desconheço se voltarei a ter o privilégio de haver um pouco de mim numa livraria. Cá fica, para registo e alento da memória, "aquela vez" em que consegui publicar um conto em papel (!), tendo estado a colectânea em destaque, perto de alguns escritores maiores.

Serei grata até ao meu último dia ao Mário Cláudio, ao José Alberto Pinheiro, ao Centro Mário Cláudio, ao Martinho Soares e José Vieira (por me terem lido e considerado estar a minha escrita à altura de passar o seu crivo Leitor), aos companheiros de colectânea, a todos os amigos, conhecidos e estranhos que compraram o livro e nos leram.


«Os cães ladram»
Andreia Azevedo Moreira

Nívea acorda com a mão pesada na garganta. O galo no casebre ao lado canta alegrias que não conhece. Há menos frio na geada sobre as folhas da esteva, ao redor da casa de guarda, do que o que tem acumulado nos órgãos vitais. O hálito etílico ronca próximo. Ela olha para o tecto depois de afastar o que lhe impede a respiração. É um movimento lento, todo nojo e vontade de vingança. Olha de esguelha para o homem que a submete. «É tã enfezado o amalçoado. Desbandalhava-o se quisesse.» As brasas na lareira espreitam da véspera. Um estalido recorda-a que é hora de se erguer. O quotidiano não pára pelas nódoas que ostenta nos olhos, ombros e rins. Nos pulsos. (...)






Bulhosa - Amoreiras.






EU E OS COMPANHEIROS:






À VENDA AQUI: 



ALERTA AOS QUE ESCREVEM: NOVO DESAFIO. (Prazo até Setembro de 2016)



quarta-feira, 29 de junho de 2016

«AMARIN – O QUE FALTOU»


«Sou feliz com o cheiro da terra quando chego a Garvlae e abro a janela, para pagar a portagem.»

Gostava de ser o tipo de pessoa que se alegra com impressões olfactivas. Dava o conteúdo da minha conta bancária para ter dito isto. Nunca me ocorreria. Foi Amarin quem me falou assim. Terei todo o prazer em contar-vos sobre o que me faz feliz. Ser-vos-á desagradável, creio. Começo pelo nome, depois veremos. Chamo-me Liexao Icke. Nasci trinta e um anos após a Segunda Guerra. Detestaria viver naquela época, fardado, parte integrante de um exército. As pessoas formatadas irritam-me. As obedientes enojam-me. Um batalhão reforça-se com gente submissa. Sem submissão não há guerras, nem carne para munir canhões. O mundo que fabricámos é merda porque houve e haverá, sempre, os que baixam as cabeças e abdicam de pensar por si mesmos. Também desprezo os senhores que se aproveitam dessas almas subalternas. Nasci forte, tenho responsabilidades. Se conheço mais e alcanço mais longe, se ocupo lugar que me confere poder, tenho de medir as forças que emprego. Isto não é bondade. É o equilíbrio que devo ao Universo. Será reclamado. Conheço a minha posição e apesar do desinteresse em comandar, é-me inevitável se se rendem ainda nem iniciei o confronto.

Amarin não é fraca. Age como tal. Acredita num défice de coragem que me empenhei em incutir-lhe. Mudei as lentes da sua alma. É extasiado que o declaro. Certa vez, abordei o medo. Ela estava muito quieta, direita, ouvindo-me atenta com os olhos castanhos. Idolatrava-me. Não recordo a idade que teria. Não teve grande importância. Passou magra e discreta, cá dentro, como a vizinha a quem achamos piada e, houvesse oportunidade, com quem gostaríamos de dar uma, mas temos dificuldade em memorizar o nome. Baixei o tom de voz, até a um timbre quase inaudível. «O Medo.» Terá sentido o rumor do meu hálito no pescoço. Os caracóis escuros estremeceram no arrepio. Manteve-se muda. «O Medo.» Era bonita a minha morena em pânico, fitando a televisão. Fixava o olhar míope, compenetrada, para impedir o horror de entrar. O espanto dela excitava-me. Podia estar uma tarde inteira a sussurrar «O medo…», apenas para poder observar as mãos esguias cravarem-se nas coxas-tentação, que testemunhei inseguras na primeira marcha. Angariei amigos para o dizerem comigo. Não se descontrolava. Remetia-se ao silêncio, como a presa encurralada que acredita. De tanto ouvir sobre o temor encheu os bolsos e tinha-o para dar, às mãos cheias. Não entendo não me ter odiado. Fiz o que pude, desde que ma passaram para as mãos suja de fezes e sangue. Ou era imune, ou encontrava cura no riso e no choro dos quais abusava, sem consideração pela injustiça das emoções. Risse como ela, sufocaria. Admito apenas o tipo de humor que faz cócegas a pouca gente, porque menos entendível. O óbvio não me aquece. O fácil não me move. A simplicidade cansa-me. Amarin era simples, inocente, espontânea, suave. Parva. A sua gargalhada agredia-me. Quem a ensinou a ser alegre? Houve tempos mortos, nos quais me dediquei a estudá-la. Queria desvendar o mecanismo daquela autenticidade. Ambicionava desmontar a representação, convicto que, por detrás do pacifismo estaria a verdade; a zanga; o mal. A minha morte. Chorasse metade do que verteu, morreria afogado. Era obsceno o seu modo comovido de levar a vida. Quando visitámos o Zoo lamentou a candura dos aprisionados. Passou minutos defronte das grades, que os distinguiam, a encará-los.

«Para eles sou uma janela.»

Caminhava até ao seguinte. Ridicularizei a missão que abraçara e não obstante a reverência que me devotava prosseguiu, ignorando-me. Fê-lo até que todos os animais tivessem experimentado a liberdade. No fim da tarde afirmou: «Não torno.» Assim foi. Provoquei-a. Cancelei encontros por me negar o destino proposto. Não cedeu, embora escurecesse de saudade. Eu, nada sentia. Fazia-o por desporto, para castigá-la por ousar contrariar-me. Divertia-me a sua vontade de estar comigo, que a maltratava. Talvez Amarin fosse estúpida. Não sei. Desconheço do que é capaz a couraça do amor. Pessoalmente, o bem-querer que dominei foi à Arte. Um prato com comida pode sê-lo, sejam nele depositadas as quantidades justas de empenho, criatividade, talento e esforço. Eis o amor em estado puro. Da Arte pouco espero, além de frustração. A demanda que não cessa. Um caminhar incansável. Aprendo a menosprezar o desgaste que o insucesso traz. Já de uma pessoa espero muito. Que não adoeça, para não me maçar com trabalhos; que me ame incondicionalmente; não me abandone; me dê prazer; que seja companhia, ouvinte, interlocutor, salvação; algo que possa pontapear, com o que me sobeja em amargura e me faça “FELIZ!”. Não acaba o quanto esperamos dos outros. Onde não houve incúria? Na educação dela. Inatacável. Teve acesso à excelência. Se não aproveitou deveu-se ao feitio de asno. Mantinha-se imperturbável, qual sequoia, perante os incêndios que lhe ateávamos, ao redor. Giravam vinis de Stravinsky, implorava por bandas com nome de cidade remota. Pergunto: Morre-se de paixão com aquele barulho nos ouvidos? Levei-a a espectáculos de dança que eram como ver, de perto, o paraíso, sentou-se ao lado agarrada ao dispositivo táctil e ar lunático, a desviar-lhe as feições. Ignorante por convicção. Livro que eu sugerisse e a leitura ficava pelas primeiras páginas. As minhas estantes jamais a cativaram. A melhor literatura dava lugar a histórias de cordel terríveis. O meu gosto coíbe-me de enunciá-las. Tenho uma teoria acerca do pouco espaço que ocupou, na minha vida: Espirrei-a. Foi um desperdício dos meus pulmões. Estranhei-a sem a entranhar, contrariando o poeta. Não se apercebia. Era fiel. O cão que se alegrava com a minha chegada e entristecia, na despedida. Defender-me-ia com o corpo. Usei-a sem parcimónia. Não me envergonho, ou arrependo. Preciso de me saber a existência e a extinção para alguém. Consenti que me lambesse mãos, pés, os restos. Acolhi, com deleite, a sua vulnerabilidade. Interrogo-me se ela desconhecia a humilhação, ou a tolerava refém do meu amor sem respostas. As minhas demonstrações de orgulho, pelas suas conquistas, eram nulas. Chegava contente para me falar de uma vitória, desmantelava-lhe a alegria. Arrogante. Vibrava ao fazê-lo em público. Quanto mais a expusesse ao ridículo, melhor. Maior o entretenimento. Ri-me, muitas vezes, do seu rosto carente e ela sem desistir. Não compreendia a teimosia. Ambicionava que me odiasse, de tanto me querer. Desejava que se estragasse, que lhe apodrecesse a ternura e se preenchesse dos vazios que eu hábil urdia, nas suas emoções. Ela ia somando prémios: Revelação aqui, originalidade ali. Destaques na imprensa, além. Os louvores alheios não a consolavam, quando me procurava expectante e eu devolvia tédio e silêncio. Creio que não perdia a esperança de um dia me apanhar a lacrimejar, babar, ou qualquer disparate do género que as pessoas segregam, quando gostam umas das outras e alguém triunfa. Pobre rapariga. Acreditava-se capaz de me reparar e ao mundo e que o faria, começando por si mesma. Uma idiotice. O mundo não tem conserto, sabemo-lo. Não o havia de ter através de uma miúda sem QI, movida a vísceras. Idealista sem causa relevante. Por outro lado, a minha falta de conserto era um equívoco. Não estava danificado. O nosso mal foi a inabilidade dela, para o conceber.

Naquele Domingo combinámos lanchar. Eu levava um saco de memórias corrompidas. Recusou-se a recebê-lo. Dispensava prendas. A minha presença seria o bastante, para estar bem. Tentava, amiúde, abraçar-me com a meiguice do olhar, já que o toque e os afectos estavam excluídos, da equação que nos escrevi. Insisti que abrisse os presentes, quando terminámos as torradas com manteiga, doce de tomate e o chá com leite. Cada papel que rasgava, à minha frente, era o som do que lhe faziam as minhas intenções aos sonhos. Eu rejubilava. Ela respirava com maior dificuldade, ao avançar nas descobertas. Uma vez revelado o último presente encarou-me, sem indício de emoção. Os olhos estavam secos, contrariando o que eu antecipara. Perguntou-me: «É isto?» Nada respondi, além do sorriso. Depois ficou tudo branco. Havia um brilho que me cegava e uma Amarin sem expressão. Pela primeira vez ela não era transparente. Não conseguia decifrar em que pensava, o que sentia, a vontade que lhe subia ao peito e faria mover as mãos, houvesse sangue aquecido nas veias de gente passiva. O controlo da situação abandonara-me, todavia, sentia-me leve. Fitava-me esquisita, de baixo para cima. Havia desafio e desnorte. Tristeza e orgulho. Perda e soma. Havia ressentimento e amor. Não pude calcular o que predominava. O «Noves fora, nada»? Afastámo-nos inconscientes um do outro. Amaldiçoei-a: «O amor que te neguei, não será.» Não que desejasse mal maior do que o que já lhe tinha imposto, mas sou realista. Parecia resignada e ao mesmo tempo preparada para ir buscá-lo, noutros lugares. Os olhos mantiveram-se indiferentes ao que lhe embrulhara. As mãos ainda me davam festas, na mesa. Os pés acusavam o nervo da despedida. Quis dizer. Não disse. Quis sentir. Não pude. Quis fazer. Estaquei. Ela saiu, a correr, da pastelaria. Decidi berrar à mulher-criança, então surda para me ouvir, que tropeçava, caía e prosseguia, Rua abaixo, desprezando os meus rogos. Não me sentia forte, nem a sua vida, tão-pouco o seu fim. Era o chão percorrido. Amarin pisava-me para escapar e o fôlego não me permitiu rasteirá-la, contra o que fora hábito durante anos. Desapareceu, ponto minúsculo, ao dobrar a esquina do Lote 15. Parasita. Fingidora. Coisa... 

«AMARIN!»     

Sinto-me feliz quando me deparo com os azulejos das fachadas da Cidade, nos meus passeios, conduzida pelo piano, em Dó menor, de Bethoven. Sou-o nesta esplanada, a beber café e a Ler: «Era um dia claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze.»*

Penso no meu Icke. Estivesse comigo dizia-lhe.

*Citação do livro de George Orwell «Mil Novecentos e Oitenta e Quatro



Texto #56 a sair para a Rua com o DAR PALAVRAS.
OBRIGADA POR ME LERES.


Publicação original aqui: 
http://preguicamagazine.com/2015/03/18/conto-amarin-o-que-faltou/

Agradeço a oportunidade que o querido Paulo Kellerman me deu, ao publicar três dos meus textos («Amor?», «Amarin - o que faltou» e «Check-in») no espaço dinamizado por ele, na Preguiça Magazine.

Trata-se de um grande escritor que merece ser conhecido. Recomendo «Gastar palavras» - Prémio Camilo Castelo Branco de 2005 e «Os Mundos Separados que Partilhamos».

Podem acompanhá-lo, também, aqui:
http://agavetadopaulo.blogspot.pt/2016/05/contagio.html.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

DEZOITO

Está sentada no degrau onde por encosto arranjou uma parede de azulejos azuis. Quinze homens enfrentam ondas desafiadoras perto do escritor, do etnógrafo, do outrora presidente do município. A cabeça pende-lhe. Bonita e antiga. Amo-a na vulnerabilidade. A saliva escorre entre os lábios entreabertos. A saia queimou-se. Um montículo de cinza frio jaz no seu colo ladeando o buraco recém-aberto no tecido. Um cigarro mal apagado no chão, ao lado dos sapatos engraxados a preto, fumega resquícios de um vício libertador. Penduradas nos seus pensamentos descrições precisas de massas informes. Imagens presas por molas no estendal laboratório da sua mente. Conheço-a melhor a cada mergulho. Aperfeiçoa-se na apneia. Ganha robustez na fragilidade resiliente. Aprende sozinha a arte de perceber a força escondida em cada deficiência sua. Levanta-se, sorri para a saia danificada, para os pés molhados. Limpa a bochecha com o pulso. Cheira-o. Detesta o odor da própria saliva, adorando o das pessoas com quem se deitou. Sente saudades de ter orgasmos e de escrever. Há quanto tempo o vazio. Principia a marcha incerta como o bicho selvagem recém-parido que se ergue e, de imediato, para sobreviver se põe a andar, a fugir, a comer. Corre como respira. Autónomo. Sem progenitora que lhe valha. Sem pai que o proteja. Amor nenhum além daquele que o agarra à vida. É nascer e partir. Haverá frase mais curta do que o que medeia o parto e a morte. Virgínia caminha bamboleante. Para trás louvores a peixeiras e pescadores. Para a frente honras a homens que defenderam centenas de vidas arriscando a própria. Impede-se de reflectir sobre a inutilidade da sua existência comparada à relevância dos que fizeram diferença ao salvarem alguém. Quando muito é a si mesma que salva. Acredita cumprir-se. Enquanto houver em si o interesse pelas histórias resistirá a entregar-se. Espero-a onde acaba a terra. Pressa nenhuma.

Passeia com destino definido pelas ruas da minha cidade. Demora-se na alegria antes de estacar na Rua José Malgueira. Enfrenta consciente o edifício onde estão muitos dos que conseguiram sentados e outros tantos falhos, como ela, de pé. Na mesma posição, vê quatro figuras de costas para quem chega pela Santos Minho. Dois homens e duas mulheres. Um deles carrega um saco do lado esquerdo. Miúdos correm chilreando inocências a perder. Virgínia prende o cabelo, inspira profundamente, expande o peito ao limite. Ajeita o peso da mochila nas costas. Acomoda as dúvidas ao fundo e ao meio.

A angústia incapaz do futuro.




XIX

                                                                                                                                                                   
Ruge.















 

 



PROCURO LEITOR

Para navegação séria. Sem amarras. Dou palavras na Rua desde 08 de Março de 2013.





https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/550376868456944

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O ESTRANGEIRO - ALBERT CAMUS

QUEM AINDA NÃO LEU QUE NÃO PARE NESTE POST, 
P.F.

Retorno aos clássicos com “O Estrangeiro” de Albert Camus (1913-1960. Nobel da Literatura em 1957). Afigura-se história simples: Morre a mãe de Mersault e este cumpre a função de ir ao velório e ao funeral. Não chora. Namora com Maria porque a deseja. Trabalha num escritório para ganhar um ordenado. Tem um amigo, Raimundo, que se envolveu em quezília com o irmão de uma amante que espancou. Almoça no Celeste. Trivial. Indiferente ante as escolhas do quotidiano que, segundo ele, jamais fazem a diferença, dado que todos mortos um dia. Numa tarde de Verão dispara cinco tiros fatais para outro homem, porque se desnorteia com o calor.
Será julgado. Testemunhamos o esgotante desenrolar do processo de acusação. Constatamos que, para os acusadores, o crime maior não terá sido assassinar um homem. Foi não chorar a mãe.

Acaba quem o trouxe para a vida e nem uma lágrima, um soluço, um tremor? Sinal nenhum de desconsolo. De facto, como o próprio esclarece, estaria com demasiado sono para viver, em condições, a perda. As necessidades fisiológicas impõem-se-lhe amiúde ao bom senso e aos deveres sociais. Há muito que nada diziam um ao outro, motivo bastante para que lhe não doesse, tanto, a despedida. Preferiria, note-se, que tivesse continuado viva, todavia, a culpa do falecimento não fora sua. No dia seguinte à descida de sete palmos da ascendente vai até à praia, namorisca com Maria e termina a noite no cinema, com uma comédia do Fernandel. Insensível ou tão-só fiel a si mesmo?
Dir-se-á de alguém que diz o que pensa e sente que é honesto. Sincero. Confiável. E se as razões e sentires dessa pessoa chocam os outros? Agridem, até. Se vão contra tudo o que lhes incutem desde o ventre. Então, desejarão que se cale (nós também), de preferência para sempre. Eis o que sucede ao anti-herói desta obra-prima de 89 páginas. Será sentenciado por se expor em demasia ao não omitir certos pormenores do que lhe vai dentro. É descritivo até às entranhas, nunca censório. Não há floreados no discurso de Mersault nem hipocrisia e é isso que o trama quando, ironicamente, se manteve calado a maior parte da existência, por considerar não ter o que de relevante dizer.
Culpado de não demonstrar sofrimento, de assumir as urgências e os não-sentimentos. Culpado de não ser, nem agir, como os demais. Estrangeiro em terra de mentirosos. Ninguém aguenta a verdade inteira, como não se tolera olhar directamente para o sol. Foi a inteireza que condenou Mersault e é nessa que renascerá.
A um instante da execução crê recomeçar. Nesse momento de expiração, mais do que o amem, deseja com fervor que o odeiem profunda e exultantemente. Somente bizarro ou derradeiro grito de liberdade?
195 BPM – A adquirir. Um livro para reler a vida toda. Cito o advogado de defesa: «Eis aqui a imagem deste processo: tudo é verdade e nada é verdade.»

Publicação original AQUI.

terça-feira, 10 de maio de 2016

XVII – Ala-arriba!

Santo André resgatou-me à fundura. Acordo a flutuar. Quanto durou o afogamento. Ao redor centenas de páginas nadam a profundidades diversas. Amparam-me. São as que criei. Distingui-las-ia em qualquer meio. Letras de todas as cores vão surgindo como fotografias reveladas em câmara escura. O papel indestrutível. As histórias, os lugares, os compassos, as personagens vieram em meu socorro. Puxam-me, pelas axilas, para fora. Pousam-me com cuidado numa pana, embora seja certo darem-me como acabada com a visão turva e as cordas vocais enfeitiçadas, som nenhum. Ouvem-se diversas pronúncias do português em conversas encantatórias. Num repente de convulsão expulso água dos pulmões. Posso assegurar ter recebido um beijo de vida, instantes antes. A reduzida área, entre bancos, está atulhada de redes com livros, papéis, esferográficas, blocos, folhas soltas, dois computadores, papiros, penas, tinteiros, mata-borrões, uma Olympia, maços de tabaco de marcas desconhecidas, as caixas coloridas de algumas das colecções doentias. Tiveram de arranjar espaço para me acomodar além da estranha pescaria, entre os pés dos tripulantes da lancha sobrelotada. À medida que os olhos se habituam à luz vou descortinando os rostos que me rodeiam. Mortos, todavia, vivos. Integramos frota de embarcações diferentes em tamanho e feitio. Alguém confirma «Navegamos à bolina». Os remos ainda estão recolhidos. Ao bombordo, incontáveis velas-trapézio rogam a Deus inclinadas na sua fé desmedida. Lotação esgotada, igualmente. Levanto-me e reconheço mais gente que venero. A boreste, barcos a perder de vista no limite da capacidade. A ondulação faz-me temer o desequilíbrio e o naufrágio. Perdi o impulso de me matar. Recupero, aos poucos, o fôlego de que desistira. Quando me constatam viva, todavia, morta, congratulam-se. «Bem-vinda a bordo. Permaneces se remares.» Lêem-se histórias dos séculos antepassados. Relembro algumas, surpreendem-me as desconhecidas. Recrimino-me por estar tão atrasada nas leituras essenciais. Sentámo-nos de frente uns para os outros. Ti’Maio concentrado ouve-nos. Garante que navegamos seguros nesta lancha. Indelével.

Ao longe, luz. A Lapa reacendeu-se para nós. Será difícil. O farol avisa-nos das condições adversas à entrada da barra. Tomo o meu posto como se soubesse exactamente o que fazer na navegação. Foco-me nas pinturas mágicas dos cascos que a vista alcança. Creio nas suas bênçãos para nos fazer aportar. As conhecenças serenam-me. Serei capaz. Por companhia os tripulantes mais competentes da história da humanidade e um patrão bravo ao leme. Por debaixo de nós as vagas aumentam súbitas e assustadoras. Ele fala comigo depois deste período em que o desconsiderei.

«Fica.»

«Indo onde tenho de ir.»

«Isso significa o quê?»

«Preciso de chegar para reconhecer a rota. O quanto remei.»

«Chegar?»

«Sabes o que quero dizer. Chegar.»

«Persigo-te como um cão raivoso.»

«Perdi o receio.»

«Decides afrontar-me.»

«Sem dúvida.»

«Arriscas.»

«Sim.»

«Antes de ti muitos falharam ou desistiram.»

«Já mo disseste. Vou.»


Encapela-se. As lanchas bailam o descontrolo imposto pela sua indignação, ameaçam tombar, render-se à água invasora. Desceu a noite antes da hora e uma neblina espessa engole-nos, vinda do interior. Deixamos de ver os pontos que nos asseguravam estarmos perto de poder deixá-lo. Só a intuição pode valer-nos. O vento é afinal seu cúmplice na refrega. Os patrões gritam-nos incitamentos, calma e as orientações possíveis. «Reduzir o pano nos quatro rizes.» Dobramo-nos combativos sobre os remos aos quais nos amarrámos. Contamos com a força maior que levamos dentro. Impassíveis perante o sangue que preenche as linhas das palmas guerreando. Tememos morrer pelo esquecimento e que tenha sido vão o nosso esforço para permanecer, acerca de nós, uma evidência. Somos iguais, temos medo. «P’ra barlavento.» Que a velocidade boieira nos guarde e leve rápido a bom porto. Aguardamos vigilantes, antes da barra, por todos os barcos ainda em perigo. A solidariedade é redentora. A compaixão salva. Apesar da desorientação que a tempestade nos inflige, remamos em absoluta sincronia. Sabemo-lo: A noite estrelada é bela mas a estrela solitária não enleva. Dois camaradas ajudam José Rodrigues com o governo da lancha. «Agôra.» Entramos na barra. Na praia uma multidão organiza-se lesta, aguarda a oportunidade de se atirar ao mar e caçar os estais para varar os barcos para terra. Acolher-nos-ão após a tormenta na enseada.

Sophia, Florbela, Luísa, Irene, Sara, Fiama, Maria, Gabriela, Ana, Madalena, Cecília, Filipa, Ângela, Teresa, Violante, Helena, Mariana, Judith, Judite, Branca, Luiza, Natália, Leonor, Jacinta, Ilse, Catarina, Mécia, Guiomar, Joana, Amália, Alice, Dóris, Rosa, Carlota, Matilde, Francisca, Bernarda, Inácia, Brígida, Antónia, Constança, Teodosia, Aurora, Tomásia, Brites, Isabel, Beatriz, Umbelina, Margarida, Adriana, Agostinha, Bárbara, Eugénia, Ivo, Caetano, António, Raúl, João, Flávio, Francisco, David, Jorge, Dinis, Carlos, Vitorino, Manuel, Miguel, Vergílio, Júlio, Fernando, Diogo, Duarte, Augusto, Camilo, Campos, Adolfo, Mário, Armando, Abel, José, Alfredo, Gil, Luís, Luiz, Leonardo, George, Emídio, Albino, Fernão, Agostinho, Pedro, Guilherme, Nicolau, Alexandre, Joaquim, Henrique, Jacinto, Alberto, Jaime, Álvaro, Herberto, Eduardo, Romeu, Ruy, Eugénio.

Reuniram-se infindos na salvação.

Saltamos para terra firme. Os nossos ombros aliviam o peso do barco agitando-o pelos lados, enquanto a irmandade puxa a lancha com alento conciliado. As pernas são tesouras vencendo a areia além do próprio eixo. Alguns correm da ré para a proa com os paus de sebo recém-libertados para os recolocarem por debaixo do casco, mais acima. As expressões denotam o contentamento de vencerem as dificuldades. O barco move-se lento, metro a metro, conquistado ao mar, galgando a duna sobre dorsos obstinados. Somos voz em uníssono. «Força, para cima! Força, para cima!»

«Força, para cima!»


Imagem daqui.


Andreia Azevedo Moreira
03 de Novembro a 28 de Dezembro de 2015



OBRIGADA POR ME LERES.