fotografar palavras: # 044: “A saudade a sovar-nos e nós a fingirmos que não fere a pancada. Há que continuar.”
Texto: Andreia Azevedo Moreira
Foto: Bruno Mourinha...
Procuro Leitor para navegação séria. (Sem amarras.) Dei Palavras na Rua de 8/03/2013 a 10/01/2017. Hoje respiro. Só. Andreia Azevedo Moreira
terça-feira, 6 de setembro de 2016
domingo, 4 de setembro de 2016
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
fotografar palavras: # 026
fotografar palavras: # 026: “Quantos minutos de desamparo me restam?” Texto: Andreia Azevedo Moreira
Foto: Ana Moderno
(Que pujança de fotografia, Ana. Obrigada.)
Foto: Ana Moderno
(Que pujança de fotografia, Ana. Obrigada.)
terça-feira, 30 de agosto de 2016
fotografar palavras: # 024
fotografar palavras: # 024: “És tão silencioso. Há em ti segredos, ou só vazio?” Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Bruno Mourinha
fotografar palavras: # 023
fotografar palavras: # 023: “Ficamos a medir-nos como duas janelas por abrir.” Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Teresa Afonso
fotografar palavras: # 020
fotografar palavras: # 020: "O sol nunca ilumina os meus passos. A sombra é o caminho." Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Cristina Lopes
fotografar palavras: # 014
fotografar palavras: # 014: “Ninguém aguarda um pingo de chuva num dilúvio, nem se angustia com um mosquito contra a velocidade do pára-brisas.” Texto: Andreia Azev...
fotografar palavras: # 009
fotografar palavras: # 009: "O mundo que fabricámos é merda porque houve e haverá, sempre, os que baixam as cabeças e abdicam de pensar por si mesmos.” Texto: ...
DAR PALAVRAS na Rádio Voz da Ria.

Andreia Azevedo Moreira
Em directo :-) <3 http://www.rvria.pt/schedule
REPETE DOMINGO e depois estará aqui: https://soundcloud.com/rvria/os-likes-da-di-27-programa-30-agosto-andreia-azevedo-moreira?in=rvria/sets/os-likes-da-di
REPETE DOMINGO e depois estará aqui: https://soundcloud.com/rvria/os-likes-da-di-27-programa-30-agosto-andreia-azevedo-moreira?in=rvria/sets/os-likes-da-di
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
FOTOGRAFAR PALAVRAS
Mais um desafio do meu amigo Paulo. Ver as nossas palavras nos instantes revelados pelos olhares de diferentes fotógrafos. Apaixonante.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Um copo de cólera - Raduan Nassar
Como definir o indefinível. Neste livro cabem mundos. É sexo, carne, tesão. Pensamento, reflexão, duas mentes que se digladiam. É acto cénico que testemunhamos quais espectadores mas também palco pisado por algum íntimo recanto nosso. É um homem e uma mulher que se odeiam enquanto se amam, se devoram, se magoam. Egoísmo e reciprocidade. Discurso directo e subliminar. É foda sem sentimento e ternura que comove. Frieza e intimidade. Perversidade e candura. Linguagem ímpar que estonteia - Cada frase um monumento. - e vulgaridade a convocar o mais primário. É fragilidade e força, luz e treva, submissão e domínio, abuso, cuidado, vontade, pele. Fastio. É animalesco e racional. Grande nas causas e na hipocrisia. Injustiça e paridade. Honesto e dissimulado. Disfarce e nudez. Vingativo. Redentor.
Li-o.
Reli-o.
«eu não tive o bastante, mas tive o suficiente.»
É um caso de amor.
(195 BPM)
Adquirido na A-das-Artes ao Livreiro, Joaquim Gonçalves.
segunda-feira, 4 de julho de 2016
O PAÍS INVISÍVEL - À venda nas livrarias Bulhosa - Books and Living
Esperei tanto para me dirigir a uma Bulhosa, desde o 12 de Março de 2016, que ia perdendo a oportunidade de sentir esta alegria. Valeram-me os livreiros da Bulhosa do CC Amoreiras que ainda não o tinham escondido. Desconheço se voltarei a ter o privilégio de haver um pouco de mim numa livraria. Cá fica, para registo e alento da memória, "aquela vez" em que consegui publicar um conto em papel (!), tendo estado a colectânea em destaque, perto de alguns escritores maiores.
Serei grata até ao meu último dia ao Mário Cláudio, ao José Alberto Pinheiro, ao Centro Mário Cláudio, ao Martinho Soares e José Vieira (por me terem lido e considerado estar a minha escrita à altura de passar o seu crivo Leitor), aos companheiros de colectânea, a todos os amigos, conhecidos e estranhos que compraram o livro e nos leram.
«Os cães ladram»
Andreia Azevedo Moreira
Nívea acorda com a mão pesada na garganta. O galo no casebre ao lado canta alegrias que não conhece. Há menos frio na geada sobre as folhas da esteva, ao redor da casa de guarda, do que o que tem acumulado nos órgãos vitais. O hálito etílico ronca próximo. Ela olha para o tecto depois de afastar o que lhe impede a respiração. É um movimento lento, todo nojo e vontade de vingança. Olha de esguelha para o homem que a submete. «É tã enfezado o amalçoado. Desbandalhava-o se quisesse.» As brasas na lareira espreitam da véspera. Um estalido recorda-a que é hora de se erguer. O quotidiano não pára pelas nódoas que ostenta nos olhos, ombros e rins. Nos pulsos. (...)
Bulhosa - Amoreiras.
EU E OS COMPANHEIROS:
À VENDA AQUI:
ALERTA AOS QUE ESCREVEM: NOVO DESAFIO. (Prazo até Setembro de 2016)
quarta-feira, 29 de junho de 2016
«AMARIN – O QUE FALTOU»
«Sou feliz com o cheiro da terra quando
chego a Garvlae e abro a janela, para pagar a portagem.»
Gostava de ser o tipo de pessoa que se
alegra com impressões olfactivas. Dava o conteúdo da minha conta bancária para
ter dito isto. Nunca me ocorreria. Foi Amarin quem me falou assim. Terei todo o
prazer em contar-vos sobre o que me faz feliz. Ser-vos-á desagradável, creio.
Começo pelo nome, depois veremos. Chamo-me Liexao Icke. Nasci trinta e um anos
após a Segunda Guerra. Detestaria viver naquela época, fardado, parte
integrante de um exército. As pessoas formatadas irritam-me. As obedientes
enojam-me. Um batalhão reforça-se com gente submissa. Sem submissão não há
guerras, nem carne para munir canhões. O mundo que fabricámos é merda porque
houve e haverá, sempre, os que baixam as cabeças e abdicam de pensar por si
mesmos. Também desprezo os senhores que se aproveitam dessas almas subalternas.
Nasci forte, tenho responsabilidades. Se conheço mais e alcanço mais longe, se
ocupo lugar que me confere poder, tenho de medir as forças que emprego. Isto
não é bondade. É o equilíbrio que devo ao Universo. Será reclamado. Conheço a
minha posição e apesar do desinteresse em comandar, é-me inevitável se se
rendem ainda nem iniciei o confronto.
Amarin
não é fraca. Age como tal. Acredita num défice de coragem que me empenhei em
incutir-lhe. Mudei as lentes da sua alma. É extasiado que o declaro. Certa vez,
abordei o medo. Ela estava muito quieta, direita, ouvindo-me atenta com os
olhos castanhos. Idolatrava-me. Não recordo a idade que teria. Não teve grande
importância. Passou magra e discreta, cá dentro, como a vizinha a quem achamos
piada e, houvesse oportunidade, com quem gostaríamos de dar uma, mas temos
dificuldade em memorizar o nome. Baixei o tom de voz, até a um timbre quase
inaudível. «O Medo.» Terá sentido o rumor do meu hálito no
pescoço. Os caracóis escuros estremeceram no arrepio. Manteve-se muda. «O
Medo.» Era bonita a minha morena em pânico, fitando a
televisão. Fixava o olhar míope, compenetrada, para impedir o horror de
entrar. O espanto dela excitava-me. Podia estar uma tarde inteira a sussurrar «O
medo…», apenas para poder observar as mãos esguias cravarem-se nas
coxas-tentação, que testemunhei inseguras na primeira marcha. Angariei amigos
para o dizerem comigo. Não se descontrolava. Remetia-se ao silêncio, como a
presa encurralada que acredita. De tanto ouvir sobre o temor encheu os bolsos e
tinha-o para dar, às mãos cheias. Não entendo não me ter odiado. Fiz o que
pude, desde que ma passaram para as mãos suja de fezes e sangue. Ou era imune,
ou encontrava cura no riso e no choro dos quais abusava, sem consideração pela
injustiça das emoções. Risse como ela, sufocaria. Admito apenas o tipo de humor
que faz cócegas a pouca gente, porque menos entendível. O óbvio não me aquece.
O fácil não me move. A simplicidade cansa-me. Amarin era simples, inocente, espontânea,
suave. Parva. A sua gargalhada agredia-me. Quem a ensinou a ser alegre? Houve
tempos mortos, nos quais me dediquei a estudá-la. Queria desvendar o mecanismo
daquela autenticidade. Ambicionava desmontar a representação, convicto que, por
detrás do pacifismo estaria a verdade; a zanga; o mal. A minha morte. Chorasse
metade do que verteu, morreria afogado. Era obsceno o seu modo comovido de
levar a vida. Quando visitámos o Zoo lamentou a candura dos aprisionados.
Passou minutos defronte das grades, que os distinguiam, a encará-los.
«Para eles sou uma janela.»
Caminhava até ao seguinte. Ridicularizei a
missão que abraçara e não obstante a reverência que me devotava prosseguiu,
ignorando-me. Fê-lo até que todos os animais tivessem experimentado a liberdade.
No fim da tarde afirmou: «Não torno.» Assim foi. Provoquei-a. Cancelei
encontros por me negar o destino proposto. Não cedeu, embora escurecesse de
saudade. Eu, nada sentia. Fazia-o por desporto, para castigá-la por ousar
contrariar-me. Divertia-me a sua vontade de estar comigo, que a maltratava.
Talvez Amarin fosse estúpida. Não sei. Desconheço do que é capaz a couraça do
amor. Pessoalmente, o bem-querer que dominei foi à Arte. Um prato com comida
pode sê-lo, sejam nele depositadas as quantidades justas de empenho,
criatividade, talento e esforço. Eis o amor em estado puro. Da Arte pouco
espero, além de frustração. A demanda que não cessa. Um caminhar incansável.
Aprendo a menosprezar o desgaste que o insucesso traz. Já de uma pessoa espero
muito. Que não adoeça, para não me maçar com trabalhos; que me ame
incondicionalmente; não me abandone; me dê prazer; que seja companhia, ouvinte,
interlocutor, salvação; algo que possa pontapear, com o que me sobeja em
amargura e me faça “FELIZ!”. Não acaba o quanto esperamos dos outros. Onde não
houve incúria? Na educação dela. Inatacável. Teve acesso à excelência. Se não
aproveitou deveu-se ao feitio de asno. Mantinha-se imperturbável, qual sequoia,
perante os incêndios que lhe ateávamos, ao redor. Giravam vinis de Stravinsky,
implorava por bandas com nome de cidade remota. Pergunto: Morre-se de paixão
com aquele barulho nos ouvidos? Levei-a a espectáculos de dança que eram como
ver, de perto, o paraíso, sentou-se ao lado agarrada ao dispositivo táctil e ar
lunático, a desviar-lhe as feições. Ignorante por convicção. Livro que eu
sugerisse e a leitura ficava pelas primeiras páginas. As minhas estantes jamais
a cativaram. A melhor literatura dava lugar a histórias de cordel terríveis. O
meu gosto coíbe-me de enunciá-las. Tenho uma teoria acerca do pouco espaço que
ocupou, na minha vida: Espirrei-a. Foi um desperdício dos meus pulmões.
Estranhei-a sem a entranhar, contrariando o poeta. Não se apercebia. Era fiel.
O cão que se alegrava com a minha chegada e entristecia, na despedida.
Defender-me-ia com o corpo. Usei-a sem parcimónia. Não me envergonho, ou
arrependo. Preciso de me saber a existência e a extinção para alguém. Consenti
que me lambesse mãos, pés, os restos. Acolhi, com deleite, a sua
vulnerabilidade. Interrogo-me se ela desconhecia a humilhação, ou a tolerava
refém do meu amor sem respostas. As minhas demonstrações de orgulho, pelas suas
conquistas, eram nulas. Chegava contente para me falar de uma vitória,
desmantelava-lhe a alegria. Arrogante. Vibrava ao fazê-lo em público. Quanto
mais a expusesse ao ridículo, melhor. Maior o entretenimento. Ri-me, muitas
vezes, do seu rosto carente e ela sem desistir. Não compreendia a teimosia.
Ambicionava que me odiasse, de tanto me querer. Desejava que se estragasse, que
lhe apodrecesse a ternura e se preenchesse dos vazios que eu hábil urdia, nas
suas emoções. Ela ia somando prémios: Revelação aqui, originalidade ali.
Destaques na imprensa, além. Os louvores alheios não a consolavam, quando me
procurava expectante e eu devolvia tédio e silêncio. Creio que não perdia a
esperança de um dia me apanhar a lacrimejar, babar, ou qualquer disparate do
género que as pessoas segregam, quando gostam umas das outras e alguém triunfa.
Pobre rapariga. Acreditava-se capaz de me reparar e ao mundo e que o faria,
começando por si mesma. Uma idiotice. O mundo não tem conserto, sabemo-lo. Não
o havia de ter através de uma miúda sem QI, movida a vísceras. Idealista sem
causa relevante. Por outro lado, a minha falta de conserto era um equívoco. Não
estava danificado. O nosso mal foi a inabilidade dela, para o conceber.
Naquele Domingo combinámos lanchar. Eu
levava um saco de memórias corrompidas. Recusou-se a recebê-lo. Dispensava
prendas. A minha presença seria o bastante, para estar bem. Tentava, amiúde,
abraçar-me com a meiguice do olhar, já que o toque e os afectos estavam
excluídos, da equação que nos escrevi. Insisti que abrisse os presentes, quando
terminámos as torradas com manteiga, doce de tomate e o chá com leite. Cada
papel que rasgava, à minha frente, era o som do que lhe faziam as minhas
intenções aos sonhos. Eu rejubilava. Ela respirava com maior dificuldade, ao
avançar nas descobertas. Uma vez revelado o último presente encarou-me, sem
indício de emoção. Os olhos estavam secos, contrariando o que eu antecipara.
Perguntou-me: «É isto?» Nada respondi, além do sorriso. Depois ficou tudo
branco. Havia um brilho que me cegava e uma Amarin sem expressão. Pela primeira
vez ela não era transparente. Não conseguia decifrar em que pensava, o que
sentia, a vontade que lhe subia ao peito e faria mover as mãos, houvesse sangue
aquecido nas veias de gente passiva. O controlo da situação abandonara-me,
todavia, sentia-me leve. Fitava-me esquisita, de baixo para cima. Havia desafio
e desnorte. Tristeza e orgulho. Perda e soma. Havia ressentimento e amor. Não
pude calcular o que predominava. O «Noves fora, nada»? Afastámo-nos
inconscientes um do outro. Amaldiçoei-a: «O amor que te neguei, não será.» Não
que desejasse mal maior do que o que já lhe tinha imposto, mas sou realista.
Parecia resignada e ao mesmo tempo preparada para ir buscá-lo, noutros lugares.
Os olhos mantiveram-se indiferentes ao que lhe embrulhara. As mãos ainda me
davam festas, na mesa. Os pés acusavam o nervo da despedida. Quis dizer. Não
disse. Quis sentir. Não pude. Quis fazer. Estaquei. Ela saiu, a correr, da
pastelaria. Decidi berrar à mulher-criança, então surda para me ouvir, que
tropeçava, caía e prosseguia, Rua abaixo, desprezando os meus rogos. Não me
sentia forte, nem a sua vida, tão-pouco o seu fim. Era o chão percorrido.
Amarin pisava-me para escapar e o fôlego não me permitiu rasteirá-la, contra o
que fora hábito durante anos. Desapareceu, ponto minúsculo, ao dobrar a esquina
do Lote 15. Parasita. Fingidora. Coisa...
«AMARIN!»
Sinto-me feliz quando me deparo com os
azulejos das fachadas da Cidade, nos meus passeios, conduzida pelo piano, em Dó
menor, de Bethoven. Sou-o nesta esplanada, a beber café e a Ler: «Era um dia
claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze.»*
Penso no meu Icke. Estivesse comigo dizia-lhe.
*Citação do livro de George Orwell «Mil
Novecentos e Oitenta e Quatro
Texto #56 a sair para a Rua com o DAR PALAVRAS.
OBRIGADA POR ME LERES.
Publicação original aqui:
http://preguicamagazine.com/2015/03/18/conto-amarin-o-que-faltou/
Agradeço a oportunidade que o querido Paulo Kellerman me deu, ao publicar três dos meus textos («Amor?», «Amarin - o que faltou» e «Check-in») no espaço dinamizado por ele, na Preguiça Magazine.
Trata-se de um grande escritor que merece ser conhecido. Recomendo «Gastar palavras» - Prémio Camilo Castelo Branco de 2005 e «Os Mundos Separados que Partilhamos».
Podem acompanhá-lo, também, aqui:
http://agavetadopaulo.blogspot.pt/2016/05/contagio.html.
Texto #56 a sair para a Rua com o DAR PALAVRAS.
OBRIGADA POR ME LERES.
Publicação original aqui:
http://preguicamagazine.com/2015/03/18/conto-amarin-o-que-faltou/
Agradeço a oportunidade que o querido Paulo Kellerman me deu, ao publicar três dos meus textos («Amor?», «Amarin - o que faltou» e «Check-in») no espaço dinamizado por ele, na Preguiça Magazine.
Trata-se de um grande escritor que merece ser conhecido. Recomendo «Gastar palavras» - Prémio Camilo Castelo Branco de 2005 e «Os Mundos Separados que Partilhamos».
Podem acompanhá-lo, também, aqui:
http://agavetadopaulo.blogspot.pt/2016/05/contagio.html.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
DEZOITO
Está sentada no degrau onde por encosto arranjou uma parede
de azulejos azuis. Quinze homens enfrentam ondas desafiadoras perto do
escritor, do etnógrafo, do outrora presidente do município. A cabeça pende-lhe.
Bonita e antiga. Amo-a na vulnerabilidade. A saliva escorre entre os lábios
entreabertos. A saia queimou-se. Um montículo de cinza frio jaz no seu colo ladeando
o buraco recém-aberto no tecido. Um cigarro mal apagado no chão, ao lado dos
sapatos engraxados a preto, fumega resquícios de um vício libertador. Penduradas
nos seus pensamentos descrições precisas de massas informes. Imagens presas por
molas no estendal laboratório da sua mente. Conheço-a melhor a cada mergulho.
Aperfeiçoa-se na apneia. Ganha robustez na fragilidade resiliente. Aprende
sozinha a arte de perceber a força escondida em cada deficiência sua. Levanta-se,
sorri para a saia danificada, para os pés molhados. Limpa a bochecha com o
pulso. Cheira-o. Detesta o odor da própria saliva, adorando o das pessoas com quem
se deitou. Sente saudades de ter orgasmos e de escrever. Há quanto tempo o
vazio. Principia a marcha incerta como o bicho selvagem recém-parido que se
ergue e, de imediato, para sobreviver se põe a andar, a fugir, a comer. Corre
como respira. Autónomo. Sem progenitora que lhe valha. Sem pai que o proteja. Amor
nenhum além daquele que o agarra à vida. É nascer e partir. Haverá frase mais
curta do que o que medeia o parto e a morte. Virgínia caminha
bamboleante. Para trás louvores a peixeiras e pescadores. Para a frente honras
a homens que defenderam centenas de vidas arriscando a própria. Impede-se de reflectir
sobre a inutilidade da sua existência comparada à relevância dos que fizeram
diferença ao salvarem alguém. Quando muito é a si mesma que salva. Acredita
cumprir-se. Enquanto houver em si o interesse pelas histórias resistirá a
entregar-se. Espero-a onde acaba a terra. Pressa nenhuma.
Passeia com destino definido pelas ruas da minha cidade.
Demora-se na alegria antes de estacar na Rua José Malgueira. Enfrenta
consciente o edifício onde estão muitos dos que conseguiram sentados e outros
tantos falhos, como ela, de pé. Na mesma posição, vê quatro figuras de costas
para quem chega pela Santos Minho. Dois homens e duas mulheres. Um deles carrega
um saco do lado esquerdo. Miúdos correm chilreando inocências a perder. Virgínia
prende o cabelo, inspira profundamente, expande o peito ao limite. Ajeita o
peso da mochila nas costas. Acomoda as dúvidas ao fundo e ao meio.
A angústia incapaz do futuro.
XIX
Ruge.
PROCURO LEITOR
Para navegação séria. Sem amarras. Dou palavras na Rua desde 08 de Março de 2013.
https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/550376868456944
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