segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Semana #36 - «Quando a alma nos morre, interrogamo-nos muitas vezes.» - 02 a 08 de Dezembro de 2013


«Quando a alma nos morre interrogamo-nos muitas vezes.»

Acordo todos os dias depois de dormir uma ou duas horas com este pensamento na cabeça: Sou cansada de viver. Olho para o meu corpo cadavérico enrugado, crente que o meu prazo expirou. Tenho a sensação que viverei, para sempre, nesta infelicidade. Neste vazio dos dias a sucederem-se às noites, impiedosos. Não os distingo. Limito-me a aguardar, vontade nenhuma. Ler entedia-me – os olhos são fracos e é difícil distinguir os vultos esfumados, que para os outros são letras. – o croché não me entretém; ouvir rádio impacienta-me; a televisão não dá programa que preste; dormir todo o dia? Não consigo. Desejo não voltar a acordar. Quero adormecer definitivamente. Quero morrer. - Pronto já disse! - A educação católica não mo permite. Vivo uma “sobrevida”. Sobrevivo. Uma “subvida”. Isto não chega a ser o que considero uma existência. Que desígnios serão os d’Ele? Convicta que me esqueceu. Abro os olhos pela manhã, ainda nem os passarinhos chilreiam lá fora e uma vez acordada, há dor por ainda respirar. Antes apreciava os animais, a natureza. O meu presente é não gostar. Se me perguntassem, como nas entrevistas, Qual a palavra que melhor a define? Responderia: “Nada”. Mas se “nada” fosse, não viria aquela mocinha visitar-me. Às vezes, por maldade, não lhe dirijo palavra. Faço-o à única pessoa que me dedica algum tempo. Não tenho como explicá-lo. Uma urgência em maltratá-la e é tudo. Porquê mais um dia, meu Deus? Não o quero. Dá-o a outro. Escutas-me? Leva-me. Que castigo. Se todos os que amo estão aí e levaram com eles o meu ânimo. Quando era nova tinha as minhas teorias: “Tudo o que nos faz falta está dentro.” Sabia-me forte. A felicidade dependia do meu querer. Arrogante, considerava-me auto-suficiente encarando os outros como a quem está de passagem. Deveria contar comigo. Guiava-me pelos meus instintos. Passou, desde então, tanto tempo. À data não tinha filhos, nem havia conhecido o amor que se pode ter a um parceiro. Talvez diga isto porque cedo o perdi. É possível que o desgaste dos anos nos destruísse. Não sei. Não o pude viver. Extirparam-mos. Abriram-me o peito sem anestesia, puxaram-me o coração e gritaram-lhe: “Acabou tudo! Podes deixar de bater, não tens qualquer utilidade!”

- Boa tarde, estou a falar com a D. Cidália Martins?
- Sim sou eu. Quem fala?
- Está sozinha?
- Sim, o que se passa? 
- Minha senhora estou a ligar-lhe do Hospital de Santa Maria. É importante que cá venha. Peço-lhe que não venha só.
- Está a assustar-me. Vou esperar pelo meu marido e vou para aí. Ele foi buscar os meus filhos à escola…
- É sobre eles que lhe quero falar. Não venha sozinha.

Deixei cair o telefone, caí a seguir. Não concebia cenário aterrador. Quis crer que tudo ficaria bem. Falaria com o senhor da voz angustiada e as coisas acabavam por se compor. Pedi a uma vizinha amiga que me acompanhasse.
- É a D. Cidália Martins?
- Sou. Diga-me o que aconteceu.
- Houve um acidente com o seu marido e os seus filhos.

Pausa curta. O ar acabou-se-me ali. 

- Onde é que eles estão? - Berrei o mais alto que pude, para lhes chegar aos ouvidos. Para que me encontrassem.

- Onde é que estão? João! Ana! Luís! Onde estão?
- Tem de ser corajosa D.Cidália. Faleceram. Ninguém sobreviveu ao acidente. Os ocupantes da outra viatura também tiveram morte imediata.
- Eu...

Sobrevivi. Não sei se o disse, se o pensei. Caí de joelhos num pranto que cessou meses depois. Depois não voltei a chorar, ou a rir, a cantar ou a ter prazer, a sentir o que quer que fosse. Morri sem que o meu corpo me acompanhasse. Tratei do meu internamento neste lar. Não quis ser fardo, ciosa do meu orgulho. Quando fiz setenta anos decidi-o e aqui estou, a definhar. Maldito corpo que não esmorece. Se este organismo estivesse ligado à minha alma defunta, há muito que desistira. Infelizmente não há mal físico de maior, embora dentro irreconhecível. Há uma pessoa com quem costumo conversar: a Teresa. Passou-o também. Percebo-lhe a amargura, o desespero de ter de continuar a viver com uma perda insuportável. A ela permito um vislumbre; consinto que me cheire as entranhas, compreenda quem fui e quem deixei de ser. Aos restantes dura couraça. Antipatia no olhar. Voz ríspida. Aquela miúda ignora o esforço que empreendo para ser repelente e volta. Não lhe passo cartão e lá vem ela teimosa. Enche-me de atenção, doçura na voz. Não desarma. Mesmo nos dias em que sequer lhe dirijo um olhar, fica. Afável. Fala como se me conhecesse, como se eu fosse, até, sua avó. Eu que não cheguei a sê-lo. Que nem pude ver os meus filhos crescerem. Arre! Porque não desistes de mim? 

Desaparece!

(Dedicado a MJ que cito:

“A vida é uma mentira e as verdades que tem são muito duras.” 

Saudades.)

Andreia Azevedo Moreira

Criado em 2007. Revisto em Dezembro de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Semana #35 - «Da(s) escolha(s).» - 25 de Novembro a 1 de Dezembro de 2013


Queres morrer? Morre. De uma vez. Não às prestações. Não evidenciando cada pequena morte. Estou indiferente, agora. Vive, morre. Escolhe. Nada sou à decisão. Duas pessoas. Não uma. Duas vontades. Pára de me arrastar para a tristeza. Sou melancolia que chegue. Não quero a tua. A alegria dá-me trabalho. Todos os dias luto. Por ela também. Por vezes, custa-me tanto e ainda assim a escolho. Se a não queres, não me diz respeito. Uma vida inteira de palhaço, não foi suficiente. Pouco te fiz sorrir. Tenho muito que fazer, hoje. Dedico-me a outras artes. Perdoa-me a desistência. Nota que o fiz muito depois de ti.

(Nada te devo.)

Se quiseres tenho ternura. Atenção. Cuidados, sim. Se escolheres a vida. Demasiado preciosos, para que os reserve para a morte. Se é o fim que procuras, descansa em paz. Não me deito numa lápide prematura, para arrefecer contigo.

Andreia Azevedo Moreira
Criado em Junho de 2012. Revisto em Novembro de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

domingo, 17 de novembro de 2013

Semana #34 - «Uma história sobre migalhas.» - 17 a 24 de Novembro de 2013.



Um homem ia todos os dias ao parque da Vila, depois do trabalho. Levava consigo um saquinho com migalhas que despejava ao seu redor. Sentia prazer que os passarinhos, quando o viam, se agitassem voando para perto dele, para comer os restos de pão. Um dos passarinhos aparecia sempre. Tinha o bico cor de laranja e as penas muito pretas, raiadas aqui e ali de azul-marinho. Certo dia o homem cansou-se de levar o saco, por nenhum motivo em especial. Continuava a sentar-se, diariamente, no mesmo banco, sem nada oferecer. Aquele passarinho já não comia, todavia, alegrava-se quando ele chegava. Fazia-lhe voos rentes aos pés e ali permanecia saltitando trinados. Se quisesse, o homem poderia continuar a mimá-lo, sem perturbação dos seus dias. Escolhia não o fazer. Envaidecia-se com a presença do pássaro. O bicho, que nada entendia dos propósitos dos homens, continuava a cantar para ele, refém da própria liberdade.

Criado por Andreia Azevedo Moreira em 12 e 13 de Novembro de 2013. Revisto em 17/11/2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Micro-conto


Numa esquina se perdeu, numa carruagem se encontrou.

Não se achou feliz para sempre, mas viveu. A memória permitia-lhe reinventar muitos destinos onde poderia, sem dificuldade, chegar a pé. Todos lhe agradavam. Permanecia na linha de partida. Pernas flectidas, pontas dos dedos no chão. Olhos fixos defronte. Para sonhar não necessitava de se mover. Era o atleta mais veloz.

Andreia Azevedo Moreira


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

OBRIGADA

Catarina Azevedo, Hugo Catanho, Ângela Viegas e Ana Rute, graças à vossa partilha esta página ganhou 18 leitores. Muito obrigada por me ajudarem a levar as minhas palavras a mais olhos atentos. Aquele abraço.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

«MATIZES»



Tenho frieiras, não pinto. O sangue nota-se na tela. O óleo fende-se como as mãos. Tomo banho, agora. O necessário: sabonete, champô, roupa limpa. Importante não descuidar o asseio. Quando deixa de ser relevante é porque estou perdido. Quando não posso pintar, o tempo empastela. As horas esticam, o sol demora a pôr-se. Respirar. Dormir. Comer. Dias há em que o dinheiro é curto e não compro material, nem Pancas. Os pincéis apropriados e as tintas certas roubam-me à boca. Alterno entre o alimento de que o corpo precisa e o outro, que nutre o espírito. Equilíbrio precário. As vontades colidem; já roí cabos aos pincéis e provei diluente. Magoa que não me olhem para os quadros. Passam acelerados, desprezando as cores. Há dias, inventei uma. Nunca a vi antes e conheço bem os matizes. Dei-lhe um nome: «Ver». Entre o verde e o vermelho, todavia, nem um nem outro, tão-pouco outra cor qualquer. O meu legado. Divertido pensar que a deixo ao mundo, quando o mundo me despreza. Dava-me jeito vender alguns quadros. Viver da arte. O que me convém, pouco interessa aos demais. Maldito frio. O sangue mais espesso nas veias, cada articulação dói ao mexer. O que me apaixona é retratar a minha Rua. Monocromática. Derramou-se o balde divino de tinta cinzenta. Todos os dias encontro novo detalhe. Acrescento cores. Há diferenças entre o que as coisas são e como as percepciono. Acho que ninguém sabe o que é a verdade. O que nos chega não é o que foi emitido. Interferências minúsculas, inevitáveis. O que me encanta na Rua? Prédios com andares sobejando; veículos mal estacionados; calçada portuguesa coberta de dejectos de cão; escarros humanos; transeuntes que não me encaram e é a Rua mais bonita que conheço. Cheira a tubos de escape, a plátanos, a velocidade. A minha tosse deve ser alérgica. Desconheço se aos pólenes, ao monóxido de carbono, ou à humidade. Pintei o “Alergia”. Ninguém o comprou. Como ninguém me compra os restantes em filas que são expectativa. É um nariz com muco de pulmões infectados. Nojento, admito. Ficou para a minha colecção particular que se compõe de tudo o que já criei. Quando se demoram, observam pelo canto do olho para que não os interpele. O que me permite sobreviver não me dá gozo. Sou especialista em inutilidades. Quem me contrata não necessitaria de mim, fossem outras as circunstâncias.

A primeira vez que o vi, estava debruçado sobre um muro baixo. Não identifiquei o que fazia, apenas as costas curvadas e o corrupio dos movimentos. O autocarro avançou revelando-me pincéis, tubos de tinta, telas, paletas e sacos de onde retirava mais objectos. Interrompia-se para olhar o céu. Ajustava a posição do corpo de acordo com o ângulo em que a luz incidia no plano. A paleta era uma misturada horrorosa. Afigurava-se impossível sair dali tom que prestasse. Encantou­-me o despudor. Quando trabalho, envergonho-me dos olhares de terceiros. O Pedro era generoso na forma como se expunha. Constrangia-me vê-lo nu, no meio da Rua. A pintura não me arrebata. Os quadros pendurados nas paredes de nossa casa foram impulsos da Madalena em exposições. Habituei-me a que me espreitassem das paredes, mas a relação nunca deixou de ser estranheza. Os dele falam comigo e é como se, se pintassem a cada passagem. Flor que de véspera não achei. Mancha no piso que se fez ao cair da noite; candeeiro apagado que se acendeu. Pensava muito nele e um dia interpelei-o. Fez pouco caso da minha presença. Nessa hora de desconsideração observei-o minuciosa. Muito mais do que aos quadros, os quais encarei com a ignorância habitual. Homem de porte altivo, cabelo pelos ombros, risco ao lado. Os olhos castanhos pareciam desfocados. Barba mal aparada, o nariz grande. As roupas eram adequadas à altura do ano, embora parecessem saídas de um baú de roupa dos anos sessenta. A voz maravilhosa, qual locutor de rádio. Seria ouvinte a vida toda daquele timbre. Misturava tintas para usar no quadro com carrinhos coloridos que subiam uma rua de cidade, embora parecessem carros de Fórmula-um. Alguma coisa o distinguia. Perdi-me naquelas peças de lata fictícias, como a personagem da Travers. «A senhora o que deseja?» Arrancou-me à criança de outros tempos. «Estou a ver.» «É o que todos dizem.» Retorquiu. Passou-me um quadro de moldura dourada, com uma flor. Senti-lhe o peso, avaliei os relevos e devolvi-lho. Questionei-o sobre o preço. «35». Continuou as pinceladas, como se não lhe tivesse falado. Estava incrédula. Pagara dez vezes mais, por um de uma finalista de Belas Artes. Como se considerava tão mal? Havia mestria no trabalho. «Não tenho dinheiro comigo.» «A Senhora passe quando quiser.» Intui-lhe o descrédito. Peguei no sobretudo branco que ia deixar à lavandaria com a convicção, que ele não tinha, de regressar.

As pessoas que caminham inspiram-me. Se as não retrato é por vingança. Há os que vão de cara fechada vendo sempre, nos outros, dívida irrecuperável; os que sorriem de auscultadores postos; alguns envergam óculos escuros que cortam lágrimas. O brilho a descer denuncia-os; há crianças a ocultarem o que as assola, com gargalhadas que se sobrepõem; velhos passeiam cães-pessoa que lhes fazem companhia; carteiristas contam dinheiro alheio em esgares que são malícia e ingenuidade; vejo pares de mãos dadas que me irritam, de tão colados levam os lábios; há quem fale consigo, maxilar fundido, longe de mim e do mundo; hoje falei com uma mulher de casaco pendurado nos braços desistentes. Fingiu estar interessada no meu trabalho. Capto-lhes o ânimo e verto-o nos automóveis, nas ervas, nas árvores, nos candeeiros. Instantes da Rua. Cores para o pavimento, para o céu, o betão e as folhas. As janelas abrem-se, ou fecham, consoante o que lhes pressinto. Não é honesta a pilhagem. Sento-me durante horas. Contemplo. Estudo as naturezas díspares. Passou uma mulher, corria aflita. Batiam-lhe os sacos nas pernas. Ela tropeçava e abrandava a marcha, mas não a interrompia. Eram pernas longas e bonitas, as quais desejaria seguir e outro verbo que rima com este. Nessa tarde esbocei o primeiro carro. Rascunho a grafite. As tintas vêm depois. Imaginei pneu largo, borracha grosseira, câmara-de-ar possante para aguentar velocidades. Nasceram jantes luzentes, como imagino que devem ser as dos bons carros. À estrutura qui-la robusta, aspecto de rasgar o ar. Não me furtei ao banal: pintei-o de vermelho, desenhei-lhe o número quatro na porta. O primeiro de dez que criei. Todos trepando para o céu, a desdenharem do asfalto rotineiro, por não gostarem de estradas. Renegam caminhos projectados por terceiros. Popós. Pom! Pom! Entre o quarto e o quinto, descobri a minha cor. Acaso feliz. Não dormi nessa noite com dores no corpo. Ouvia o barulho nocturno do trânsito; dos semáforos que vão do verde ao vermelho; dos bêbados que riem alto e cantam mal. Poderia acabar e legava recordação aos que não tenho. Tive uma mulher-paixão que me esqueceu. Se me esqueceu não existo. Não existo não sou e amante não é palavra. É dor. Agulha de crochet na aorta. Pedregulho que emerge em todos os quadros que pinto. Repare-se: dez viaturas, o céu e o calhau no canto inferior à esquerda. Sinto-lhe a falta. Mesmo do verdete de pedra escorregadia e das arestas em que abri os lanhos que trago na alma. No quadro da flor era cascalho em fundo. Pequenitas pedras pretas a suportá-la. No do plátano carregado de pardais que falam não se vê, de tão enterrado entre raízes. Há rochedos nos olhos do cão gigante que tombou. A dureza está no que faço. Nos sonhos, até, que deviam ser de algodão. Ligo-lhe. Atende e fico a ouvi-la respirar. Assente: inspira, expira. Um “ ‘Tou ” que não é descuido. Dois minutos, o suficiente. O tilintar. Depois o silêncio. Uma porta em fole chia atrás de mim.

«Quantos vendeu?»

«Nenhum.»

«Nenhum?»

«Isso.»

«Fico-lhe com um. Lembra-se no outro dia, disse-lhe que voltava? Quando regressei, não o vi.»

«Devo ter ido tomar banho. Sabe como é… As tintas… Os cheiros…»

«Estou contente por reencontrá-lo. Quero levar um quadro.»

«Porquê?»

 «Agrada-me que se transformem. Já não me parecem os mesmos do outro dia. E mesmo então, enquanto os observava, animados!»

«São os mesmos. Estão aqui os que pintei nos últimos meses. Tinha mais. Roubaram-mos.»

Voltou a pegar no quadro da flor tosca e passou-mo, como se não houvesse opções. O dos carros, por exemplo. Poderia oferecê-lo ao meu sobrinho. Não foi assunto passível de debate. Fosse a flor, o objectivo não era decorar paredes.

«São 35.»

«Porque leva tão pouco?»

«Quer pagar mais?»

«Seria justo. Paguei muito mais, por um de inferior qualidade.»

«Disse-lhe o preço que me parece justo.»

«O que pede mal dá para cobrir as despesas com os materiais...»

Respondeu que não era da minha conta, que pagasse e lhe concedesse a calma necessária. Não foi rude. Comprei-lhe o primeiro quadro. A minha relação tinha começado a morrer e achei curioso que a flor tivesse murchado, depois de pendurada no escritório. Passávamos horas em silêncio. Se havia conversação era sobre logística e quotidiano. Nada sobre o nosso moribundo caso de amor. O sexo era despeito. No final cada uma seguia dormindo, como se o interregno não passasse de fome, ou vontade de urinar. Era devastadora a existência sem beijos de língua. Conseguia quantificar o frio de que o Pedro me falara, éramos já bons amigos: «É o frio não meteorológico.», dizia-me no seu modo de conversar radiofónico.

Alguém me levou um dos sacos. Distraí-me quando comprava uma tosta de queijo e um sumo de pêra, aqui no café ao lado. Tempo bastante para este prejuízo... Se apanho o responsável... Que deslealdade. Desconfio quem possa ter sido. Não vou acusá-lo, sem certezas. Não faço telas que se assemelhem. Trata-se, portanto, de ausência definitiva. Se apanho o ladrão, desfaço-o. 

Ah ah ah ah. Luzes não há e fecham-se as portas. Ninguém me acode. A merda do tinóni dá-me cabo da cabeça! Porra. Já não consigo ouvir o caralho das sirenes. Azul. Branco. Azul. Branco. Os pincéis? Tão macios. Hi hi hi. Amarelos. Ah ah ah ah. Estás a olhar? Queres que te mostre os pincéis menina? Vem cá dar festinhas. Vem… Ai, esticadinhas. As minhas preferidas. Arfa cadela. Arfa! Vais aí toda lavadinha e eu sou um monte de merda, não é? Porque é que atendes Ana? Hã? Atendes porquê, minha puta? Que é que foi? Seus idiotas. Idiotas, ouvem? Estão olhar para onde, caralho? Ai a minha vidinha é tão importante com estes saquinhos, vou para lado nenhum, cheio de pressa, mas tão vazio. Vão ver! Ver? Ah ah ah. Não sabem. Vão mas é todos para um sítio que eu cá sei. Eh eh eh eh. Cala-te Pedro… Isso é só teu. Ninguém descobre. Só tu é que sabes como é que se faz. Como é que misturas as cenas. Chiu… Ó Hélder vou-te à tromba. Ficas sem o dentinho. Vais ver… Ah ah ah. Descansa aí velho. Os sacos? O preto, o de pano, o de supermercado. Sete, oito, treze, vinte, nove e o número suplementar o catorze…

Quando passava perto da Rua espreitava, com esperança de o encontrar a trabalhar. Nunca me esquecia daquele lugar e procurei-o, durante as três semanas em que tardou revê-lo. A flor era húmus. Desaparecera. O que me atormentava porque a relacionava comigo e com o presente sem vontades.

«Porque é que me escolheu o da flor?»

«Desculpe? Conheço-a?»

«Está a brincar? Comprei-lhe um quadro, há um mês. A sua primeira venda, segundo me disse. Já o esqueceu?»

«Ah. Sim. Perdoe-me. Claro que me lembro de si. Não me recordo é dos dias a seguir…»

«Pode dizer-me?»

«O quê?»
«Porquê aquele? Sabe que entretanto desapareceu? Está tudo preto em baixo e avermelhado, onde havia pétalas.»

«Não sei o que lhe dizer. Peguei nesse por gentileza, por ser a primeira a dispor-se a pagar pela minha arte e por ser uma senhora.»

«Como explica a alteração na tela?»

«Na minha memória o quadro permanece como lho entreguei.»

«Não me lixe. Vai dizer-me que não sabe que as suas pinturas se alteram? Essa… Os carros já não parecem na mesma posição. O do número na porta estava mais abaixo, na sequência.»

«Garanto-lhe que uso os melhores materiais. É impressão sua. Tem medido a tensão? Anda a tomar alguma coisa que lhe altere os sentidos?»

«Era o que mais faltava. Não sei qual é o truque, mas está a pôr-me maluca.»

«Acalme-se. O que é que tenho a ver com o que me conta? A senhora armou-se em boazinha apreciadora de pintura e comprou-me um quadro, tendo aceitado, sem argumentar, aquele que lhe passei.»

«Teve intenção de me transmitir alguma coisa.»

«Ser gentil. Uma flor para uma flor. O lugar-comum, não conhece? Não me chateie. Tenho muito que fazer. Vai mudar o tempo e serão horas, se não mesmo dias, sem poder criar. Desapareça.»

«Desculpe. Ando enervada. Deixe-me voltar outro dia, por favor, para conversarmos.»

«Sou pouco amigo de conversas.»

«Toda a gente gosta de conversar.»

«Quem é que se julga para falar por “toda a gente”? Eu não aprecio. Aviso-a que não volte para isso, a não ser que queira comprar.»

«Volto outro dia para conversarmos.»

O Pedro bufou e não respondeu. Deitou-se sobre o cotovelo direito, enquanto a outra mão se concentrava na paisagem urbana.

O estômago não se compadece. Grita-me que vá comer. Não penso noutro assunto. Carrego os sacos enquanto vagueio. Posso querer dar um retoque, ou alterar algum pormenor. Como não lhes dou tempo, nem espaço suficientes para secarem, alguns colam-se ao da frente e o resultado tanto me pode arrebatar, como ser desastroso. Inconcebível é deixá-los para trás. Inclusive aos que não prestam. Não sei como começou. Não encontrava rumo, debrucei-me para carris em inúmeras gares, até que uma tela que me custou 1,5 numa loja de bagatelas, adquirida sem motivo aparente, me devolveu determinação ao acordar. No dia seguinte tinha um objectivo: arranjar os restantes materiais. Não sabia o que usar na tela. A primeira papelaria que encontrei tinha uma caixa de madeira na montra, revelando-me uns Van Gogh coloridos. Para os pincéis solicitei a ajuda do empregado que, não tendo sido simpático, soube ser profissional. Deu-me as dicas essenciais. Recomendou-me bibliografia que nunca adquiri. Quando tinha tudo o que precisava para pintar, deparei-me com novas dificuldades: como e o que pintar? O “como” era aterrador. Iria desperdiçar material e saber-me incapaz para criar algo que prestasse. Passei a primeira manhã imóvel, com o material espalhado à minha frente, encandeado de medo. Olhava para as mãos desconhecendo a qual recorrer. Avaliei os pincéis, acariciei-os, inspirei o óleo de linho… Como estaria aquela paleta intocada horas mais tarde? Ensaiei pinceladas. Nada demovia o pavor. A noite caiu e não produzi um risco. Deitei-me frustrado, enraivecido com a cobardia. Haveria de conseguir passar as ideias que tinha para aquelas superfícies, que me aguardavam intocadas. Havia que correr riscos. Para chegar a qualquer resultado tinha de me aventurar a fazer asneiras, mesmo que significasse não poder alimentar-me, não tomar banho, nem arranjar Pancas. Estava disposto a passar por essas dificuldades. A pintura desviara-me da queda. Conservei a primeira tela. Acompanhar-me-á como troféu da evolução. Era grosseiro, inexperiente, ingénuo. Ridículo. Amálgama de cores sem sentido. Não me envergonha. Quando somos pequenos não sabemos ler, nem escrever. Ensinam-nos as vogais, as consoantes e a juntá-las. Orientam-nos pelos sons, pelos significados e eis que um dia há um mundo novo que se nos oferece pelas palavras. Foi o que vivi com a pintura, Universo ao qual aprendi sozinho a juntar cor, símbolos, movimento. Lugares em que me perco. Quando trabalho, evado-me. Gosto de lhe chamar liberdade.  

«Olá. Como está? Tem pintado?»

Não obtive resposta. Tentei a conversa mas não me deu saída. Sentei-me perto dele a observá-lo. Estava a ser intrusiva. Fosse comigo e já teria ripostado, ou virado costas, mas o tratamento que ele me aplicava era pior. Agia como se eu não estivesse ali. Era a sua única cliente, como se dava ao luxo de me destratar? Assim estivemos mais de um par de horas. Dedicava-se a um desenho indefinido. Não arredei pé. Estava encantada. Não tinha vontade de voltar para casa e também por isso me demorava, como podia. Muito infeliz. O Pedro juntava tinta, escurecia o que me pareciam pedras, enquanto eu chorava, lamentando o que não dizia à Madalena. Partilhava com aquele estranho o que não confidenciava aos meus amigos mais queridos. Dei por mim, um fim de tarde, com vontade de o agarrar. Há anos que não estava com um homem. À medida que desabafava, maior a vontade de lhe tirar a roupa, encostá-lo à porta daquele prédio e usá-lo. Antes da Mada mudava de namorado todos os meses. Desacerto que não estava relacionado com a maneira de ser deles, ou de me amarem. Ao conhecê-la melhor entendi, que até então me escapara o Amor. O presente era outro, sentia desnorte inenarrável e aquela pessoa tinha vindo reavivar todas as dúvidas que me atormentavam nos últimos meses. «Maldita flor.» Ao entrar em casa vi que a Madalena estava a ler. Não ergueu a cabeça. Uns tempos antes não só se teria levantado, como me teria enchido de beijos. Foi uma sorte o esforço com que ergueu o sobrolho e disse: «Então?»

«Então. Ao que chegámos.»

Contei-lhe a origem do quadro apesar do desinteresse, que me agrediu. Falei-lhe do artista e da vontade que tive, depois de passar tanto tempo com ele. Limitou-se a encolher os ombros e a esclarecer que éramos livres. Não estava preocupada. Ou porque me achasse incapaz do desvario, ou porque se tratava de assunto que já não queria seu. A angústia alimentava-se-me da garganta. A almofada não me serenava. A situação tornava-se incomportável. Não conseguia agir. Parecia-me injusto que ela não o fizesse já que partira dela o afastamento. Dia 13 de Fevereiro, Sexta-feira, chegou a casa diferente. Não me deu explicações, não mentiu, recusou-se a dizer-me o que se passava apesar das súplicas que multipliquei pelos dias e permanecemos estranhas, enquanto o permiti. Era doloroso. Menos, no entanto, que um afastamento físico definitivo. Talvez se lhe desse espaço e tempo voltasse a si. A nós. Não aconteceu. A minha auto-estima envenenava-se de questões, ciúme e temores. A voz nunca firme. Interpelava-a com medo, como se qualquer atitude pudesse despoletar a sua partida, a qual me julgava incapaz para suportar. Qual das duas pior. Ela no seu silêncio egoísta, eu vitimizando-me inerte. Fiz nada, para tentar esclarecer a questão. A maioria busca o motivo. Revista bolsos, lê mensagens, fareja essências. Não fui maioria. Propunha-me sobreviver à crueza daquela indiferença, esperando que o pesadelo acabasse por si. Saía para o emprego, ao fim do dia procurava o Pedro, adiando o regresso para cada vez mais tarde. Impunha limite ao masoquismo, enquanto tentava curar o desamor em que voluntariamente me enterrara. Inúmeros solilóquios depois, já perdida a esperança no retorno, o Pedro interveio.

«Não sou exemplo. Também vivo das migalhas da atenção alheia. Mas ouvindo-a percebo que isso que vive é solidão maior do que a minha. Porque não vira costas?»

«Não consigo. Amo-a. Não concebo estar longe.»

«Não sente falta de ar? A angústia mata. Um momento apenas e esse nó na garganta passa-lhe para o coração, depois para as mãos, ou para os pés e quando der por si está a bater com um cano frio no céu-da-boca, ou a atravessar fora da passadeira numa rua movimentada. Ninguém lhe merece isso. Embora não seja exemplo, tenho descoberto mais em mim, só, que nos anos todos em que me alimentei dos outros. Eis o que faz. Põe nos ombros da sua companheira a responsabilidade pelo seu bem-estar. Não há fardo maior, ou injustiça, para alguém que afirmamos amar. Ela já não lhe pode dar amor. O que pretende? Piedade? Conseguirá viver disso? Não desista do sentimento maior. Tenha juízo. Pegue nos seus haveres e faça-se à vida.»

A sua entoação desobscureceu-me as ilusões e o facto de estar a apagar dias do calendário. Quis comprar-lhe outra obra, em jeito de agradecimento. Não consentiu.

«Volte noutro dia. Hoje não vendo. Fique-se com o que lhe disse se lhe servir, ou livre-se das minhas palavras, se conseguir. Noutro dia traga 35. Não alterarei o valor.»

Nessa noite não aguardei que levantasse os olhos do que estava a fazer, pois não era importante que participasse do meu acto. Ela que se envergonhasse da hipocrisia que lhe servia de pele. Para mim chegara ao fim o domínio. O amor não pode saber a grades, nem a pânico. Há muito que o que sentia por ela, era de índole diferente. A segurança com que me atacava, há meses, deu lugar a desconcertante pranto. Outrora seria a reacção desejada. Naquela hora constrangia-me a falta de carácter. Destratara-me; irritava-a a carência com que a abordava; o meu odor nauseava-a; o sexo comigo dava-lhe sono e à data:

«Meu amor para aqui. Não nos precipitemos para ali. Tens outra pessoa?»

 Vontade de rir.

«Não, estúpida. Tens tu.» Quis dizer.

«Percebi que não é relevante que não gostes de mim, desde que eu goste.»

Ela:

«Não te contei para não te magoar. Quis evitar precipitações.»

Agradeci-lhe, irónica, o altruísmo e os dias estupendos passados sob a sua clemência.

«Vai-te foder. Acabamos aqui.»

Arrumei o pouco que tinha levado para aquela casa e no próprio dia parti.

«Vais para onde? Não leves tudo. Acalma-te.»

Não estava nervosa.

O cheiro nas mãos massacra. Todas as noites me limpo, como consigo, da criação do dia. Seria difícil a alguém privar comigo. Aquela mulher não se importa. A cada encontro se afoita mais. Incomoda-me tanta proximidade. Há uns dias tocou-me no cabelo. Gesto desagradável. Repeli-a com brusquidão e não o repetiu.

Pousei-lhe a mão no pescoço. Colocou a sua por cima, agarrou-me o indicador acariciando-o e devolveu-ma cuidadosamente ao colo. Prosseguiu pintando, como que ignorante quanto ao que sucedera. Era-me benéfica a sua presença. Perto dele o silêncio não era vazio que tivesse de preencher. Dava-me um grande gozo pensar, que as pessoas da minha vida desconheciam a importância daquele homem em mim. Aluguei uma casa pequena, por mobilar, na cidade. Afastei-me dos arredores e das recordações. Todos os quinze dias comprava um quadro e rapidamente as paredes brancas deram lugar a mosaico criativo por Pedro H.L. Períodos de tempo houve em que desapareceu. Não havia maneira de o localizar. Quando o reencontrava alegava, amiúde, não se recordar dos dias anteriores e que tinha andado a colorir outras paragens. Falso. A cada desaparecimento a colecção mantinha-se inalterada. Apenas nos tempos em que o seu paradeiro me era conhecido novos quadros se revelavam. Não fazia questão que ele percebesse que não acreditava nas suas mentiras. Não temos de saber tudo sobre quem gostamos. Aprendera-o com ele.

«Porque não usas o dinheiro também em roupa?»

«A que tenho cumpre a função.»

«Tens-te alimentado?»

«Pareço-te magro?»

Preocupações destas iam minando o meu pensamento, não tão descomprometido quanto antes. Não era retribuída na domesticidade.

«Queres ficar lá em casa?»

«Não.»

A posse. Quando se dá por ela já deu cabo da relação mais sólida, quanto mais uma construída de encontros fortuitos no meio da Rua. Nunca embarcou no entusiasmo.

Paralelepípedos. Justos na sua irregularidade. Partículas que brilham. Uma formiga segue entre beatas, com migalhas nas tenazes. Perco-a perto do olho. Passo a mão pelo frio da calçada. Encosto mais o ouvido e sinto o tremor que o trânsito causa. A perna esquerda ergue-se para seguir caminho sozinha. Não gosta do frio. Do desconsolo. A cara colou-se à pedra que a morde. A saliva não é minha, extravasa em poça de fuga ao que sou. O fôlego esparso mas teimoso. Não desisti. Imponderável fê-lo por mim. Lamento. Havia, ainda,

O que o afastou. Dedicava-me a tentar resolver a sua situação profissional. Persegui várias pessoas para que me concedessem reuniões e quando consegui uma exposição com destaque e direito a vendas pelo preço justo, desapareceu. Fez cinco anos. Procuro-o, ainda. O talento dele foi reconhecido, porque o levei aos entendidos, sem o levar de facto. Tivessem-no visto e jamais teriam credibilizado o meu pedido. Entendo-o, não sem revolta. A minha vida melhorou depois dele. Os meus sentimentos ficaram como as paredes alegres lá de casa e os olhos, com que me dou ao mundo, vêem melhor. Recordo um homem agreste, ressentido, mentiroso, que fedia e me ensinou a ver a beleza, mesmo quando a paisagem é negrume. Tenho saudades dele. Lamento nunca ter tido o desprendimento de lhe beijar os olhos desfocados.

- Que cheiro.

- ‘Bora. Estamos atrasados.

- Espera. Está aqui alguém.

- São sacos. Depois da hora não nos deixam entrar.

- Cala-te. Não estás a ver? Pés. Cabelo. Boa noite. O senhor está bem? Caiu?

- Deixa-o estar, pá. Deve estar com a bezana…

- Ena… Tantos quadros. Repara. Aqueles olhos… «À Isabel»…

- A peça começa daqui a cinco minutos. Vamos.

- Não será melhor chamarmos a polícia? Se está morto?

- Oh. Pancas, mas é. Olha.

- Ok. Vamos mas não corras! Os saltos enfiam-se no passeio.



(Gargalhadas.)

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Abril de 2012. 

OBRIGADA POR ME LERES.

Foi o 33º texto a sair para a rua, em 04-11-2013 com o título "Cada homem é o que quer" entretanto alterado.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013




«A rampa» (Semana #32 / 28 de Outubro a 3 de Novembro de 2013)



Desceu a rampa. Era o fim de um dia longo de trabalho. Distraída não percebeu, logo, quem a esperava. Alguém há muito ido. Estacou. Sorriu. Esqueceu-se de tudo, correu-lhe para os braços. A palavra perdão não fazia sentido. Já não havia dor. Aninhou-se-lhe no peito. Repetiu: «Que saudade.» Os braços acolheram-na protectores, quentes, firmes. Deixou-se estar. Sentia-se tão cansada. Era bom aquele conforto. Depois estremeceu, sentiu uma mão a puxar-lhe o braço e ouviu, longe, uma voz anónima. Adormecera no comboio.

(Criado em Março de 2009. Revisto em Outubro de 2013.)

Andreia Azevedo Moreira

OBRIGADA POR ME LERES.

sábado, 19 de outubro de 2013

«NATHANIEL»

Nathaniel nasceu com uma enfermidade. A sua coluna apresentava curvatura acentuada. O queixo fundiu-se com o externo. Nunca fitou alguém. Os pais tocavam-lhe receosos. Não ousavam erguê-lo para lhe conhecer o rosto. Se Deus o criara assim, fora a forma que encontrara de os proteger da fealdade. Não havia, neles, repulsa. Amavam o filho. Sofriam por terem feito nascer, quem nunca seria feliz. Como existir com a cara escondida? Eram os anos quarenta do século vinte e os médicos quando o observavam – Os diversos especialistas que os pais procuraram, antes de desistirem. – Colocavam o mesmo ar grave e meneando a cabeça, preparavam-nos para o irremediável. Resignaram-se. Não tiveram mais filhos dedicando-se, exclusivamente, ao filho informe. Ele era uma criança alegre. Percebia-se pelas gargalhadas; pela expansividade dos gestos; pelos saltos de contentamento; pela voz doce e optimista. Não tinha tempo para birras. Dócil, solícito e curioso. Embora nunca tenham tido certezas quanto aos pensamentos daquele rapazinho caracol, apaziguavam-se com a serenidade que lhes transmitia. A mãe chorava assumindo a derrota, enquanto espreitava o filho, de longe. Richard aproximava-se, abraçava-a com força e terno dizia-lhe – Inspirando o perfume do seu cabelo, junto à orelha. – Não sofras Sylvia. Ele desconhece a desgraça do próprio corpo. O coração é grande e a cabeça livre. Somos mais do que o físico. O nosso menino é belo e feliz. Sylvia encolhia os ombros, mastigava o desgosto que lhe subira pela garganta e engolia-o de novo. O quotidiano não se compadecia. Optaram por não o inscrever na escola. Queriam poupá-lo à crueldade alheia. Inventaram jogos e brincadeiras com que o ensinaram a ler e a escrever. A instrução de ambos era bastante para que Nathan aprendesse a somar, subtrair, dividir e multiplicar. Aprendeu, também, a resolver equações. Richard e Sylvia eram pessoas cultas e de posses. Nada lhe faltou, enquanto crescia. O passatempo preferido dos dois era quando ele levava o pai, pela mão, até à biblioteca que possuíam em casa e lhe pedia um livro, para essa semana. O que melhor descrevesse determinado sentimento.

“O que é a amizade paizinho?”
“Só a dor nos faz chorar?”
“Que quer dizer solidão?”
“Quando poderei afirmar que sou livre?”
“Pai, quero ler o amor.”

Cada livro uma possibilidade, para as questões que colocara. A leitura era o seu modo de chegar aos sentimentos e cura para o peito oprimido. Decorreram duas décadas em que o passar do tempo foi uma carícia. Não se rebelava com a condição de homem enrolado sobre si. Um dia caiu-lhe o céu, quando os pais, ao regressarem a casa, vindos da mercearia do fundo da rua, foram atingidos por uma placa de mármore que se soltou de um prédio. A polícia informou-o: «Ardeu-te a vida rapaz». Veio-lhe à memória o livro que lera, ainda menino, sobre a morte; os que lhe denunciaram o que era a revolta, ou a dor e compreendeu de que lhe haviam falado os livros medo e solidão. Sentiu-se, pela primeira vez, deformado. Aquela efemeridade dava-lhe falta de ar. Fechou os olhos e deixou-se ficar na escuridão. Não tardou até que aparecessem, como as baratas das fendas das construções, os familiares. Pessoas que lhe chamavam entre dentes “o monstro”, ou “a coisa”, nas reuniões de família. Gente que se ria quando passava e que na presença dos pais: «Anda bem o menino?» Nathan conhecia as pessoas pela voz e adivinhava-lhes, sem dificuldade, a natureza no timbre, fossem quais fossem as palavras proferidas. As pessoas esqueciam-se que Nathan não era surdo, nem estúpido. Invejavam o amor dos pais e o nascimento dele era o presente envenenado que os excitava. Castigo por fintarem a vida que se esperava miserável, para todos, ao terem encontrado nos braços um do outro, um amor verdadeiro. Nunca tinham auxiliado Richard e Sylvia. Apareciam agora.

- Nojentos! - Abafava o grito no estômago.

Chorava, silencioso, para que não lhe adivinhassem o desânimo. Recordou a história sobre o “Perdão”. Pensou no que os pais quereriam, mas deixou-lhes, sem luta, a moradia imprestável. O corpo nascera dobrado. O espírito era recto, como o atestaria um prumo para aferir almas, existisse um. Passou a viver na rua. Quem o avistava revelava-se incapaz de ultrapassar a compaixão que aquela posição de presumida infelicidade impunha. Eram mais as pessoas que desviavam o olhar incomodadas, enquanto lhe estendiam um dólar, do que as que o encaravam no mesmo gesto. Como se o ser incapaz de as olhar, se reflectisse. Confesso que me aconteceu o mesmo. Era dolorosa a sua presença. Sintomas físicos da repulsa. Envergonhava-me desses sentimentos, culpado de me achar perfeito. Considerava que a minha compleição era uma injustiça para com aquele desgraçado. Alegrava-me que ele não nos pudesse observar. Aos normais. Era um consolo que não pudesse conceber a que sabe a inveja. O que desconhecia, à data, é que ele era abençoado. Poupado aos nossos olhares, podia manter-se puro. Não se enchia de rancor. A beleza conheceu-a pelos livros, que não só lhe descreveram, em pormenor, o que não podia admirar, – O mar, as montanhas, ou o céu rendilhado de luz. – como lhe permitiram experimentar inúmeras realidades. Recordo o dia em que, pela primeira vez, lhe falei. Nathan nunca se sentou aguardando a esmola alheia. Vagueava, pelos quarteirões, com um saco de plástico em cada mão. Andrajoso, sujo, mal-cheiroso, guiava-se pelos passos das pessoas, a seu lado, para atravessar em segurança. Nunca se afastava demasiado daquela que elegera a sua casa: a Biblioteca Pública de Nova Iorque. Não o deixavam permanecer durante muito tempo. O segurança convidava-o a sair, após as inúmeras queixas das pessoas que não toleravam o confrontado com a sua imagem. O odor desagradável não era o que mais as incomodava. Era como se temessem que o mal de que Nathan padecia, as atingisse, qual doença contagiosa. Puro instinto. As pessoas não o faziam com malícia. Uma vez expulso, dirigia-se ao Parque Bryant onde se entretinha com os pardais que saltitavam, disputando migalhas. No dia em que o abordei, estava a dobrar a esquina da Rua 40, com a Sexta Avenida. Falei-lhe incerto que me ouvisse, ou compreendesse. Receava obter resposta que correspondesse à sua terrível aparência. Sentia-me incapaz de continuar a ignorá-lo. Já não era suficiente o dinheiro que lhe estendera em dias que precederam esse, para me calar a consciência. Não era para que se alimentasse, que lhe dava alguns dólares. Tentava, sim, saciar a minha voz de dentro. Que poderia fazer por aquele homem? A que propósito me sentia responsável por ele? Naquele dia todas as perguntas foram gritos a atormentar-me. Sem que pudesse, ou quisesse evitá-lo, pousei-lhe a mão no ombro, naquela esquina da cidade, impedindo-o de prosseguir e disse-lhe:

- Chamo-me Sammuel.

Estacou, rodou sobre os calcanhares e pousando os sacos no chão, respondeu-me numa voz bela, como quem está acostumado com a amabilidade das pessoas:

- Olá Sammuel. Prazer. Sou o Nathaniel. Podes tratar-me por Nathan. Aproveito que me falaste para te pedir um favor. Pode ser?
Surpreendido com a familiaridade com que me tratou disse-lhe que sim agitando a cabeça, esquecendo que ele não me podia ver o gesto. Respondi depois, numa voz sumida:

- Diz Nathan. É um prazer conhecer-te. Farei o que puder.

- Preciso que me tragas um livro que fale sobre o desprezo. Tentei pedi-lo ali dentro. – Levantou o braço para a biblioteca. – Mandaram-me sair antes de ter oportunidade de explicar ao que ia.

Disse-me que se entretinha a ler os mais variados documentos de que as pessoas se esqueciam nas mesas, ou no relvado, do Parque Bryant. Era muito raro esquecerem-se de livros. Sentia-lhes a falta. Trouxera um da casa dos pais. Transportava-o junto ao peito. O frio não lhe chegaria aos pulmões. Comprometi-me a comparecer no dia seguinte, pelas seis da tarde, na primeira mesa do parque, ou junto dela, quando se entra pela Rua 42.

Nathan não me incumbira de tarefa fácil. Era um leitor inconstante e não culto, quanto bastasse, para descortinar o melhor título para lhe falar sobre “desprezo”. Graças a ele travei amizade com Conrad, um bibliotecário carrancudo, que simpatizou com a minha causa. Foram anos em que a nossa amizade se consolidou. Três improváveis e leais amigos. Aprendemos muito uns com os outros. Trazíamos o melhor de nós para essa relação incorruptível. Do pedido inicial de Nathan nasciam interpretações surpreendentes e díspares, para um mesmo livro. Cada um dos três o lia e o mote inicial desencadeava debates de muitas horas numa das mesas de latão ou, se fazia calor, no relvado do parque. Cada um explanava o seu modo de o perceber, sentir e o que havia aprendido. A polémica instalava-se sempre, por sermos os três tão diferentes. Aconteceu, por exemplo, quando Nathan nos pediu um livro “vingança”. A minha família, bem como a de Conrad, não ousava questionar a amizade. Viram Nathan algumas vezes. Encolhiam os ombros. Enojadas e contrafeitas. Não o verbalizavam o que me deixava satisfeito. Não fazia tenção de deixar de o ver. Enfrentaria quem me tentasse dissuadir desta relação. Conrad também não toleraria a intromissão. Não nos questionávamos como seria a vida de Nathan longe de nós, ou do parque Bryant, porque ele assim nos exigira. Aprendemos a calar o “Onde dorme?”; “O que terá para comer?”; “O que será dele esta noite?”; que nos atemorizavam em cada despedida.

Um dia em que Conrad não pôde comparecer, ousei pedir que me deixasse espreitar-lhe o rosto. Nathan soltou uma gargalhada e indagou irónico:

- Para que queres semelhante privilégio? Nem eu alguma vez o vi e olha que não é por isso que me conheço pior, do que te conheces. 

- Tens razão, mas gostava de te encarar. É nos olhos que nos mora a alma. Dizem. Um olhar recíproco. Que me dizes?

- Não me oponho ao pedido de um amigo. Confio que tenha a minha cara o aspecto que tiver, serás capaz de ver o que os meus olhos te dirão. Tenho medo de te perder; a tua reacção poderá afastar-nos. Força, diz-me lá como é que sou.

Flecti as pernas, apoiei-me nos seus joelhos e espreitei. Arrependo-me de lho ter pedido. Depois desse dia desapareceu. Procurei-o pelas ruas da cidade, durante meses, sem que houvesse rasto da sua passagem. Ninguém sabia dele. Lamentei, durante muito tempo, a minha atitude. Chorei outro tanto, até que se me acabaram as lágrimas. Não o encontrei. Nathan era belo. Feições perfeitas, olhos iluminados, inocentes e o seu sorriso terno e envolvente. Ri-me. Abracei-o. Contei-lhe com pormenor a cor dos olhos, como se delineavam os lábios, a cor da sua boca e dos dentes. Falei-lhe do seu nariz perfeito. Enterneci-me com as covinhas que lhe pontuavam as bochechas e com as rugas de expressão que ladeavam o seu olhar compreensão. Entusiasmado desenhei oralmente o seu arrebatador retrato. Quando me calei extenuado de tamanha comoção ele ajudou-me a levantar, deu-me outro abraço demorado e disse-me “Obrigado”. Partiu de seguida e foi a última vez que o vi. Conrad não me perdoou a imprudência. Acusou-me de egoísmo e futilidade. Perdi a amizade que tínhamos. Agi mal. Não me perdoo. Sinto-lhes a falta todos os dias. Recordo-os cada vez que pego num livro.

Andreia Azevedo Moreira
Saiu pela primeira vez à Rua em 19 de Outubro de 2013

OBRIGADA POR ME LERES.


https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/222986127862688

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

Não escrevo para a gaveta. 

Quero ser lida. (Em papel.) 

Todas as semanas distribuo um texto diferente por onde passo, 

na esperança que tu Leitor mo encontres. 

Nesta página vou deixando o rasto dos sítios onde os semeei. 

Aguardo resposta, qual náufrago lançando mensagem em garrafa ao oceano. 

Obrigada a todos quantos respondam ao apelo.

https://www.facebook.com/Andreia.Azevedo.Moreira/posts/220675854760382

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

«Dança(s) da solidão.»


Crer é querer. Ver o que se consegue, não o que é. A emancipação dos vícios amarga. Sonhava? Mentiras. Ao pequeno-almoço, ao jantar, aquele copo de leite antes do sono. Tinha sede, desconhecendo de quê. Sou sede, ainda. A mão firme, ao centro. Banhei-me em ilusões e dessas não escapei limpa. Tenho uma alma pesada. Bacia e cadência. O coração lesto, descompassado e aldrabão. Ócio, agora. O que fiz com tanto tempo? Que olhos são estes que me mentem? Ouvidos que entregam discursos deturpados. Mente que não engana. É sujeito e verbo. Eu ignara, crédula. Saboreio o doce das ficções, da loucura. Luto com as superfícies. Cegueira boa e perniciosa. Dança da solidão. É tarde? Nunca o é, quando se trata da Liberdade.

Andreia Azevedo Moreira

Criado em Junho de 2012. Revisto em Outubro de 2013.

OBRIGADA POR ME LERES.

Texto 30 a sair para a Rua.