segunda-feira, 20 de novembro de 2017

fotografar palavras: # 920

fotografar palavras: # 920: "Firmei com a morte um pacto de liberdade."



Texto: Andreia Azevedo Moreira



Foto: Maria João Alves



Projecto: Paulo Kellerman

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Ando desde o dia em que recebi o telefonema da Ana para escrever sobre a Rita, cobarde para fazê-lo, porque ao firmar as palavras guardadas assumirei, enfim, o que gostaria que fosse mentira. Uma tremenda partida-maldade que pudesse ter esclarecimento. Decorreram estes dias e ela não regressou. Defronte ao parque em que nos juntámos para lhe prestar tributo, no dia seguinte à despedida derradeira, alinhavo frases que me ajudem a compreender a injustiça. Segmentos tortos. Feios. Tristes. Sem o brilho que ela mereceria neste esforço inglório para fixá-la. Como reter uma pessoa em palavras. Principalmente, uma mulher como ela que iluminava, apesar das provações. «Admiro-te.» Disse-lho algumas vezes. Ela ria-se, apoucando o meu fascínio, como se fosse simples o que fazia, o quanto lutava. Era aquele tipo de pessoa que de uma gota no fundo de um copo agradecia a bênção de a ter provado, saciava a sede por maior que fosse e sorria. Sorria inteira, mas mais com os olhos. É como a recordo. Rosto rasgado em riso, energia inesgotável, olhar vívido onde nunca li queixume. Que desígnio havia em levá-la. Lamento não crer em nada maior do que a própria vida, enquanto é e a Rita era enorme e tão necessária. Cá. Todos os dias recordo que a conheci, privei com ela e que a oportunidade de me inspirar com o seu exemplo mora, agora, apenas na memória. Passaram duas dezenas de dias e permaneço incrédula. Não faz sentido esta partida prematura. Penso no João e na Isabel que não mereciam ter de lidar com a dor mais funda. Intransmissível. Com uma saudade que será, enquanto viverem. Penso no José a quem o mundo desabou numa curva. Na família toda. Nos amigos íntimos. Se julgamos que isto passa a correr desenganemo-nos. O grave não é a rapidez com que corre, é deixar-se de ser de um segundo para o seguinte. Somos um sopro. A vida continua, sim, muito mais pobre e urgente.

Até já, Rita.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Rita

Revejo repetidamente o teu sorriso imenso e a força desmedida com que te atiravas à vida. Admiro-te. Disse-to muitas vezes. Descansa em paz. Teremos saudades da tua energia. 

Até já, miúda iluminada.

(Ainda não acredito que morreste.)

https://www.youtube.com/watch?v=i1GmxMTwUgs

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A GORDA de Isabela Figueiredo


Disse-me, certa vez, uma amiga: «Não te encares como a uma coisa estragada». Sou Maria Luísa. Vejo-me a custo no espelho do elevador, único que não posso evitar, com ela. Como ela. Estragadas, indignas da admiração alheia, do amor reservado apenas aos eleitos. Não obstante, eis a maior fé de todas, a alimentada a amor, a crença nos outros, ainda que nos tenham ensinado a desconfiar. Confiança em alguém que nos desse a mão nisto de «sermos quem viemos ser». Esta voz, poderosíssima, arrastou-me pelos cabelos. Andei de rojo enquanto não se calou. Dores no corpo, na alma, no passado. Fui visita de sua casa e, tal como recordo à minha mãe com os nossos convidados, apresentou-me às divisões da casa da margem-sul, herdada dos seus pais. Também ela viva, pulsante, guardadora de memórias, de outras vozes, outros corpos. O percurso asfixiante entre paredes é, em simultâneo, rumo à liberdade. É essencial essa libertação das recordações doloridas, do jugo dos julgamentos alheios, das vidas que os outros aceitaram e tentaram impingir, para que se torne habitável pela mulher cada vez mais próxima de si mesma. Voltei atrás no percurso. Por graça, procurei as relações entre as divisões e as narrativas. A porta de entrada, o presente. O culminar de um percurso longo. Uma decisão definitiva. O quarto de solteira contou-me sobre David, um amor desmedido, incontornável e ainda sobre Tony, uma amizade profundamente desigual que só se aceita a termo incerto. Na sala de estar senti o peso das gerações anteriores, dos seus dogmas, padecimentos, da castração, dos desencontros inevitáveis entre mentes que se limitaram e esta, que anseia voar. Revivem-se as histórias dos pais no quarto que foi seu. A fome, monstro de muitas faces, na cozinha. A fome não se cala, toma conta de tudo, tem o tamanho de todas as ausências que nos consomem. Na sala de jantar, divisão fechada em tantas casas, aguardando gente que não chega, deparei-me com a generosidade. Comovente. Grandiosa. Mas também com a violência, a imposição, as mentiras. Na casa de banho, a vergonha. O desacerto. A maternidade. A crueldade dos paradigmas. Um livro feito de contradições tal como o somos. Contrapõe diferentes modos de olhar a existência, ainda que quem no-lo relate seja sempre Maria Luísa. Claro está que isto é só um lusco-fusco. Rico em pessoas, vivências, em pensamento, este é um romance imperdível. Encontro-me no Hall das paredes que me engoliram durante seis dias. Antevejo para Maria Luísa o gozo da liberdade por que lutou durante anos e também as alegrias que merece. Mulher admirável. Talvez tenha saído de casa sem que me desse conta. Foi-se à vida. É, enfim, quem veio ser. Continuo cativa do que li e cheia de esperança.


Obrigada, Isabela Figueiredo.
P.S. Comprado na A-das-Artes, Livraria de Sines. Sem portes de envio. Pela mão do Livreiro Joaquim Gonçalves.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

CEM ANOS DE SOLIDÃO



Viver para contá-la é o título de um romance dele. Viver para lê-los, o nome que daria a autobiografia que um dia escrevesse. Haja vida para tantos imperdíveis. Sou mais feliz por não ter expirado antes de chegar ao «Cem anos de solidão». Arrebatamento incessante desde o célebre parágrafo primeiro ao último, não menos memorável. As nossas vidas todas dentro de uma obra gigante que nos devora e não o contrário. O leitor tem de parar para pensar, para  recuperar o fôlego, se quiser ter mãos, olhos, alma, que alcancem todas as camadas, todas as subtilezas das personagens (Macondo incluída), da saga, da linguagem ímpar de García Márquez. O incrível ao alcance do coração, a vergar até a mente mais racional. Tapetes que voam, o sangue filial que previne a mãe da própria morte, uma mulher que ascende ao céu. Acredita-se em tudo, sem hesitações, enlevo puro. Eis a fé que move montanhas cá dentro, eis o que me tem resgatado (além dos Pearl Jam) ao desconforto. Dizia o Poeta que todas as cartas de amor são ridículas. Perco-me na segunda versão desta que escrevo, porque não quis falhar a tentativa de falar sobre o meu, imenso, de ora em diante. Se com estas palavras trôpegas o levar a mais uma pessoa, valeu a pena expor-me. O tempo é implacável. O amor devastação. A solidão mortal. Espantar-me-ei, sempre, ante o imenso poder que a Literatura tem de iluminar as trevas.



Obrigada, Gabriel García Márquez.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Saio viva de uma avalanche. Durante a semana que passou vivi oprimida, incapaz de me libertar do jugo de um livro, em asfixia. Há muito que não acontecia, de forma tão intensa, entrar no Universo de um Narrador. «Ensaio sobre a cegueira» de José Saramago, ao qual chego tarde, para não variar o histórico dos meus desacertos, é o grito de que a Humanidade necessitaria para acordar, que é como quem diz “para ver”, fosse possível. Apocalipse não é o que viria, fôssemos atingidos pelo mal branco. É agora, às claras, sob o céu azul brilhante e não em trevas inimagináveis. A visão (e mais do que essa, o modo de ver) e a inteligência seriam o que nos separa dos restantes animais. Todavia, a história da Humanidade aí está para nos contrariar a presunção. Agimos, amiúde, animalescos. Defendendo território, eliminando os mais fracos, ignorando ética e empatia. Perde-se a conta às vezes em que se assiste a pessoas a focinharem riqueza e poder. Há um fio de luz, de lucidez, a separar-nos da irracionalidade. Enquanto houver uma pessoa que mantenha um olhar Humano, empático, tentando ser justo, sobre os pares, haverá esperança, mesmo que defronte um mundo cego. Este Escritor ensina a tê-la, enquanto demonstra porque não deveríamos. Impossível sair ileso desta escrita prodigiosa.

195 BPM

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

UMA PARTE ERRADA DE MIM - PAULO M. MORAIS

Escrevo estas linhas ao som de Metamorphosis de Philip Glass, referência musical passada pelo Paulo M. Morais, numa troca de ideias no FB. Agradeci-lhe, à data, a referência que me remeteu para a viagem bela que o álbum convoca. Tento, agora, agradecer este livro, se é que é possível, perante tamanha generosidade. Metamorfose foi, também, o que ele me propôs ao longo das 310 páginas de “Uma parte errada de mim”. (Sim, incluo a página de agradecimentos finais no conteúdo do volume.) Dizem que Valery afirmou: «um poema nunca está acabado, somente abandonado». Se desejo que, para o Paulo, este livro tenha sido o folhear derradeiro do capítulo «Cancro», também tenho certo que o mesmo é tratamento de choque para cada um dos leitores afortunados que a ele cheguem. Doentes do corpo, da alma, de ambos, ou inconscientes da própria morte, prematura, em vida. 

«Uma parte errada de mim» chegou-me no tempo certo. Atendi ao seu apelo, curiosa, um pouco apreensiva quanto ao que me esperava. Gostaria de o ler neste registo, seria capaz de o fazer, até ao fim? 

Acompanhei os oito ciclos de quimioterapia, magoada pelas descrições cruas, que não poupam à violência do diagnóstico, dos primeiros pensamentos, do duro trilho da quimioterapia a seguir, do pânico da perda maior. Foram inúmeros os momentos em que não contive as lágrimas no comboio e não me preocupei em disfarçá-las. Chorei de tristeza, de angústia, de alegria, de ternura, com medo. À medida que li o líquido alaranjado a entrar nas veias do Paulo, fazendo o seu percurso abrasivo, numa tentativa científica de dizimar as células erradas que o ameaçavam, fui sendo, eu que me julgava saudável, igualmente curada. Às vezes é um cancro o que nos mata silencioso, outras, uma pessoa que nos quer mal. 

A realidade é que, por muito negra que a situação se preveja, há sempre escapatória. Quanto mais não seja pela libertação dos pensamentos que nos empurram para o abismo, que nos tornam amorfos, que impelem à desistência. As palavras do Paulo iluminam a esperança que alguns trazem, amiúde e injustamente, adormecida. 

 Os exemplos dos seus conflitos interiores apaziguam. O despojamento com que se nos dá a conhecer na sua timidez, complexidade, solidão, tristeza, melancolia, frustrações, nos seus amores e desamores, encontros e desacertos, ele que sempre soube melhor como afastar as pessoas, na vez de trazê-las para perto (Sei porque no-lo confessa lá dentro.), tem, precisamente, o efeito de nos aproximar.
Reconheci-me nele, apesar de todas as diferenças que tenhamos. Coloquei-me no seu lugar e repeti, a seu lado, este passeio aterrador pelo bosque de um linfoma que ele acolheu como ao lobo desenhado num túnel, por onde passava, rumo ao hospital. Trajecto que quis percorrer, sempre que pôde, pelos próprios pés, contrariando o susto, o horror à morte, a vontade de baixar os braços que uma pessoa, diante de um inimigo, poderia adoptar resignada, acabando antes de dar luta.


(Também me demonstrou como o cancro pode ser encarado como parte integrante, passível de aceitação, em vez de ser o elemento hostil que se renega, alheio.) 

Enquanto caminhamos, vai-nos contando sobre todos os prazeres da sua vida, percebemos que desvalorizarmos o que já temos é o que nos perde, que ansiar sem freio, pelo que pode nunca chegar, mata mais do que células a multiplicarem-se desobedientes em nós. Livros para ler. Canções para escutar. Filmes para ver. Ensinamentos a interiorizar. Convívios com pessoas queridas. Reatar de ligações que, na verdade, nunca se quebraram. O amor que acaba. As amizades que esfriam. Deixar partir quem não nos pertence. O amor maior a quem nos criou. O amor a uma filha que se queria poupar ao sofrimento. Um amor que começa. Abraços. Afectos. Desejo. Sexo. Demonstrações de gratidão para com os que nos cruzam o destino, enriquecendo-o. Dando força. Desafiando. Há tanto na vida vivida simples. 

(Obrigada, Paulo, por mo relembrares.)

Gratidão imensa por me assegurares que os erros pertencem-nos tanto, quanto as coisas bem-feitas. As injustiças, o egoísmo, também nos compõem. Não há que ter vergonha, não há que omiti-los. Há que os acolher como à doença maligna, como partes que também somos. Quem nos amar que o faça por inteiro. Que nos aceite despidos de muralhas fingidoras. 

 Este livro não é literatura, é a vida em si. Ainda bem que ele o escreveu. Tal como o próprio admite e eu subscrevo, não há uma sem a outra.

Escritor altruísta, pura expectativa de ajudar. Podia ter escrito outro que o levasse mais longe, que lhe rendesse mais elogios, maior visibilidade no meio literário, vendas mais proveitosas. 

Escolheu escrever este. Optou por dar tempo precioso (ele que conhece, melhor do que muitos, o seu valor) a passar o testemunho, a falar a quem possa precisar dele. Dádiva. Coragem. Conheço raras pessoas capazes de se mostrarem, sem roupagem, desta maneira. 

Eis um homem com tudo o que um homem pode ser, a escrever as suas partes erradas para que nós, leitores, possamos atalhar o nosso caminho na procura das certas. 

Obrigada, Paulo, por este livro cheio de Vida e de Amor.


És enorme.

(Que esteja para breve o nosso abraço.)

Uma tua leitora.

Para sempre.


Nota final: Quem mo vendeu? O Joaquim Gonçalves das A-das-Artes, pois claro. Sem portes de envio (em Pt). De Sines, para Carcavelos e para o mundo!




terça-feira, 24 de janeiro de 2017

fotografar palavras: # 409 - Foto: Maria João Alves

fotografar palavras: # 409: "É-te mais fácil o uso do meu corpo se eu não tiver um rosto, olhos que interroguem?" Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Maria João Alves

fotografar palavras: # 397 - Foto: Teresa Marques dos Santos

fotografar palavras: # 397: "Era-me inconcebível encaixar qualquer mágoa nas recordações de ternura." Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Teresa Marques dos Santos

fotografar palavras: # 397 - Foto: Teresa Marques dos Santos

fotografar palavras: # 397: "Era-me inconcebível encaixar qualquer mágoa nas recordações de ternura." Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Teresa Marques dos Santos

fotografar palavras: # 395 - Foto de Cláudia Andrade

fotografar palavras: # 395: "O seu único talento: descortinar as subtilezas da vida." Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Cláudia Andrade

fotografar palavras: # 391 - Foto de Bruno Mourinha

fotografar palavras: # 391: "Todos os dias lhe ensinou: «A vida é não desistir.»" Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Bruno Mourinha

fotografar palavras: # 379 - Foto de Sónia Silva

fotografar palavras: # 379: "«Só.» Quanto peso numa palavra tão pequena." Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Sónia Silva

fotografar palavras: # 373 - Foto de Mónica Brandão

fotografar palavras: # 373: "Morri sem que o meu corpo me acompanhasse." Texto: Andreia Azevedo Moreira Foto: Mónica Brandão

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

USURPAÇÃO DE IDENTIDADE

Alguém fez um livro em meu nome. Desconheço o conteúdo. Tem a minha imagem na capa e o meu nome. No depósito legal está registado com o nome com que assino os meus contos e que é o único que tenho: Andreia Azevedo Moreira. 

Quem me conhece saberá que não faria uma coisa de tão mau gosto. Apresentarei queixa, pois. Que ninguém vá ao engano. Quero ser lida em papel, sim, mas eu decido os termos em que tal acontece. 

Isto que alguém fez é crime. São vários crimes, aliás.

Sinto piedade desse coração deturpado.