quarta-feira, 12 de junho de 2019

A IMORTAL DA GRAÇA - FILIPE HOMEM FONSECA



Narrar a miséria humana com muita graça. Não é para todos. Fazer-nos sorrir com a decadência é para a escrita ímpar do Filipe Homem Fonseca. Às primeiras páginas estranhei-a. Havia ali uma respiração que não era a minha. Uma vez apreendida a melodia daqueles escombros fiquei irremediavelmente aprisionada com os moradores-reféns do Bairro enganador. Um lugar moribundo a pulsar vida mesmo em mulheres centenárias, até num bolo-de-pastelaria-emoção, ainda no estertor. Velhas que lutam por subir numa hierarquia tácita que a ninguém importa, suicídios adiados, acasos macabros, humilhações, desistências, edifício que se enterra na calçada, sopros de ânimo, obsessões, embirrações, mais desistência, egoísmos, arrogâncias, gestos solidários, aspirações rasteiras, sumidades forasteiras que pairam descomprometidas sobre o desastre alheio. Comunidade feita dos estilhaços da tribo que a habita e dos turistas intrusos, únicos entes que conhecem, a par das crianças, o modo de abandonarem o cenário de guerra urbana. A pessoa lê este livro com as obras ininterruptas e infindáveis a martelarem nas têmporas. As imagens surgem nítidas, cinematográficas. A humanidade radiografada, exposta, como a mais trágica das fracturas, ao ritmo de uma imaginação fulgurante dizendo o que somos. E, apesar do desespero, a fazer-nos rir das próprias tragédias (as pequeninas quotidianas e as irremediáveis) por interpostas personagens. Destaco-as (gente viva), bem como à quantidade de frases magníficas que sublinhei (sim, sou dessas) e à mestria com que a trama foi urdida. Admirava o argumentista, cronista, formador, autor de comédia. Admiro daqui para a frente o romancista, depois deste grande livro, o qual recomendo tão vívida quanto foi a leitura. Um bairro do qual nunca saímos pode ser o mundo inteiro.


Parabéns, Filipe e obrigada!

(Soa-me a futuro, sim.)

«Há uma grande aventura pela frente e chama-se segurança. É perigosa, conspira contra a vida.»

(Filipe Homem Fonseca em A Imortal da Graça, 1ª Edição na Quetzal: Fevereiro de 2019, Página 30).

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