Narrar a miséria humana com muita
graça. Não é para todos. Fazer-nos sorrir com a decadência é para a escrita
ímpar do Filipe Homem Fonseca. Às primeiras páginas estranhei-a. Havia ali uma
respiração que não era a minha. Uma vez apreendida a melodia daqueles escombros
fiquei irremediavelmente aprisionada com os moradores-reféns do Bairro
enganador. Um lugar moribundo a pulsar vida mesmo em mulheres centenárias, até num
bolo-de-pastelaria-emoção, ainda no estertor. Velhas que lutam por subir numa
hierarquia tácita que a ninguém importa, suicídios adiados, acasos macabros,
humilhações, desistências, edifício que se enterra na calçada, sopros de ânimo,
obsessões, embirrações, mais desistência, egoísmos, arrogâncias, gestos solidários,
aspirações rasteiras, sumidades forasteiras que pairam descomprometidas sobre o
desastre alheio. Comunidade feita dos estilhaços da tribo que a habita e dos turistas
intrusos, únicos entes que conhecem, a par das crianças, o modo de abandonarem o
cenário de guerra urbana. A pessoa lê este livro com as obras ininterruptas e infindáveis
a martelarem nas têmporas. As imagens surgem nítidas, cinematográficas. A
humanidade radiografada, exposta, como a mais trágica das fracturas, ao ritmo
de uma imaginação fulgurante dizendo o que somos. E, apesar do desespero, a
fazer-nos rir das próprias tragédias (as pequeninas quotidianas e as
irremediáveis) por interpostas personagens. Destaco-as (gente viva), bem como à
quantidade de frases magníficas que sublinhei (sim, sou dessas) e à mestria com
que a trama foi urdida. Admirava o argumentista, cronista, formador, autor de
comédia. Admiro daqui para a frente o romancista, depois deste grande livro, o qual
recomendo tão vívida quanto foi a leitura. Um bairro do qual nunca saímos pode
ser o mundo inteiro.
Parabéns, Filipe e obrigada!
(Soa-me a futuro, sim.)
«Há uma grande aventura pela
frente e chama-se segurança. É perigosa, conspira contra a vida.»
(Filipe Homem Fonseca em A
Imortal da Graça, 1ª Edição na Quetzal: Fevereiro de 2019, Página 30).

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