Ontem, fim do dia, fui à Feira do Livro. Soube tão bem subir e descer aquelas ladeiras verdes, agora com outras matizes, sentir o silêncio dos livros expectantes pelos leitores porvir.
Entrei de mãos vazias e assim saí convicta de ter tido a dose de literatura do dia, depois de um lanche programado com uma mulher-coragem feita amiga e de um acaso generoso me ter juntado a um mano (eh eh).
Apanhei o metro, segui para o comboio onde nem sempre sou capaz, no regresso, de continuar a leitura da manhã. O sono insidioso e um livro pousado paciente enquanto cabeceio o cansaço. (Ui tanto som parecido nesta frase.) Eis que tento e abro, no Cais-do-Sodré, o livro que me tem acompanhado. Leio uma frase, depois outra e antes que o embalo me dominasse já uma senhora dera o seu lugar para que uma família de quatro barulhenta e colorida coubesse em três. (Felizmente não me deu para dar também o meu, direi porquê:) Depois dos agradecimentos instalaram-se invadindo o meu espaço sem que eu, inexplicavelmente, me sentisse desconfortável, embora o tenha notado. O pai deitava-se para cima de mim tentando aliviar o filho de cinco anos da roupa excedentária. Soprava ternura para as costas do menino para amenizar o calor acumulado. A filha de saia às riscas com o Mickey (ou seria a Minnie?) era uma menina com dois anos ou três, muito pequenina, toda vivacidade. Um metro de pessoa com olhos arrasadores e sorriso contagiante entabulou conversa comigo. Primeiro com o olhar maroto e inquiridor, então com risos e pantomima, aos quais desajeitada correspondi. Quem resiste à alegria?
Encostou-se a mim. Apoderou-se do livro. Abria e fechava páginas ao calhar e com o dedito percorria as linhas, dizia "a, b, d" num inglês que poucas vezes pude compreender. Espantava-se com os sublinhados e riu gargalhadas ao descobrir os marcadores, como se acabasse de ver um mágico a sacar um coelho da cartola. Virou e revirou o volume à exaustão, sentiu-lhe o peso. Brinquei com ela. Folheei o livro demonstrando a cascata de folhas. O desenho da capa, as badanas.
Disse: A man!
Retorqui: A old lady.
Disse: Bird.
Confirmei: Two black crows.
Perguntou por sons o que eram as três palavras: Filipe Homem Fonseca.
The man who wrote this book.
Olhou para o rosto num dos marcadores. Quis saber se era aquele. Não era.
It's another writer. Wrote other books.
Nos momentos em que ficava mais possessiva com o volume a mãe afligia-se. Pedia-lhe que mo devolvesse. A cada «That's ok» meu mostrava-se grata com o seu sorriso belíssimo.
No meu preconceito Ocidental questionei-me se aquela menina, algum dia, poderia seguir esta tão grande vontade já começada.
O menino dissera: I can't read.
You will. Respondi.
E a expressão dele fez-me lembrar a de um rapaz Cubano que nos disse nunca ter visto neve e a quem terei dito «Maybe someday you can»
O menino metia-se comigo mais por ciúme do que por padecer do mesmo interesse devorador da irmã.
Tentei oferecer-lhes os marcadores. Não aceitaram. Devolveram-nos ao mistério das páginas há pouco manuseadas, entre risos despedida. A menina sorriu com o rosto todo o adeus. O menino voltou atrás e deu-me um abraço desarmante que me encheu de fé na humanidade.
Sinto-me mesquinha por não lhes ter oferecido A imortal da Graça. Vou na página 208, o livro todo feito a mim, cantos dobrados, frases sublinhadas, já parte da vida. Seria como perder uma vivência na memória. Não fui capaz do desapego e lamento.
Espero que aqueles pais amorosos os deixem ler futuramente o que quiserem com o mesmo instinto protector a que assisti.
Por mais distantes que sejam as culturas, os credos, as experiências, há linguagens universais como o amor aos livros e o afecto.
Obrigada à Vida por me estarem sempre a acontecer coincidências maravilhosas.
Em 05-06-2019.
Em 05-06-2019.
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