terça-feira, 31 de março de 2026

31 de Março







Só de pegar, de novo, neste livro os meus olhos encheram-se de lágrimas. O meu corpo ainda não esqueceu o que fizeram às personagens avassaladoras. Às pessoas reais que as mesmas representam. Às suas almas, aos seus corpos. Às suas vidas. O que os hipócritas-controladores-impositores da/s norma/s lhes desejam - a aniquilação - por não serem eles próprios bravos o bastante (ou nada sequer) para se dedicarem a ser, simplesmente, quem quiserem, o que sentirem ou forem, intimamente, deixando em paz quem só almeja existir na própria pele. 
O que a comunidade trans me ensina, de modo visceral, é que sermos quem viemos ser, inteiros, nos pode custar a vida, ou ferir gravemente a integridade. A esta comunidade de pessoas muito mais, porque dão nas vistas, porque não pedem desculpa por terem coragem, porque não se vergam ao que parte do mundo lhes exige: invisibilidade. Camila Sosa Villada é uma grande escritora e escreveu um livro que direi, como de tantos outros, felizmente, da minha vida. Relata com crueza as tragédias, absolutamente pacificada com o que as coisas são. Mas também com um realismo mágico apaixonante. A escritora não odeia, apesar do que lhe fizeram e as personagens magníficas que escreveu também não. 

Dentro deste pequeno volume cabemos todos e não apenas a comunidade de que fala: marginalizada, maltratada, excluída. Maldita. 

Esta é uma história da crueldade do ser humano, da sua pulsão para controlar a liberdade alheia, da frustração que leva um ser a querer destruir um seu par, sem outra razão que não seja um ódio irracional, fruto talvez de uma inveja inominável, nascido talvez de desejos inconfessáveis. 

É, sobretudo, uma história de ternura, de amor ao próximo e de sororidade. Neste livro ganham a esperança, a beleza e a elevação de que o Humano é capaz, ainda que ao mesmo tempo sejamos agredidos com o horror.

O meu corpo ainda não esqueceu o que li por dentro destas páginas e os olhos encheram-se de lágrimas, de novo, ao pegar-lhe, porque quem precisava de o ler, não o leu e ainda que o lesse talvez nem se esforçasse por um vislumbre de entendimento, de aceitação, como não se esforça, de facto. 

Falta a muita gente, dentro do peito, além de um músculo vivo (na vez do gelo da indiferença e da insensibilidade) a empatia, essa palavra tão gasta de tanto desesperarmos que ela prospere.       

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