Como caminhamos pelos dias, conhecedores do facto de sermos mortais?
Como caminharíamos pelos dias se uma
doença nos impusesse um prazo (aparentemente) mais curto?
(Ninguém sabe, na verdade, quando
partirá desta para a incógnita, com ou sem doença.)
Cada um de nós, se não andar
distraído, tem a perfeita noção de como anda a gastar o tempo, essa riqueza
maior.
A narradora deste livro é
implacável a obrigar-nos a encarar o que andamos a fazer. Nós, pessoalmente, na
vidinha, nós parte de uma humanidade adoecida.
No seu flagelo particular, ao
longo do ciclo de tratamentos, durante o qual escolhe, consciente, a solidão e
o silêncio, puxou-me pelo cabelo, pelo cachaço, até, e firme (fazendo doer, um
pouco bruta) foi-me empurrando para que eu visse com ela o que há, universal, o que somos,
aquilo que fazemos: hoje. Há milénios.
Escreve o que dói, o que tem
graça, o que devasta e o que dá esperança, enfim, o que nos compõe e
desconcerta a existência. Escreve o amor que somos e o que nos falta.
Atenta, corrosiva, cheia de
sentido de humor, irónica, sedenta de conhecer, de aprender, de aproveitar
todas as possibilidades que a vida a que tivemos direito nos oferece. Doente,
não morta. Cansada, não sem vontade. Desiludida, não descrente. Entre a devastação
e a esperança caminha indomável, pelo pântano da doença que parece capaz de engoli-la
sem, no entanto, tolhê-la, concretamente.
A Marta Pais Oliveira é uma
escritora prodigiosa. O jogo entre a primeira e a terceira pessoa entre as quais
a personagem balança é brilhante. A multiplicidade de propostas encadeadas na narrativa encantam, espicaçam, provocam. Tantos detalhes que me fizeram pensar. Quanto
pensamento encerra a escrita da Marta. Quantas reflexões muito bem urdidas.
Cantos dobrados. Frases
sublinhadas. Um livro maior.
À página 53 a narradora diz: odeio histórias mal contadas.
Esta está tão bem contada que uma pessoa se curva humilde.
Há livros que tomo como manuais de sobrevivência. São para
reler e para ficar na estante dos incontornáveis.
Este é um desses. Recomendo a sua leitura de ora em vez,
como quem faz um check-up ao íntimo, às entranhas, aos passos que
escolhe dar neste planeta.
Adoro ler escritores admiráveis que se revelam pessoas de coração compassivo.
Assim te encaro e também por isso te admiro.
Parabéns, querida Marta!

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