O que me fez estranhá-lo o tempo todo, foi o mesmo que, agora, me faz perceber que aprendi a amá-lo enquanto assistia, serenamente, do início ao fim. O meu filho perguntou-me antes de se deitar: porque é que só vês filmes tristes e sérios? Porque é que não vês comédias? (Também vejo, mas a percepção dele é esta e entendo que seja.) Respondi-lhe, depois de pausar o filme: não é triste. Não é um filme triste. (Não deitei uma lágrima. E se eu sou uma fonte inesgotável das ditas) Aí está: é antes de uma subtileza desarmante, a qual só descortinei depois de deixar subir a ficha técnica e ter dormido uma noite de sono, mais ou menos tranquilo, na medida em que é a enésima vez em que o meu pai morto volta à vida nos meus sonhos. Na fantasia que criei acerca do filme, seria sobre desespero ou desesperança e, afinal, para mim não foi. Mostrou-me alguém que perante a iminência da extinção, não se desconstrói nem implode a repensar tudo o que podia ter feito de outro modo. Aceita o que teve, o que fez, do que foi capaz, com uma tranquilidade desarmante. É o que se sente: a serenidade nas últimas horas daquela mulher de rosto indecifrável.
Encarar a morte sem drama, sem espalhafato, na posse da autodeterminação que lhe cabe e decidir que já está bom, que está nas suas mãos a dignidade com que escolhe acabar e, mais importante, que até ao último minuto se pode aproveitar o que há: o canto dos pássaros, os flocos de neve que caem coloridos e breves emanando beleza e poesia, um dia de sol que atravessa uma casa na floresta; apesar da dor física, psicológica e de não haver esperança de se poder continuar viva. A força de uma amizade também me falou por dentro intensamente. A abnegação de uma amiga que não via a outra há imenso tempo e que se lhe entregou com uma generosidade arrebatadora aprendendo, pelo seu exemplo, a não temer a morte.
Amo as duas actrizes e a arte de Almodóvar.
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