quarta-feira, 3 de julho de 2019

Filho da Mãe - Hugo Gonçalves - Companhia das Letras


Dificuldade em falar desta leitura. Pessoal e intransmissível o que cada um sentirá. O que dali salta para o peito leitor, apoderando-se, invadindo de doçura e tristeza em medidas complementares. Li-o chorando incontida página sim, página não, inábil para acumular toda a angústia na garganta. Deixando-a fluir livremente. Este escritor permite-nos acompanhá-lo na procura pela sua identidade no seu passado espezinhado pela dor mais funda, a perda da mãe, indizível, silenciada sob camadas de terror, saudade, impotência e anos de fuga ao confronto com uma realidade incomplacente. Uma conversa connosco sobre as despedidas que não se fazem por serem impossíveis. Há liberdade imensurável no despojamento com que é contada a própria história e dos seus, generosidade desmedida com a partilha das múltiplas descobertas, revelações, revoluções interiores, das ficções familiares que permitiram a cada membro da tribo sobreviver, apesar da morte. Acabou para a Rosa Maria há muitos anos, mas não se extinguiu a Rosa Maria, tão-pouco a marca da sua passagem por este mundo. Continuará. Eterna. Primeiro, até que a última pessoa que a ama tenha partido, depois, enquanto houver um exemplar deste livro para ser lido. Então fazendo parte de um amor universal, legado da Humanidade. Para comover intimamente basta haver verdade.

Obrigada, Hugo Gonçalves. 

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