Já fui rápida a condenar. Tempos houve em que analisava as situações à luz da minha enorme ignorância e realidade pouco vivida. Se há uma capacidade maravilhosa de que os livros e a literatura me dotaram é a de aprender a descalçar-me e a meter os pés nus, desarmados, nos sapatos dos outros. Quando nascemos no privilégio, há uma incapacidade inata de ver para além do próprio umbigo. A tentativa de alcançarmos o outro, quem quer que seja, com compaixão, é um dever de cada indivíduo que pretenda ser animal racional, que almeje ser humano. Há projectos para os quais escrevo que são mais especiais do que outros. São, principalmente, aqueles em que escrevo para lá de mim, da cura que busco, das dores que exorcizo em meu proveito. São aqueles em que quem me inspira é o mais importante. É o caso de «O exterior do interior» onde, graças ao @paulo.kellerman (Claro! Quem mais?) pude aceder a 33 pontos de vista de 33 jovens reclusos sobre os espaços exteriores da prisão que temporariamente habitaram. Estive ao lado deles (Um dos poderes mágicos da arte: unir pessoas de espaços e tempos diferentes, conseguindo que se sintam, vejam, cheguem a um entendimento, sem nunca se chegarem a encontrar olhos-nos-olhos), de máquina fotográfica nas mãos, vendo através dos seus olhos a beleza que havia em tudo quanto os rodeava: nos objectos, na aridez, nas pedras, na vida mesmo se vai torta, porque a havia no olhar de quem viu o que me foi mostrado nos instantâneos que estão no livro. Encontrei motivos para escrever as 33 fotografias e quis abarcá-las, a todas. Talvez tenha falhado como escritora (menos é mais, menos é mais, menos é mais!) na canção imperfeita para batidas interiores que escrevi, mas não deixo de me alegrar por tê-la feito desequilibrada, sem métrica, como somos e estamos em tantos momentos do caminho. Foi composta de palavras comovidas, notas de melodias universais, de quem já percebeu há algum tempo, graças às histórias que leu em centenas de livros e aos anos de construção que leva no lombo, que toda a gente merece ser vista, uma segunda oportunidade (ou mais), receber atenção e amor. Obrigada, por esta experiência avassaladora, a todos os envolvidos. Cheguei a casa num misto de devastação e (ainda mais) esperança. 13 de Maio de 2026.






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